Consagrados por Maria

(Vandeia Ramos)

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Logo após o anúncio do anjo, Maria dirige-se “apressadamente” para casa de sua prima Isabel. Ela é a Mãe que não espera nosso chamado, mas nos conhece e nossas necessidades. Maria é figura da Igreja. Através dela, podemos receber Jesus e aprendermos a “fazer tudo o que Ele disser”.
Isabel, cheia do Espírito Santo, identifica-a como “a Mãe do meu Senhor”. Ela acabou de ficar grávida e sua prima anuncia que será mãe não de um simples menino, mas do Senhor, ensinando-nos a vê-la como o primeiro Sacrário. Não há competição entre Mãe e Filho. Onde Maria está, Jesus também está.
É através de sua maternidade que nos chega o Salvador. Desde Gn 3, 15, Mãe e Filho fazem parte da mesma promessa, que vai perpassar toda a Sagrada Escritura, do Gênesis ao Apocalipse. Como disse São João Paulo II, na Encíclica Redemptoris Mater, é preciso que conheçamos Nossa Senhora a partir da Bíblia, considerando uma Teologia da Mulher. O então Cardeal Ratzinger, hoje nosso fofo Papa Emérito Bento XVI, a partir desta encíclica, escreveu um brilhante texto, “Sob signo da Mulher”.
Em Maria, toda a humanidade, de modo especial as mulheres, participam da vida da graça e podem cantar o Magnificat, glorificando a Deus pelas maravilhas que faz a nós, em nós, e em seu povo. Ela anuncia com todo o seu ser quem é Deus e a que missão chama o ser humano: a gestarem em conjunto uma nova filiação divina, de sermos filhos no Filho.
Da maternidade de Jesus, Nossa Senhora recebe aos pés da cruz de seu Filho a todos nós. Quando Jesus tinha dado tudo de si, deu-nos sua Mãe para sermos seus discípulos amados, irmãos, e a levarmos para casa. São Luís Maria Grignion de Montfort diz que todos os santos são gerados enquanto tais no ventre de Maria. As Igrejas mais antigas têm a cúpula em cima do altar na forma de um útero, identificando Nossa Senhora como Mãe da Igreja, Mãe dos filhos de Deus.
Ele é a Arca da Aliança, sinal de esperança, vestida da graça do Filho, o Sol. A luz, que reflete Jesus, está em quarto crescente e não consegue mais iluminar – é a Igreja desacreditada e perseguida, sem voz para proteger os seus. Quando tudo parece perdido, Nossa Senhora nos vem como sinal de que temos Advogada. E é no deserto que a Igreja se encontra protegida, no esvaziamento de tudo e na plena confiança de que estaremos sempre guardados.
Jesus, tendo ascendido ao céu, como quis ter uma Mãe na terra, também quis que a acompanhasse. Maternidade é para a eternidade. Santa Brígida nos conta que, em uma visão, viu Jesus dizer a Maria: “Mãe, nada me negaste na terra. É justo que nada te negue no céu”. O Perfeito Filho da Perfeita Mãe.
Depois de uma coroa de espinhos, Jesus eleva sua Mãe à mesma dignidade, a de Rainha do Céu e da Terra, seguindo o mandamento que nos deu de “honrar os pais”. Honrar que pode ser traduzido por glorificar. Então, um Filho não pode ser maior que a Mãe. Aqui não é uma questão de natureza, mas de graça. Enquanto Jesus é Rei por natureza, eleva sua Mãe pela graça ao céu, com uma coroa de doze estrelas.
A Assunção de Maria é uma figura de nossa própria ressurreição. Jesus foi primeiro e não poderia deixar sua Mãe com uma dignidade que não lhe fosse semelhante. Por Maria, a pessoa humana inteira encontra-se salva, em corpo e alma, carne e espírito. Tendo vencido a morte, Jesus eleva sua Mãe, participante desde o primeiro instante, da Encarnação à Paixão, da alegria à dor.
Por Maria, podemos entender o grau de amor que Deus tem por nós, confiando em passar nove meses em seu ventre, trinta anos em sua casa, três anos em idas e vindas. Na hora mais difícil, Jesus quis sua Mãe com Ele, aos pés da cruz. Como negar à ela a participação nas alegrias do céu?
Ela avança com seu exército em frente de batalha, com o cortejo de seus filhos, nós, para ser recebida pelo Rei e ser colocada à sua direita. Quem reconhece a grandeza de Maria, sabe o quanto Deus é grande. O que mais poderia querer o Filho além de que também a amemos e a levemos para casa?

Pequeno Rebanho

(Vandeia Ramos)

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A expressão de Jesus no início do Evangelho é de ternura. Somos as ovelhas do Senhor, unidas em um pequeno rebanho muito querido. Nós nos sentimos como se estivéssemos sendo acarinhados… Ele quer nos mostrar seu cuidado para conosco, para que confiemos e não tenhamos medo das situações em que vivemos, de atender ao seu chamado, de olhar reto para o Céu, para o Reino de Deus. Não é uma simples promessa a se realizar em um futuro incerto. O Reino já acontece em nós!
Não é por mérito, por algo que tenhamos feito, mas simplesmente porque o Pai quis! É gratuito, é por amor! Deus nos quer com Ele, fazendo parte de sua vida já aqui, até chegarmos à plenitude do Céu. Esta fé elimina muitos possíveis fardos que possamos acreditar que tenhamos que carregar… E chama somente para que estendamos a mão e aceitemos sermos conduzidos.
Isso significa que precisamos nos desapegar de tudo que possa atrapalhar nossa caminhada, que possa nos reter. E isso só acontece na confiança plena de quem nos chama, à medida em que vamos nos conformando, tomando a forma de cristãos, deixando a graça agir em nós e a partir de nós.
Envolve prontidão para a ação, para atender aos que precisam, a estarmos atentos aos sinais que nossos catecúmenos apresentam, de problemas que possamos ajudar; de desenvolver a sensibilidade de ver as necessidades dos que estão à nossa volta, de trabalhar para que os demais descansem. Seguindo o modelo do lava-pés, nossa casa é sempre a primeira referência, da pia de louça ao quarto, da roupa para lavar e passar a colocar as coisas no lugar. Este testemunho silencioso nos forma para a atenção aos demais.
Somos pessoas cheias de dons. Eles nos foram dados por Deus para que façamos uso em prol dos demais. Ele nos tornou Seus arautos, anunciadores da Boa Nova com nossa própria vida. Dia a dia, inúmeros bens são nos confiados, da crescente compreensão da Mensagem Evangélica ao suspiro de cada instante. Sempre para aprendermos a fazer de nossa vida uma oferta de amor e sacrifício.
Quando chegar o momento em que Jesus virá nos chamar, e não sabemos quando será, podendo mesmo ser agora, o que temos para apresentar? O que fizemos com tanto que recebemos? Todo o tempo que recebemos, todo o acesso a bens espirituais, a vida em comunidade na Igreja, a família que nos cuida e somos chamados a cuidar, nossos estudos e trabalhos?… Como nos apresentaremos diante dEle?
Participamos dos bens celestes através dos dons que recebemos. Isso envolve testemunho e anúncio, antecipação do Reino, iluminar o mundo, receber resistência das trevas.
A fé que sustentou gerações é nossa base. Nela descansamos no Senhor frente às dificuldades e alegrias, apelos, acomodações e certezas. Conforme afirmamos a fé frente às adversidades, crescemos na certeza de que nosso lugar é o céu. Aqui é somente um lugar de passagem, para que possamos crescer em Deus e aprendermos a conviver com os demais, preparando-nos para o Reino definitivo.
Assim, na herança que recebemos da Igreja, podemos cantarmos juntos com os nossos que “feliz é o povo que o Senhor escolheu por sua herança!”
Somos muito felizes por ter nossa vida como a vinha do Senhor. Que Ele ao voltar nos encontre “em paz, puros e santos”.

Cidadãos do céu

(Vandeia Ramos)

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Nossa vida é repleta de preocupações, ainda mais no domingo… Amanhã a semana “útil” começa e já separamos roupa, lanche… Precisamos garantir o nosso e dos demais… Sabemos o quanto um sorriso e um abraço pode tanto mudar nosso dia, semana, como de todos. Cumprimentar as pessoas na rua, agradecer, desculpar-se… tanta diferença faz num mundo indiferente para relações mais humanas…
Aqui que entramos com Jesus. Somos novas criaturas, cidadãos do céu. Não é que bens materiais não sejam importantes, afinal temos contas a pagar. É que eles são instrumentos de vida, e não motivos de vida. Trabalhamos porque nosso servir contribui de alguma forma para um mundo melhor, mais fraterno. O salário é consequência, não objetivo. Ao trabalhador, o justo valor. Se sou professora, por exemplo, trabalho para que meus alunos aprendam. Deus deu o suficiente para todos. Então, se abunda de um lado, está faltando de outro. Somos ricos em dons. Eles os são dados para partilhar, para que cheguem aos demais.
Casa, comida, roupa, um valor para emergências… necessidades que temos e que são justas. E situações de crise são momentos privilegiados para que avaliemos o que realmente é necessário. Quantos pares de calçado? Quantas roupas? Utensílios diversos… O mercado consumidor fomentou questões que fomos aceitando sem o devido discernimento. Olhemos em torno de nós e vejamos o quanto realmente poderíamos passar sem. Qual a última vez que fizemos uma geral em nossas coisas?
E se Jesus nos chamar esta noite, estamos prontos para deixarmos tudo para trás e seguir adiante? O que seria mais difícil? Onde está seu tesouro? Será que enchemos nossa vida de vento? Será que trabalhamos e estudamos para juntar poeira? Existe uma distância entre sobreviver, viver e luxo.
Podemos nos perguntar também quanto ao tempo que gastamos com cada atividade. Realmente, quantas nos são necessárias? Faço por que quero, por que preciso ou por que é um chamado de Deus? Vivo para servir ou vivo para me servir das coisas e das pessoas? Onde está o centro da minha vida?
Estamos no mês das vocações e hoje celebramos o sacerdócio ministerial, tendo o Cura D’Ars como modelo. Desde criança, São João Maria tinha Deus como centro da sua vida. Nascido em 1786, vésperas da Revolução Francesa, sabemos o quão difíceis eram estes tempos para viver a fé. No entanto, São João Maria não olhou para suas dificuldades e tempo como empecilhos, e sim como desafios. E enfrentou-os.
É de conhecimento suas dificuldades de aprendizagem no seminário, como na elaboração das homilias. Então ele acordava cedo para ter mais tempo de se preparar. Se há um problema, é para ser superado. Sem perder a perspectiva da vida eterna, via as pessoas como irmãs, enternecendo-se pelas que mais precisavam. Do quase nada que tinha, colocou Deus como seu tudo, em uma vida de escolha fundamental.
Da perspectiva do céu, olhava as coisas da terra. A partir de Deus, via o mundo. Da relação amorosa com Nossa Senhora, tinha a todos como irmãos. Entre o altar e o confessionário, acolhia sua comunidade, que reconhecia no cura mais que um amigo: alguém a partir do qual se poderia chegar ao céu.
Celebrar o dia do padre, é centralizar toda a vida cristã na Eucaristia, no próprio Jesus Cristo, e em seu Corpo Místico, a Igreja. É repensar como Ele nos deixou sua continuidade a partir de ministros especiais, que escolheram aceitar a vocação de serem os que, através de suas palavras, trazer a Palavra até nós. Tal dignidade requer o sustento de sua comunidade, principalmente através de orações.
A vida espiritual se torna ponto de partida para todas as demais dimensões. É o que vai dando sentido, direção e retorno. Do Povo de Deus, Ele chama alguns para ser refúgio do Senhor, alimentando-nos em nossa caminhada. “Que a bondade do Senhor e nosso Deus repouse [sobre nossos sacerdotes,] sobre nós e nos conduza! Tornai fecundo, ó Senhor, nosso trabalho.”

Catequistas, mediadores da misericórdia

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Religião vem de re-ligare, referente à relação entre nós e Deus. Jesus é o Filho que nos faz filhos, através do qual nos relacionamos com o Pai. Um dos caminhos que Ele nos apresenta é da oração, a conversa íntima entre Pai e Filho. É pelo seu exemplo que os discípulos querem também ter esta intimidade. E pedem a Jesus que lhes mostre o caminho. Como catequistas, somos modelo para os nossos catecúmenos. Pelo nosso testemunho na relação com Deus que vão seguir.
Seguindo o caminho judaico, a oração do Pai Nosso começa com a beraká, o reconhecimento de Deus como Deus, primeiro mandamento, a partir do qual somos criados e salvos, e que nos oferece todo o necessário para viver.
Recebida a criação como usufruto, o alimento não é individual, é sempre nosso, no plural, para todos. Deus não dá nada para alguém guardar, sempre para que seja mediador entre os demais, na responsabilidade assumida pelos primeiros seres humanos. Não dá para se fartar feliz no almoço de domingo enquanto tantos nada têm para comer. Não dá para ignorar os que mais precisam, seja de bens materiais como espirituais. Por isso somos catequistas, para, através de nós, o pão espiritual chegar aos que nos são colocados.
No ir aos demais, aos nossos catecúmenos, conhecer suas vidas, necessidades, limites, dramas… que vamos percebendo o quanto somos responsáveis uns pelos outros, o quanto somos pequenos frente a tanto, o quanto crescemos e nos tornamos mais gente. Vamos nos conscientizando de nossos erros, falhas, pecados. E vamos aprendendo a rezar.
Nesta crescente humildade que vamos percebendo que só somos perdoados à medida que perdoamos. Como – igualdade. Vamos nos associando às dores humanas, comuns a todos nós; às limitações de nosso estado, pedindo a Deus que nos ajude. Tudo que Ele quer é que estejamos bem em seu colo. E não resiste aos nossos pedidos por ajuda. Também não somos assim quando recebemos pedidos sinceros e humildes de ajuda?
Na segurança de que somos amados que ousamos pedir também pelos outros. Jesus nos ensina e podemos entender melhor Abraão. Ele não sai correndo para salvar as cidades da “fúria de Deus”, nem mesmo de seus pecados. Ele sabe que Deus pode tudo, inclusive salvar os moradores de si mesmo. Não é o que Ele faz conosco? E apela ao coração.
O que está em questão é quem pede e como pede. Aqui entra cada um de nós. Com acesso ao coração de Deus, podemos pedir pelos nossos, quando nem eles pensam sobre. Pela nossa oração que a misericórdia chega ao mundo. Como batizados, somos portadores da graça.
Como catequistas, associamos a nós mesmos à cruz de Cristo. Pela nossa disponibilidade, oferecimento diário, oração constante, ações, palavras e atitudes, vamos morrendo para nosso egoísmo e individualidades, preocupando-nos mais pelos demais. Abrimos mão de nossas vidas para que os demais a tenham em abundância. E a vida passa a jorrar em nós.
Assim, o Jesus que anunciamos é o mesmo que mora em nós, com O qual vivemos como irmãos, aprendemos a seguir seu Caminho, a sermos como Ele. Através deste anúncio, do que somos a partir de Jesus, que vamos atuando em nossa catequese, testemunhando que somos ouvidos em nossas orações, que nossa vida tem sentido a partir de seu amor, que Deus cumpre suas promessas e não nos deixa sozinhos.
Neste significado que podemos pedir que Deus complete sua obra em cada um de nossos catecúmenos, que não a deixe inacabada, mas que cumpra sua bondade para sempre!

Catequistas, chamados a dar o melhor de si mesmo

(Vandeia Ramos)

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É muito bonito de vermos a diversidade de chamados que temos em nossa comunidade, todos servindo a Deus através de diferentes pastorais, movimentos, grupos, funções… Sabemos pela nossa experiência o quanto a falta de alguém pode sobrecarregar aos demais, bem como precisamos rezar para que o Senhor envie mais operários para a messe. É bem a imagem paulina do Corpo de Cristo, em suas múltiplas funções pelos membros.
Somos catequistas e nosso servir está em testemunhar com nossa própria vida o privilégio que é estar próximo a Deus e sermos arautos de sua Boa Nova: Jesus Cristo presente hoje através de nós! Mas nem sempre o prazer se sobressai ao cansaço, às pressões do tempo, da família, do acúmulo de atividades… E mesmo sobre nossa vontade e orgulho. Muitas vezes acabamos por atropelar o trabalho conjunto por defendermos acirradamente nossa posição, nosso “eu acho”, ou a férrea firmeza do próprio ponto de vista. E assim a perspectiva do Espírito Santo que move a Igreja e que Nossa Senhora a guia fica fragilizada.
Em vez de procurarmos dar nosso melhor, a nós mesmos, acabamos por nos distrair de que o coleguinha não está fazendo o seu direito (segundo nossa perspectiva, é claro!). O prazer em servir torna-se um peso muitas vezes difícil. E vamos acobertando nossa limitação em fazer um ideal nem sempre alcançável ou em uma perspectiva muito pessoal na atitude de outra pessoa. É mais fácil procurar um responsável do que reconhecermos nossa limitação, mesmo nossa humilhação em não sermos suficientes, em não termos os dons que consideramos ser necessários para liderar ou realizar alguma atividade.
Aqui é a hora de oferecer tudo que somos e que temos, nossa pequenez e insuficiência, e deixarmos que Nossa Senhora faça melhor uso de nossa pessoa. E ficar feliz em simplesmente se tornar dom para Deus através dos demais. Aqui temos a plenitude do Evangelho. Não é mais dar uma parte de si, o melhor do rebanho de Abraão, a melhor farinha, os melhores bens. É mesmo quando damos o que temos de mais importante, darmos também a nós mesmos, e por inteiro.
Quando Maria se senta aos pés de Jesus, ela está inteira ali contemplando a grandeza do Filho de Deus. O prazer de servir de Marta fica ofuscado pelo prazer da irmã. Ela está confusa sobre o dom, do mesmo modo que ficamos muitas vezes.
Do mesmo modo que Abraão parou sua vida para melhor atender ao Senhor, dando o melhor de si, do que tinha e de sua presença, Deus responde na maior necessidade de Abraão, completando sua alegria com algo que ele sequer poderia pensar em formular: um filho.
Ao procurar o Reino e sua justiça, tudo o mais nos é acrescentado. O próprio Deus cuida pessoalmente de nossas necessidades, provendo nosso caminho. Ao nos entregarmos a Ele, somos configurados em nossa vida à vida de Jesus, não limitada ao aqui e ao agora, mas sinal do que está por vir.
E tudo ganha novo sentido. Servir se torna privilégio. O tudo que temos não é mais nosso. Nós não nos pertencemos. O sofrimento pelos demais se torna oferta de amor e sacrifício. Anunciar a Palavra, mesmo aparentemente indo contra o movimento ao redor, torna o mistério de Deus presente no mundo. Neste movimento entre o anúncio e o ensinamento, vamos sendo formados como filhos de Deus, agindo em nome Dele e anunciando sua vinda com a nossa vida.
A confiança em seguir na certeza de ser cuidado oferece a base de cuidar dos demais e do que mais lhes for preciso. As pessoas são olhadas na perspectiva de sua dignidade enquanto filhos amados de Deus, chamando-nos à fraternidade e à ternura. Os laços com a comunidade e com os nossos são entrelaçados de uma nova forma e força.
A quem se dá totalmente, recebe Deus totalmente. E o próprio Deus vem fazer sua morada. E quem não aceitaria tamanho Dom?

Ir aonde Jesus deve ir

(Vandeia Ramos)

Dentre tantos, Jesus nos escolheu. Não para ficarmos na arquibancada ou no banco da Igreja, e sim para nos enviar à sua frente. Muitas vezes somos os primeiros a anunciar a Boa Nova a nossos catecúmenos. Sabemos que é uma missão grandiosa, o quão inútil e insuficientes somos, que é preciso muito mais para a centralidade do Evangelho: a vida em comunidade a partir de Jesus Cristo. Somos chamados a sermos discípulos que apontam para esta realidade, de inserir os que nos são colocados sob nossa responsabilidade no cotidiano da vida da Igreja, com tudo o que isso significa.
Formar novos discípulos não termina com nossa ação. É preciso que eles sejam acolhidos e orientados, dando continuidade à sua caminhada. Pastorais e movimentos precisam estar em diálogo com a catequese para abrirem-se aos novos, continuando a própria formação de acordo com seu servir na Igreja.
Também precisamos ter a sensibilidade de compreendermos que o anúncio é exigente, permeando a vida e formando uma nova pessoa em Jesus Cristo. Isso vai configurando a cada um de nós e aos nossos de um sentido de vida que frequentemente vai contrastar com uma cultura estruturada pelo pecado. E a luz vai incomodar as trevas… Isso é só um chamado à realidade, não ameaça ou para termos medo. É preciso saber que incômodos, perseguições e adversidades são comuns a quem segue o Evangelho. Justamente assim que temos o discernimento de percebermos quem somos e o que fazemos.
Somos portadores da paz. Não precisamos ir armados, esperando o pior, com resposta pronta para tudo. Lidamos com pessoas, muitas vezes de coração ferido, magoadas, com uma história em que o problema cresceu tanto que escravizou, viciando a vida. Nossa presença precisa iluminar, nosso olhar perpassar a superfície, nossa fala alcançar o íntimo, o silêncio ser amoroso. Muitas barreiras podem ser derrubadas com um sorriso e um abraço. Outras, levam tempo. Ainda outras, não nos cabem. Façamos o nosso melhor e sigamos em frente com a consciência de sermos guiados pelo Espírito, retornando a Deus todo o nosso viver.
Sem pressa, é importante vivermos o momento que nos é oferecido como presente. Estejamos com as pessoas sem nos preocuparmos com a quantidade e com a missão seguinte. Aprendamos a receber tudo que nos cabe em uma situação, sejam coisas boas ou mesmo humilhações, aprendendo a calar e a humildade, rezar e seguir nos passos de Jesus. Se Ele passou momentos difíceis por aqui, não esperemos que conosco seja diferente. Mas também teve encontros com pessoas que o amam e morrem por Ele. Sejamos um destes.
Fazer-nos outros cristos na terra é a missão de discípulo. Na catequese, como nas demais atividades de nossa vida, somos nós que recebemos primeiro o aprendizado: identificamos os pontos importantes do encontro, pensamos como melhor desenvolver, os instrumentos necessários e acompanhamos se os mesmos foram bem recebidos. Neste movimento, reservamos um tempo para repensar a vida à luz da Boa Nova, muitas vezes citando situações pessoais para ilustrar. Vamos percebendo o quanto vencemos grandes batalhas por não estarmos sozinhos. A realidade do céu é cada dia mais firme.
Ser Igreja no mundo é ser permanentemente alimentados por esta Mãe, que nos forma desde o batismo e nos acompanha até o último respiro. Nosso cansaço é depositado em cada Eucaristia, a partir da qual somos enviados como mensageiros da caridade ao mundo. Pela Igreja somos cuidados por Deus, em tudo que precisamos, desde o Pão ao Amigo, da família de Nazaré ao trabalho nosso de cada dia. Não estamos sozinhos! Jerusalém se torna nossa casa.
Somos todos irmãos, unidade que abrange a diversidade de povos, raças, culturas, idades, nem sempre fácil de conviver, mas com a certeza de que não estamos ali por nós mesmos. A paz e a misericórdia que recebemos com nossas próprias dificuldades são a cura de nossas feridas, que também são oferecidas através de nós. Como Cristo crucificado, chegamos flagelados, cansados, machucados. Carregamos as cicatrizes como parte de quem somos, bem como sinal do cuidado que recebemos. Aprendemos que nossa dor é instrumento de proximidade com muitos e que, cuidando dos demais, a nossa ferida é cuidada.
Assim, nosso canto não é solitário, mas em família. Juntos, podemos proclamar as maravilhas que nos faz o Senhor através uns dos outros, anunciando a grandiosidade de sua obra através de Jerusalém, a Mãe Igreja que reúne, cuida e prepara a cada um de nós para o Céu.