O nosso “sim” no “sim” de Maria

(Vandeia Ramos)

Uma voz clama: “Preparai o caminho.” Começa o Advento, o período de espera em que Jesus vem ao nosso encontro. Colocamo-nos ao lado de Maria em expectativa. A atitude cristã de esperar não é passiva, mas de festa. Como Mãe, Nossa Senhora se preocupa com o que é necessário para o nascimento do seu filho. E nós, como estamos nos preparando e ajudando os nossos a se prepararem? É preciso estar com tudo pronto.
O evangelho de Lucas nos lembra que Ele não é bem vindo pelos que temem a justiça. Como uma criança inocente causa tanto desconforto? Aqui podemos pensar nos projetos pessoais e de grupos em defender acirradamente o controle de natalidade com métodos abortivos. Ainda hoje uma criança é uma ameaça à vida de tantos… Ainda hoje uma criança inspira medo em pessoas, famílias, instituições e projetos de vida e de governo.
Uma criança, sempre um presente de Deus, exige uma mudança de vida, o romper com o egoísmo, um sair de si e voltar-se para as necessidades de outra pessoa, a confiança em quem envia o presente, muitas vezes de modo heróico, como Nossa Senhora. Pensemos numa adolescente do meio do nada de Nazaré, recém-casada, sem pais, que o filho não é do marido, numa sociedade marcadamente patriarcal, legalista e de moralismo exigente.
Queremos muito de Deus, mas em que medida confiamos? Em que medida aceitamos o que Ele nos apresenta? Maria não responde o “sim” porque acredita em sua capacidade maternal ou em suas condições materiais. O “sim” de Maria é de quem acredita Naquele que lhe presenteia, que vai cuidar dela e de seu Filho, que vai garantir tudo o que for necessário. É neste “sim” que o nosso precisa ser vivido. É esta radicalidade que possibilita seu e o nosso ficar em pé perante Deus.
Sabemos de tudo que envolve nossa vida e dos nossos. Muitas vezes o que queremos está ao alcance do nosso “sim”, da nossa entrega, do dar o passo da fé sem se preocupar com as nossas condições e limitações. É na distância de uma perna que se encontra a realização do que Deus preparou para nós e o que quer realizar através de nós. A um passo, temos o cumprimento das promessas. Com um “sim”, o Espírito Santo paira sobre Maria e o Pai envia seu Filho. Com um “sim”, o Sol da Justiça brilha na humanidade, o futuro se torna presente, no qual nossos catecúmenos são inseridos na dinâmica da salvação.
Sabemos que nosso “sim” precisa ser constantemente renovado, seja no credo, seja na riqueza da liturgia, seja em cada encontro de catequese. Vamos aprendendo uns com os outros sobre o amor de Deus que se manifesta em nossa vida, superando nossas dificuldades e dando sentido a elas. Na comunidade, aprendemos e ensinamos a agradecer e a seguir, tendo a escuta constante da Palavra, bem como a participação na vida familiar do céu através dos sacramentos.
Não vamos sozinhos a Deus. Vamos juntos. Não anunciamos sozinhos a sua vinda, mas como Igreja, acompanhados por Nossa Senhora, no anúncio de quem entra em processo de abertura e preparação para a vinda do Salvador. É o encontro entre a vinda de Deus até nós e nossa elevação em oração.
Preparemo-nos com Maria para o Natal. Que seja vivido em família e em comunidade, como Igreja que aguarda a vinda de seu Salvador.

Somos Spoleirs e contamos o final da história: viva Cristo Rei!

(Vandeia Ramos)

Em um mundo preocupado com calçados, o último capítulo da novela e se vai ter cena pornográfica ou não na televisão, nós, cristãos, temos a coragem de anunciar: Viva Cristo Rei!
Nós não sustentamos nosso olhar na vitrine da moda, nem na tela dos aparelhos de televisão ou de celular. Nosso olhar está para Aquele que perpassa toda a história e, por nós, nos revela o final da história, que sustenta nossa esperança e nossa fé no que está além dos interesses do mundo, além dos dramas pessoais, das alegrias e dos sofrimentos, das injustiças e da miséria. Há Alguém que tem o poder sobre a vida e sobre a morte, sobre o mal e sobre a história.
Anunciar Cristo Rei no final do ano litúrgico é anunciar que a justiça aguarda o dia de ser completada, que a resposta de todos os seres humanos a Deus seja dada, que os cristãos estejam prontos para o Seu retorno.
Hoje é o tempo da misericórdia e do perdão. É o tempo de conversão. É o tempo de preparação para aguardar a vinda final. E a parusia será em poder, honra e glória. A mesma Palavra que criou todo o universo retornará para que todos O vejam. Não como um rei limitado no tempo, que morre ao final da vida e acaba seu reinado. Não como um rei autoritário que usa de exército para dominar os seus. Não um rei luxuoso que vive de ouro arrecadado do trabalho e muitas vezes da exploração de seus súditos.
O reinado de Cristo não é desse mundo e não segue suas regras. O reinado de Cristo é dos que amam, dos que servem, dos que dominam a si mesmos e às suas paixões, que são senhores de si, abertos à graça de Deus para serem outros cristos. O reinado de Cristo não se limita ao tempo em que vivemos nem às nossas condições. Ele perpassa a história e nossas limitações. O mesmo que criou o universo e tudo que nele há, é maior que este universo e estabelece sua ordem.
O reinado de Cristo se enraíza no amor, que envolve a vontade, a razão, a liberdade, o serviço. Os que servem, que amam incondicionalmente, que alimentam, vestem, visitam os presos, que cuidam dos que mais precisam, assemelham-se a Deus no carinho especial que dedica a cada um. Somos pessoas que trazemos a dignidade de filhos, nos preocupando em cuidar dos que tem esta dignidade quase destruída.
Por isso, Cristo Rei não vem sozinho. Seu Reino acompanha. Seus sacerdotes, que oferecem sua vida em amor e sacrifício, participam da glória e serão revelados. É a Igreja, a Esposa, que receberá o Noivo!
Enquanto aguardamos este dia, vamos anunciando sua vinda, oferecendo nossa vida em fazer discípulos em todas as nações:
https://www.youtube.com/watch?v=aTItDWL3xBU

Refugiados no Senhor

(Vandeia Ramos)

Muito bonito o cuidado de Daniel ao contrastar o período de angústia de suas visões com a salvação do povo de Israel. Período sempre necessário de purificação, maior quando há uma perda do sentido do que é certo e do que é errado, em que as pessoas se afastam de Deus, a moral se esvazia e a ética é desconsiderada. É justamente nas tribulações, nas dificuldades, nos tormentos, que os que são de Deus se levantam e manifestam Sua presença. Bem como os que não são. Mas tem um versículo que parece tocar diretamente o nosso coração de catequistas: “Mas os que tiverem sido sábios brilharão como o firmamento; e os que tiverem ensinado a muitos homens os caminhos da virtude brilharão como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12, 3).
Como cristãos, somos chamados a sermos sábios, na sabedoria de Jesus Cristo e na filiação de Maria, Sede de Sabedoria. Não é o nosso acordar cedo, sair no calor, planejar nossa catequese, que faz o nosso sacrifício ser aceito pelo Pai. Não que isso e muito mais não sejam importantes. No entanto, é o sacrifício único de Jesus que coloca todas as nossas dificuldades aos pés do Pai. Em Sua humanidade, o Filho recolhe nossas ofertas de amor, por amor e em seu amor e as torna Seu Corpo na Consagração do Pão. Nosso dia a dia, nossas ofertas, nossa perseverança em seguir no que é de Deus, testemunhando, sofrendo, rindo, formando, que vamos sendo conformados em Jesus Cristo.
E não são somente nossas ofertas que são oferecidas a Deus. Ao oferecermos, nós nos tornamos outros cristos, cristãos, semelhança. A gente percebe no evangelho que Jesus usa a mesma linguagem de Daniel, com as mesmas figuras. Só que aqui diz que as estrelas vão cair do céu e as forças serão abaladas. Está acabando o ano litúrgico e a linguagem escatológica é forte. Sabemos que muitos dos que deveriam ser estrelas no céu, responsáveis pela formação do Povo de Deus, caem com freqüência. É com muita dor que presenciamos sua queda. Sabemos que muitas vezes esta queda nos ameaça. É com angústia que precisamos estender as mãos para sermos constantemente levantados. Precisamos nos firmar com mais força na videira para sermos galhos que florescem.
Nas dificuldades do mundo, é no Senhor que nos colocamos. Para isso, não poupemos os instrumentos que Ele mesmo nos oferece, a começar com os sacramentos, direção da Iniciação Cristã: a força do Batismo, a constante confissão, o freqüência da Eucaristia, a Confirmação.
Na catequese semanal, a atenção ao que anunciamos, pois muitas vezes estamos falando o que primeiro nós mesmos precisamos ouvir. E neste domingo em especial, temos a direção ao fim do ser humano, a que viemos ao mundo: para o Céu. Aprendamos a não desviar os olhos de nossa meta, a ter o Caminho de Deus a nossa frente, a seguir com alegria, a descansar tranquilos para alcançarmos a felicidade eterna. Aprendamos e ensinemos que Deus nos guarda e que nele nos refugiamos!

Como pobres viúvas

(Vandeia Ramos)

Nas leituras de hoje temos duas figuras importantes: a viúva e o mediador. Na Antiguidade, a viúva era a que tinha sido casada e, como tal, tinha se desvinculado de sua família para assumir a do marido. Sem ele, ela ficava sozinha. Daí a necessidade de filhos para ser amparada. Retrata bem a situação da mulher que, mesmo com um papel social importante, sua presença no espaço público a expunha a muitos incômodos. No entanto, a Palavra sempre orientou para que as mesmas fossem amparadas.
Mesmos com mudanças de estruturas históricas, ainda precisamos de legislação, nem sempre suficiente, para garantir a cidadania feminina. Não só pela própria vida, mas pelo cuidado da família, pois as mulheres são vítimas de exploração. Sua dignidade não é respeitada em diversos espaços, mesmo com a insistência de diversos escritos bíblicos, como o do profeta Elias. Ele assume função de mediador junto a Deus no sustento da viúva, que alcançará a plenitude no Sumo Sacerdócio de Jesus, que assume a nossa humanidade para que superemos nele estas nossas contradições.
Quando refletimos sobre a Mulher e sobre a Viúva, a pessoa de Maria nos vem à mente. Ela é a que abre mão de tudo que tem, inclusive de seu Filho, por nós. Fico visualizando Jesus vendo a pobre viúva entregando tudo ao templo e lembrando de sua Mãe… O “quase nada” de Maria que, por Jesus, valeu a nossa salvação. Aí vem uma multidão confusa, ricos, aquele publicano presunçoso, e acha que pode comprar os favores de Deus com dinheiro… Quantas Mães não deveriam estar ali, oferecendo-se e tudo que tem a Deus, em uma fé inabalável?
Importante identificarmos o modo com que Jesus e toda a Sagrada Escritura tratam a mulher para que nos esvaziemos do senso comum e percebamos a dignidade a que é chamada. A presença constante suprindo as necessidades do Filho e dos apóstolos, presença junto à cruz, chamadas a anunciar a Ressurreição aos discípulos, em Pentecostes, administrando as comunidades na Igreja nascente… Presença de serviço e oração em nossas comunidades, e nos grupos de Iniciação Cristã.
Também é preciso lembrar que A Igreja é Mãe… da qual somos filhos e filhas, com chamados específicos por ela, para ela, nela e com ela. E um deles é a oferta “de tudo o que somos e o que temos”, como a pobre viúva. Quantas moedas temos ofertado? Quantos talentos nos foram dados para o serviço que estamos dispondo? Estamos servindo a Igreja e o mundo ou nos servindo deles?
O Salmo nos lembra o Magnificat, o Canto de Maria, que não só entrega tudo que tem a Deus, como entrega a si mesma, bendizendo as maravilhas que Deus faz. O cuidado e a ternura que Deus tem conosco, com cada um de nós, é o início do seu Reino. Afinal, “não temas!”, pois Ele prometeu estar conosco todos os dias, até o fim!

Somos bem-aventurados!

(Vandeia Ramos)

Ser santo não é ser exceção no céu. Só vai para o céu quem assim o for. Ouvimos muitas vezes e nós mesmos falamos sobre santidade como se fosse algo muito distante. A vida dos santos nos mostra justamente o contrário. Eles estão no meio de nós, a santidade está em nós pelo batismo.
A questão da santidade não é auto-referenciada, de que parte de nós. Ela vem da relação de filhos de Deus. Ele é nosso referencial. Dele viemos e para Ele voltaremos. Esta consciência dá sentido a nossa vida e é o primeiro ponto. Talvez por isso seja tão difícil encarnarmos em nossa catequese, no dar testemunho junto aos nossos desta vida nova e ajudá-los a trilhar por este caminho.
Temos até um dia específico para trabalhar os mandamentos. Mas, se eles não tiverem referência ao Evangelho, são somente um conjunto de “não’s”. Sozinhos, eles dão a identidade ao povo de Israel, mas não são suficientes para dar vida ao cristão. Este é o papel das bem-aventuranças. Aqui está o salto do cristão que passa a viver no mundo sem ser do mundo.
A referência deixa de ser o coleguinha, o programa de televisão, o aplicativo do celular, e passa a ser o próprio Jesus, o Bem-Aventurado. Ele é nossa referência. A vida interior se enriquece e seus valores começam a ser valorizados na catequese. O silêncio do pensar sobre um ponto, a oração, a visita ao Santíssimo, o pensar sobre a família e o mundo à luz da Boa Nova, o ser melhor para estar mais perto de Jesus, o conversar com Nossa Senhora… Catequese é apresentar Jesus e ajudar a construir uma linda e terna amizade.
Jesus é o Amigo que vamos encontrar quando fecharmos os olhos para este mundo. É a alegria dos santos, os menores neste mundo, porque são grandes em sabedoria, em vida no espírito, na mansidão, na justiça evangélica, na misericórdia divina, na pureza. A paz e a alegria são frutos desta vida, mesmo frente à aflição e à perseguição. Estamos no Senhor. E sua graça nos basta! Esta é a certeza da vida eterna!
A vida em Jesus nos leva a testemunhar mesmo nas maiores dificuldades. Esse é o nosso desafio e dos nossos. A ternura de um aperto de mão e um abraço diz ao outro que ele não está sozinho. Jesus está conosco e conosco segue, até o fim.
Esta certeza que nos garante a esperança de que podemos esperar uma vida melhor. Não aqui, nem agora. Alguém nos espera de braços abertos para nos acolher e secar nossas lágrimas. Alguém que foi na frente para preparar nosso lugar. Que caminha conosco para nos guiar em Sua direção. E vamos juntos, na comunhão dos santos! Lá nossa família fará festa para nos receber, a geração que procura o Senhor!

Entre a piedade de Jesus e a alegria da esperança

(Vandeia Ramos)

Estou eu aqui lembrando do falecido Pe Léo comentando a passagem do evangelho de hoje. A liturgia no segundo turno das eleições nos faz algumas indicações. A primeira e sempre pertinente é nos lembrar quem é o Senhor e Salvador: Jesus. Não é nenhum dos candidatos a qualquer cargo do pleito. Não que eles não sejam importantes. São. Mas enquanto pessoas responsáveis pelo cuidado do povo a partir do cargo que se propõem a ocupar.
Em alguns casos, estamos nos juntando ao cego e dizendo: Jesus, tem piedade de nós. O povo anda tão sofrido, tão desesperançoso. Vemos isso na realidade de vida de nossos catecúmenos. E lembro do Pe Leo quando Jesus pergunta o que o cego quer. Se é cego já pressupõe que deseja ver. Então porque Jesus pergunta? Porque é preciso que confessemos que queremos ver. Muitos não querem. Ver as coisas de Deus envolve resposta ao que vemos e comprometimento de vida. Queremos mesmo ver? Aí Jesus responde: A tua fé te cura! Às vezes eu acho que nossa fé está mais nos demais que em nós mesmos ou em Deus…
Os que crêem serão “o resto de Israel”. Serão os mais sofridos. Os que enfrentaram a escravidão da Babilônia e viram a libertação. Não se venderam por cargos, facilidades ou depositaram sua esperança neste ou naquele. Quando Ciro, o Grande, rei da Pérsia, liberta o povo, o que lhe resta? Na luta com as nossas dificuldades, corremos o risco de nos perdermos a nós mesmos. Entre cegos e aleijados, temos mulheres prestes a dar a luz. Israel está para se renovar. E continuamos, mesmo entre dores e sofrimentos, pois sabemos em que direção e a quem olhamos.
Pelo batismo, somos reis, profetas e sacerdotes. Enquanto catequistas, estamos a nos oferecer pelos nossos. Também enquanto família, estudantes, profissionais… Pelo serviço, reinamos. Pelo Espírito, anunciamos. Entre oferecer os nossos dons e fazer sacrifícios para que o amor de Deus prevalesça entre nós, vamos nos configurando a Cristo. E participamos com Ele da Eucaristia. Como Igreja, somos o seu Corpo, alimento de caminhada de muitos. Também somos o seu Sangue que passa a ser oferecido por todos. Como diria São João Paulo II, no martírio do dia a dia, uma gota de sangue. Até a última.
É nesta dinâmica entre pedir para ver e conseguir identificar a ação de Deus no nosso dia a dia, fazer de nossa vida uma oferta de amor e sacrifício, que vamos nos configurando a Cristo, no resto de Israel, entre perdas e esperança renovada de Deus em nós. Neste dia a dia, nossas lágrimas vão regando o arado a que fomos destinados, deixando-se guiar pelas mãos de Nosso Senhor, sabendo que no fim, tudo é para sua glória. Que esta certeza seja a nossa alegria, nas sementes que espalhamos e no sorriso de quem vê algo mais do que nossas limitações humanas!