O segredo de Maria

(Por Luzia Santiago)

“Maria, a Mãe da sabedoria, nos ensina o seu segredo.

Trabalhe e reze. Fique em silêncio, reze, ame e reze. Escute e reze.
Não discuta, não queira ter razão: cale-se.
Não julgue, não condene: ame.
Não olhe, não queira saber: abandone-se.
Não arrazoe, não entre na profundidade dos problemas: creia.
Não se agite, não procure fazer: reze.
Não se inquiete, não se preocupe: tenha fé.
Quando você fala, Deus se cala e você diz coisas equivocadas.
Quando discute, Deus é esquecido e você peca.
Quando você argumenta, Deus é humilhado e você pensa em coisas vãs.
Quando você se apura, Deus é distanciado e você tropeça e cai.
Quando você se agita, Deus é lançado fora e você fica na escuridão.
Quando você julga o irmão, Deus é crucificado e você se julga a si mesmo.
Quando você condena o irmão, Deus morre e você se condena a si mesmo.
Quando desobedece, Deus fica distante e você morre.

É o segredo de Maria, no dia a dia, no corre-corre, no cotidiano, nas várias situações, nós vamos seguir Maria.

Sobre o ser cristão

(Vandeia Ramos)

Entre tantas ideias modernas, a consciência cristã tem ficado abafada devido às ondas que varrem a sociedade. Muitas vezes tenho a impressão que não prestamos a devida atenção ao básico, ao que é mais importante, ao, como diz nosso amado Papa Emérito Bento XVI, à hierarquia de verdades. Meditemos o evangelho de Lucas: Jesus desce da montanha e fala à multidão. Não faz acepção de pessoas, não discrimina, e ensina aos discípulos que o anúncio não tem limites. É para todos! Ele não ensina a gente a ficar de mimimi, fofoquinha, postando os pecados dos demais nas mídias sociais, só porque muitas vezes somos atingidos. Jesus nos apresenta uma dignidade muito maior, heroica, que cala fundo em quem somos: pobres, famintos e chorosos. Ele não fixa nossa condição como meramente humana, mas a utiliza como a que precisa de Deus. Sem este testemunho pessoal, como apresentar o mesmo aos nossos catecúmenos?
E não para aqui. A recompensa por injúrias, perseguições, maldições, mas que sejam “falsas” (Mt 5, 11) E por causa do Filho, é a alegria e a exultação. Como lembra o Papa Francisco na exortação Gaudete et Exultate, a humilhação é o caminho da humildade. Jesus não diz para irmos para o Facebook ficar reclamando, para as mídias contar nossos “causos”, para o mundo anunciar nosso drama. Ele diz simplesmente para nos alegrarmos. É aqui que pisamos no orgulho, na posição de acharmos que somos mais que os demais, que somos os “certinhos” da parada. O silêncio, tão custoso no pisar na vaidade, é que forja o cristão, o que se configura ao Cristo na cruz, à Nossa Senhora em toda a sua vida. “Manso e humilde…” Os verdadeiros profetas, anunciadores do Reino…
É no silêncio, muitas vezes fruto da dor da humilhação, do sufocar a rebelião do encontro entre a injustiça com o orgulho e a vaidade ferida, que nos encontramos no deserto da existência. Quando parece que tudo nos é tirado é que se afirma a única certeza: Deus é a nossa força e Nele esperamos! Temos Advogada junto ao Trono, temos intercessores, temos a Justiça e a Misericórdia. No silêncio ao mundo e ao que é humano, nos refugiamos e nos colocamos perante o Senhor.
Não somos catequistas para vivermos entre farturas e gargalhadas, elogios e luxo. Como cristãos, sabemos e anunciamos que o caminho é o da Cruz e da Ressurreição. Ensinamos o que e a Quem procurar e pedir por uma relação pessoal com Deus. É nesta realidade radical que esperamos no relacionamento com as pessoas. Sim, seremos humilhados, ofendidos, injustiçados, como Jesus o foi. E a certeza de que ressuscitamos com Ele nos dá a paz que precisamos, a esperança de que não estamos sozinhos, de que há Alguém com o qual todo o resto perde seu brilho e importância. Vejamos o rosto de alegre paz dos santos… com tudo o que eles nos têm a ensinar sobre o cristianismo.
Juntemo-nos aos que cantam a glória de Deus e cantemos com toda a certeza de quem somos e o que fazemos aqui: É feliz quem a Deus se confia!

Eis-me aqui, Senhor!

(Vandeia Ramos)

A dinâmica do Evangelho de hoje é muito bonita. Pedro parece muito conosco, ou somos nós que nos parecemos com Pedro? Sabe “aquele” grupo que parece o “terror” da catequese? Aquele que faz a gente respirar mais fundo e achar difícil algum resultado positivo? Talvez pelo cansaço da messe, pela falta de confiança em nós ou em Deus, acabamos por nos afastar. Aí vem Jesus e diz que precisamos ir a águas mais profundas… Lá no fundo sabemos muito bem a que Ele se refere. Aos que nós marginalizamos e mesmo excluímos. Aqui é o momento catequista. Não por nós, mas em consideração Àquele que nos chama, respondemos com Pedro: “Em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. E vemos a riqueza do que vem, dos catecúmenos que ninguém acreditava, que não se dava nada por eles. Sabemos que não foi pela nossa capacidade e ante a consciência de nossa incapacidade, dizemos com Pedro: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou pecador”.
Mas Deus é muito esperto. Antes de ele nos enviar à messe, Ele nos leva ao céu. Sua presença em nossa vida é uma realidade. Agradecemos diariamente todas as graças que recebemos. Vemos suas maravilhas. Exclamamos com os anjos que Deus é presente em sua Criação. Entre a Confissão e a Eucaristia, somos perdoados para que possamos participar de sua glória. Aí é que vem Deus e mostra para nós o quanto o mundo padece por se afastar, por negar, por não conhecer. Nós, olhando a tudo na perspectiva do céu, com Deus nos ensinando a olhar como Ele vê, caímos no seu Amor. Não um amor que força, com uma ordem “eu te mando fazer isso”. Mas, com uma leve insinuação, Ele diz que não há semeadores, não há operários para a messe. Através de Isaías, Deus desperta em nós a necessidade da catequese e de nosso envolvimento pessoal, tão irresistível que nos entregamos: “Eis-me aqui, Senhor. Envia-me”.
São Paulo continua nos ensinando os caminhos pedagógicos: sua própria experiência com o Ressuscitado que se torna o início. Ele continua aprendendo com os apóstolos, que lhes transmitiram a própria experiência, ajudando-o a entender e aprofundar seu conhecimento. Não há catequista sem envolvimento pessoal com o próprio Cristo. E não é um momento único, mas um constante aprofundar no conhecimento do seu amor, com os irmãos. Ser modelo de fé é um compromisso permanente. É pelo exemplo que jogamos as redes, que nos aventuramos a ir em águas mais profundas, a estar com os demais reunidos. Sabemos que constantemente nos vem à consciência de que é muito para nós. Somos fracos, pequenos, “servos inúteis”. No entanto, reconhecemos que é a graça que age e configura a nós e o nosso servir. O trabalho pesado não é nosso, mas do Espírito que habita em nós.
Só então podemos nos juntar aos catecúmenos, aos anjos e, juntos, participarmos do Banquete do Cordeiro, cantar as maravilhas do Senhor em sua Igreja, agora e para todo o sempre!

Deus cuida de nós

(Vandeia Ramos)

Hoje é dia de São Brás, o protetor da garganta. Sendo nossa voz um dos nossos principais instrumentos, como não lembrar do santo que, mesmo condenado a ser decapitado, cuidou de uma criança com espinha de peixe presa na garganta, rezando pela sua cura? Tempos difíceis, em que ser cristão expunha a pessoa ao martírio de sangue…
Durante todo o tempo, vivemos na promessa de não sermos aceitos. A perseguição, o não aceitar a proposta do Evangelho, já pode ser identificado no Evangelho de hoje. Tanto “a luz que ilumina as trevas”, quanto a proximidade entre nós, expõe nossas contradições, dificuldades, limites… O de Jesus está no livre-arbítrio do Amor. Em si, cumpre todas as promessas de Deus, apresentando-se como Palavra Viva do Pai. No entanto, esta promessa chama a um passo de conversão, de confiança de que Deus traz em si o cuidado com cada um de nós. Precisamos abrir mão de achar que nós resolvemos tudo, que nosso “achar” é o que deve prevalecer, que podemos julgar quem quer que seja. É muito difícil aceitar um Deus que vem para salvar, e não para condenar… Pois chama à uma nova forma de viver…
E a Liturgia nos oferece a luz para este passo: Deus cuida de nós desde o ventre de nossa mãe, de nossas dificuldades, necessidades, de tudo que precisamos. De nós e de cada pessoa. O foco não é o mundo como o vemos, com suas estruturas de pecado que levam à destruição. Jeremias nos chama a um novo olhar: somos cuidados desde sempre! Deus é conosco! Não devemos nos prender em nossas fraquezas e incertezas, mas focar os olhos Naquele que nos dá a vida. Na Eucaristia e na Confissão, tornamo-nos muralhas de uma cidade fortificada, em que Deus habita em nós. Podemos ser fortes e calmos para assumir a turma de Iniciação Cristã deste ano que começa, reconhecendo e agradecendo por cada um envolvido que foi colocado ali para que déssemos testemunha do cuidado de Deus por nós.
Este amor pelo qual Deus se doa a cada um de nós é o mesmo que não se acomoda, mas que necessita ser dirigido às pessoas. A alegria é a expressão própria do cristão e precisa ser vivida claramente no catequista. Isso envolve a maturidade da fé, o constante aprofundamento na doutrina, a coerência do testemunho, a conformação a Cristo ao se dirigir ao outro, o acreditar que o Perfeito vive entre os imperfeitos. O que não conseguirmos entender e lidar, sabemos que precisamos fazer o melhor que pudermos, sob a guia do Espírito.
Não somos catequistas porque é legal, porque achamos bonitinho, interessante ou não temos nada melhor para fazer. Somos catequistas porque o Senhor nos enviou para anunciar a Boa Nova aos que Ele nos envia. Assim, refugiados em Deus e por Ele cuidados, anunciamos, todos os dias, as graças incontáveis do Senhor!

A Pedagogia da Catequese

(Vandeia Ramos)

Interessante para nós são os textos da liturgia de hoje, pois trazem em si o modo de ensinar próprio do cristão. Vejamos: reunidos em torno de uma pessoa (Esdras, Paulo, Jesus, catequista), o povo se põe em audição. Lucas lembra que o que escreve é fruto de estudo anterior, de pesquisa, do testemunho de quem viveu a experiência com Jesus Cristo antes dele, do mesmo modo que Esdras recebe os escritos recolhidos e organizados após a libertação de Israel da Babilônia. A única novidade que temos a apresentar, a Boa Nova, é a que a Igreja em seus membros nos passam pela história. Nós também precisamos nos preparar para fazer o mesmo antes de nos apresentarmos aos nossos catecúmenos.
Tanto Jesus como Esdras não vão a um povo estranho, mas aos seus, como Paulo começa sua evangelização. Em Nazaré, onde foi criado, Jesus vai à Sinagoga. Aquele que é a Palavra encarnada, o Verbo de Deus, vai como um de nós guardar o Sabath. Em pé, com a autoridade que a Palavra traz, faz a leitura do livro que lhe passam, o de Isaías. O Povo se reúne em torno da Palavra, seja em Nazaré, seja “em frente à porta das Águas”, seja nos nossos círculos de Iniciação Cristã.
Após a leitura, vem a ajuda para compreensão. Escribas, sinagogos, catequistas… Aqui temos nossa responsabilidade de apresentar não uma palavra qualquer escrita num livro. E sim a Palavra viva, de como Ela se encontra em nós, como tudo o que lemos se realiza em nossa vida. O nosso testemunho anuncia que esta mesma Palavra pode se encontrar também na vida de nossos catecúmenos, desde que eles estejam atentos a ouvir, abertos à compreensão e a deixar que se realize em sua vida o que lhes foi anunciado. Pelo nosso testemunho afirmamos que Cristo não é um personagem de uma historinha muito bonita, mas Aquele que nos dá uma vida plena.
Paulo nos apresenta uma sistematização desta catequese, com três pontos importantes:
– nós, que anunciamos o que vivemos;
– nossos catecúmenos, em atenção para nós e Àquile que vamos anunciar;
– Jesus Cristo, o conteúdo que anunciamos, a Palavra que se realiza na vida de cada um de nós, configurando-nos filhos no Filho.
Assim, mesmo que estejamos em um lugar mais alto para o anúncio, como Esdras, ou em pé como Jesus, sabemos que não somos o centro da Iniciação Cristã. Não é para nós que os olhares estão verdadeiramente voltados. Sabemos que Aquele que anunciamos que é o mais importante e que a Ele servimos. Somos somente um membro de seu Corpo, a Igreja, voltada para assistir os que mais precisam, a começar por nós mesmos.
Neste encontro entre nós e nossos catecúmenos em torno da Palavra, podemos juntos terminar no reconhecimento de que “Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida!”.

Cristianismo: vive-se pelo que se morre

(Vandeia Ramos)

Hoje, no Rio de Janeiro, celebramos o mártir São Sebastião, que deu seu nome à nossa cidade: São Sebastião do Rio de Janeiro. Em tempos em que se discutem questões sobre arma, justiça, crescimento da violência e ideologias, a Igreja nos traz a pessoa de Sebastião para nos ajudar a refletir sobre nossa fé.
Descoberto cristão entre a guarda, é levado pelos seus a Cesar. Como uma pessoa tida como sua confiança segue uma religião diferente da do Império? Poder civil, militar, jurídico e religioso é o mesmo, centrado no Imperador. Ser cristão é um ato civil de desobediência. Também um ato heroico, pois era um período de crise e os cristãos foram utilizados como causa dos problemas. Flechado, não morre. No entanto, após ter se restabelecido, Sebastião não foge nem faz história com suas próprias mãos. Ele sabe em quem confia e a missão que traz: vai a Cesar testemunhar que Deus comanda todas as coisas. Martírio significa testemunho. E custa todo nosso ser, até o último respiro. Sebastião é morto a pedradas e enterrado em uma catacumba como modelo de fé.
Para muitos, vitória é para os fortes, que conquistam espaços de projeção social ou mesmo cargos importantes. Não para um cristão. Para nós, vitória é não deixar-se levar para longe de Deus, mesmo que isso custe nossa vida. A morte do mártir é seu testemunho que ele suportou e perseverou. É a sua vitória. Algo que não se pode retirar mais.
Deus, que comanda toda a história e é Senhor do tempo, Onisciente, sabe de tudo que vai acontecer conosco e permite, como um ourives que derrete a prata e contempla o fogo até que o metal reflita sua face. Somos provados em nossa vida no fogo. Precisamos que nossas impurezas sejam removidas para que sejamos ofertas de amor e sacrifício dignas de serem dirigidas a Deus, formados em seu amor e misericórdia.
Aprender a olhar a realidade pelos olhos da fé, de que Deus tudo cuida para o nosso bem, sustentando-nos em todos os momentos, ensina-nos a perceber sua presença e sua ação no mundo. Esta certeza nos garante a paz, a tranquilidade, o passar pelas dificuldades, perseguições, sofrimentos, sabendo que “nada poderá nos abalar”, pois aos poucos não será mais “eu que vivo, e sim Cristo que vive em mim”.
Não precisamos ter medo que amanhã é segunda-feira, muito menos do que a vida nos reserva. Sabemos, como São Sebastião, que Deus nos livra de todos os temores, pois Ele é o nosso refúgio e a certeza de que Nele permanecemos até o fim. São Sebastião, rogai por todos nós!