Batizados na Trindade

(Vandeia Ramos)

Meditar sobre o Batismo de Jesus é fazer referência ao nosso próprio batismo e ao processo de Iniciação Cristã, ao qual somos chamados à responsabilidade. O que a liturgia de hoje nos ensina sobre o Batismo? E quem é o Batizado, Jesus em primeiro, nós a partir Dele, e os nossos catecúmenos.
No rito do Batismo é o próprio Deus, através da Igreja, que nos apresenta à comunidade e ao mundo como Seus, os Seus servos, aqueles recebidos na família de Deus como eleitos, portadores do Espírito no mundo – distinção que precisamos viver plenamente. Sermos configurados a Deus pelo Espírito nos torna presença de luz em diferentes situações. E Isaías identifica esta presença da justiça de Deus através de nós: não precisamos falar alto, nem nos impor. Também não cabe a nós excluir qualquer pessoa que tenha dificuldade de viver a fé. É a vida de santidade a que somos chamados que fará com que a Verdade se manifeste.
E sabemos que isto significa: que a vida cristã não é fácil. Ela é cansativa, tanto ao enfrentar os nossos vícios como os dos demais, sem desistir e resistindo a nos deixarmos abater, pois sabemos que a alegria é própria do batizado. Muitos dependem desta nossa firmeza para não caírem e terem a justiça garantida. Ou seja, se tantos contribuem para nosso cansaço, fixemos nosso olhar nos que precisam de nós, para que, por eles, possamos permanecer firmes em Deus. É nesta certeza que conseguimos perceber Deus nos segurando pela mão e nos formando em Sua justiça e como Seus mediadores, Luz do mundo.
Assim, vamos lembrar que “nações” não é uma distinção geográfica nem política, mas a unidade de um povo. Israel é uma nação e viveu por quase dois milênios sem um espaço territorial nem um governo humano. Temos, então, um chamado claro ao diálogo mais que inter-religioso, um diálogo intercultural. Anunciar Jesus Cristo não se limita à catequese paroquial. E isto precisa ser claro tanto em nossa experiência de vida como no que transmitimos. Também rompe com a ideia de Cristandade, de uma única nação no mundo formada pelos cristãos, que assumem o poder político. Significa “o temor e a prática da justiça, qualquer que seja a nação a que pertença”, andar por toda a parte, fazer o bem, curar a todos, pela presença de Deus em nós.
É neste transitar entre tantos, nos espaços a que somos chamados, enfrentando as dificuldades, os cansaços, as perseguições, o exercício do silêncio, ser presença indesejada ainda que necessária, que poderemos ouvir baixinho no nosso ouvido: “Tu és meu filho amado, em ti ponho o Meu benquerer”. E então poderemos responder: Que o Senhor nos abençoe com a paz, Seus servos e servos do Seu Povo.

Aos pais, o desafio de amar

(Vandeia Ramos)

Acabarmos o último domingo do ano onde tudo começa: na família. Do ventre da mãe até o aconchego do lar, Deus nos colocou em um Paraíso. Este é seu plano original para nós. Portanto, o amor entre os mais próximos será também o nosso maior desafio ao longo da vida. Eu diria mesmo que os problemas do mundo passam pela não compreensão ou por um entendimento deturpado do que seja família. Afinal, da família doméstica para a família humana é só o tamanho dos nossos braços…
Aqui temos a pessoa de Maria. Romper com a limitação cultural do que seja a Mulher e a Mãe ajuda a entendermos o que é ser mulher e mãe no mundo, bem como a dificuldade que muitos têm em olhar para a Mãe de Jesus e chamá-la de Nossa Mãe. É a fala dela que ouvimos no evangelho de hoje junto a Jesus. É pelo “sim” de Maria que começa nossa Redenção, é seu silêncio em momentos difíceis que garante a vida do Filho, é sua presença discreta que garante as necessidades, sua dor que sustenta a Igreja aos pés da cruz. Maria, Mãe e Mulher, pré-figurada nas grandes matriarcas do Antigo Testamento, espelho de toda mulher cristã no Novo.
José, o humilde José, que sabe da gravidez de três meses de sua esposa e não se sente digno de assumir a paternidade do Filho de Deus. Ele confia em Maria e na grandeza do que o Pai pode fazer através dos seus. E precisa da graça que o anjo traz no sonho para deixar-se conduzir para nos ensinar o que seja a paternidade. A partir de então, é a ele que o anjo se dirige para conduzir a Família de Nazaré. Isso não lhe reveste de um autoritarismo, mas faz com que cresça em humildade em ser o guardião de tão grande tesouro.
Jesus, o Filho de Deus, que quis vir ao mundo através de uma família. Ele se torna Filho de Maria e de José, com tudo que isso significa. A Palavra pela qual tudo foi feito, que deu o mandamento no Monte Sinai de “amar pai e mãe”, quis um pai e uma mãe. Quis viver o Paraíso em ser Filho na Família de Nazaré. E ensinou a humildade a nós, na grandiosidade do que é crescer em obediência aos pais, mesmo sendo, pela lei de então, maior de idade após os 12 anos.
Deus não nos manda amar nosso pai e nossa mãe. O mandamento usa a palavra “honrar”, que também pode ser traduzida por “glorificar”. Os pais não podem estar abaixo de nós, pois são nossos pais. Na Sagrada Escritura, o amor é reservado às pessoas maduras. Amar pai e mãe significa ter alcançado a maturidade enquanto pessoa, que nossa fé nos ajuda a percorrer.
Na honra aos pais, temos a continuidade dos ensinamentos de Deus, que nos agraciou com um plano específico para cada um de nós, iniciado em nossa família, em sua história, em seus dramas. Aprender a amá-los é a resposta de agradecimento a Deus pelo dom da vida, dado através da história desta maria e deste josé, a quem nós somos confiados. Sim, o Pai sabia de tudo o que isso iria significar para nós e mesmo assim nos confiou a eles. Junto, nos deu a graça de ser Sua presença de santidade em nossa família, olhando para nossos pais pelos olhos da fé, de Deus que nos dá o paraíso através do encontro destas pessoas.
Mas temos muito o que aprender com a Família de Nazaré: precisamos ser cada dia mais parecidos com Jesus, Maria e José, para que a graça de Deus possa ser melhor identificada no mundo. Que nossa família, nesta oitava de Natal, possa cantar o quanto é feliz em temer o Senhor e trilhar seus caminhos! E que 2019 seja a estrada de graça em que aprendamos a agradecer a Deus tudo o que recebermos!

Natal

“E a Palavra se fez carne e veio armar sua tenda entre nós. Nós vimos a sua glória (Jo 1, 14)

Na carta aos Filipenses, São Paulo descreve a encarnação do Verbo como um movimento do alto para baixo, do Céu para a Terra, de Deus para os homens, e que volta para Deus:

“Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens… humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor (Fl 2, 6-11).

Não se trata de comemorar o nascimento do menino Jesus. Claro que ele vem como um bebê, frágil e indefeso, mas se trata de comemorar a salvação que nos vem.

Por isso nós repetimos os anjos que cantam hoje nasceu para nós um salvador, por isso lemos na noite do dia 24 “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens” (Tt 2, 11).

Isso tudo nos manifesta duas grandes verdades:

I – O próprio Deus na pessoa de seu Filho (que é Deus de Deus e Luz da Luz) despoja-se de sua divindade encarnando-se na nossa humanidade;
II – Cristo eleva-nos a um status verdadeiramente humano, tirando-nos da condição de Adão (pecado Original) e devolvendo-nos a condição de Imagem e Semelhança.

Em Jesus a criação, toda ela, atualiza de modo concreto e definitivo sua forma mais perfeita de existência, seu ser de Deus e seu alcançar a Deus. Daí a conclusão de que o homem só, verdadeiramente, existirá integralmente quando chegar a Deus. Sendo Jesus a imitação perfeita do Pai, e entendendo-se por imitação tornar-se presente, neste sentido Jesus torna presente Deus no meio dos homens.

E aqui entra o mistério do menino que nasce em uma pequena gruta em Belém. E nasce justamente para ser o Emanuel (Mt 1, 23). O numero 525 do Catecismo nos diz que a terra oferece uma gruta ao inacessível.

E por quê? Por amor a nós, para a nossa salvação!

Fazendo-se fraco, nos tornou fortes. Assumindo a morte, nos dá a imortalidade. Fazendo-se Homem, nos eleva a Deus.

Por isso, os anjos não se contêm de alegria e cantam: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados” (Lc 2,14).

Por 4 semanas não proclamamos o Glória nas Missas em atitude de espera, para que hoje, na missa de Natal, nos unamos novamente ao coro dos anjos numa explosão de louvor e alegria.

Com a liturgia de hoje, peçamos que Jesus nasça em nosso coração, mesmo que este seja uma simples manjedoura não muito apropriada para o recém-nascido. O que Ele quer é estar em nós, quer ser Deus Conosco (Is 7,14)

Portanto, Abre bem as portas do teu coração e deixa a luz do céu entrar

FELIZ NATAL! Jesus nasce hoje também em você!!!
A Paz do Cristo que é a nossa Paz!

(Carlos Francisco Bonard – Comunidade Filhos da Redenção)

“Eis que Eu venho”

(Vandeia Ramos)

Antevéspera de Natal e a expectativa já está no ar. A Igreja e as casas arrumadas, as famílias finalizando as preparações, o sentimento da ausência de alguns doendo mais forte… Depois de um ano tão intenso, começamos o ano litúrgico com a espera Daquele que vem para fazer tudo novo.
Na profecia de Miqueias podemos ter bem claro como Deus se utiliza das ações humanas que, mesmo com fim em si mesmas, são renovadas para que a Glória se manifeste. Mesmo com o censo obrigando José a ir até Belém fazer o recadastramento, o profeta já tinha anunciado que ali nasceria o Salvador. Aqui identificamos com facilidade Quem é que comanda a história e intervém na hora certa em nosso favor. Também é no nosso dia a dia.
A abertura dos corações de José e Maria nesta confiança faz com que não se prendam nas dificuldades, no atravessar Israel, Samaria e parte da Judeia, com uma gravidez chegando ao fim, para irem até Belém. Eles sabem que Deus cuida de nós. Não ficam presos no mimimi, na reclamação do calor, da areia do deserto, no autoritarismo de Herodes, nas condições insalubres de vida. Eles simplesmente seguem fazendo o que precisa ser feito. A preocupação está centrada no Filho que está chegando. Fazem o que lhes cabe e seguem o caminho.
É nesta confiança que nove meses antes Maria atravessou o mesmo caminho para ir até a casa de Isabel, logo no início de sua gravidez. Ela não chamou as amigas para celebrar a notícia, não marcou evento no Facebook, não começou a organizar o chá de bebê, não colocou anúncio no jornal nem mesmo foi a José. Ela foi ao encontro de quem precisava, como faz conosco hoje. E temos um dos trechos mais belos e ternos no Evangelho, da “Mãe do meu Senhor” que nos visita, sem merecermos.
No início da gravidez, Isabel, cheia do Espírito Santo, sem ultrassonografia, diz que sua prima está grávida, que é um Menino, e que este Menino é o seu Senhor. Aqui temos a centralidade da Encarnação na defesa da Vida, desde o início da gestação. Temos aqui a confiança de Maria, “que acreditou” e acredita quando somos fracos para não acreditarmos, sustentando nossa fé. Nesta confiança leva Jesus até Isabel e a presença da Mulher e sua descendência (Gn 3, 15) santifica João Batista no ventre de sua mãe. Pela “dobradinha” Mãe e Filho, o antigo se faz novo, a alegria inicia pelo cumprimento da Promessa do Senhor.
Hoje, nossa face já mostra os sinais de nossa salvação. Que possamos abrir as portas de nossas casas e de nossos corações para acolhermos a Família de Nazaré que está chegando. E que nossa família seja um pouco de Jesus, Maria e José. Um Feliz Natal para todos!

O Senhor cuida de nós

(Vandeia Ramos)

“… ficai satisfeitos com o vosso salário” (Lc 3, 14).

No mundo capitalista em que vivemos, cheios de conta para pagarmos, como ficar satisfeitos com o nosso salário? Quero fazer uma provocação para nesta caminhada do Advento podermos crescer na confiança de que o Senhor nos proporciona o que nos é necessário
Está chegando o Natal e as vitrines das lojas estão repletas de sugestões de consumo. Já estamos pensando na roupa que vamos usar para ficarmos sentados em frente à televisão. E os presentes? Paremos para pensar em que realmente precisamos. Quantas peças de roupa nos são necessárias? Compramos calçados por que queremos ou por que realmente está fazendo falta? A lixeira de nossa casa, o que estamos jogando no lixo? Quantos objetos temos que compramos por impulso de consumo e estão tomando espaço pelos cômodos, enchendo de poeira, dando trabalho na limpeza e na arrumação?
Maria e José já saíram de Nazaré rumo a Belém e estão levando somente o básico em um burrinho. Lembremos que é com este básico que irão para o Egito e viverão os primeiros anos de Jesus. Se precisássemos fazer a mesma experiência, o que levaríamos?
Precisamos mudar a pergunta de “temos tudo o que precisamos” para “precisamos de tudo o que temos?” É final de ano e sabemos que muitos não têm o mínimo para viver. Estas necessidades não estariam em nossa casa, entulhando e dificultando nossa vida? Será que muito das nossas contas não são por coisas que estão entre o lixo e os cantos, ou mesmo em armários?
Estamos no domingo gaudete, o domingo da alegria, em que já começamos a sentir a proximidade do Menino que chega. Sejamos valentes para aquela faxina de fim de ano. Arrastemos não somente os móveis para tirar a poeira de trás, mas também tudo aquilo que está sobrando e que tem os que esperam em suas necessidades. Aprendamos a sermos heroicos em nossas idas ao mercado, aos diferentes lugares, para que nos libertemos na escravidão do consumismo e comprarmos somente o que realmente nos é necessário.
Pensemos em nossas contas e sejamos sinceros conosco: o quanto gastamos sem real necessidade? O quanto já podemos mudar no próximo mês? Era realmente preciso aquilo, por aquele valor? Este testemunho de consciência de quem se é ajuda a lembrarmos que estamos aqui de passagem. A qualquer momento podemos ser chamados a ir à Belém e deixarmos tudo para trás. No fundo, nada é nosso. Só estamos aqui usufruindo do que Deus nos dá. Façamos com a consciência de que o mais importante nos é dado, e não comprado ou consumido. Deixemos espaço para a Grande Alegria tomar o espaço que lhe cabe em nossa casa e em nosso coração.

Somos todos da Imaculada

(Vandeia Ramos)

Logo no início do ano litúrgico temos a celebração da Imaculada Conceição de Maria, a concebida sem pecado original. Em frente a tantos desafios, podemos olhar para Nossa Senhora e vermos que Deus não desistiu de nós e de derramar suas graças. Que graça maior que a de recomeçar novamente a Criação?
Na Imaculada Conceição, podemos entender que o pecado, ainda que faça parte de nós, não é inerente. Só então pode o Cristo ser gerado, na pureza completa de uma mulher, da Mulher. Assim, a Imaculada nos chama também à pureza, ao recomeço, à santidade.
Assim temos as leituras da liturgia de hoje: a ação de Deus quer ser precedida da nossa aceitação, seja no “sim” de Maria, seja no “sim” de Zacarias. Também quer que preparemos o caminho, que sejamos preparados. Não podemos entrar numa turma, num cenáculo, num grupo de catequese e achar que o Espírito Santo vai agir em nós sem que consideremos sua ação anterior, em nossa preparação pessoal para a missão que nos é confiada. Entre o nascimento de João Batista e o de Jesus, tem a preparação de nove meses de seus pais.
Sabemos que a nossa preparação nunca estará completamente pronta, mas também sabemos que Deus só espera o nosso “sim” para começar a agir conosco e preparar o caminho para que nossos catecúmenos possam receber dignamente a Jesus.
Na gestação de João Batista podemos ver a esperança da Promessa que começa a ser cumprida. Um arauto é enviado para preparar o povo. Somos arautos que preparam Jesus Sacramento na Iniciação Cristã. Então, é o momento de tirarmos o cansaço do ano, o luto das perdas, as preocupações, e nos revestirmos da glória que o Advento nos traz. Já podemos anunciar que a Paz está chegando! A misericórdia vem vindo! A alegria de um Menino que nos é dado já começa a inundar os corações.
É o momento da comunhão. A exigência do Evangelho para sermos testemunhas é que seja anunciado a todos, e com nossas vidas. É a hora de perdoar, de olhar nos olhos, de suavizar a voz, de buscar o abraço. É a hora de rezar para que a graça de Deus aja em nossos corações. É o momento da Imaculada, que permite que a glória de Deus brilhe para todos através de si. Dirigindo nosso olhar para Maria, podemos ver a grandeza de Deus em sua pessoa, bem como a que nós somos chamados.
É o momento de cantar junto com Nossa Senhora que o Senhor faz maravilhas conosco, enchendo-nos da certeza de que Deus não nos abandonou e vem a nós em seu Filho. Que possamos, juntos com Maria, exultar de alegria no Senhor!