Ser catequista é ser mártir da fé

(Vandeia Ramos)

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Todos nós sabemos nossas limitações, fraquezas e desafios pessoais. No entanto, quando um catecúmeno ou mesmo sua família nos procura, veem pessoas que são referência evangélica, a partir das quais confiam seus filhos para formarmos na fé e para ajudar a dar um passo significativo na vida. Sim, nossa missão é muito maior do que conseguimos ver ou mesmo ter consciência. Servimos através da formação de novos discípulos. Nossa responsabilidade é tamanha que, se não fôssemos guiados pelo Espírito, sabemos que não conseguiríamos.
Quantas dificuldades passamos? Quantas vezes nos perguntamos se vamos conseguir ir até o final? Se a catequese é suficiente para a formação dos nossos? Vemos então o quanto nossa fé e nós mesmos somos pequenos. Nesta realidade, sustentamos nossa oração, pedindo ao Senhor que aumente nossa fé.
Jesus nos dá nossos catecúmenos para sermos responsáveis. Junto vem sua presença. Mas nem sempre sabemos o que pedir. Precisamos deixar que o Espírito Santo fale através de nós, para que percebamos as necessidades e possamos apresentá-las a Deus. O que for de sua vontade, que seja feito. Nada lhe escapa. Por isso Ele sempre nos lembra: “Não temas!”
Não significa que nossa vida será fácil. Muito pelo contrário. E muitas vezes a começar com os mais próximos, na família, amigos, trabalho e mesmo na comunidade eclesial. Deus não nos dará o necessário? Em sua misericórdia, não enfrentaremos mais do que podemos suportar, nunca o que de fato merecemos. Deus é conosco. Esta fé que testemunhamos frente às dificuldades, adversidades, seguindo no Caminho que nos é apontado.
Como nos fala a primeira leitura, a vida é um combate e o inimigo é nós mesmos, nosso cansaço, nossas limitações, nossa falta de fé de que Deus está cuidando de tudo. No entanto, não estamos sozinhos. Temos uma Igreja, um Céu que intercede por nós. Enquanto estamos na batalha do dia a dia, os anjos e santos nos sustentam em suas orações. Nós também intercedemos uns pelos outros e ensinamos nossos catecúmenos a participar da comunhão dos santos através de suas orações e testemunho de vida. Enquanto uns estão no serviço, há os que rezam e há os que sustentam a oração.
Sustentados e sustentando na fé, podemos assumir a Palavra de Deus em nossa vida, sermos presença no mundo, deixando-nos tornar ofertas de amor pelos que mais precisam, a começar em nossa casa e com os mais próximos. A Palavra Viva é encarnada, muito mais do que em palavras e em discursos bonitos e bem construídos, e sim com nossa pessoa inteira, perseverando no amor quando tudo parece concorrer para o contrário. A certeza de que não estamos sozinhos nos sustenta.
Sabemos de onde vem nosso sustento, nosso socorro. Temos experiência de vida suficiente para não nos deixarmos abater frente às dificuldades. Sabemos o que fazer perante as mesmas. Somos vigiados, cuidados, acompanhados com o carinho de tantos que nos amam. A quem ou o que temeremos?
Que o Senhor nos encontre firmes na fé! Sustentados por Ele!

Ser catequista é ser modelo de caridade

(Vandeia Ramos)

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Hoje pudemos acompanhar a canonização da Irmã Dulce, o “anjo bom da Bahia”. Batizada de Maria Rita, desde pequena perguntava a Santo Antônio sobre sua vocação e já se dedicava em atender em casa os que mais precisavam. Na adolescência se comprometeu com a vida religiosa. Sempre que estes modelos de evangelho são identificados, fico me perguntando como nos posicionaríamos se um de nossos catecúmenos chegasse a nós e dissesse que queria ser padre, religioso, religiosa ou mesmo santo? Questiono isso porque às vezes parece que a história de Jesus e da Igreja passa como se fosse um conto de fadas – já ouvi criança perguntando se era de verdade.
Sabemos que muitos se dizem cristãos, mas que a compreensão é mais de uma ideia bonita, beirando ao romantismo e ao idealismo, do que realmente uma fé viva e encarnada. Muitas vezes até nós mesmos parecemos desta forma para muitos que estão ao nosso redor. Daí a importância do testemunho da Irmã Dulce, pois nos mostra que o evangelho não só é possível, como tem pessoas realmente comprometidas em vivê-lo, não como um momento de sensibilidade com Deus, e sim preocupadas com os que mais precisam, na confiança do amor.
Isso nos leva a perguntar se amamos Deus que faz milagres ou os milagres de Deus. Fazemos o que Ele nos pede ou queremos que Ele faça o que nós pedimos? Respondemos verdadeiramente ao chamado de servir ou idolatramos um deus que nos deve a partir de pedidos, promessas, orações, méritos? Deus é a referência de minha vida ou eu mesmo sou esta referência?
Assim podemos entender o evangelho, de dez leprosos que são curados, mas somente um volta para agradecer. Podemos passear entre as maravilhas que Deus faz em nossa vida, agradecendo e ofertando a nós mesmos, para um pensamento a la carte, de que tenho de Deus somente o que quero, como se fosse Sua obrigação prover meus desejos e vontades. “Seja feita a vossa vontade” ou a minha vontade? A vida de Santa Dulce dos Pobres nos indica o caminho certo.
Como “servos inúteis”, que fazem o que deve ser feito, não devemos sequer esperar recompensa, já que a graça de Deus nos basta. Fazemos o que fazemos porque somos cristãos, outros cristos, servindo ao mundo como Igreja peregrina. Pelos que nos são confiados, nos colocamos à disposição, firmes na perseverança, constantes nas alegrias e dificuldades. Tem mais a ver com quem somos do que com o que fazemos. O agir é o testemunho que informa e nos forma. Através do dia a dia, comunicamos ao mundo Deus que vive em nós e, nos acontecimentos, aprendemos a ver Deus agindo no mundo, ajudando-nos a compreender nossa vocação.
Hoje também temos a memória da última aparição de Nossa Senhora em Fátima, com o milagre do sol. Tantos ali pediam cura de doenças, problemas, buscando respostas… Quando veem o sol se aproximando, lembrando que este é sempre uma referência a Jesus Cristo, como será que estas pessoas viveram o momento? Pensemos que Jesus pode se tornar visível a nós agora. Como Ele nos encontraria? E se fosse para nos buscar? Devemos estar prontos, pois não sabemos “quando o noivo vem”.
Através de Santa Dulce dos Pobres e na vida de Jacinto, Francisca e Lucia, Deus manifesta sua justiça ao mundo, na atenção aos que mais precisam, dando-se a conhecer através de algumas pessoas especiais que escolhe.
Também nós somos escolhidos para uma missão especial, de formar discípulos. Sejamos também modelo de caridade, para que o Senhor faça conhecer a salvação e revele sua justiça através de nós.

Fé e missão: a vida do catequista

(Vandeia Ramos)

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É comum percebermos à nossa volta uma crise de fé. Os problemas se acumulam em nossa família, no mundo e nem sempre vemos em nossa comunidade o que esperamos de uma Igreja. É comum procurarmos paliativos, momentos de exaltação do sentimento, referência em pessoas que se tornam modelos, referenciais. Escutamos e falamos que vamos à missa tal, o terço de uma pessoa, oração desta forma… parecem planos de fuga em que, por um tempo, esquecemos do que nos aflige e descansamos em Deus.
Só que depois precisamos voltar à dureza do dia a dia na saudade do que vivemos e na expectativa de quando poderemos ter estes instantes novamente. O cotidiano, o corriqueiro, deixa de ter o devido retorno e satisfação para que possamos nos servir de confortos temporários.
O evangelho vai nos apresentar uma proposta: assumirmos que nossa fé é menor que um grão de mostarda, que somos muito pequenos frente a tudo ao nosso redor, mas buscarmos o socorro no Senhor. Não em pessoas ou em momentos furtivos. Os discípulos pedem por mais fé para enfrentarem as dificuldades do dia a dia, e não momentos de descanso.
Jesus ainda nos lembra de nosso lugar. Não somos Igreja para nos servirmos de seus bens, mesmo que espirituais. Somos Igreja para servir aos demais. É deste modo que recebemos a força necessária para continuar. Somos “servos inúteis” que primeiro servem a um Senhor que não precisa de nós, mas que quer que participemos de sua obra. Não estamos aqui para buscarmos uma vida de regalias. A messe está à espera dos operários. Na ida ao serviço, de continuar apesar de tudo parecer que é contrário ao que acreditamos, que Jesus nos dá a fé que pedimos.
Na perseverança, temos a prova de que Deus é o Senhor de tudo, inclusive de nossa vida. Ele que a dirige. Na ida aos demais, Ele nos fala e nos mostra o seu cuidado terno conosco. E percebemos, entre alegres e cheios de temor, que “fazemos o que devemos fazer”.
Se há muitos problemas no mundo, não estamos sozinhos para enfrentá-los. Jesus já foi à frente e estende a mão para atravessar conosco pela vida, para que estejamos onde Ele já está. O “salto da fé” na confiança que, no momento que Deus achar melhor, o mar vai se acalmar.
Nas palavras da Sagrada Escritura encontramos nossa força e missão. Entre o “não temas”, “ide” e “Eu estarei convosco até o fim”, seguimos na fé que nos sustenta e nos impulsiona a irmos adiante.
Não estamos começando na vida. Se olharmos pelo caminho que já percorremos, poderemos ver as maravilhas que Deus já fez, como que Sua atenção nos detalhes é repleta de riqueza. Não nos esqueçamos do quanto somos privilegiados de sermos catequistas, de podermos crescer juntos com outros e com nossos catecúmenos. Afinal, o que anunciamos é para quem? Não falamos muitas vezes o que nós mesmos deveríamos ouvir primeiro?
Abramos nossos corações para a missão que nos é confiada e sigamos adiante, na certeza de que vamos com um céu inteiro conosco.

O Catequista e a Palavra

(Vandeia Ramos)

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O Evangelho de hoje nos perturba e o alcance não é simples. Se pararmos para agradecer, vamos nos perceber como o rico, que tanto tinha. No nosso caso, o que temos é dom recebido por Deus. Recebemos a missão de anunciar a Palavra, de evangelizar. Somos responsáveis por catecúmenos e muito do que os cerca. Existe uma linha tênue neste privilégio, entre o serviço e o orgulho, entre reconhecer-se como servo inútil e possuidor do Reino, entre ser o administrador fiel e achar que o céu já é garantido, confundindo valores.
Na confusão em que facilmente caímos pelo orgulho, consideramos que o rico ainda tenha algo de bom ao se preocupar com os irmãos. Então, parece que seu lugar eterno quase chega a ser injusto, causando-nos certo desconforto.
No livro O Diálogo, de Santa Catarina de Siena, em sua relação mística com o Pai, ela pergunta sobre. A resposta surpreende: caso algum irmão vá para o inferno devido ao descaminho ensinado pelo rico, ele seria o responsável e responderia também. Do mesmo modo que nossos catecúmenos podem se tornar pessoas melhores pelo ensinamento da Palavra através de nossa mediação e, portanto, participamos mesmo que indiretamente de sua bondade, o que desencaminha também responderá.
Também podemos reportar sobre Jesus que, mesmo Ressuscitado, não é o suficiente para a fé de muitos. O Senhor, na cruz, diz que “tudo está consumado”. Tudo Ele fez, tudo Ele deu, até a Si mesmo. Mas, para muitas pessoas, não é o suficiente. O livre arbítrio que permite que não escolhamos a Deus é um mistério.
Aqui precisamos tomar muito cuidado para que não consideremos que somos mais que outros porque estamos a mais tempo na caminhada, porque tivemos mais oportunidades de crescer espiritualmente, de achar que o céu nos está garantido e podemos relaxar e só esperar a hora, desperdiçando os bens que nos foram confiados.
Para que ir à missa? Para que se confessar periodicamente? Para que buscar aprofundar o que sabe? Para que se preocupar com a própria santidade? Para que servir na comunidade? Para que pensarmos em missão no mundo através de uma profissão pelo bem comum, se o salário e as condições não for o que achamos que merecemos? Entre servir o mundo e se servir do que o mundo tem a oferecer é uma linha estreita, que nos apresenta se consideramos os demais realmente como irmãos ou como pessoas que disputam benefícios conosco.
Irmãos catequistas, precisamos guardar nossa missão, não como dom que colocamos de lado, e sim com integridade do melhor serviço que podemos fazer, dando-nos a nós mesmo na catequese, no estudo, nas orações, na preparação pessoal, na vida de fé, no exercício profissional em prol do bem comum, “para que eu trabalhe e o outro descanse”.
Além de termos a memória de Sâo Jerônimo, que teve a missão de traduzir a bíblia para o latim possibilitando o maior acesso à Palavra de Deus, também celebramos os arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel. Na hierarquia de serviço que nos apresentam, em que “maior é o que serve”, sabemos que vamos ao que nos é apresentado acompanhados. “Quem como Deus”, “Deus cura” e “fortaleza de Deus” nos lembram que temos tudo o que precisamos: a graça.
Com os anjos e santos, podemos viver no serviço à Palavra através da catequese e de toda nossa vida, confiando que somos tão cuidados que podemos também cuidar uns dos outros, com atenção especial aos que mais precisam. É este amor que nos sustenta e nos guia que anunciamos, a Palavra que se encarna no mundo através de nós.
É o modo que Deus escolheu para que recebamos sua graça, através do anúncio Dele em nossa vida, no testemunho cotidiano. Através de cada um de nós, o Reino está no mundo, em nós. Bendigamos todos juntos a este Deus que nos escolheu para se tornar presente na humanidade.

Administradores de Bens, somos catequistas

(Vandeia Ramos)

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Ao longo de nosso serviço pastoral, bem como em nossa vida, aprendemos a agradecer, a sermos sensíveis aos dons e graças que recebemos. Mas também sabemos que estes não são nos dados por mérito e nem limitados a nós. Recebemos para que possamos compartilhar. E é isso que fazemos na Iniciação Cristã.
O que vamos aprendendo não é para enriquecimento próprio, para ser guardado embaixo do travesseiro. Deus nos apresenta suas riquezas do Reino para que, através de nós, cheguem aos demais. Somos convocados a este serviço: de anunciar a Boa Nova, Deus entre nós, em nós.
Temos uma responsabilidade que faz com que a alegria diminua a dor do mundo, atenue seu sofrimento. Através de nós, a esperança se espalha e permanece – até o fim! Através de nossa disponibilidade, a Palavra se encarna no mundo. Se há os que agem contra, oportunistas e aproveitadores, se há os que conseguem espalhar as trevas, mais ainda é necessário que os filhos da Luz se manifestem, que o Sol brilhe no mundo, que alcance o que nós sozinhos somos incapazes.
É preciso fazer uma escolha diária, uma decisão entre servir e ser servido. Não somos os donos da riqueza do céu. A autoridade da Igreja está no serviço, da humilde ação junto aos que mais precisam, da manifestação da justiça e da paz, do aceitar muitas humilhações para que nos identifiquemos com o Crucificado e com Ele a Ressurreição se realize.
Isso envolve atenção especial com as autoridades, tanto eclesiásticas como civis, familiares e de trabalho. O conceito de autoridade perpassa as relações humanas, não em uma hierarquia de mérito, e sim de serviço. Sabemos pela frágil posição que ocupamos junto aos nossos catecúmenos o quanto, muitas vezes, é difícil liderar, considerar todas as necessidades e assumir atitudes sem um critério refletido com tempo suficiente.
Pensemos nos pais, nos líderes paroquiais, nos postos de governo. Quantas influências, grupos em posições opostas e muitas vezes conflitantes, diversidade de necessidades a atender, escolhas nem sempre fáceis de assumir.
Sabemos que Deus é o Senhor de todas as coisas e que nos envia seus anjos para nos acompanhar e guiar. Nossas lideranças também os têm, mesmo que não sejam conscientes. Não somente como pessoas, mas também como lideranças de um povo, seja ele restrito ao município e mesmo à nação. Quanto mais alto na hierarquia, mais pessoas em volta, mais precisa de discernimento espiritual para agir em prol do bem comum. A responsabilidade com todos envolve consequências em sua própria vida e no modo como se relaciona com Deus.
O valor de um governo não é se concordamos ou não com posições políticas e / ou ideológicas de suas lideranças, e sim no bem estar da população, em sua dignidade respeitada e suas necessidades atendidas. A justiça gera a paz. E precisamos ser testemunhas de que oferecemos nossa vida por Deus, através de nosso respeito aos que nos lideram, bem como no oferecimento de orações por eles. Rezar pelas lideranças é rezar pelos que estão sob sua responsabilidade. Daí o ensinamento de que a política é uma forma privilegiada de caridade.
O que não podemos alcançar, o que humanamente não se pode fazer, temos a certeza de que Deus pode. E isso é um de seus mistérios, de escolher pessoas diferentes, em posições diversas, para que o Reino se manifeste. E o espaço público e civil não está isento de sua ação. Muito pelo contrário.
Na sensibilidade de nosso discernimento, no olhar evangélico que precisamos aprofundar, na atenção ao cuidado com os que mais precisam, na oração constante pelas lideranças, manifesta-se nosso louvor a Deus, que faz chegar sua graça e bênçãos a todos, através de pessoas como nós. Assim, podemos louvar que sua justiça se manifesta junto aos de boa vontade, e sua paz permaneça entre nós. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Catequista, mediador da misericórdia

(Vandeia Ramos)

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O Evangelho de hoje nos ensina a não desistirmos. Ano a ano podemos encontrar aquele catecúmeno mais difícil, mais resistente, mesmo revoltado e frequentemente agressivo, que está ali obrigado por alguém, e faz de tudo para demonstrar sua irritação. Quando o vemos no início, já pensamos: quem será a / o catequista sorteado? E (quase) desejando que não seja a gente mesmo.
Também temos o que falta, o da família difícil, outro que é indiferente… A parábola fala de 99 ovelhas que ficam e somente 1 que foge. Mas tem momentos que parece justamente o contrário: o rebanho ameaça se perder. E nós nem sempre sabemos o que fazer, como proceder.
A última parábola recebe alguns nomes da crítica teológica: o Filho Pródigo, o Pai Misericordioso, os Dois Irmãos… Vou apontar duas ideias que possam ajudar a pensarmos em nossa realidade.
Quando Jesus narra a história dos dois irmãos e do pai, não sentimos falta de mais alguém? Cadê a mãe / esposa? Fico pensando naquela mulher que, somente com sua presença, mesmo sem falar, não fica sentindo falta do filho mais novo, pensando nos riscos de ir ao mundo, com saudades, de ouvidos atentos em busca de notícias. E esta postura não deixa o pai e o irmão indiferentes. Ao contrário. A presença da mãe o faz lembrar da ausência de um dos filhos. Não ficamos um pouco assim quando algum dos nossos começa a faltar e desiste? Não ficamos esperando qualquer chance de ajudar, ainda que à distância?
Na narrativa, o filho mais velho é chamado a participar da festa do retorno e não fica claro se ele vai ou não. Para nós, Jesus é o Primogênito. Só que Ele não fica no céu cuidando das coisas do Pai, esperando nosso arrependimento e retorno. Muito pelo contrário. Jesus é o irmão que vem ao nosso encontro para estender a mão e nos guiar de volta. Com Ele, sentimo-nos seguros da acolhida. Às vezes falta uma mão estendida para ajudar a quem está longe. Alguém em quem se possa confiar. Alguém que ama incondicionalmente, independente de erros e fraquezas. E, como catequistas e cristãos, somos chamados a ser este alguém no Alguém.
E a imagem do Bom Pastor nos fica mais nítida. O que não é dito, mas subetendido para os ouvintes, é que o Pastor, ao resgatar a ovelha perdida e a conduzir em seus ombros, precisa primeiro quebrar-lhe a perna. O filho mais novo precisou ir parar entre os porcos para se entender e a situação em que se encontrava. Quantas vezes só nos damos conta de nossa pequenez quando somos chamados à realidade de modo frequentemente doloroso?
Já podemos ver esta imagem em Moisés. Mesmo o povo tendo caído na idolatria, ele se associa aos seus para os proteger junto a Deus. Por causa de Moisés, o povo é poupado. Esta é a sorte dos santos, de se colocarem como mediadores entre Deus e as pessoas, oferecendo-se em sacrifício pelos demais. E fica claro quando nos colocamos na defesa dos que mais precisam, das crianças e jovens mais complicados, insistindo que vale a pena continuar.
Que modelo de esperança melhor que o de São Paulo? Tanto aprontou, perseguiu, resistiu. E, no momento apropriado, seu coração se abriu à graça. Sua vida a partir de então não foi das mais tranquilas. Mas ele tinha a missão de conduzir para a família os que estavam mais distantes. E por eles sofreu percorrendo da Palestina à Ásia Menor, até chegar à Roma, do chicote ao naufrágio, para que o Evangelho chegasse a todos. E ainda nos deixa: “ai de mim se eu não evangelizar!”
Ai de nós, catequistas, se não evangelizarmos. Ai de nós se não testemunharmos com nossa vida o quanto Deus faz maravilhas por nós. Ai de nós se não formos presença da Misericórdia. Ai de nós, se não formos outros Cristos junto aos nossos catecúmenos.
Somente, então, ao chegar à nossa hora, poderemos cantar com os santos: “Vou agora levantar-me. Volto à casa do meu Pai.”