Fazer da vida um canto de louvor

(Vandeia Ramos)

Você já parou para pensar o que está fazendo aqui? Por que trabalha exatamente no lugar em que está, estuda, na família, nos grupos em que faz parte…
De vez em quando a gente fica olhando ao redor e pensando que a situação que vivemos é muito além daquilo que somos. E reconhecemos que não nos escolheríamos para as responsabilidades que temos. Tem tanta gente por aí melhor que eu para enfrentar tanta dificuldade… E por que eu? Se tantas vezes só observo e tenho a consciência de que não tenho a capacidade que é necessária para resolver os problemas que estão à minha volta…
É quando Deus nos responde: “Vai profetizar para Israel, meu povo” (Am 7, 15). Vai ser minha presença na sua família, minha família. Vai ser minha presença no seu trabalho, minha messe. Vai ser minha presença na escola, minha vinha. Vai ser minha presença onde eu te mandar. Não é você que vai resolver os problemas. Não estou te mandando para resolver nada. Não estou te enviando para ser a salvação do mundo. Isto é para Meu Filho. Estou te enviando para estares onde Eu estiver (Jo 14, 3).
E onde Deus é presente, a paz é anunciada, a Verdade e o amor se encontram, a justiça e a paz se abraçam. É pela presença do justo que Deus mostra sua bondade para com os seus. E a gente pensa: é muita coisa para mim. Quem sou eu, Senhor? Ou então a gente se recolhe na nossa humildade de servos e responde: “Faça-se em mim segundo a vossa palavra” (Lc 1, 38). É uma escolha humilde entre deixar Deus agir e o orgulho em se achar tão tão que Deus seria incapaz de agir.
É esta mesma humildade que nos leva à vida em comunidade. Sozinha não consigo. Então preciso da missa, da confissão frequente, de aprender a ser um “vaso novo”, luz nas trevas, fermento na massa, sal no mundo. Não são opções para um cristão. São realidades vivas que nos tornamos.
E assim somos enviados a cada final de missa: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!” Sem levar nada, na confiança de que Deus nos fornecerá o que nos for necessário. Que o Espírito Santo falará por nós. O caminho de uma semana pela frente. Como presença de Deus, tornamo-nos os que fazem diferença. Somos mediadores nos conflitos, silêncio que grita que há Alguém a ser olhado primeiro, mártires que se ofertam no dia a dia para que Deus seja glorificado.
Com a nossa presença, um sorriso, um cuidado com o outro, um abraço, um acolhimento, vamos sendo instrumentos na cura de tantas dores no mundo. Com nossa presença, o Bem de Deus se manifesta.
Assim, podemos todos cantar em nossas dificuldades: Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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O que você faz aqui?

(Vandeia Ramos)

Fui à uma missa de sétimo dia do pai de um amigo e, no final, o padre perguntou se ele queria falar alguma coisa. Fiquei pensando…
Todos nós sabemos que a morte é a única certeza que temos. Não é “se”, e sim “quando”. Então, o que gostaria que dissessem na minha missa? E você, o que gostaria que dissessem em sua missa de sétimo dia?
Somos enviados ao mundo e sabemos, como o profeta Ezequiel, que nossa presença nem sempre é bem aceita. Nossa presença incomoda. Estamos no mundo, mas não pertencemos ao mundo. No entanto, Deus continua nos enviando, para que possamos dar testemunho da Verdade. E isso tem um preço.
Quantas vezes caímos será a quantidade de vezes que levantaremos. Neste cair e levantar que somos forjados cristãos. Enfrentamos nossa dificuldade em lidar com muitas pessoas, com limitações físicas e morais, com doenças, problemas na família, de convivência no trabalho… Não somos os donos da razão, muito menos do mundo. Na vida diária aprendemos a reconhecer quem somos e aprendemos a respeitar a liberdade dos demais. Tornamo-nos fracos aos olhos do mundo. O valor do silêncio vem junto com o tomar distância das situações para vermos de modo mais amplo. Exercitamos o modo de ver a partir da cruz. Assim, nos tornamos fortes na presença de Deus.
O ser cristão no mundo vai nos modificando por dentro, a ponto de muitas vezes sequer sermos reconhecidos pelos nossos. Afinal, “santo de casa não faz milagre!” Tornamo-nos pedra de tropeço para os que mais amamos. Talvez esta seja, muitas vezes, o espinho na carne que mais doa. Para que não tropecem, vamos aprendendo a não ficar no caminho, a suavizar nossas pontas, a sermos usados em construção, no serviço “para que os outros descansem”.
Sabemos o caminho. Precisamos de coragem para seguir!
Perguntando a jovens o que eles gostariam que dissessem na missa deles, eles responderam que queriam deixar algo de bom no mundo e que por isso queriam ser lembrados. Fazer a diferença na vida das pessoas. Como a juventude é bela em si mesma!
Talvez influenciada pelo livro de Chesterton, O Homem Eterno, que diz que Jesus veio para morrer, eu fiquei com este pensamento fixo: Eu vivo para este momento!
Ver a vida a partir do seu fim, não como término, mas como finalidade, de viver para Cristo e morrer sendo ganho, oferece a cada pessoa um sentido diferente da própria vida.
Aprendemos a morrer todo dia, a sermos fracos, a vivermos com o espinho na carne para lembrar-nos que estamos aqui para crescermos e ter os olhos fixos nas mãos do Senhor.
Rezemos para que Nossa Senhora esteja sempre conosco, agora e na hora de nossa morte!

São Pedro e São Paulo, dupla imbatível!

(Vandeia Ramos)

Impossível ser católico e não se emocionar com as declarações de fé de São Pedro! Como não se identificar com a arrogância de Saulo e sua inteligência como Paulo?
Pedro tem um barco e servos. A economia pesqueira é muito importante para Israel, que tem restrição com carnes, pois as considera dentro da cultura da época, de sacrifício aos deuses pagãos. E seu irmão, André, até então discípulo do nosso João Batista, vem lhe anunciar que o Messias estava entre nós.
Fico pensando no olhar com que Jesus passa e chama Pedro. Homem prático, pouco inclinado para arroubos da juventude, mas com o coração que não cabe em seu peito. Na caminhada pelas estradas, quantas vezes Pedro não pegou o leme? Acostumado ao trabalho, às tempestades, a trocar o dia pela noite sempre que necessário. Um homem disponível para o seguimento.
Duas cartas lhe são atribuídas. Alguns estudiosos levantam a possibilidade do evangelho de Marcos trazer sua marca.
Mesmo tendo negado, Jesus continua olhando nos seus olhos. É Pedro que entra no sepulcro antes de João. Cabe a ele cuidar das ovelhas e dos carneiros.
O atropelado Pedro foi sendo conformado sob os olhos de Jesus, sendo o humilde de Atos dos Apóstolos, que reconhece sua pequenez frente à missão a que é chamado. Que confia em quem o chama, e não em si mesmo. Que sabe que pode contar com o olhar constante de Jesus. E segue até sua cruz. Em Roma, Cidade Eterna.
Paulo também é como muitos de nós. Nossa arrogância de olharmos o mundo a partir de nosso entendimento, de achar que as coisas, se forem como pensamos, podem ser mudadas somente pelo nosso agir.
E ele cai. A Verdade o deixa ofuscado a ponto de tirar sua visão. Três dias sem ver para aprender a enxergar, para se perceber a partir de Jesus, e não de si.
Fariseu disciplinado no estudo das Escrituras, precisa aprender tudo novamente, de perceber sua escrita a partir de Jesus como o Messias prometido. E isso para anunciar em outra língua, em grego, com uma cultura muito diferente da sua. Grande missão para um grande homem.
Sua juventude não o deixa acomodar. Sua inteligência o leva a ver a presença de Deus entre comunidades tão diversas. Sua abertura ajuda a distinguir o que é a Palavra e o que é a cultura. Em como ver Deus em toda face humana, em lugares do mundo tão diferentes do seu.
E chega em Roma. Faz dobradinha com Pedro. Uma nova Cidade Eterna é fundada. Não mais pelos irmãos Rômulo e Remo alimentados por uma loba. Mas pelos cristãos Pedro e Paulo, alimentados pela Eucaristia. Eles se tornam os pilares nos quais a Igreja cresce.
Tão diferentes e com a mesma fé. Missões grandiosas, corações abertos para Deus infinito. Respostas humildes que ensinam à Igreja de hoje e de sempre.

Viva São João!

(Vandeia Ramos)

É São João e o dia foi quente! Esqueceram de avisar a ele que deveria ser a noite mais fria do ano!
O último dos profetas, escolhido desde o ventre materno, santificado pelo encontro com Jesus no ventre de Maria.
Sua luz fez com que ele não seguisse as regras humanas, ainda que tenha sempre seguido a Lei.
A vida de intimidade com Deus é fruto da resposta de seus pais à fé de Israel. Sua mãe que lhe dá o nome. Ela acredita no que o anjo Gabriel tinha dito ao marido Zacarias sobre seu filho ser cheio do Espírito desde o ventre (Lc 1, 15) e reconduzir as pessoas a Deus (Lc 1, 16-17).
Quando Zacarias não acredita (Lc 1, 20), Isabel confirma os dois. Como são grandiosas e sutis as mulheres de Israel. Não temem afirmar sua fé e a dos seus sempre que necessário!
No descrédito do marido, a esposa confirma os dois. E o marido, na humildade do reconhecimento de suas limitações, respalda a mulher. Que bela a família de João!
Zacarias é sacerdote e, pela tradição, João seguiria seus passos no templo. No entanto, ele vai para o deserto, vai ser profeta das nações, vai denunciar o pecado e anunciar a vinda do Cordeiro de Deus. Sua vida é expressão desta intimidade.
João não segue os passos do pai. O pai, compreendendo o que significa ser profeta do Altíssimo no mundo, aceita o caminho que lhe foi oferecido, respeita uma outra missão que o próprio Deus tem para seu menino.
E vai para o deserto. Lá é lugar de encontro com Deus, lugar de acolhida, lugar de proteção. João sobrevive aos ataques de Herodes aos bebês. Ele é guardado dos que não querem um novo rei para Israel, dos que utilizam da Lei para interesses pessoais.
Entre pele de camelo e gafanhotos, o homem se enverga. Com ele, a memória de que Deus não esqueceu os seus, que os prepara para algo maior, para dar-se totalmente a nós em seu Filho.
E João começa pela água, como o princípio da vida. Voltar ao princípio, no arrependimento dos pecados, para poder ser resgatado do pecado, para renascer naquele que é a própria Vida do homem.
Em João, o anúncio de que o paraíso já não satisfaz nossa humanidade. Precisamos de mais. Deus guardou o melhor para o fim, para a plenitude dos tempos: seu Filho como o Cordeiro de Deus, que nos faz ser irmãos e família de seu próprio Pai.
E João é o escolhido para anunciar a Israel sua missão: trazer o Filho ao mundo!
Da uma família que não perdeu a fé ainda que tudo parecesse dizer o contrário, para o último dos profetas. Do pai mudo para o anunciador da Luz ao mundo. Da confirmação de sua mãe para o cuidado de Deus conosco. São João Batista, rogai por nós!

O Pai Nosso, uma escola de oração

(Padre João Carlos)

Vocês devem rezar assim (Mt 6, 9)
O Pai Nosso é mais do que uma oração. É uma escola de oração. É como um discípulo ou uma discípula deve rezar sempre. No Pai Nosso, podemos encontrar as quatro características da oração dos discípulos do Senhor.
A primeira característica é que é feita com INTIMIDADE e CONFIANÇA EM DEUS. Não se trata de uma audiência de um servo com seu patrão. Trata-se do diálogo amoroso entre pai e filho ou filha. Por isso, Jesus ensina a invocar a Deus como “pai”, “Pai Nosso”. Jesus chamou a atenção dos discípulos para não imitarem os fariseus, nem os pagãos. Em contraposição ao exibicionismo dos fariseus e mestres de lei, Jesus os orientou a proceder como um filho que conversa com seu pai ou sua mãe, a portas fechadas no seu quarto. Nunca imitar os pagãos nesse assunto da oração, recomendou Jesus. Eles recorrem à força de muitas palavras para serem ouvidos. O Pai já está sabendo de nossas necessidades antes que abramos a boca. INTIMIDADE E CONFIANÇA EM DEUS. É a primeira característica.
A segunda característica da oração cristã, sublinhada no Pai Nosso, é que ela busca, em primeiro lugar, A GLÓRIA DE DEUS. É quando a oração vira louvor, adoração. Os primeiros pedidos do Pai Nosso, segundo Mateus, referem-se a Deus, buscando a sua honra e a sua glória. “Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”. São três pedidos, todos dirigidos à glória de Deus: a santificação do seu nome, a vinda do seu Reino, a realização de sua vontade. Buscar, em primeiro lugar, a GLÓRIA DE DEUS. É a segunda característica.
A terceira característica da oração cristã é o pedido a Deus pelo NOSSO BEM TEMPORAL E ESPIRITUAL. É o que nós precisamos para viver com dignidade e em santidade. No Pai Nosso, são quatro os pedidos em nosso favor. “O pão nosso de cada dia, nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”. O pão de cada dia, o perdão dos pecados, a vitória sobre a tentação e a libertação do mal. O ‘pão de cada dia’ compreende o emprego, o trabalho, a refeição, a segurança… São as necessidades de nossa sobrevivência. Mas, nem só de pão vive o homem. Também precisamos do perdão dos pecados e da restauração da vida, a partir da conversão e do crescimento do homem novo. Igualmente, precisamos da vitória sobre a tentação e a libertação do mal. A BUSCA DO NOSSO BEM é a terceira característica.
A quarta característica da oração cristã é o COMPROMISSO. Nos três primeiros pedidos do Pai Nosso, desejando a glória de Deus, na verdade estamos nos comprometendo em santificar o seu nome, acolher o seu Reino, realizar a sua vontade. Nos quatro pedidos em nosso favor, não estamos delegando tudo a Deus, para ficar de braços cruzados esperando ele agir. Reconhecendo a mão de Deus em nossa vida, estamos nos comprometendo a ganhar o pão de cada dia com o nosso trabalho, a nos esforçar no caminho da conversão e do perdão aos nossos agressores, a fugir das ocasiões de pecado e a lutar contra o mal. A oração nos compromete. COMPROMISSO é a quarta característica.

(Fonte)

Somos semeadores

(Vandeia Ramos)

Muito bonita a imagem da leitura de ontem de Ezequiel (Ez 17,22-24), de vivermos sob a sombra do Senhor. Nesta relação de confiança que não tememos enfrentar a morte, pela certeza de ir ao seu encontro. No entanto, temos uma missão enquanto estamos por aqui: de semear.
O evangelho nos traz imagens muito bonitas. Ele vai do serviço que, de repente, dá frutos, ao encontro pessoal com Jesus, que nos ilumina e nos ajuda a entender sua Palavra.
Temos vivido momentos difíceis. A aprovação do aborto na Argentina e o crescimento da cultura da morte nos questiona sobre o trabalho que temos feito, onde está a catequese, a mistagogia, o testemunho evangélico no mundo. Há momentos que parecem que a fé está enterrada na terra sem força… A violência e o sofrimento do mundo nos confrontam.
Com isso, nos sentimos impulsionados a tomarmos partido, a assumirmos uma posição frente a diversas situações. Muitas vezes nos deixamos tomar por ira e atitudes de confronto, passando de vítimas a agressores.
É aqui a armadilha que precisamos ficar atentos.
Que há uma cultura que quer nos perder e nos envolver em suas tramas, é fato. Que quer colocar a pessoa como centro e responsável, é inegável. Que desfigura o rosto humano em massa, em inimigo, em alguém a combater, é cada vez mais óbvio.
E aqui perdemos a fé de que Deus é o Senhor de todas as coisas, de que conduz a história, de que cuida de cada um de nós com um amor terno, que nos chama a morrer como a semente para que possamos dar frutos como o grão de mostarda.
Sim. Há situações que nos confrontam e interpelam. Mas nós também sabemos qual é o caminho para Ele. Se há um espaço crescente para a cultura de morte, testemunhemos como redobrado amor o anúncio da vida. Temos tudo o que nos é necessário: a comunhão, a confissão e a oração.
É permitir-se a alegria de encontrar Jesus depois do encontro com a multidão. É o recolhimento no silêncio para a entrega de todas as nossas preocupações e abertura para a escuta.
Sabemos a quem recorrer como modelo: Nossa Senhora. O que ela faria em nosso lugar? O que Maria fez quando Herodes ordenou a matança das crianças inocentes? Qual a atitude perante a morte de seu Filho?
Seguir acreditando quando tudo concorre contra é um exercício diário de viver entre a sombra do cedro e o continuar semeando, de deixar-se morrer na terra para germinar e o silêncio do encontro pessoal com Cristo, de aprender a rezar o terço para, junto com Maria, compreender os mistérios de Deus para conosco.
Não estamos sozinhos! Jesus e Maria caminham conosco.