Vem ver, Senhor

(Vandeia Ramos)


Desde sexta-feira, estamos com o Papa Francisco, entre a Praça São Pedro e o Santíssimo, reunidos com Nossa Senhora aos pés da Cruz. Nossos irmãos estão doentes e estamos chorando por eles, outros estão acompanhando, ainda outros estão cuidando para que as necessidades estejam sendo atendidas. E nós, Igreja, rezamos a Jesus: “Senhor, aqueles que amas estão doentes”.
Em nossa fé, Jesus nos lembra através das palavras de Francisco que não temos cuidado da Criação, que temos trocado nossas prioridades, que a morte não é a última palavra. Não é um vírus que leva a morte, mas somos nós mesmos que viramos as costas para o que é mais importante e nos destruímos através do pecado, não cuidando uns dos outros.
Jesus não nos abandona. Só quer o que é o melhor para cada um de nós: o Céu. E nem sempre é simples de entendermos isso, de aprendermos o caminho. Ele não nos força. É preciso que escolhamos com liberdade. Não basta Jesus querer nos abrir as portas da Eternidade, é preciso que nós a queiramos. E querer envolve vontade e liberdade, compromisso da vida com o Filho.
E os sacerdotes celebram nas igrejas. Nós participamos em nossas casas. Através da quaresma, Jesus vai nos ensinando que o Espírito nos leva para o deserto para que possamos ficar a sós com Deus e aprendermos a ouvir sua voz, a não discriminar, a deixar-nos guiar, a cuidar, a confiar. No momento oportuno, em que estivermos maduros o suficiente para o próximo momento, Ele nos convida a seguirmos.
Nós, como os discípulos, temos dificuldades em entender para onde Jesus nos guia e apresentamos nossa resistência de várias formas, mas o importante é que continuemos juntos, ainda que não entendamos.
Para os judeus, o corpo começa a se decompor depois de três dias, por isso que é importante Jesus só ter chegado depois. Ele sabia o que ia fazer. Ele sabe tudo. Sabe que muitas pessoas estariam presentes, pela importância da família envolvida. E eles foram escolhidos por serem amigos de Jesus. Quanto mais perto de Seu coração, maiores são os pedidos de Jesus. Podemos ver a prontidão das irmãs em ir ao encontro deste tão querido Amigo.
Além da questão entre saduceus, que defendiam o descanso eterno, e dos fariseus, na ressurreição no último dia, Jesus vem anunciar o Novo. As irmãs declaram sua fé em Deus a partir do que sabem, com toda a dor que sentem. E Jesus, através da dor de Marta e Maria, vê o que a morte trouxe ao mundo, pode vislumbrar a dor que trará à sua Mãe, a profundidade do sofrimento a que somos lançados. E (se) lança a luz. Nada está perdido. Há algo além. Podemos começar a ver através…
Jesus vem até nós, até onde não podemos ir. Mas há um movimento que cabe a nós, do querer. E não o fazemos sozinhos. Somos nós que tiramos a pedra dos que estão mortos, dos que estão doentes, dos que não têm forças suficientes, uns dos outros. E o Filho intercede ao Pai. E fala diretamente aos que mais precisam. Agora é a vez deles. Cabe a eles dizer o “sim”. Não pela força deles. Mas de deixarem que o Espírito aja. Eles estão atados pelas mãos e pés, não conseguem andar sozinhos. Também não temos condições de entramos no escuro do sepulcro para tirarmos eles de lá. Tem coisas que não nos cabe fazer. Só nos resta confiar e esperar.
E, depois de tirarmos a pedra, da intercessão de Jesus, do “sim” de quem estava morte, nossos irmãos retornam ao nosso convívio. Ainda precisam de nós para que possam ser limpos, roupas novas e sandálias aos pés, para restabelecer completamente a saúde do corpo e da alma.
Se o momento é de atenção, de deserto, em que estamos afastados de nossas atividades cotidianas, também é de recolhimento no Espírito para aproveitarmos e refazermos nossa vida em Cristo, quando estamos chamamos Jesus, juntos com Maria e Marta, para a Páscoa que se aproxima: “Vem ver, Senhor”.

Reflexão sobre o Evangelho

(Carlos Francisco Bonard)

“Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai. Há alguém que vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu” (Jo 5, 45-46).

No livro do Deuteronômio, encontra-se uma promessa que tem um significado decisivo para a compreensão da figura de Jesus: não é prometido um rei de Israel e do mundo, mas um novo Moisés.
Em Dt 18, 15, lemos “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir”.
Uma leitura isolada pode fazer parecer crer que se está instituindo o profetismo em Israel, mas o fim do livro, na sequencia da morte de Moisés, nos diz “Não se levantou mais em Israel profeta comparável a Moisés, com quem o Senhor conversava face a face”.
O decisivo na figura de Moisés não são suas ações maravilhosa, não são as obras e os sofrimentos desde casa da escravidão no Egito, através do deserto até as bordas da Terra Prometida. Decisivo é que ele tenha falado com Deus como um amigo, pois era daqui que vinham as suas obras, a lei e o ensinamento dado a Israel.
Por isso, o profetismo de Israel é único. O profeta de Israel não é um adivinho. Não é alguém que prediz o futuro. O verdadeiro profeta não esta aqui para revelar o acontecimento de amanhã, ou de depois de amanhã, para servir à curiosidade humana ou a humana necessidade de segurança (como aconteceu com Saul, que diante do silêncio de Deus as portas da batalha contra os filisteus, recorreu a vidente de Endor). O profeta está aqui para revelar o rosto de Deus, e, assim, nos mostrar o caminho a seguir: o autêntico “êxodo”, que é aquilo que sempre observamos ao fim de toda a quaresma. A fuga da escravidão do Egito é um sinal fugaz daquilo que nos espera no fim dos tempos “quando amanhecer o dia eterno, a plena visão”.

Em todos os caminhos da história, em todos os caminhos da nossa história, devemos procurar o caminho para Deus como autêntica direção.

Um profeta que “via” a Deus face a face…. as aspas se dá por que não era possível a Moisés contemplar a face de Deus, não era possível a Moisés ver a glória de Deus, mas apenas ter um vislumbre dela (Ex 33, 18-23). Em que pese a intimidade de falar com Deus como um amigo, existe um limite até para um profeta, até para Moisés. É permitido a intimidade da nuvem, mas não a visão da face de Deus.
Isso deveria ser guardado para o Novo Moisés. Ele receberia o que foi negado ao primeiro. Ele teria mais que um olhar “detrás”.

Esse novo profeta é Jesus, e o prólogo de São João nos aponta essa realidade quando diz “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou”. Ele não vive diante de Deus como amigo, mas como Filho, e assim vive na mais íntima unidade com o Pai.

Moisés era testemunha de Jesus por conta da sua intimidade com Deus. Isso que o Evangelho de hoje nos aponta também.

Podemos nós sermos testemunhas de Cristo se também tivermos essa intimidade. Os judeus a quem Jesus interroga (contextualizando, esse Evangelho de hoje é a continuação da cura do paralítico na beira da piscina de Betesda, quando os judeus perguntavam ao paralítico quem o curou. Reparem que o curado não sabia quem era Jesus) não compreendem de onde vem as palavras e o poder de Jesus. Os doutores do tempo de Jesus não conseguiam admitir essa intimidade de Filho.

Contudo nós podemos e devemos, mas para isso é necessário observar que em sua vida, Jesus se retirava ao monte para ter sua intimidade. Não era só por que Jesus era Deus de Deus que ele se retirava para, sozinho, ter intimidade.

Nessa quaresma, nesses tempos difíceis, mas que vão passar, caminhemos com Jesus para também termos essa intimidade, e, com ela, alcançarmos a redenção.

Fonte: livro Jesus de Nazaré (Bento XVI)

Catequista, adorador em espírito e verdade

(Vandeia Ramos)


Chegou Jesus a uma cidade do Brasil, a sua, em que tinha uma Igreja no centro, a partir da qual as casas foram construídas. E sentou-se na praça. Era em torno da hora do almoço e todos estavam cuidando de sua própria vida. Chegou uma jovem que foi comprar água, pois tinha acabado em casa e todos precisavam beber. Jesus a encontra e pede um pouco de sua garrafa, pois seus discípulos tinham ido providenciar um lanche e ainda não tinham voltado.
A jovem, com pouca roupa por causa do calor e em uma moda que muitos discutiriam, com marcas no corpo, desconfiou Daquele que lhe pedia. Estava tão acostumada a ser vista com desprezo que se fechava em si mesma. E questiona como que Aquele Homem poderia dirigir a palavra à ela.
Jesus lhes responde: se conhecesses o dom de Deus, não se preocuparia com a fala dos demais, pois somente Deus basta! E o sorriso iluminaria toda a sua pessoa, mesmo que não viesse ao seu rosto. A jovem responde: Senhor, não me conheces, à minha família, meus vizinhos ou mesmo as pessoas deste bairro, como podes saber o que é bom para nós?
Jesus lhes responde: quem se alimenta do Pão do Céu não terá mais fome nem medo, pois nada mais poderá abalar. Não são problemas com água ou com vírus, pois todos eles vão passar. Precisamos cuidar da criação, das pessoas, com a sabedoria que é dom de Deus, para que possamos viver melhor e cuidar do Jardim. É no cuidar e no guardar o que lhes foi dado que poderá passar pelas situações difíceis e mesmo limites.
A mulher disse a Jesus: Senhor, dai-me deste Pão, para que nem eu nem minha família soframos com a contaminação da água nem com a proliferação de vírus e outras doenças, e assim não precise me expor na rua para buscar água e comida.
Jesus lhes disse: vá buscar seus amigos. Ela respondeu: não tenho amigos, todos se foram quando começaram as dificuldades e precisei ficar em casa para cuidar das pessoas mais idosas da minha família. Jesus disse: disseste bem, não tens mais amigos; tiveste muitos, quando deixastes as pessoas mais importantes por diversão e falsas companhias, enfraquecendo sua pessoa, seu corpo, e deixando a todos em situações de espera. A jovem: Senhor, sabes tudo, deves ser um religioso, mas conheci muitos que não foram fiéis a Deus e ao que anunciavam.
Jesus: meu discípulo Paulo já anunciou que estou voltando, e estou aqui agora, para que cada um faça sua escolha fundamental pelo que realmente é importante em sua vida, em um passo definitivo para a eternidade. É preciso que sejas luz do mundo para que Meu Espírito brilhe com a Verdade. Não em notícias fakes ou indiferença com os que mais precisam. É preciso que tenhais responsabilidade e cuidado com os que estão à sua volta – neles terás minha Presença.
Os discípulos chegaram e perguntaram por que Jesus falava com aquela jovem, que parecia mais preocupada consigo mesma. A jovem, no caminho de casa, saiu falando para todos de sua conversa, e muitos saíram para ir ao Encontro de Jesus, buscando o Pão do Céu.
Jesus disse aos seus discípulos: é em momentos de crise que se pode conhecer meus amigos, os que fazem a vontade do Pai, que servem junto com os demais nas inúmeras necessidades, como atendendo os doentes em hospitais e em casa, ajudando com o alimento, informando na verdade, sendo esperança quando o desespero está à porta de tantos… Muitos acreditam porque uma jovem testemunha seu encontro com Jesus, como fazemos na catequese.
No entanto, em muitas cidades a catequese e os serviços pastorais estão sendo suspensos. Há um drama acontecendo e é preciso que estejamos atentos às orientações de nossos bispos e autoridades da saúde. É o momento pelo qual nos preparamos em nosso alimento semanal, no Pão que recebemos. A messe aguarda os operários para que sirvam de acordo com o momento pontual que estamos enfrentando.
É importante que sejamos testemunhas no mundo de que o Senhor está presente entre nós. Então, não fechemos nosso coração e ouçamos hoje a voz de Deus! Que Nossa Senhora traga a cada um de nós em seu Imaculado Coração, para que possamos fazer o que seu Filho nos disser!

No deserto, com Jesus, guiados no Espírito

(Vandeia Ramos)

A quaresma começa com mistério do amor de Deus por nós e a liberdade humana. Ele não nos quer uma simples cópia descartável, em que nos usa e somos úteis enquanto fazemos Sua vontade. Ao nos criar, Ele nos fez livres, deixando que nós mesmos pudéssemos abrir-nos conforme nossa vontade até mesmo rejeitá-lO.
Aqui temos um contraste entre a escolha dos primeiros seres humanos e Jesus. O homem e a mulher tinham tudo que precisavam: foram criados para guardar e cuidar do jardim, com todas as suas necessidades sendo supridas. No entanto, não foi o suficiente. Eles queriam mais. Deixaram que uma insatisfação crescesse e que tomasse o vulto de rompimento entre eles e com Deus.
Jesus vem e nos mostra outro lato de ter tudo: a família de Nazaré. A questão não é material, de ter acesso a bens e poder usufruir. Os maiores e mais importantes estão no jardim do coração, da vida interior, do que realmente é importante: a formação de um casal que se coloca sob a guia do amor, que enfrentaram dificuldades, sociais, econômicas, afetivas… Entre os judeus, o casamento é entre famílias, não entre pessoas. Ama-se porque é casado. A cultura ocidental defende que a gente casa porque ama. Tem outro caminho.
No entanto, a família permanece como centro da pessoa humana e célula da sociedade. Ela é nosso berço, guia e orientação quando temos problemas. O modo como os integrantes se auxiliam para enfrentar as dificuldades apresenta a força que move cada uma.
Maria e José são pais que direcionaram a vida em Deus, bem como o casamento. Se Ele os uniu, também vai cuidar. Entre os muitos desertos que encontraram, sabiam que o Espírito estava guiando.
Por isso que Jesus vai para o deserto guiado pelo Espírito Santo. Ele tinha os pais como modelo de vida, enfrentar dificuldades era comum em seu cotidiano, bem como o saber-se guiar pelo Pai. Uma família equilibrada e bem constituída nos torna pessoas fortes.
E como Ele nos ensina a enfrentar Satanás? Com a Palavra de Deus. Ele não ouve, não dialoga, como fez Adão e Eva. Ele ignora. Mas, quando utiliza vem a manipulação da Sagrada Escritura por interesses escusos, Jesus responde ordenando devidamente a Palavra.
Já vimos diversas situações como esta em nosso cotidiano, justificando atitudes imorais e ilegais tendo uma imagem distorcida de Deus pelos interesses de quem a faz. E podemos ver que este início de quaresma, com problemas de saúde e políticos que vão se agravando, as mídias sociais se tornam espaço de discussões da Palavra e da doutrina da Igreja. Conselhos eclesiais são lidos como mudança da doutrina; a higiene que tem caído em problemas sanitários e culturais, no evitar doenças, tem sido passada por apelos distorcidos; o espaço público virou lugar de conflito, causando confusão no povo de Deus.
A Iniciação Cristã está começando e, principalmente com os jovens e adultos, estas polêmicas podem vir à tona: em época de corona vírus, comunhão na mão ou na boca? Jesus não partilhou o cálice com os apóstolos? A Eucaristia não é Sacramento de Cura do Médico dos Médicos?
A Igreja é Mãe e se posiciona como tal: antes de comer, o que nossa mãe nos ensina? O que as Igrejas particulares têm orientado? Não é mudança de doutrina, é conselho pelas dificuldades que sabemos que muitos ministros têm com a comunhão na boca.
A questão é material, de receber ou não na mão / na boca, ou a Eucaristia é um alimento material, pão e vinho, transubstanciado, mas que preserva a cor e o cheiro e, portanto, sujeitos ao que isso significa? Onde afinal está nossa fé? Como ordená-la devidamente?
São Paulo nos traz esta questão: vivemos na Lei, em que o pode / não pode é central? Ou na Plenitude da Revelação, em que o Espírito (inclusive da Lei) da graça prevalece? E quem está com a autoridade de interpretá-lo?
Como catequistas, sabemos que precisamos de constante aprofundamento da fé, para que a mesma seja devidamente compreendida e sejamos melhores referências de Jesus. Então, nesta quaresma, deixemo-nos conduzir ao deserto pelo Espírito, mas com a atenção de que vamos encontrar o que divide. Sem medo, pois assim podemos identificar nossa fraqueza e, na Palavra guardada e cuidada da Igreja, nos fortalecer.
Purifiquemos nosso coração no deserto da vida para que sejamos fortes na Páscoa e podermos cantar juntos: “piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós”.

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2020

Boletim da Santa Sé

«Em nome de Cristo, suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus» (2 Cor 5, 20)

Queridos irmãos e irmãs!

O Senhor concede-nos, também neste ano, um tempo propício para nos prepararmos para celebrar, de coração renovado, o grande Mistério da morte e ressurreição de Jesus, perne da vida cristã pessoal e comunitária. Com a mente e o coração, devemos voltar continuamente a este Mistério. Com efeito, o mesmo não cessa de crescer em nós na medida em que nos deixarmos envolver pelo seu dinamismo espiritual e aderirmos a ele com uma resposta livre e generosa.

1. O Mistério pascal, fundamento da conversão
A alegria do cristão brota da escuta e receção da Boa Nova da morte e ressurreição de Jesus: o kerygma. Este compendia o Mistério dum amor «tão real, tão verdadeiro, tão concreto, que nos proporciona uma relação cheia de diálogo sincero e fecundo» (Francisco, Exort. ap. Christus vivit, 117). Quem crê neste anúncio rejeita a mentira de que a nossa vida teria origem em nós mesmos, quando na realidade nasce do amor de Deus Pai, da sua vontade de dar vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Se, pelo contrário, se presta ouvidos à voz persuasora do «pai da mentira» (Jo 8, 44), corre-se o risco de precipitar no abismo do absurdo, experimentando o inferno já aqui na terra, como infelizmente dão testemunho muitos acontecimentos dramáticos da experiência humana pessoal e coletiva.

Por isso, nesta Quaresma de 2020, quero estender a todos os cristãos o mesmo que escrevi aos jovens na Exortação apostólica Christus vivit: «Fixa os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar sempre de novo. E quando te aproximares para confessar os teus pecados, crê firmemente na sua misericórdia que te liberta de toda a culpa. Contempla o seu sangue derramado pelo grande amor que te tem e deixa-te purificar por ele. Assim, poderás renascer sempre de novo» (n. 123). A Páscoa de Jesus não é um acontecimento do passado: pela força do Espírito Santo é sempre atual e permite-nos contemplar e tocar com fé a carne de Cristo em tantas pessoas que sofrem.

2. Urgência da conversão
É salutar uma contemplação mais profunda do Mistério pascal, em virtude do qual nos foi concedida a misericórdia de Deus. Com efeito, a experiência da misericórdia só é possível «face a face» com o Senhor crucificado e ressuscitado, «que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim» (Gl 2, 20). Um diálogo coração a coração, de amigo a amigo. Por isso mesmo, é tão importante a oração no tempo quaresmal. Antes de ser um dever, esta expressa a necessidade de corresponder ao amor de Deus, que sempre nos precede e sustenta. De fato, o cristão reza ciente da sua indignidade de ser amado. A oração poderá assumir formas diferentes, mas o que conta verdadeiramente aos olhos de Deus é que ela escave dentro de nós, chegando a romper a dureza do nosso coração, para o converter cada vez mais a Ele e à sua vontade.

Por isso, neste tempo favorável, deixemo-nos conduzir como Israel ao deserto (cf. Os 2, 16), para podermos finalmente ouvir a voz do nosso Esposo, deixando-a ressoar em nós com maior profundidade e disponibilidade. Quanto mais nos deixarmos envolver pela sua Palavra, tanto mais conseguiremos experimentar a sua misericórdia gratuita por nós. Portanto não deixemos passar em vão este tempo de graça, na presunçosa ilusão de sermos nós o dono dos tempos e modos da nossa conversão a Ele.

3. A vontade apaixonada que Deus tem de dialogar com os seus filhos
O fato de o Senhor nos proporcionar uma vez mais um tempo favorável para a nossa conversão, não devemos jamais dá-lo como garantido. Esta nova oportunidade deveria suscitar em nós um sentido de gratidão e sacudir-nos do nosso torpor. Não obstante a presença do mal, por vezes até dramática, tanto na nossa existência como na vida da Igreja e do mundo, este período que nos é oferecido para uma mudança de rumo manifesta a vontade tenaz de Deus de não interromper o diálogo de salvação conosco. Em Jesus crucificado, que Deus «fez pecado por nós» (2 Cor 5, 21), esta vontade chegou ao ponto de fazer recair sobre o seu Filho todos os nossos pecados, como se houvesse – segundo o Papa Bento XVI – um «virar-se de Deus contra Si próprio» (Enc. Deus caritas est, 12). De fato, Deus ama também os seus inimigos (cf. Mt 5, 43-48).

O diálogo que Deus quer estabelecer com cada homem, por meio do Mistério pascal do seu Filho, não é como o diálogo atribuído aos habitantes de Atenas, que «não passavam o tempo noutra coisa senão a dizer ou a escutar as últimas novidades» (At 17, 21). Este tipo de conversa, ditado por uma curiosidade vazia e superficial, carateriza a mundanidade de todos os tempos e, hoje em dia, pode insinuar-se também num uso pervertido dos meios de comunicação.

4. Uma riqueza que deve ser partilhada, e não acumulada só para si mesmo
Colocar o Mistério pascal no centro da vida significa sentir compaixão pelas chagas de Cristo crucificado presentes nas inúmeras vítimas inocentes das guerras, das prepotências contra a vida desde a do nascituro até à do idoso, das variadas formas de violência, dos desastres ambientais, da iníqua distribuição dos bens da terra, do tráfico de seres humanos em todas as suas formas e da sede desenfreada de lucro, que é uma forma de idolatria.

Também hoje é importante chamar os homens e mulheres de boa vontade à partilha dos seus bens com os mais necessitados através da esmola, como forma de participação pessoal na edificação dum mundo mais justo. A partilha, na caridade, torna o homem mais humano; com a acumulação, corre o risco de embrutecer, fechado no seu egoísmo. Podemos e devemos ir mais além, considerando as dimensões estruturais da economia. Por este motivo, na Quaresma de 2020 – mais concretamente, de 26 a 28 de março –, convoquei para Assis jovens economistas, empreendedores e transformativos, com o objetivo de contribuir para delinear uma economia mais justa e inclusiva do que a atual. Como várias vezes se referiu no magistério da Igreja, a política é uma forma eminente de caridade (cf. Pio XI, Discurso à FUCI, 18/XII/1927). E sê-lo-á igualmente ocupar-se da economia com o mesmo espírito evangélico, que é o espírito das Bem-aventuranças.

Invoco a intercessão de Maria Santíssima sobre a próxima Quaresma, para que acolhamos o apelo a deixar-nos reconciliar com Deus, fixemos o olhar do coração no Mistério pascal e nos convertamos a um diálogo aberto e sincero com Deus. Assim, poderemos tornar-nos aquilo que Cristo diz dos seus discípulos: sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13.14).

Subindo a montanha para rezar

(Vandeia Ramos)

É comum em grupos de Iniciação Cristã, ao término do encontro “subir a montanha” até o Santíssimo para rezar -depois de refletido sobre os ensinamentos do dia, meditá-los face a face com Jesus Sacramento. Ali, na presença do Corpo e Sangue, Alma e Divindade, deixamos um pouco do que somos e vivemos perante Deus. No Evangelho, temos nós, os discípulos, Jesus, o centro da nossa vida, Moisés e Elias, o Profeta e a Lei. E a cruz nos é apresentada. Sem ela, não há vida cristã. Ali no Santíssimo, ao contemplarmos o mistério de Deus, Ele nos revela e nos prepara para assumirmos de modo pleno este mistério em nossa vida.
Sim, muitas vezes dá medo. Mas sempre somos lembrados de que não devemos ouvi-lo, que não devemos tentar reter Jesus, cobrindo-o com uma tenda, deixando-o na glória do Céu. Nossa missão enquanto cristãos é ouvir o que Jesus diz. Ele sabe de todas as coisas, nos conhece e nos ama. Ele diz o que é melhor e o que precisamos fazer. Então, não podemos nos refugiar no medo e restringir nosso anúncio, nem mesmo querer guardar Jesus no alto, inalcançável. A iniciativa da catequese e da evangelização não é nossa, mas da própria Palavra que se faz anúncio, que quer se comunicar a todos. E Ela escolhe a nós, catequistas, para sermos instrumentos deste anúncio.
Esta é a nossa fé, justiça de criaturas que reconhecem quem é Deus e quem somos. Na disposição de oferecer não mais os sacrifícios da Lei antiga, mas nossa própria vida “por Cristo, com Cristo e em Cristo, a Deus Pai Todo-Poderoso”, como na catequese semanal, é um modo de como a aliança de Deus conosco se manifesta. Já não é mais a formação do povo com Abraão, mas a formação da família de Deus em Jesus. Sacrifício este que atrai os irmãos para a comunhão com a Trindade.
Sim, conhecemos irmãos que vivem como se não fôssemos uma só família, rápidos em acusar, em achar que Jesus vive na tenda deles, na qual tentam guardar também Moisés e Elias. Eles causam inúmeras dores à Igreja, nossa Mãe. Nosso coração sangra com tantas e diversas situações, que ofendem e, principalmente, para o fechamento de seus corações à graça, à Palavra. Sabemos o fim de quem se mantém neste caminho. E causa horror que também nós possamos nos perder, de nos distrairmos de tal modo e logo pensamos “que não seja eu, Senhor, a me perder de Ti”. E o caminho de São Paulo é simples, ainda que não seja fácil: sermos modelos de vida cristã para nossos catecúmenos, sermos perfeitos, santos, cidadãos do céu. Enquanto nossa atenção está em sermos espelho de Jesus, vivemos na certeza de que chegará o dia que também nós subiremos definitivamente a montanha para ser em Jesus, não mais presos às misérias deste mundo, mais plenamente livres como filhos de Deus na glória.
Neste esperar, neste configurar-se a Jesus diariamente, vamos superando nossos medos, aprendendo a ter compaixão, a confiar, a nos reconhecermos como servos obedientes ao que Jesus nos fala, sabendo que Ele mesmo é nosso auxílio neste caminhar rumo à casa do Pai. Assim, no dia a dia anunciamos a certeza de que “O Senhor é minha luz e salvação”.