Nosso primeiro anúncio: Ressuscitou!

(Vandeia Ramos)

Amanhecemos o domingo na alegria do canto da Ressurreição! Todo o medo, a dor e a angústia acabaram! A Igreja sai às ruas para anunciar que a morte foi vencida! Depois da Vigília Pascal, seguimos com as mulheres até o sepulcro vazio.
Muitas fontes das primeiras comunidades nos contam que, após ressuscitado, Jesus aparece para sua Mãe. A forte imagem do Filho morto em seus braços cede à presença do Cristo Vivo. Ela que esperou e acreditou, pode abraçar seu Menino. O silêncio dos evangelhos protege a intimidade a que os discípulos amados são chamados.
No preceito judaico, sem poder fazer a devida preparação pelo sábado, as mulheres correm para o devido tratamento a Jesus. E temos aqui o belo encontro de Maria Madalena. A mesma conhecida como Maria de Magdala que, mesmo sendo de origem hebreia, irmã de Lázaro, traz a referência de uma cidade de cultura helênica. Tão grande seu amor, que se compromete totalmente com o homem que encontra. Para ela, não há hesitação nem meias medidas. Da penumbra, Jesus a chama pelo nome, como nos chama também, e de um jeito que somente cada um de nós reconhece, com o tom em que se dá totalmente e nos convida a nos entregarmos. As mulheres aparecem e encontram dois anjos, emissários de Deus, que a tornam mensageiras da Ressurreição!
Madalena vai anunciar a Vida aos discípulos. Pedro e João correm também para o encontro no sepulcro. Pedro, mesmo arrasado pela negação, não fica se remoendo em culpa. Ele quer uma nova oportunidade de encontrar o Senhor. O jovem João para e espera que Pedro entre primeiro. Ele é o “irmão mais velho”, o responsável pelos demais, e sua negação não lhe tira a posição que o próprio Jesus lhe colocou. As faixas estão lá, dobradas – testemunho de que não foi roubado e com o cuidado em dar por cumprida a missão. A crença dos fariseus em acreditar na ressurreição no último dia é apresentada como consumada. O que era para ser no fim passa a ser um novo começo.
O Evangelho de Lucas, na missa vespertina, apresenta os discípulos de Emaús voltando para casa. O sonho do Messias que libertaria do Império Romano tinha acabado. Jesus seria, sim, um grande profeta, e por isso tinha sido perseguido e morto. A tristeza e a decepção fecharam o coração e a mente, a ponto de não identificarem o Mestre caminhando ao lado deles. Mesmo assim, temos um dos mais bonitos convites que podemos fazer a Jesus: “Fica conosco, pois é tarde e a noite vem chegando!” Só então Ele partilha o Pão e o Vinho, tornando-se presença viva todos os dias, até o seu retorno. Da Partilha da Palavra à Eucaristia, não estamos sozinhos!
Só de noite, com tudo fechado, que Jesus aparece aos discípulos reunidos. Depois de sua Paixão, Morte e Ressurreição, Ele só aparece para os seus. Com as fontes de fácil acesso, podemos identificar a ordem conhecida: Nossa Senhora, Maria Madalena, discípulos de Emaús e os apóstolos. Fico imaginando o que os Evangelhos não disseram, mas que temos em revelações privadas…
Depois de um dia inteiro de diversas presenças entre os seus, Jesus aparece para os seus escolhidos, os mesmos que fugiram, negaram e, entre eles, ainda que não mais presente, traíram. Conhecedor de seus corações, temos aqui um retrato nosso. Caminhamos por tanto tempo com Jesus, recebemos os sacramentos, nos tornamos seus arautos e muitas vezes o traímos, negamos e fugimos. E somente com a Igreja reunida que podemos viver sua presença entre nós. Na coragem heroica de passarmos por toda a quaresma, os exercícios espirituais de conversão, a confissão e toda a Semana Santa, temos nosso encontro com Jesus Ressuscitado.
Passamos pela experiência única cristã que é morrer com Cristo para com Ele ressuscitarmos. Acompanhamos toda a caminhada entre a Judeia e a Galileia. Partilhamos de sua vida e Ele passou a fazer parte da nossa, tornando-nos seus seguidores.
O Domingo é nossa contribuição para todo o Ocidente, o dia de descanso, de encontro com o Senhor. Hoje de modo muito especial, pois já torna presente a realidade de nossa própria ressurreição em Cristo. É o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!
Feliz Páscoa! Sigamos na alegria do Ressuscitado, que nos torna participantes de sua vida já aqui, preparando-nos para a eternidade!

A celebração mais linda

sabado-santo

O Sábado Santo não é um dia vazio, em que “nada acontece”. Nem uma duplicação da Sexta-feira Santa. A grande lição é esta: Cristo está no sepulcro, desceu à mansão dos mortos, ao mais profundo que pode ir uma pessoa. O próprio Jesus está calado. Ele, que é Verbo, a Palavra, está calado. Depois de Seu último grito na cruz – “Por que me abandonaste?” –, Ele cala no sepulcro agora. Descanse: “tudo está consumado!”.

Vigília Pascal
Durante o Sábado Santo, a Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando Sua Paixão e Morte, Sua descida à mansão dos mortos, esperando, na oração e no jejum, Sua Ressurreição. Todos os elementos especiais da vigília querem ressaltar o conteúdo fundamental da noite: a Páscoa do Senhor, Sua passagem da morte para a vida.
A celebração acontece no sábado à noite. É uma vigília em honra ao Senhor, de maneira que os fiéis, seguindo a exortação do Evangelho (cf. Lc 12,35-36), tenham acesas as lâmpadas, como os que aguardam seu senhor chegar, para que, os encontre em vigília e os convide a sentar à sua mesa.

Bênção do fogo
Fora da Igreja, prepara-se a fogueira. Estando o povo reunido em volta dela, o sacerdote abençoa o fogo novo. Em seguida, o Círio Pascal é apresentado ao sacerdote. Com um estilete, o padre faz nele uma cruz, dizendo palavras sobre a eternidade de Cristo.
Assim, ele expressa, com gestos e palavras, toda a doutrina do império de Cristo sobre o cosmos, exposta em São Paulo. Nada escapa da Redenção do Senhor, e tudo – homens, coisas e tempo – estão sob Sua potestade.

Procissão do Círio Pascal
As luzes da igreja devem permanecer apagadas. O diácono toma o Círio e o ergue, por algum tempo, proclamando: “Eis a luz de Cristo!”. Todos respondem: “Demos graças a Deus!”.
Os fiéis acendem suas velas no fogo do Círio Pascal e entram na igreja. O Círio, que representa o Cristo Ressuscitado, a coluna de fogo e de luz que nos guia pelas trevas e nos indica o caminho à terra prometida, avança em procissão.

Proclamação da Páscoa
O povo permanece em pé com as velas acesas. O presidente da celebração incensa o Círio Pascal. Em seguida, a Páscoa é proclamada.
Esse hino de louvor, em primeiro lugar, anuncia a todos a alegria da Páscoa, a alegria do Céu, da Terra, da Igreja, da assembleia dos cristãos. Essa alegria procede da vitória de Cristo sobre as trevas. Terminada a proclamação, apagam-se as velas.

Liturgia da Palavra
Nesta noite, a comunidade cristã se detém mais que o usual na proclamação da Palavra.
As leituras da vigília têm uma coerência e um ritmo entre elas. A melhor chave é a que nos deu o próprio Cristo: “E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes (aos discípulos de Emaús) o que dele se achava dito em todas as Escrituras” (Lc 24, 27).

Liturgia Batismal
A noite de Páscoa é o momento que tem mais sentido celebrar os sacramentos da iniciação cristã. O sacerdote que preside a celebração, nesta noite, tem a faculdade de conferir também a confirmação do batismo, para fazer visível a unidade dos sacramentos da iniciação.
Se houver batismo, deverão chamar os catecúmenos, que serão apresentados pelos padrinhos à Igreja reunida.

Ladainha de todos os santos
Nós, Igreja peregrina, em profunda comunhão com a Igreja do Céu, reafirmamos nossa fé e pedimos a intercessão daqueles que nos precederam na glória do Cristo ressuscitado.

Bênção da água batismal
Durante a oração, o sacerdote mergulha o Círio Pascal na água uma ou três vezes. Se houver batismo, cada catecúmeno renuncia ao demônio, faz a profissão de fé e é batizado.
A bênção da água trata-se, sobretudo, de bendizer a Deus por tudo o que Ele fez, por meio da água, ao longo da História da Salvação. Neste momento, o padre implora ao Senhor que, hoje, também este sinal atualize o Espírito de vida sobre os batizados.

Renovação das promessas batismais
Após o rito do batismo (se houver) ou da bênção da água, todos, em pé e com as velas acesas, renovam as promessas do batismo.
Terminada a renovação das promessas, o sacerdote asperge o povo com a água benta, enquanto todos cantam. Neste dia, é omitido o creio; em seguida, é presidida a oração dos fiéis.

Liturgia Eucarística
A Celebração Eucarística é o ápice da Noite Pascal. É a Eucaristia central de todo o ano, mais importante que a do Natal ou da Quinta-feira Santa. Cristo, o Senhor Ressuscitado, nos faz participar de Seu Corpo e de Seu Sangue, como memorial da Sua Páscoa. É o ponto mais importante da celebração.

Catequistas, servos de Cristo!

(Vandeia Ramos)

Para um católico que vive a fé, impossível não se emocionar com o canto de hoje da Igreja. Já vamos chegando e agitando nossos ramos num único “Hosana, hey!”. É a Semana Santa que começa, o centro e ápice do Cristianismo, o conteúdo do kerygma apostólico, a primeira mensagem a ser anunciada, em um único mistério: amar como Ele nos ama. Para os cristãos, não basta amar ao próximo como a si mesmo. Para quem vive o mistério de amor velado da cruz, é preciso mais. Se não doer, não é amor.
Juntamo-nos com nossos catecúmenos ao movimento da Igreja que recebe o Rei, vindo em um burrinho, entrando em Jerusalém. Fico pensando no que Pilatos e Herodes, que andam com toda a pompa, não teria pensado da cena… E os apóstolos cantando vitória, súditos do Messias que viria estabelecer o Reino de Deus. Na ideia de que bastaria um levantar de braços para formar um exército e derrubar o Império Romano, a alegria do dia anuncia Jesus Cristo, Rei do Universo, mas, para muitos de nós, a ideia de uma possível vitória política e militar não consegue ser superada.
Não é nosso impulso que todos se convertam ao Catolicismo? Não é uma frustração constante que muitos da nossa família ofereçam resistência às escolhas de fé que assumimos? Não reclamamos com frequência de políticos, de personagens da história, muitas vezes com a sensação de que, se fizessem o que eu acho melhor, daria certo? Parece tão simples derrubar o Imperador, Herodes, presidente, prefeito… E estabelecer o Reino de Cristo, uma nova Cristandade…
Teremos uma longa semana, intensa, em que tudo que significa ser cristão receberá graças especiais. Toda nossa atenção estará dirigida para o Tríduo Pascal, em que toda e falsa concepção de Messias e Reino caem… E nem todos suportam ver tudo que desejaram e imaginaram cair… Jesus vai se revelar totalmente na cruz, como nos apresentará João.
A Missa do Crisma, na quinta-feira pela manhã, reunirá toda a Igreja local em torno da memória da instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial. A unidade de toda a Igreja, unida a seu bispo, em comunhão com Roma, é celebrada. Em torno da mesa eucarística, a Igreja se oferece com Cristo, por Cristo e em Cristo, dando ao Pai toda honra e toda a glória, em um movimento ascendente no Espírito. Do mesmo modo que Jesus veio até nós, aqui nós somos levados por Ele ao Pai.
De noite, a missa nas comunidades. Jesus nos convida a nos despojarmos para que possa lavar nossos pés. Gesto de servo que, recebendo seu senhor que vem da poeira da rua, prepara-o para entrar em casa. Nós, que andamos pelas estradas do mundo para testemunhar Cristo, somos por Ele preparados para a Ceia. É o ensinamento do ser Igreja e do que significa uma hierarquia. A responsabilidade, o cuidado, a atenção com os demais crescem quando assumimos responsabilidades maiores. Mesmo com os que partilham o prato conosco e nos vendem.
O Jardim do Getsêmani é um momento único. Primeiro penso nos amigos, que esperam a glória desde a entrada em Jerusalém, que partilham a Ceia Judaica, que passam pela Nova e Eterna Aliança, mas que não conseguem ficar acordados nos momentos de angústia. Penso na Igreja, em tantos momentos difíceis, em que Jesus só nos pede para permanecer com Ele, mas que acabamos nos inebriando entre a taça de vinho e o sono. Antes de qualquer missão, a Paixão, a Morte e a Ressurreição, o aprender a permanecer.
Também lembro de Maria. Se uma mãe sabe tudo que acontece com um filho, que dirá a Mãe. Se os amigos mais íntimos dormiram, como teria ficado Nossa Senhora? Quando nós não conseguimos permanecer, é Ela que permanece velando, em vigília, por nós.
Para Lucas, médico, o suar sangue é uma referência do sofrimento a que Jesus chega. Fico pensando em sua dor: a traição do amigo, o abandono dos seus, em tudo que sua Esposa, a Igreja, teria que passar na história a partir da cruz, quantos não usariam sua posição privilegiada e, por interesses pessoais, usariam a Igreja para benefício próprio, vendendo por 30 moedas… Jesus não recua, Ele segue e se entrega aos soldados, para que os seus vivam, para que possamos ir para o Céu.
Tanto significado tem o silêncio da sexta-feira e do sábado: dor, vergonha, solidão, remorso, medo…
Possamos ter a coragem de nos colocarmos ao lado de Nossa Senhora, que, mesmo com toda a dor de Mãe, acompanha seu Filho em sua Paixão, permanecendo em pé até o último suspiro de Jesus, e esperando a alegria da Ressurreição na manhã de domingo.
Que esta Semana nos faça pelas expectativas deste domingo de Ramos e aprendamos a reconhecer a cruz como único caminho para o Reino.

Entre o julgar e a responsabilidade no pecado

(Vandeia Ramos)

Chama nossa atenção o constante movimento de Jesus: da noite na montanha ao ensinamento ao povo de dia. Entre o recolhimento constante e a saída para anunciar, ensina-nos a fazer o mesmo movimento: de nossas coisas, nossos afazeres, nossa vida pessoal, às idas para a Iniciação Cristã, para o trabalho, para as missões que Deus nos confia. É em missão que somos surpreendidos pelos questionamentos, em nossa coerência cristã. Nossos catecúmenos, suas famílias, nossos amigos, pessoas com que lidamos em nosso cotidiano frequentemente nos questionam sobre a fé, seja por dúvida, seja para nos colocar à prova. E Jesus nos apresenta uma perspectiva evangélica para responder, que só conseguimos identificar se a tivermos vivendo, no conjunto de toda a Boa Nova.
A mulher surpreendida em adultério é apresentada, com a memória da Lei sobre o apedrejamento. Quantas vezes não nos apresentam armadilhas semelhantes? Quantas vezes somos chamados a nos posicionarmos em julgamentos, como se fosse uma questão de isto ou aquilo, e o centro fosse a letra e não a pessoa humana? É sempre um julgamento, com o ápice no Gólgota. O modo como vivemos a quaresma nos ajuda a nos posicionarmos perante a cruz e, consequentemente, frente às diversas questões.
Aqui temos uma mulher, acusada historicamente de ser a sedutora dos homens. A compreensão é de que ela é associada à serpente e o homem, inocente e fraco frente às suas artimanhas, precisa se impor para não ser dominado. Com argumentos semelhantes e derivados se justifica uma estrutura de opressão, de reclusão, autoritarismo, entre violência doméstica, pública e diferentes graus de cidadania. E podemos fazer a mesma leitura para outros grupos, como menores e idosos.
Especificamente quanto à questão da mulher, é preciso lembrar de que a humanidade é dupla, criada em uma solidão original que tem a unidade de dois como expressão de amor, conforme nos ensina São João Paulo II. Só na perspectiva desta unidade que podemos falar de salvação e de plenitude humanas. Daí a gravidade de toda e qualquer ação contra a mulher. Daí também rompermos com permanências históricas e sociais sobre suas diferentes formas de atuação. Vale a pena ler a carta apostólica de São João Paulo II, Mulieris Dignitatem. O texto O Signo da Mulher, do então cardeal Ratzinger (nosso amado Papa Emérito Bento XVI) é uma reflexão sempre oportuna e atual sobre o escrito de seu antecessor.
Sobre este trecho específico do evangelho, temos a situação marginal a que a mulher é inserida, explorando sua pessoa de diversas maneiras, para acabar sendo acusada de sedução. Hoje temos a expressão de “acusar a vítima”. Mas Jesus também não acusa os homens. Ele sabe que a estrutura que violenta a mulher, em uma aparente fraqueza masculina, também o coloca como vítima de si, em uma constante repetição de Gn 3, 12, em que, omitindo-se de sua culpa, acusa a mulher e, por fim, o próprio Deus, de seu pecado.
Em uma atualização de Gn 3, 11, Jesus pede que, quem não tiver pecado, atire a primeira pedra. O coração humano sabe que é responsável pelos seus próprios atos e, um a um, cada homem presente vai se retirando. Uma verdade é estabelecida com a saída de cada um: a responsabilidade. A participação da mulher no adultério não é negada, e sim redimensionada, como foi o fruto em relação às demais árvores do jardim.
Somente sozinho com a mulher é que Jesus lhe dirige a palavra. Pelo costume de então, não se devia falar com uma em público. Além de Jesus não querer expor a intimidade do que tinha para lhe falar. Não seria assim o julgamento final, onde poderíamos perceber nossa participação pessoal na estrutura de pecado que temos? De reconhecermos nossa atuação? De não podermos acusar aos demais sem antes nos percebermos como responsáveis? Não é a semana de confissão em muitas de nossas paróquias, preparando para a Páscoa?
“Do modo como julgares, serás julgado” (Mt 7, 2), e tantas outras passagens. É deste modo que Deus prepara seu povo, seus escolhidos. É deste modo que conhecemos a misericórdia de Deus e seguimos ao seu encontro. Assim, estaremos preparados para cantar na manhã da Ressurreição: Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!

Catequistas, embaixadores de Cristo!

(Vandeia Ramos)

O Evangelho de hoje é conhecido tanto como Evangelho do Filho Pródigo como Evangelho dos Dois Irmãos, o que traz duas perspectivas diferentes. Quando nossa atenção recai sobre o Filho Pródigo, a figura do Pai se destaca. Tradicionalmente lemos nós mesmos, pecadores insistentes, e nossa permanente necessidade da misericórdia de Deus. A ordem é simples: vivemos na casa do Pai, mas frequentemente desviamos a atenção e acabamos sendo atraídos para coisas que o mundo nos oferece: vida fácil, prazer, falsas amizades, diversão desregrada… tudo centralizado no que suponhamos ser uma necessidade ou mesmo o que nos deixamos convencer como sendo o melhor. Claro que, quando o dinheiro, a saúde, a beleza, a juventude… acabam, ficamos abandonados à própria sorte, entre os miseráveis, os impuros, os porcos. Nem seu alimento, o resto dos demais, temos permissão de comer. Quantos de nossos irmãos não estão esquecidos nestas condições?…
Para uma família judaica tradicional, fica faltando uma personagem importante, que dificilmente aparece em público, mas está em momentos decisivos: a Mãe. Ela não só se ressente da ausência do Filho, como sua tristeza sensibiliza a família. Em toda visita, ela recebe a esperança de ter notícias. Há os que defendem que é esta tristeza-esperança que sustenta a sensibilidade do Pai. Fazemos rapidamente a relação com Nossa Senhora.
E temos o Irmão Mais Velho. Quantas vezes não nos colocamos como os certinhos, que não hesitam em colocar o dedo na cara de tantos, acusando-os de pecadores, pagãos… Caso nós estivéssemos no lugar do Pai, o que faríamos com nosso Irmão? O que já nos acostumamos fazer com aqueles que se afastam da família por diversos motivos? E os que não vivem a mesma fé que nós? Que não concordam com nossa opção política, profissional, moral?
Toda vez que leio este Evangelho, lembro de uma pregação do Frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. Ele identifica o Filho Mais Velho, não como um de nós, egoísta e moralmente centrados. Ele diz que Jesus é o Primogênito. Ele não fica limitado à casa do Pai, cuidando de seus negócios. Jesus vem até nós, vai ao encontro de seus irmãos, para tentar levar-nos de volta. Caso não consiga, não nos deixa sem o necessário para viver, à mercê de porcos.
Nós não somos iniciantes na fé, somos catequistas. Temos um caminho de vivência em contínua misericórdia de Deus para conosco. Ser Filho Pródigo, abandonado às misérias de porcos, não responde devidamente ao nosso perfil. Então o de Filho Mais Velho, de nossos catecúmenos, fica melhor. Somos os que se colocam como os “certinhos”, detentores de um código moral legalista, rápidos em julgar e lentos em acolher? Não estou falando de pieguismos, de que devemos fechar os olhos para o pecado. Sem este discurso em que nos colocamos como juiz que critica quem se coloca com juiz, e que não chega ao necessário.
Temos muitas demandas sociais que gritam de dor, que assumem atitudes e movimentos que muitas vezes se apresentam contra a fé que cremos. Estamos entre uma estrutura social que impõe fardos pesados aos demais. Acusamos a vítima de seu próprio sofrimento e dor, colocando-nos frequentemente ao lado dos que a fazem sofrer. Sem direito, assumimos o lugar do Pai, afastando-nos emocionalmente dos irmãos perdidos entre as misérias do mundo, em uma postura que vai do indiferente ao acusador. O discurso comum reforça o conflito, o confronto, a raiva.
Perante a dor do outro, que tem sua dignidade humana ameaçada, o que se espera de um cristão? O que Jesus e/ou Nossa Senhora fariam em nosso lugar? O Pai não se preocupou se entre os hebreus que saíram do Egito haviam os que tinham um caráter discutível, Ele enviou o Maná para todos. Também não era de modo permanente, mas com o tempo de que pudessem colher o fruto do próprio trabalho.
Somos “embaixadores de Cristo”, através de quem Jesus chega aos demais. Somos os que continuamente deixam suas casas para ir ao encontro dos que mais precisam, pois estes já não têm condições de se levantarem por si e caminhar. Somos enviados para aliviar o jugo de sua condenação, assumindo sobre nós sua dor, carregando sobre nós o julgamento dos que “dize com quem andas e eu te direi quem és”. Enquanto não conseguem caminhar sozinhos, nós cuidamos de suas feridas. Um “olho nos olhos”, uma presença que diz ao outro que ele não está sozinho, uma mão estendida, fazem mais do que discursos raivosos e condenativos, que mais reforçam a miséria do que restabelece a dignidade.
Só quem se percebe em sua limitação e continuamente vive a misericórdia, identifica a dor dos que gritam, ainda que usem palavras que escondem suas feridas profundas em raiva e ódio. Só assim podem anunciar em cada atitude quão suave é o Senhor!

Somos como a figueira, chamados a servir

(Vandeia Ramos)

O tempo passa e o coração humano continua o mesmo, talvez até mais duro se considerarmos o quanto temos recebido ao longo do tempo. Para os hebreus do tempo de Jesus, sofrimento era associado ao pecado pessoal, daí questionarem sobre a punição de Roma sobre os judeus, os mortos da queda da torre de Siloé. Mudamos o nosso coração? O ‘bem feito” perante algumas situações não nos vem à mente? Quando alguém está doente, perguntamos logo o que fez para estar? Não imprimimos diversos adjetivos ao povo quando vota em pessoas que nós não consideramos como sendo as melhores? Não temos grupos na Igreja que, muitas vezes nós participamos, e que se posicionam como os que sabem mais que e se posicionam sobre o modo como os demais devem viver?
Quantas vezes deixamos de ser servos para colocar-nos no lugar de Deus e julgamos, como se fôssemos melhores que os demais, os santos, os que não pecam? Nossa Senhora, Mãe da Igreja, acaba se tornando somente uma referência distante, não mais a que está à frente do povo. O Espírito Santo que perpassa os santos e que os queima como uma sarça, é frequentemente esquecido na condução da Igreja, principalmente quanto ao soprar onde quer.
Iniciar no Cristianismo não é sinônimo de iniciar na cristandade. São conceitos diferentes. Enquanto o segundo se refere a um tempo histórico em que a cultura é perpassada por uma política cristã, o Cristianismo é mais, é a comunidade, a família dos que são em Deus. Do mesmo modo que Deus se apresenta como sendo o “Eu sou o que sou”, aprendemos com Jesus a sermos com Ele, nele, por Ele e para Ele. Eu sou Igreja, eu sou cristã. E isso envolve reconhecer-se quem se é perante Deus e os irmãos, de ver a miséria do outro como espelho da própria, de entender que o sofrimento não é limitado a um pecado pessoal, mas que cresce com a estrutura de pecado em que todos vivemos e alimentamos. Pecar não afeta somente a pessoa que comete o ato, mas toda a família humana. A responsabilidade é muito maior.
E o lugar de superar o pecado é no deserto, onde encontramos com Deus. Lá não há distrações nem descanso. Deserto é aridez, secura, busca do essencial da vida, espaço de caminhada de longas distâncias atrás de um oásis. Ou, como faziam os eremitas, de combate com os próprios demônios para alcançar o equilíbrio. Os momentos difíceis são ocasiões especiais de sermos em Deus. Doenças, desemprego, contrariedades, mal-estar, dívidas, vexame, humilhações… Reconhecemos nossa pequenez e temos a oportunidade de nos refazermos, crescermos, em um novo modo de ser. Deus está conosco, sustentando e orientando.
É no deserto da tentação de Jesus, no de Moisés, das montanhas, das dificuldades na vida, que podemos nos abrir totalmente para Deus, sem público ou espetáculo, somente nós e Ele. Ser com Deus. Ter e poder não têm força no deserto. É na solidão original, no silêncio, quando chegamos ao próprio limite e mesmo assim seguimos confiando, que Deus nos apresenta nossas maiores missões. Ele nos envia para sermos sua voz no meio dos demais, para iniciar nossos irmãos na busca da solidão e do silêncio, no deserto, na esperança e na confiança, para conversar com Deus.
No nada, vemos como somos tão pouco. Humilhados no calor, na solidão, na fome, na sede, percebemos o quanto somos sustentados no dia a dia. Deus provê todas as nossas necessidades, o “pão nosso de cada dia”. São Paulo nos lembra que não cabem murmúrios, reclamações, de quem acha que Deus lhe deve algo ou que é mais do que realmente é: “quem julga estar de pé, tome cuidado para não cair”. Nesta existência tão humana e tão limitada, aprendemos que não sou, mas que somos. A miséria do outro é a nossa miséria. As histórias de nossos catecúmenos encontram eco na nossa vida. Reconhecemo-nos nelas. Ao estender a mão para levantar o irmão, na verdade nós que nos levantamos com ele. Ao preparar um tema da catequese, nós que aprendemos. Ao formar, nos formamos. Ao darmos as mãos para estar juntos, nossa sorte se encontra e é partilhada. A solidão de uma torre de marfim, onde ficamos isolados e vemos os demais como inferiores não é a imagem do céu. Até a de Siloé caiu. A nossa, é uma questão de momento.
Sim, Deus nos sustenta, leva ao deserto, revela-se, indica uma missão para serviço aos demais, imprime sua autoridade para que possamos participar de sua glória. Não há “meu canto”, mas o canto de “toda a Igreja reunida”, militante, padecente e glorificada, em que todos cantamos juntos o quanto “o Senhor é bondoso e compassivo”.