Mensagem do Papa para Quaresma 2017

Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa da Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.

1. O outro é um dom

A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.

A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anônima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a de uma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza conosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário levar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.

2. O pecado cega-nos

A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).

O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.

Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efêmera da existência (cf. ibid., 62).

O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.

Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24).

3. A Palavra é um dom

O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De fato, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele» (1 Tm 6, 7).

Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.

Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.

Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De fato o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os ouçam» (v. 29). E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).

Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.

Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.

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Quaresma: Tempo de Jejuar

jejum e abstinencia

Uma das práticas quaresmais marcantes é a penitência, sobretudo no comer e no beber. Tal penitência pode consistir numa simples abstinência, que é renúncia a algum alimento, ou pode chegar ao jejum, que consiste no privar-se das refeições de modo total ou parcial. É muito importante a prática de tal forma de penitência. Aliás, eram o jejum e a abstinência que, na Igreja Antiga, davam uma fisionomia própria ao tempo quaresmal.

Mas, por que jejuar? Por que se abster de alimentos? É necessário compreender o sentido profundo que o cristianismo dá a essas práticas para não ficarmos numa atitude superficial, às vezes até folclórica, ou por ignorância pura e simples, desprezarmos algo tão belo e precioso no caminho espiritual do cristão.

O jejum nos ensina que somos radicalmente dependentes de Deus. Na tradição judaica, na Escritura, a palavra nephesh significa, ao mesmo tempo, vida e garganta. A ideia que isso exprime é que nossa vida não vem de nós mesmos, não a damos a nós próprios; nós a recebemos continuamente: ela entra pela nossa garganta com o alimento que comemos, a água que bebemos, o ar que respiramos. Jamais o homem pode pensar que se basta a si mesmo, que pode se fechar para Deus. Quando jejuamos, sentimos certa fraqueza e lerdeza, às vezes nos vem mesmo um pouco de tontura. Isso faz parte da “psicologia do jejum”: recorda-nos o que somos sem esta vida que vem de fora, que nos é dada por Deus continuamente.

A prática do jejum impede-nos, então, da ilusão de pensar que a nossa existência, uma vez recebida, é autônoma, fechada, independente. Nunca poderemos dizer: “A vida é minha; faço como eu quero”! A vida será, sempre e em todas as suas etapas, um dom de Deus, um presente gratuito, e nós seremos sempre dependentes Dele. Esta dependência nos amadurece, nos liberta de nossos estreitos e mesquinhos horizontes, nos livra da autossuficiência e nos faz compreender “na carne” nossa própria verdade, recordando-nos que a vida é para ser vivida em diálogo de amor com Aquele que no-la deu.

O alimento é uma de nossas necessidades básicas, um de nossos instintos mais fundamentais, juntamente com a sexualidade. A abstenção do alimento nos exercita na disciplina, fortalecendo nossa força de vontade, aguçando nossa capacidade de vigilância, dando-nos a capacidade para uma verdadeira disciplina. Nossa tendência é ir atrás de nossos instintos, de nossas tendências, de nossa vontade desequilibrada. Aliás, essa é a grande fraqueza e o grande engano do mundo atual. Dizemos: “não vou me reprimir; não vou me frustrar”, e vamos nos escravizando aos desejos mais banais e às paixões mais contrárias ao Evangelho e ao amor pelo próximo.

O próprio Jesus, de modo particular, e a Escritura, de modo geral, nos exortam à vigilância e à sobriedade. O jejum e a abstinência, portanto, são um treino para que sejamos senhores de nós mesmos, de nossas paixões, desejos e vontades. Assim, seremos realmente livres para Cristo, sendo livres para realizar aquilo que é reto e desejável aos olhos de Deus! Jesus mesmo afirmou que quem comete pecado é escravo do pecado. É muito importante exercitar-se com a abstinência. Não basta malhar o corpo; é preciso malhar o coração!

O jejum tem também a função de nos unir a Cristo no seu período de quarenta dias no deserto. Quaresma de Cristo, quaresma do cristão. Faz-nos, assim, participantes da paixão do Senhor, completando em nós o que faltou à cruz de Jesus. O cristão jejua por amor a Cristo e para unir-se a Ele, trazendo na sua carne as marcas da cruz do Senhor. É uma união com o Senhor que não envolve somente a alma, com seus sentimentos e afetos, mas também o corpo. É o homem todo, a pessoa na sua totalidade que se une ao Cristo. Nunca é demais recordar que a vida cristã atinge o homem em sua totalidade. Pelo jejum, também o corpo reza, também o corpo luta para colocar-se no âmbito da vida nova de Cristo Jesus. Também o corpo necessita, como o coração, ser esvaziado do vinagre dos vícios para ser preenchido pelo mel, que é o Espírito Santo de Jesus.

Portanto, o jejum e a abstinência fazem-nos recordar aqueles que passam privações, sobretudo a fome, abrindo-nos para os irmãos necessitados. Há tantos que, à força, pela gritante injustiça social em nosso País, jejuam e se abstêm todos os dias, o ano todo! O jejum nos faz sentir um pouco a sua dor, tão concreta, tão real, tão dolorosa! Por isso mesmo, na tradição mística e ascética da Igreja, o jejum e a abstinência devem ser acompanhados sempre pela esmola: aquele alimento do qual me privo já não é mais meu, mas deve ser destinado ao pobre. Eis o jejum perfeito: ele me abre para Deus e para os irmãos. Nesse sentido, é enorme a insistência seja da Sagrada Escritura, seja dos Padres da Igreja (os santos doutores dos primeiros séculos do cristianismo).

Temos necessidade de ser mais assíduos à prática do jejum e da abstinência. Resta-nos passar da teoria à prática. Seja nossa quaresma uma oportunidade para o jejum e abstinência, engrandecida com o bem da caridade fraterna, da esmola que se efetiva na atenção e preocupação ativa e concreta pelos pobres de todas as pobrezas.

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

(Fonte)

Quaresma

Quaresma

A palavra “Quaresma” provém do latim “Quadragesima” e significa “quarenta dias”; é o período de preparação para a Páscoa do Senhor, cuja duração é de 40 dias.

Inicia-se na ‘Quarta-feira de Cinzas’ e se estende agora até a ‘Quinta-feira Santa’ na missa do lava pés, como determinou o Papa Paulo VI na Carta Apostólica aprovando as Normas Universais do Ano Litúrgico; e o novo Calendário Romano geral, n. 28 diz: “O tempo da Quaresma vai de Quarta-feira de Cinzas até a Missa na Ceia do Senhor (Quinta-feira santa, à tarde), exclusive”. E também a Paschalis Solemnitatis da CCD de 1988, que diz: “O tempo quaresmal continua até à Quinta-feira Santa. A partir da missa vespertina “in Cena Domini” inicia-se o Tríduo Pascal, que abrange a Sexta-feira Santa “da paixão do Senhor” e o Sábado Santo, e tem o seu centro na Vigília Pascal, concluindo-se com as vésperas do Domingo da Ressurreição”.

A Quaresma foi inspirada no período de tentação de Jesus Cristo no deserto, bem como os exemplos de Noé, em 40 dias na Arca, e Moisés, vagando por 40 anos no deserto do Sinai.

Professor Felipe Aquino

(Fonte)

Jesus quer fazer milagres na sua vida

(Mons Jonas Abib)

Meus irmãos, é preciso que os acontecimentos difíceis da nossa vida não anulem a nossa fé.

Graças a Deus, Jesus veio em auxílio da fé de Seus apóstolos. O Senhor apareceu para eles, e eles pensaram que estavam vendo fantasma. Quantas pessoas estão vendo assombração em vez de ver Jesus nas situações! Por causa dos problemas, nossa fé está sendo anulada. “Não estou sabendo anular os meus problemas. Senhor, cure as raízes da minha fé. Que a Sua luz ilumine os meus passos”.

Jesus lhe diz hoje: “Eu não pulo para fora dos seus problemas, não. Por causa deles, eu estou mais presente ainda”.

Jesus e Tomé“Por que estais preocupados, e por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. (cf. Lucas 24,38-39)

É este trato que Jesus quer nos dar. Se você precisa de prodígios e milagres para tocar em Jesus, Ele está disposto a dá-los a você. Mas quanta gente já viu milagres do Senhor em si, na sua família, mas não acredita neles.

O Senhor vem em nosso auxílio e dá um trato na nossa fé, como fez com os apóstolos.

(Fonte)

Da Luta contra o Pecado à Plenitude do Amor: a Cruz que traz em si a certeza da Ressurreição

(Vandeia Ramos)

Início da quaresma, ano da Caridade, Campanha da Fraternidade, início da via sacra… Como o cristão vive a plenitude de seu batismo hoje?

Iniciamos um caminho que sabemos o fim: a Páscoa do Senhor. É o momento que a Igreja nos oferece de graças especiais para nossa santificação, para nos tornarmos dignos de participarmos do Banquete do Cordeiro. É quando nos prontificamos a passar do “amai o próximo como a ti mesmo” (Mc 12, 31) ao “amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado” (Jo 15,12), plenitude do amor do homem a Deus, tornando-se um com Ele (Gl 2, 20). É o deixar de ser multidão para se tornar apóstolo. É o coração de Jesus transpassado pela lança que nos convida a tornar o dom da fé recebido no batismo em sustento de amor perante a cruz. É estar tão pleno de amor que a dor de Jesus passa a ser nossa dor. É viver entre a Paixão e a Compaixão. É viver o Céu na terra. O Reino entre nós. A Plenitude do Amor.

nossa senhora aos pés da cruzEntão convido você a pensar em duas pessoas que sustentaram a dor de amar a Jesus até o final: Maria e João. Maria, uma jovem mãe que deu-se toda ao Filho. João, jovem, que sem medo dos soldados, da multidão enfurecida, enfrentou seus medos para acompanhar Maria até a cruz.

Os exercícios quaresmais são conhecidos: oração, jejum e penitência. A meditação: “Arrependei-vos e crede no Evangelho”. E a gente começa a lutar contra nós, contra nossos pecados, principalmente os de estimação, para conseguirmos crer. Não crer como algo intelectual, indiferente. Mas crer no viver, no assumir ser Cristo em nossas famílias, trabalho, escola, mundo… No assumir na própria carne, na própria vida, o amor por Jesus.

Voltemos a Maria e a João. Sabemos o quanto nos custa pisar em nossa humanidade para assumirmos nossa filiação divina. Então farei uma proposta ousada: deixemos que o amor de Maria pelo Filho e a pureza de João tome nosso coração de tal forma que não deixe espaço para o pecado. Sejamos João que leva Maria para a cruz e para casa. Ofereçamos nossa penitência como sacrifício de amor a Jesus. E, como santa Terezinha nos ensina, quanto mais custar, mais mérito merecerá, oferecendo pela conversão dos pecadores (lembremos que estamos incluídos neste grupo) e/ ou pelas almas do purgatório (não há mérito maior do que oferecer a glória de Deus). E como fazer? Vamos a algumas sugestões de exercícios de amor, que vão nos transfigurando em Cristo. Lembro do quanto Lhe custou cada ato Seu por nós. Ofereçamos cada ato nosso a ele também.

Levar Maria para casa. Ser João, ser o filho amado para a Mãe. Olhe para sua mãe. Isso mesmo. Já rezou por ela hoje? Então dê uma parada na leitura e reze uma Ave Maria por ela. Lembre-se que você não a escolheu, mas ela lhe foi dada por Deus. E Ele sabe o porquê. Numa família, a função de cada membro é santificar o outro e a todos. Como você santifica sua mãe? Ou você quer ir para o céu sozinho? Já abraçou sua mãe hoje? Há quanto tempo você não lhe faz um elogio? Você consegue compreender o quanto ela abre mão de si mesma para ser sua mãe? Coloque-se no lugar dela e pense no quanto ela tem de enfrentar a si mesma por você. E se você sabe quem você é, do quanto é difícil se relacionar com você, você vai compreender o quanto é difícil para ela. O que você faz para “facilitar” a vida de sua mãe? Agora lembre que eu disse que quanto mais difícil, maior o mérito. Você está agindo na santificação de sua mãe, na preparação dela para a Páscoa do Senhor. Meta: olhar para sua mãe como Jesus olha para a Mãe. Você não é cristão, outro Cristo? Então precisa aprender a ver a face de Maria no rosto de sua mãe. Se você não ama sua mãe que vê, como vai amar Maria que não vê? Amar não é um sentimento superficial – vide a cruz. Amar é verbo. Ação. Jesus nos ensinou o amor através de Palavra e Ação. Cruz. Se vocês ainda não fazem, pense em alimentar um momento de oração em família. É a nossa Igreja doméstica. Nossa Senhora diz que pode proteger uma família que reza diariamente o terço. Comece com uma oração da hora da refeição. Peça para seus pais abençoarem você quando vai dormir. Vá devagar e sempre. Ser filho, como ser pai e mãe, é vivência de amor. Permanente. É vencer-se a si mesmo por um amor que é maior que você. Ninguém disse que seria fácil…

Ser João é também ir ao mundo. Com pureza e coragem. Na certeza de que o amor de Jesus o sustenta frente à multidão enfurecida, aos soldados romanos, à ausência dos amigos… João olha a Cruz pelos olhos de Maria. Pense nos jovens que não têm uma casa para voltar, uma família que o acolha, a liberdade e o conforto que você tem. Pare novamente e peça que neste momento Nossa Senhora, a Mãe de todos, possa estar cobrindo cada um deles com seu manto de amor e reze uma Ave Maria por eles. Peça que ela lhe dê um jovem que tenha sido traficado para que você possa rezar especialmente por ele (a) e também oferecer sacrifícios. Onde está? Em que condições? O que lhe falta? Quais são as suas necessidades? Seus desejos? Sonhos? O que você pode oferecer a Deus para que este jovem tenha? No que seu irmão que está preso em sua situação precisa? Será o seu sacrifício. O que você vai abrir mão de si para que ele receba. Sobretudo o que lhe for mais difícil. Também suas orações. Por ele, por quem o colocou nesta situação, por quem sustenta. Todos precisam de Deus. Não somente hoje, mas sempre, especialmente durante a quaresma. Olhe para seu irmão, seja em sua casa, caso você tenha, seja para alguém que precisa. Ofereça a ele o carinho, o abraço, uma palavra de afeto, o doce que você deixou de comer…  Seu irmão que foi traficado poderia estar recebendo também… Poderia ser você… E ofereça esta vontade de que ele também receba, pedindo que Nossa Senhora o conforte… Se for causa de deboche ou indiferença, lembre-se que Jesus deu tudo a todos e do que Ele recebeu. Verá que é tão pouco… quase nada o que temos para dar… Por que é tão difícil, então?… Peça que Jesus lhe permita olhar com Seus olhos… Agir com Suas mãos… Falar com Suas palavras… E sentirá uma alegria tão grande!… Saberá que Sua Presença é suficiente.

Não tenha medo! Jesus estará com você durante toda a quaresma. Ensinando, levando-te ao deserto, apresentando-te Jerusalém, a Galileia, as Bem-aventuranças, conduzindo você até sua cruz… Basta somente você segurar sua mão. E se achar que ficou pesada demais, olhe para Maria e para João. É por amor que conseguimos enfrentar nossas maiores dores e dificuldades. Por amor que superamos nossos pecados. Pois é por amor a você que Jesus viveu a cruz. Por amor a você, Maria Santíssima ficou de pé enquanto sofria junto ao Filho. Por amor a Jesus e a Maria, João amadureceu e se tornou um homem corajoso e forte. Você não está sozinho. O céu inteiro é com você! Estamos juntos neste caminho!

Qual é o ensinamento da Igreja em relação a jejuar e abster-se de carne?

(Padre Paulo Ricardo)

jejum e abstinencia

A abstinência e o jejum são formas de penitência interior. O Catecismo da Igreja Católica define penitência interior como sendo:

Uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e repugnância às mãs obras que cometemos. Ao mesmo tempo, é o desejo e a resolução de mudar de vida com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda de sua graça. Esta conversão do coração vem acompanhada de uma dor e de uma tristeza salutares chamadas pelos Padres de “animi cruciatus” (aflição do espírito, “compunctio cordis” (arrependimento do coração). (CIC 1431)

Por aí percebe-se a importância da penitência interior que, dentre suas várias formas, inclui as citadas. Para mensurar mais precisamente a sua relevância, o jejum e abstinência de carne são o tema do Quarto Mandamento da Lei da Igreja: “Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja” e, então, o que manda a Igreja? É o Código de Direito Canônico quem dá as orientações:

Cân. 1249 Todos os fiéis, cada qual a seu modo, estão obrigados por lei divina a fazer penitência; mas, para que todos estejam unidos mediante certa observância comum da penitência, são prescritos dias penitenciais, em que os fiéis se dediquem de modo especial à oração, façam obras de piedade e caridade, renunciem a si mesmos, cumprindo ainda mais fielmente as próprias obrigações e observando principalmente o jejum e a abstinência, de acordo com os cânones seguintes.

Cân. 1250 Os dias e tempos penitenciais, em toda a Igreja, são todas as sextas- feiras do ano e o tempo da quaresma.

Cân. 1251 Observe-se a abstinência de carne ou de outro alimento, segundo as prescrições da Conferência dos Bispos, em todas as sextas-feiras do ano, a não ser que coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades; observem-se a abstinência e o jejum na quarta-feira de Cinzas e na sexta-feira da paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Cân. 1252 Estão obrigados à lei da abstinência aqueles que tiverem completado catorze anos de idade; estão obrigados à lei do jejum todos os maiores de idade até os sessenta anos começados. Todavia, os pastores de almas e os pais cuidem que sejam formados para o genuíno sentido da penitência também os que não estão obrigados a lei do jejum e da abstinência, em razão da pouca idade.

Cân. 1253 A Conferência dos Bispos pode determinar mais exatamente a observância do jejum e da abstinência, como também substituí-la, totalmente ou em parte, por outras formas de penitência, principalmente por obras de caridade e exercícios de piedade.

Com referência ao cânon 1251, a CNBB afirma que o fiel católico brasileiro pode substituir a abstinência de carne por uma obra de caridade, um ato de piedade ou comutar a carne por um outro alimento.

O cânon é bem claro ao afirmar que todos são obrigados a jejuar, pois compreende a idade de 18 a 60 anos. Porém, desde os catorze anos os adolescentes já podem fazer algum tipo de abstinência.

Portanto, o quarto mandamento da Lei da Igreja está plenamente em vigor, a maioria dos católicos é obrigada a cumprir esse preceito, que não deve ser encarado como uma imposição, um sacrífico, mas sim, como meio de seguro de responder a apelo de Jesus à conversão do coração.

(Fonte)