Nosso fruto: ser humus para nossos catequizandos

(Vandeia Ramos)

Nas leituras semanais, temos acompanhado o profeta Oseias. Do Reino do Norte, século VIII a.C., ele é apaixonado por sua esposa, que o trai por diversos amantes. Então ele eleva sua dor e faz uma leitura da relação entre Israel e Deus, inaugurando o casamento como expressão do amor de Iavé pela humanidade. Fiel, o Esposo é misericordioso e aguarda o retorno / conversão de sua Amada, que precisará aprender a deixar-se conduzir da situação em que se encontra ao acolhimento do abraço do Amado.
A infidelidade é lida como prostituição, denunciando a idolatria do poder através das alianças políticas das lideranças levando à dependência, exploração econômica e opressão do povo; interesses de minorias; confiança na supremacia do poder bélico, riquezas e injustiças; para vantagens pessoais, de grupos ou de instituições. Israel, com 10 tribos separadas do Sul, foi conquistada pela Assíria e os que foram deportados não tiveram nenhum edito de retorno. Podemos aqui vislumbrar a gravidade do grau a que chegou sua imoralidade.
A semente da Lei de Deus, a promessa da Terra Prometida, os ensinamentos do deserto… foram para todas as tribos. Unidas, saíram do Egito, atravessaram o deserto, enfrentaram povos para conquistar a terra, enfrentaram conflitos internos no período dos Juízes, organizaram-se como Monarquia. Tinham uma história em comum. Mas o tempo de Salomão, com os altos impostos e pressão política, levou à separação. Só que a monarquia constituída no Reino do Norte não ficou ilesa aos vícios, ao contrário.
Nosso tempo não é muito diferente. Política, moral, econômica, socialmente… Diversas influências podem ser comparadas a terras que podemos escolher para colocar em nossos vasos, em nossas famílias, em nossa vida. Para um bom canteiro, coloca-se primeiro pedras, para uma melhor drenagem, seguida de areia ou terra, dependendo da profundidade, terra enriquecida com humus (matéria orgânica) e, em alguns casos, com material para guardar a umidade, como casca de pinus. Nossa vida não é uma experiência de um grão de feijão em um algodão. É preciso preparo e manutenção constante.
Quando a Palavra de Deus chega até nós, uma família de fé e/ou uma comunidade fraterna auxiliam no que é necessário para uma criança e em um fiel que chega, estão atentos aos que chegam, às necessidades que se apresentam, muitas vezes oferecendo seu próprio humus, seus nutrientes, no que lhe é seu, para o acolhimento do nascituro e do neófilo. Em uma perspectiva mais ampla, podemos fazer uma leitura pessoal, da família, da comunidade, como de lideranças responsáveis por outras pessoas.
Neste mês temos visto algumas situações complicadas. Vídeos cortados, sem contexto, expondo a Igreja a críticas diversas. Pessoas em situações comprometedoras, sendo questionadas em suas falas. As mídias e a velocidade com que as informações nos chegam nem sempre dão tempo de compreendermos o que está acontecendo. O uso específico da palavra tem sido questionado. E podemos perceber o quanto nossa cultura foi formada pela linguagem verbal. E que esta tem sido usada contra o próprio ser humano, individualmente, por grupos ou em nome de lideranças e instituições – enquanto católicos, nossa responsabilidade cresce.
Somos catequistas e somos chamados a uma missão específica: preparar o solo, fornecer o húmus necessário, acompanhar a germinação. Como família e comunidade, cuidar da planta que cresce até que se fortaleça. Acreditamos na possibilidade uma pessoa madura, de frutos consistentes, responsáveis e próprios para assumirem missões pelo bem comum. Auxiliar que cada um tenha o Reino de Deus como perspectiva de vida. Também sabemos que não somos os únicos a atuar junto aos nossos e que eles têm a liberdade de fazer escolhas que devem ser respeitadas.
Entre nossa atuação pessoal e social, nem sempre é fácil fazer uma leitura coerente com nossa fé e uma atuação própria. Em meio a um panorama confuso, de uma arena social em que diversos grupos querem conquistar nossa atenção e adesão a propostas, temos o compromisso evangélico de termos a devida prudência, avaliando o pensamento e os frutos do que nos é proposto, lembrando que estamos formando não só nossa própria terra, mas fornecendo o húmus necessário para os demais.
Assim, podemos sempre estar prontos para apresentarmos nossa oferta, nosso serviço, nossa vida a Deus, apresentando-lhe a semente que caiu em terra boa germinada em seus frutos.

Uma pausa em Jesus para descansar

(Vandeia Ramos)

Quando Jesus diz que nele temos repouso, sempre lembro da Ceia da quinta-feira, em que São João deita a cabeça em seu colo. Estamos cansados. Muitos estão trabalhando em home office, em que as coisas da casa são simultâneas às do trabalho, em que a comida e a limpeza se impõem junto ao computador e ao celular. Os que estão fora, a tensão do transporte, medo da proximidade, crescente contágio e o descontrole no número de mortes pelo covid-19 deixam a todos sob estresse. Mas hoje é domingo, o dia do Senhor, dia da “pausa restauradora na caminhada rumo ao céu”.
E Jesus nos diz que se revela aos pequenos. Aqui, a crítica é aos que acreditam que o acúmulo de leituras e diplomas os fazem melhores que os demais. Não é desvalorizar a importância do estudo, mas a vaidade em associar conhecimento à superioridade em relação aos demais. Quem maior que o Pai e o Filho? Como o Pai se revela ao Filho, Este se revela aos pequenos. Aqui temos um sentido diferente de sabedoria, não no sentido de quantidade, e sim no conhecimento de Deus, a partir do qual podemos conhecer o mundo e os demais, seus filhos. Tendo o bem de todos, a contribuição que podemos fazer à humanidade, podemos procurar conhecer através de leituras e estudos validados com os respectivos diplomas.
Sabedoria é uma chave de leitura, a partir da qual podemos entender o que vivemos. Sendo Jesus nossa referência, nossa vida sendo colocada a partir da dele, podemos também descansar em seu colo, oferecendo-lhes tudo o que nos abala, sendo aliviados de nossas dores e dificuldades.
Hoje, no retorno às celebrações presenciais em muitas de nossas paróquias, na Aclamação em uma das missas foi “como o Pai me amou assim também eu vos amei”. Ao descansarmos em Deus na nossa celebração dominical somos lembrados do quanto somos amados: como o Pai ama o Filho! E esta certeza nos preenche de tal forma que o restante vai perdendo sua força.
Jesus vem ao nosso encontro na Palavra, na Assembleia reunida nas residências e igrejas, no ministro ordenado e na Eucaristia. Ele vem manso e humilde, falando conosco e como Pão e Vinho. Ele é grande e vem de modo acessível aos que sabem o que é ser pequeno. Nós O recebemos com alegria, no Glória que antecede à Palavra, no Santo, à Transubstanciação. Com Nossa Senhora, a que trará em si todo Israel em seu Magnificat, a Filha de Sião no Novo Testamento, estaremos prontos para receber o Senhor. Ele ainda não vem como Juiz. Ele vem escondido em um punhado de farinha, ao encontro dos seus para alimentá-los na caminhada, fortalecê-los enquanto Igreja, para que em nós sustente a Presença no mundo.
Não vivemos segundo a carne. Muitos ainda não estarão recebendo a Eucaristia, na restrição da presença. Como Corpo de Cristo, os que vão à celebração presencial e podem receber Jesus, o fazem por toda a Igreja, pois estamos unidos e nossa vida é em Espírito. Por Ele vivemos em unidade, sofrendo em nosso corpo o dia a dia cansativo e estressante e oferecendo na Missa como amor e sacrifício.
A Eucaristia é o centro do mundo, como São João Paulo II escreveu na Encíclica Ecclesia de Eucharistia. Na sua continuidade, na unidade em que participamos, a paz em Jerusalém é sustentada, Jesus é presente em todas as nações através da Igreja, no repartir do Pão. E nós, a cada dia, seguimos bendizendo seu Santo Nome, agora e para sempre!

E EM JESUS CRISTO SEU ÚNICO FILHO NOSSO SENHOR

(Carlos Francisco)

“E EM JESUS CRISTO SEU ÚNICO FILHO NOSSO SENHOR” … “CREIO EM UM SÓ SENHOR, JESUS CRISTO, FILHO UNIGÊNITO DE DEUS, NASCIDO DO PAI ANTES DE TODOS OS SÉCULOS; DEUS DE DEUS, LUZ DA LUZ, DEUS VERDADEIRO DE DEUS VERDADEIRO; GERADO, NÃO CRIADO, CONSUBSTANCIAL AO PAI”.

Continuando o estudo sobre o Credo, nós vimos, quando falamos da Trindade, que há um só Deus, e três pessoas divinas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Disso fala a parte final do Credo Niceno Constantinopolitano. Ele reafirma que Jesus Cristo é Deus, assim como o Pai é Deus, e que ambas as pessoas tem a mesma natureza ou substância divina.

Os credos de Nicéia e Constantinopla não inovam quanto a divindade de Jesus, em relação ao credo apostólico. É importantíssimo perceber que os credos que surgiram ao longo do tempo (e existiram vários, como, por exemplo, o Credo do Povo de Deus, do Papa Paulo VI), servem para esclarecer novos questionamentos, mas sempre reafirmando a verdade de sempre.

Algumas vezes o credo também visa explicar uma verdade, mas nunca para criar uma nova verdade.

De forma sucinta, o que levou a esse acréscimo posterior se a divindade de Cristo era certeza desde o início da Igreja? A heresia ariana.

Em que consistia o sistema de Ário, tal como iria estabelecer as bases da heresia ariana? Como todas as heresias, partia de uma ideia justa: a da grandeza sublime e inefável de Deus. Único, não gerado, Deus é “Aquele que é”, como já dizia o Antigo Testamento, o Ser absoluto, o Poder e a Eternidade absolutos. Até aqui tudo estava certo. Mas Ário acrescentava: “Deus é incomunicável, porque, se se pudesse comunicar, teríamos de considerá-lo um ser composto , suscetível de divisões e mudanças” , dedução que só a imprecisão dos termos tornava aceitável . Ora, continuava Ário, se Ele fosse composto, mutável e divisível, seria mais ou menos corporal; mas isso não pode ser, donde se conclui que é sem dúvida incomunicável e que, fora dEle, tudo é criatura, incluído Cristo, o Verbo de Deus . Aqui está o ponto exato em que se situa o erro: Jesus , o Cristo , o Filho , não é Deus como o Pai ; não é seu igual nem é da mesma natureza que Ele . Entre Deus e Cristo abre-se um abismo, o abismo que separa o finito do infinito[i].

Então, Ário questiona a divindade de Cristo por volta de 319, e por conta dessa dúvida levantada a Igreja reafirmou a divindade do Verbo eterno, possuidor da mesma natureza divina, combatendo assim a terrível heresia que esvaziava todo o Cristianismo.

Isso é uma história para abordar depois, quando falarmos sobre a história da Igreja antiga, agora vamos voltar ao início desse trecho.

Creio em Jesus… O nome Jesus (abreviação de Jehoshua, Josué) era bastante comum em Israel, e quer dizer, em hebraico, Deus (Javé) salva. No nome de Jesus somos salvos.

“Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”

Atos dos Apóstolos, 4, 12

Mas salvar de que? Por quê?

Isso será respondido posteriormente,

Jesus é a encarnação do significado do seu nome. Literalmente Jesus é a salvação de Deus dentro da história.

Então, esse Jesus é o Cristo, o Messias prometido.

Cristo é a tradução grega da palavra hebraica “Messias”, “Ungido”. Este era o título atribuído aos reis de Israel[ii], aos sacerdotes[iii], e, em casos raros, profetas[iv]. Neste sentido Jesus cumpre a esperança messiânica na sua tríplice função de sacerdote, profeta e rei[v].

Esse reconhecimento da messianidade de Jesus se dá não só pelas diversas curas ou exorcismos, mas também pelos seus ensinamentos feitos com autoridade.

“Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas”.

Evangelho segundo São Marcos 1, 22

Sendo assim, neste Jesus Cristo se manifesta as promessa da História da Salvação: O Filho de Deus é o messias esperado.

Neste aspecto, afirmar que Jesus é o Filho de Deus é afirmar que ele é o próprio Deus.

Será?

Se nós somos filhos de Deus, por que a auto afirmação de Jesus, de que era Filho de Deus, teria um sentido de divindade?

Olhemos para o capítulo dez do Evangelho segundo João. Para contextualizar, Jesus está no templo de Jerusalém para a festa da dedicação. Jesus fez a pouco o discurso do Bom Pastor, e, posteriormente no capítulo onze ele ressuscitará Lázaro.

Esse trecho é muito importante para o que acontecerá. Até aqui Jesus era perseguido por suas obras, mas após Jo 10, 31-42 ele começa a ser perseguido por suas declarações, e por se fazer igual a Deus.

Perguntam a Jesus:

Os judeus rodearam-no e perguntaram-lhe: “Até quando nos deixarás na incerteza? Se tu és o Cristo, dize-nos claramente[vi].

Jesus não responde se era o messias, até porque a compreensão de Messias era ambígua. O próprio Jesus, ainda que seja o messias, não era o messias idealizado pelos judeus.

Mas Jesus faz uma declaração muito mais solene e escandalosa:

Eu e o Pai somos um”[vii]

Isso foi um escândalo para os Judeus:

Não é por causa de alguma boa obra que te queremos apedrejar, mas por uma blasfêmia, porque, sendo homem, te fazes Deus”[viii]

Os Judeus entendem que Jesus é um homem comum, e o sentido de Filho de Deus é, para eles, ser Deus. Na boca de Jesus, o termo Filho de Deus, ou Filho do Homem é igual a ser Deus. É por isso que Jesus é condenado a morte[ix] no Sinédrio, por Caifás:

Este homem declarou: Posso destruir o Templo de Deus e edificá-lo depois de três dias.” Levantando-se então o Sumo Sacerdote, disse-lhe: “Nada respondes? O que testemunharam estes contra ti?” Jesus, porém, ficou calado: E o Sumo Sacerdote lhe disse: “Eu te conjuro pelo Deus Vivo que nos declares se tu és o Cristo, o Filho de Deus.” Jesus respondeu: “Tu o disseste. Aliás, eu vos digo que, de ora em diante, vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu”. O Sumo Sacerdote então rasgou suas vestes, dizendo: “Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Vede: vós ouvistes neste instante a blasfêmia. Que pensais?” Eles responderam: “É réu de morte”.[x]

Para os Judeus é claro que Jesus referia-se a sua divindade.

Não se deve diminuir essa afirmação. Jesus é Filho como nenhum outro, pois ele é Filho em um sentido ontológico. Não era no sentido do Antigo Testamento, e isso é percebido pelos mestres da lei.

Jesus não é filho como nós somos. Ele não é um irmão mais velho. Nós somos filhos no Filho Jesus, após o batismo. Somos filhos por graça. Jesus é Filho de Deus por natureza.

Essa divindade do Filho eleva a nossa humanidade.

Jesus ainda é o NOSSO SENHOR, pois os cristãos proclamam que são seu povo e colocam nele a sua fé. E colocando nele a sua fé, colocam-se a serviço uns dos outros, como o próprio Jesus pediu.

“Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns dos outros”.

Evangelho de São João, 13, 13-14

Para os primeiros cristãos, confessar o senhorio de Jesus poderia ser fatal. Os imperadores eram os “senhores do mundo”. Declarar o senhorio de Jesus era quebrar essa ideia.

“O nome Senhor designa a soberania divina. Confessar ou invocar Jesus como Senhor é crer em sua divindade. “Ninguém pode dizer ‘Jesus é Senhor’ a não ser no Espírito Santo” (1 Cor 12,3)”

Catecismo da Igreja Católica 455

Mas há uma recompensa em acolher essa filiação. Uma recompensa maior que a morte: a vida em Deus.

Esse é o sentido da liberdade que falamos em relação aos anjos, em relação a Jesus e em relação a nós.

O Livre arbítrio, bem direcionado, se dispõe a declarar Jesus como Deus e Senhor da nossa vida. Mas Deus respeita essa liberdade, ainda que as consequências para nós sejam terríveis, e ainda que Ele sofra com isso.

A liberdade mal utilizada nos destrói.

Não ser filho é o caminho do demônio. No inferno só tem órfãos, não por que Deus os rejeitou, mas por que eles negaram essa paternidade.

Essa é a característica dessa orfandade divina: o não ser filho de ninguém, o pensar com a própria cabeça, não querer ninguém a indicar o caminho, não querer ter um pai que disciplina e ensina. Quando o homem se sabe “filho”, ele se deixa modelar, e cada vez mais se conforma com Deus, adentrando ao corpo de Cristo e se tornando filho de Deus por graça.

Ao querer essa paternidade nós fazemos o caminho inverso do demônio, e, cada vez mais vamos sendo gerados no Pai, e vamos nos configurando ao Filho.

E o Filho, em toda a sua liberdade, faz o que o Pai quer

“Em verdade, em verdade vos digo: o Filho de si mesmo não pode fazer coisa alguma; ele só faz o que vê fazer o Pai; e tudo o que o Pai faz, o faz também semelhantemente o Filho”

Evangelho segundo São João, 5, 19

Por isso somos chamados a ser essa imitação de Cristo.

Pode parecer que estamos nos estendendo muito, afinal esse é o sexto texto sobre o catecismo, mas se prestarmos atenção, os conceitos se interligam. Através da sua liberdade, com a graça de Deus, o homem pode conhecer o Pai. Mas como conhecer o Pai? Que habita em luz inacessível? Olhando para a pessoa de Jesus.

Vamos em seguida ver do que somos remidos, e por que foi necessário essa remissão.

Fiquem com Deus.


[i] ROPS, Daniel. A Igreja dos apóstolos e dos mártires. Editora: Quadrante, 1988, p.448

[ii] 1Sm 9, 16; 10, 1; 16, 1.12-13; 1Rs 1, 39;

[iii] Ex 29, 7; Lv 8, 12;

[iv] 1 Rs 19, 16;

[v] Não a toa todos os batizados, no papel de “novo Cristo” obtêm o múnus sacerdotal, profético e régio;

[vi] Jo 10, 24;

[vii] Jo 10, 30;

[viii] Jo 10, 33;

[ix] Essa é a razão religiosa para a morte de Jesus;

[x] Mt 26, 59-66;

SE DEUS PAI TODO-PODEROSO, É BOM, POR QUE ENTÃO O MAL EXISTE?

(Carlos Francisco Bonard)

Deixamos uma pergunta que deve ser respondida antes de entrarmos propriamente na segunda parte do Credo: Se Deus criou todas as coisas, Ele criou o inferno? Mais do que simplesmente responder essa pergunta devemos passar pelo que se chama “mistério da iniquidade”.

Se Deus criou todas as coisas, por que não criou um mundo tão perfeito que nele não possa existir mal algum? Se Deus é suficientemente poderoso não poderia criar algo melhor do que criou?

O paradoxo de Epicuro trata de dizer que é impossível existir um deus[i] que seja bom[ii], onipotente e onisciente ao mesmo tempo, pois:

  • Se deus é bom e o mal existe no mundo, e ele não faz nada para impedi-lo, ele não ô impede por que não pode (logo ele não é onipotente) ou ele não ô impede porque não sabe desse mal (logo ele não é onisciente).
  • Se deus é onipotente e o mal existe no mundo e ele não faz nada para impedi-lo, ele não é bom, e não ô impede porque não quer, ou ele não ô impede porque não sabe desse mal (logo ele não é onisciente).
  • Se deus é onisciente e o mal existe no mundo, e ele não faz nada para impedi-lo, ele não é bom ou não é tem poder para impedir esse mal (logo ele não é onipotente).

Mas alguém poderia responder: Deus é bom, e o mal existe por causa do livre arbítrio.

  • Se deus não poderia criar o mundo com livre arbítrio e sem o mal, então ele não é onipotente.
  • Mas se deus poderia criar o mundo com livre arbítrio e sem o mal, e ele não o fez, ele não é bom.

Mas alguém pode argumentar que o livre arbítrio é para nos testar.

  • Se deus precisa nos testar, será ele onisciente?
  • Mas se o mal é culpa do demônio e deus não acaba com o demônio, será ele realmente onipotente ou realmente bom?

Bem, após criar essa confusão, vamos desconstruir algumas questões.

Vimos, quando falamos sobre Trindade, que a própria existência da Trindade está intimamente ligada com o fato de que Deus é amor em sentido pleno, e que todos os seus atos são feitos por amor.

Bem, dissemos que só Deus cria, e que nós fazemos inventos, pois adaptamos algo existente para um determinado fim.

Deus cria a matéria, e também o espírito. Mas quem peca não é a matéria, apenas o espírito pode pecar.

De forma bem simplória, o ser humano, os animais e os vegetais tem alma[iii], ou a substância que lhes dá a vida. A morte literalmente é a separação da alma do corpo.

Isso quer dizer que todo ser vivente tem alma. Mas só o homem tem uma alma espiritual, isso é, só o homem tem uma alma eterna e dotada de vontade.

Não tendo, animais e plantas, alma espiritual, estes não pecam.

O pecado é uma invenção do espírito. O pecado é uma invenção angélica.

Como dissemos antes, os anjos são seres espirituais, dotados de INTELIGÊNCIA e VONTADE[iv]. Os anjos foram criados bons, porém também foram criados livres.

O espírito, por ser livre é capaz de pecar.

Deus criou o pecado? Não. Deus criou a liberdade, e um espírito livre é capaz de AMAR ou PECAR.

A revelação nos diz que antes de criar o mundo material, Deus criou o mundo espiritual com seus anjos. E criando os anjos bons, Deus lhes dá liberdade e lhes pede amor.

Antes de existir a matéria, já existia o pecado dos anjos.

A Escritura fala de um pecado desses anjos. Esta “queda” consiste na opção livre desses espíritos criados, que rejeitaram radical e irrevogavelmente a Deus e seu Reino. Temos um reflexo desta rebelião nas palavras do Tentador ditas a nossos primeiros pais: “E vós sereis como deuses” (Gn 3,5). O Diabo é “pecador desde o princípio” (1Jo 3,8), “pai da mentira” (Jo 8,44).

Catecismo da Igreja Católica 392

Somos acostumados a fazer a analogia que o pecado está ligado a matéria, pois somos presos aos sentidos. Mas o pecado é um ato de inimizade com Deus.  

Logo o MAL MORAL, esse ato de desobediência, não foi criado por Deus.

Ao criar o bem físico, e é importante ter esse conceito, Deus permite o que se chama de MAL FÍSICO, que é, não o mal em si, mas a deterioração da matéria.

Deus quis livremente criar um mundo “em estado de caminhada” para sua perfeição última. Este devir permite, no desígnio de Deus, juntamente com o aparecimento de determinados seres, também o desaparecimento de outros, juntamente com o mais perfeito, também o menos imperfeito, juntamente com as construções da natureza, também as destruições. Juntamente com o bem físico existe, portanto, o mal físico, enquanto a criação não houver atingido sua perfeição.

Catecismo da Igreja Católica 310

Esse conceito de mal físico é como nós vemos o mundo que se esvai ante nossos olhos. Não se confunda aqui com o Mal Moral.

A natureza humana, mesmo em Adão e Eva, era uma natureza mortal. Então morrer não tem a ver com o pecado, mas com uma consequência natural da criação humana.

Mas e quanto a afirmativa de que o salário do pecado é a morte? Essa morte causada pelo pecado é a morte eterna, a separação da comunhão com Deus[v]. Deus, havia destinado o homem a não morrer, ainda que sua vida terrena tivesse um termo, esse termo seria transformado, de alguma forma, por Deus.

Deus criou o ser humano bom, assim como os anjos. Porém, os anjos maus, colocaram no homem, por livre aceitação deste, essa semente da inimizade com Deus. Deus era um amigo dos nossos primeiros pais, mas o homem transformou Deus em um inimigo. E a isso é chamado o PECADO ORIGINAL.

O homem, tentado pelo Diabo, deixou morrer em seu coração a confiança em seu Criador e, abusando de sua liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus. Foi nisto que consistiu o primeiro pecado do homem. Todo pecado, daí em diante, ser uma desobediência a Deus e uma falta de confiança em sua bondade.

Neste pecado, o homem preferiu a si mesmo a Deus, e com isso menosprezou a Deus: optou por si mesmo contra Deus, contrariando as exigências de seu estado de criatura e consequentemente de seu próprio bem. Constituído em um estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente “divinizado” por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis “ser como Deus”, mas “sem Deus, e antepondo-se a Deus, e não segundo Deus”.

Catecismo da Igreja Católica 392

Deus não criou o Mal, mas sim, Ele permite o mal e permitiu que o homem pecasse não por ser Deus ruim, mas por que se ele impedisse o homem de pecar, este não seria livre, logo não seria sua imagem e semelhança. Deus age com liberdade, e dá essa liberdade ao homem.

Antes do pecado original, somos originalmente imagem e semelhança de Deus. Deus, originalmente, influenciava a alma do homem que, sendo alma espiritual e corpo humano, fazia com que seu corpo servisse ao que a alma desejava.

Satanás fez com que a alma humana pecasse contra Deus, criando uma desordem. Já não é mais a alma que ordena o corpo, mas o corpo que quer ordenar a alma.

A harmonia na qual estavam, estabelecida graças à justiça original, está destruída; o domínio das faculdades espirituais da alma sobre o corpo é rompido; a união entre o homem e a mulher é submetida a tensões; suas relações serão marcadas pela cupidez e pela dominação (cf. Gn 3, 16). A harmonia com a criação está rompida: a criação visível tornou-se para o homem estranha e hostil. Por causa do homem, a criação está submetida “à servidão da corrupção”.

Catecismo da Igreja Católica 400

A existência do pecado é a coisa mais clara que se pode verificar. Nós mesmos muitas vezes nos impelimos a pecar pois queremos dar algum tipo de prazer a nossa carne. Essa é a desordem do pecado. Não é que a carne seja má, pois se fosse, Deus teria criado algo mal.

Movidos pelos estímulos, queremos que a nossa vontade humana seja satisfeita.

Mas repare que a alma sempre almeja algo que não pode ser satisfeita simplesmente alimentando o corpo. por mais que você queira algo, ao consegui-lo, você já quer outra coisa. Somos como a samaritana que está sempre com sede, sede de algo que não se pode encontrar aqui.

O homem feito para Deus, torna-se escravo do Pecado e de Satanás.

Voltando ao paradoxo de Epicuro, Deus poderia criar um mundo perfeito? Sim, ele poderia, mas em sua sabedoria e bondade infinitas, Deus quis livremente criar um mundo “em estado de caminhada” para sua perfeição última. Isso não nega a onipotência divina.

Os anjos e os homens, criaturas inteligentes e livres, devem caminhar para seu destino último por opção livre e amor preferencial.

Catecismo da Igreja Católica 311

Já dissemos que Deus não criou o mal moral, nem direta e nem indiretamente, mas então, se poderia fazer um mundo melhor e não fez, Deus não é Bom?

Deus é tão bom que, apesar de não entendermos por que ele permite o mal moral, vemos que ele retira desse mal um bem muito, infinitamente, maior. Isso não nega a onibenevolência divina.

Pois o Deus Todo-Poderoso…, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio mal[vi].

Santo Agostinho

Então a resposta ao mal físico é o aperfeiçoamento da criação, e a resposta ao mal moral é por que desse mal Deus pode tirar um mal maior.

Por ser Deus, amor, e por dar gratuitamente o seu amor, o amor sempre vai ser livre. Se você não é livre você não pode amar, e se você é livre, pode não amar.

“Não fostes vós, diz José a seus irmãos, que me enviastes para cá, foi Deus;  “Vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem; era para fazer, como acontece hoje, com que se conservasse a vida a um grande povo”

Gênesis 45,8; 50,20

Esse mal no mundo é, e sempre será, um desígnio de salvação Deus para nós, ainda que não entendamos, pois para os que amam a Deus, tudo concorre para o bem, e se Deus permite uma cruz, alguma ressurreição está escondida atrás dela.

Isso não é uma visão humana, mas uma visão sobrenatural que enxerga além daquilo que podemos ver.

Aqui entra a resposta da pergunta do outro texto: Deus criou o inferno?

Não, pois o inferno é fruto dessa liberdade mal direcionada. O inferno é uma invenção angélica junto com o pecado, que significa essa ruptura voluntária e irrevogável do amor e da comunhão com Deus. Este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra “inferno”.

Deus criou os anjos e o homem bons, e com o propósito de estarem em comunhão com Ele, porém o pecado, o Mal Moral quebra essa possibilidade.

Para os anjos isso significou uma divisão, uns “caem” e outros permanecem na comunhão.

Mas para o homem, com o pecado original dos nossos pais, todo o gênero humano herda essa condição decaída.

Logo o homem está, pelo Mal Moral, fadado a morte eterna.

E Deus tem ciência disso. Isso não nega a onisciência divina.

Mas, Deus pode tirar do mal um sumo bem, muito maior do que a glória que era reservada a Adão e Eva se estes não tivessem pecado. A natureza humana decaiu, e é necessário remir o homem.

“Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos. Sobreveio a Lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabun­dou a graça.”

Carta aos Romanos 5,19-20

Apesar de permitir o mal no mundo, Deus não destrói sua criação, mas, por ser sumamente bom, a ama de tal modo que, junto com a queda, já prepara um plano de salvação.

Para isso Deus então vem até nós para nos resgatar.

Até a próxima.


[i] deus com “d” minúsculo propositalmente;

[ii] Bom aqui no sentido de onibenevolente (absolutamente e ilimitadamente bondoso);

[iii] Há duas formas de ver a alma, e uma delas é a que a alma é o que faz a pessoa ser humana, isto é, a alma é o eu pessoal. Mas a alma que é o Eu pessoal é a alma espiritual. Uso aqui como alma o conceito de princípio vital, aquilo que dá a vida;

[iv] Catecismo da Igreja Católica nº 330;

[v] CIC 1008;

[vi] Enchiridion, 3, 11;

Vós valeis mais…

(Vandeia Ramos)

A gente olha ao redor e parece tudo uma confusão, da política à saúde. Ninguém pode dizer como vai ficar a educação este ano. E a insegurança faz com que desconfiemos de tudo e de todos, das informações que passam, das instituições, das lideranças… Tem gente que nem acredita mais em Deus… Mas nós seguimos nos refugiando em seu colo no meio de toda tempestade ou calmaria.
E quem está em Deus, do que poderá ter medo? Quem é mais forte? O covid-19? Quem inventou, tratou de alguma mutação, espalhou, deturpou informações, escondeu projeções de contágio, usou de posições para tirar vantagens financeiras e políticas, e mesmo imperialistas? Frente a governos, países e mesmo impérios, parece que somos muito pequenos… brigando entre máscaras e respiradores… entre o “fica em casa”, a necessidade profissional e, em algumas vezes, psicológica, em sair para evitar situações complicadas na família e mesmo pessoais.
Não vemos o vírus que está sendo apontado como causador da pandemia, mas vemos que o ser humano não anda bem consigo mesmo. Vemos que pessoas se aproveitam da situação para tirar proveito. Vemos pressão em cima de autoridades para abrirem ou fecharem acesso a espaços. Não estamos vendo esta mesma pressão sobre a Igreja no último mês?
As mídias sociais são arenas de conflito e enfrentamento pela tensão histórica ou pontual que se acumulam. Nós olhamos tudo e vemos briga de poder, orgulho e vaidade como mais importantes que a vida humana e o bem comum. E a Verdade, onde está? Nós sabemos: não é onde, mas em quem. Para nós, a Verdade é uma Pessoa: Jesus Cristo. E é Ele que precisa ser revelado através dos seus, da afirmação de quem somos perante todos, em sermos ponto de referência e estabilidade na confusão em que o mundo se encontra.
Estamos em um momento de misericórdia, em que ofensas, medo, engano e desforra parecem ser o cotidiano dos noticiários. A Igreja não está imune à situação. Vira e mexe se torna referência de noticiários fakes ou não, em que é exposta à dura crítica, em que cada um de nós sente como pessoal a situação, pois somos Igreja.
Também pecamos e nossas falhas são motivo de vergonha para os demais. É comum que nos preocupemos com as notícias e situações paroquiais, como se não fizéssemos parte ou fôssemos imunes a qualquer erro. Sim, há a fraqueza humana, em que tentamos fazer o que é certo, mas nossa limitação dificulta e que precisamos nos esforçar em virtude para superar. E há também o vício, em que estamos corrompidos em fazer o que é errado, em prejudicar ao outro para tirar vantagens pessoais, sem se importar com as consequências para os demais.
Adão nos lembra que todos nós trazemos a escolha em crescer no amor e exercitarmos as virtudes, para superarmos nossas dificuldades, e que também podemos nos acomodar no pecado, aprofundando a indiferença e o egoísmo, sem se incomodar com os demais. Ambas as posições estão em uma situação de afastamento de Deus, pois são imperfeitas.
Somente com a vinda de Jesus podemos ser mais do que pessoas que buscam ser melhores. Em Jesus, somos seus amigos, filhos de Deus, em que formamos uma única família, que é reunida e aprende todos juntos a serem melhores dia a dia. Uma família à luz da de Nazaré, em que nós aprendemos a conviver com as limitações uns dos outros, a perdoar, a ter nossa referência, a nos refugiarmos em Nossa Senhora, a ouvir a Deus.
Esta abundância da vida divina transborda na terra e ilumina nossas dificuldades, nossos problemas, a situação confusa… Ela nos lembra que nosso Pai está cuidando de nós, que nos conhece, sabe do que precisamos, não deixa faltar seu apoio, sustenta nas dificuldades…
Nós valemos mais do que qualquer coisa que está ao nosso redor, pois não somos um objeto, somos filhos de Deus. E Ele, pelo seu imenso amor, nos guarda.

ATO DE CONSAGRAÇÃO INDIVIDUALAO SACRATÍSSIMO CORAÇÃO DE JESUS

Sagrado Coração de Jesus

Eu (o seu nome), Vos dou e consagro, oh Sagrado Coração de Jesus Cristo, a minha vida, as minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte do meu ser, senão para Vos honrar, amar e glorificar. É esta a minha vontade irrevogável: ser todo Vosso e tudo fazer por Vosso amor, renunciando de todo o meu coração a tudo quanto Vos possa desagradar.

Tomo-Vos, pois, ó Sagrado Coração, por único bem do meu amor, protetor da minha vida, segurança da minha salvação, remédio da minha fragilidade e da minha inconstância, reparador de todas as imperfeições da minha vida e meu asilo seguro na hora da morte.

Sê, ó Coração de bondade, a minha justificação diante de Deus, Vosso Pai, para que desvie de mim a Sua justa cólera.

Ó Coração de amor, deposito toda a minha confiança em Vós, pois tudo temo de minha malícia e de minha fraqueza, mas tudo espero de Vossa bondade! Extingui em mim tudo o que possa desagradar-Vos ou que se oponha à Vossa vontade.

Seja o Vosso puro amor tão profundamente impresso em meu coração, que jamais possa eu esquecer-Vos nem separar-me de Vós. Suplico-Vos que o meu nome seja escrito no Vosso Coração, pois quero fazer consistir toda a minha felicidade e toda a minha glória em viver e morrer como Vosso escravo. Amém.

(Fonte)