O martírio do “Viva Cristo Rei!”

(Vandeia Ramos)

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Último domingo do ano litúrgico e a Igreja celebra Cristo Rei do Universo. Para quem gosta da história da vida dos santos, lembra logo de São José Luis Sánches del Rio, o menino que morreu mártir com o grito de “Viva Cristo Rei!”
Como o início, o fim está em Jesus e na Salvação. A dificuldade é compreendermos o que isso significa. Muitas vezes o anúncio da Boa Nova é mal compreendido por se remeter à cruz, levantando o questionamento de como poderíamos acreditar na grandiosidade de Cristo se o seu fim seria morrer crucificado. Esta questão dificultou muito o processo evangelizador na América. Esperamos luz e grandes feitos. Pensemos só no que seria se Jesus descesse da cruz e virasse um super herói da Marvel, soltando raios destruidores pelas mãos e refletindo os ataques. A imagem de um Messias guerreiro, que vem para destruir e fundar um Reino a partir de nossos próprios valores e projeções ainda prevalece hoje.
No entanto, quem chama Jesus de Rei é Pilatos, ao escrever a placa que iria no topo da cruz, como a causa de sua condenação. Olhemos de outra forma: enquanto os sacerdotes judeus estavam com medo de que Jesus pudesse competir com eles pela liderança de Israel, o prefeito romano anuncia para a história que Ele é Rei dos Judeus. Ironicamente, Roma reconhece Jesus como Rei e é um centurião que, ao fim, dirá: “Este homem realmente era o Filho de Deus” (Mc 15, 39).
João, por 7 vezes, coloca a expressão “Eu sou” nas palavras de Jesus (6, 35; 8, 12; 10, 9-10; 10, 11-16; 11, 25-26; 15, 1-2), lembrando-nos do “Eu sou” do êxodo (3, 14), quando Deus fala a Moisés no deserto. Em Jesus, o divino se apresenta de uma forma inesperada: na cruz. Sua coroa é de espinhos, sua túnica está ensanguentada e lhe é arrancada, seu perfume escorre pelo calor e pela dor, sua corte está dispersa e poucos permanecem próximos. E, também inesperadamente, um dos condenados reconhece a justiça e a realeza do que era insultado. Jesus não retribui as ofensas e nem mesmo se defende ou corrige. Ele silencia sobre. Mas não deixa no vazio o que lhe reconhece e promete o Paraíso no mesmo dia.
Não há céu sem cruz. O que nos lembra a devida força que precisamos para enfrentá-la: o silêncio e o anúncio de quem servimos. Como o ladrão ao lado na cruz, São José Luis Sanches del Rio, um jovem como nossos jovens, enfrentou a tudo, como a dor, os pés escalpelados, o pedido da mãe para renunciar e a caminhada até a própria cova, mas sem perder a certeza de que estava caminhando para Jesus. Não só não sabemos quando chegaremos ao nosso fim, como não há idade para anunciar com a própria vida quem de fato manda em tudo.
É o próprio Deus quem escolhe a cada um de nós e nos envia a Jesus, para sermos outros cristos por aqui, para que, através de nós, outras pessoas possam conhecer o Reino, participar da família do Pai, reconhecer Jesus como irmão, identificar-se como parte da Criação e ser responsável por ela, em usufruto.
Do mesmo modo que Jesus nos ensina e sustentou São José Luis, sabemos que o caminho é a doação completa de si pelas pessoas, do nosso tempo, da nossa disponibilidade, fazendo da vida uma oferta de amor e sacrifício. Como temos o Ressuscitado como referência, sabemos que a cruz é por onde devemos ir para chegar ao final. Tudo tem um sentido, que nos é revelado durante o Ano Litúrgico. Neste domingo, a mensagem se completa, trazendo à nossa memória o spoiler da história.
Jesus não é um herói de um filme americano. Ele é o Rei do Universo, pelo qual tudo foi feito e para Ele nos dirigimos. No encontro da alegria com a justiça, anunciemos sua vitória: “Viva Cristo Rei!”

Ser catequista é ser modelo de caridade

(Vandeia Ramos)

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Hoje pudemos acompanhar a canonização da Irmã Dulce, o “anjo bom da Bahia”. Batizada de Maria Rita, desde pequena perguntava a Santo Antônio sobre sua vocação e já se dedicava em atender em casa os que mais precisavam. Na adolescência se comprometeu com a vida religiosa. Sempre que estes modelos de evangelho são identificados, fico me perguntando como nos posicionaríamos se um de nossos catecúmenos chegasse a nós e dissesse que queria ser padre, religioso, religiosa ou mesmo santo? Questiono isso porque às vezes parece que a história de Jesus e da Igreja passa como se fosse um conto de fadas – já ouvi criança perguntando se era de verdade.
Sabemos que muitos se dizem cristãos, mas que a compreensão é mais de uma ideia bonita, beirando ao romantismo e ao idealismo, do que realmente uma fé viva e encarnada. Muitas vezes até nós mesmos parecemos desta forma para muitos que estão ao nosso redor. Daí a importância do testemunho da Irmã Dulce, pois nos mostra que o evangelho não só é possível, como tem pessoas realmente comprometidas em vivê-lo, não como um momento de sensibilidade com Deus, e sim preocupadas com os que mais precisam, na confiança do amor.
Isso nos leva a perguntar se amamos Deus que faz milagres ou os milagres de Deus. Fazemos o que Ele nos pede ou queremos que Ele faça o que nós pedimos? Respondemos verdadeiramente ao chamado de servir ou idolatramos um deus que nos deve a partir de pedidos, promessas, orações, méritos? Deus é a referência de minha vida ou eu mesmo sou esta referência?
Assim podemos entender o evangelho, de dez leprosos que são curados, mas somente um volta para agradecer. Podemos passear entre as maravilhas que Deus faz em nossa vida, agradecendo e ofertando a nós mesmos, para um pensamento a la carte, de que tenho de Deus somente o que quero, como se fosse Sua obrigação prover meus desejos e vontades. “Seja feita a vossa vontade” ou a minha vontade? A vida de Santa Dulce dos Pobres nos indica o caminho certo.
Como “servos inúteis”, que fazem o que deve ser feito, não devemos sequer esperar recompensa, já que a graça de Deus nos basta. Fazemos o que fazemos porque somos cristãos, outros cristos, servindo ao mundo como Igreja peregrina. Pelos que nos são confiados, nos colocamos à disposição, firmes na perseverança, constantes nas alegrias e dificuldades. Tem mais a ver com quem somos do que com o que fazemos. O agir é o testemunho que informa e nos forma. Através do dia a dia, comunicamos ao mundo Deus que vive em nós e, nos acontecimentos, aprendemos a ver Deus agindo no mundo, ajudando-nos a compreender nossa vocação.
Hoje também temos a memória da última aparição de Nossa Senhora em Fátima, com o milagre do sol. Tantos ali pediam cura de doenças, problemas, buscando respostas… Quando veem o sol se aproximando, lembrando que este é sempre uma referência a Jesus Cristo, como será que estas pessoas viveram o momento? Pensemos que Jesus pode se tornar visível a nós agora. Como Ele nos encontraria? E se fosse para nos buscar? Devemos estar prontos, pois não sabemos “quando o noivo vem”.
Através de Santa Dulce dos Pobres e na vida de Jacinto, Francisca e Lucia, Deus manifesta sua justiça ao mundo, na atenção aos que mais precisam, dando-se a conhecer através de algumas pessoas especiais que escolhe.
Também nós somos escolhidos para uma missão especial, de formar discípulos. Sejamos também modelo de caridade, para que o Senhor faça conhecer a salvação e revele sua justiça através de nós.

Cidadãos do céu

(Vandeia Ramos)

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Nossa vida é repleta de preocupações, ainda mais no domingo… Amanhã a semana “útil” começa e já separamos roupa, lanche… Precisamos garantir o nosso e dos demais… Sabemos o quanto um sorriso e um abraço pode tanto mudar nosso dia, semana, como de todos. Cumprimentar as pessoas na rua, agradecer, desculpar-se… tanta diferença faz num mundo indiferente para relações mais humanas…
Aqui que entramos com Jesus. Somos novas criaturas, cidadãos do céu. Não é que bens materiais não sejam importantes, afinal temos contas a pagar. É que eles são instrumentos de vida, e não motivos de vida. Trabalhamos porque nosso servir contribui de alguma forma para um mundo melhor, mais fraterno. O salário é consequência, não objetivo. Ao trabalhador, o justo valor. Se sou professora, por exemplo, trabalho para que meus alunos aprendam. Deus deu o suficiente para todos. Então, se abunda de um lado, está faltando de outro. Somos ricos em dons. Eles os são dados para partilhar, para que cheguem aos demais.
Casa, comida, roupa, um valor para emergências… necessidades que temos e que são justas. E situações de crise são momentos privilegiados para que avaliemos o que realmente é necessário. Quantos pares de calçado? Quantas roupas? Utensílios diversos… O mercado consumidor fomentou questões que fomos aceitando sem o devido discernimento. Olhemos em torno de nós e vejamos o quanto realmente poderíamos passar sem. Qual a última vez que fizemos uma geral em nossas coisas?
E se Jesus nos chamar esta noite, estamos prontos para deixarmos tudo para trás e seguir adiante? O que seria mais difícil? Onde está seu tesouro? Será que enchemos nossa vida de vento? Será que trabalhamos e estudamos para juntar poeira? Existe uma distância entre sobreviver, viver e luxo.
Podemos nos perguntar também quanto ao tempo que gastamos com cada atividade. Realmente, quantas nos são necessárias? Faço por que quero, por que preciso ou por que é um chamado de Deus? Vivo para servir ou vivo para me servir das coisas e das pessoas? Onde está o centro da minha vida?
Estamos no mês das vocações e hoje celebramos o sacerdócio ministerial, tendo o Cura D’Ars como modelo. Desde criança, São João Maria tinha Deus como centro da sua vida. Nascido em 1786, vésperas da Revolução Francesa, sabemos o quão difíceis eram estes tempos para viver a fé. No entanto, São João Maria não olhou para suas dificuldades e tempo como empecilhos, e sim como desafios. E enfrentou-os.
É de conhecimento suas dificuldades de aprendizagem no seminário, como na elaboração das homilias. Então ele acordava cedo para ter mais tempo de se preparar. Se há um problema, é para ser superado. Sem perder a perspectiva da vida eterna, via as pessoas como irmãs, enternecendo-se pelas que mais precisavam. Do quase nada que tinha, colocou Deus como seu tudo, em uma vida de escolha fundamental.
Da perspectiva do céu, olhava as coisas da terra. A partir de Deus, via o mundo. Da relação amorosa com Nossa Senhora, tinha a todos como irmãos. Entre o altar e o confessionário, acolhia sua comunidade, que reconhecia no cura mais que um amigo: alguém a partir do qual se poderia chegar ao céu.
Celebrar o dia do padre, é centralizar toda a vida cristã na Eucaristia, no próprio Jesus Cristo, e em seu Corpo Místico, a Igreja. É repensar como Ele nos deixou sua continuidade a partir de ministros especiais, que escolheram aceitar a vocação de serem os que, através de suas palavras, trazer a Palavra até nós. Tal dignidade requer o sustento de sua comunidade, principalmente através de orações.
A vida espiritual se torna ponto de partida para todas as demais dimensões. É o que vai dando sentido, direção e retorno. Do Povo de Deus, Ele chama alguns para ser refúgio do Senhor, alimentando-nos em nossa caminhada. “Que a bondade do Senhor e nosso Deus repouse [sobre nossos sacerdotes,] sobre nós e nos conduza! Tornai fecundo, ó Senhor, nosso trabalho.”

Santificados pelo sofrimento

(Prof. Felipe Aquino)

O sofrimento santifica?

Sentimos em nossa carne, que a conquista da santidade é algo que supera as nossas forças humanas, por isso os santos parecem aos nossos olhos como sobre-humanos. Na verdade, foi com o auxílio da graça de Deus que chegaram ao estado da bem-aventurança. “O que é impossível à natureza, é possível à graça de Deus”, disse Santo Agostinho. Ele ensina que a graça não anula e nem dispensa a natureza, a enriquece.

Como Deus nos vocacionou para sermos santos, Ele dirige a nossa vida e os nossos passos sempre nessa direção. Na medida que a nossa liberdade o consente Ele dirige os nossos passos para esse fim. É por isso que nos acontecimentos de nossa vida muitas vezes não entendemos o que nos sucede. Na verdade é a mão de Deus a nos conduzir.

O médico não prescreve o medicamento que agrada ao paciente, mas aquele que o cura. Assim também, como o Médico das almas, Deus nos apresenta muitas vezes remédios amargos, mas é para a nossa santificação. Assim, as provações e as tentações que Deus permite que nos atinjam são para o nosso bem espiritual. A Bíblia nos dá essa certeza. Àqueles que querem ser seus discípulos o Senhor exige: “Tome a sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9,23). Após a disposição interior de “renunciar a si mesmo”, é preciso a mesma disposição para “tomar a cruz cada dia”. Foi com a cruz que o Cordeiro de Deus tirou o pecado do mundo, e é também com a cruz que Ele tira o pecado enraizado em cada um de nós. Sabemos que o sofrimento não é obra de Deus, é a consequência do pecado.

“O salário do pecado é a morte”(Rom 6,23). Para dar um sentido ao sofrimento, Jesus o transformou em “matéria prima” da nossa salvação. Quem quer chegar à santidade não deve ter medo da cruz e deve toma-la, resolutamente, “a cada dia”, como disse Jesus, porque é ela que nos santificará.

Para entender essa pedagogia divina vamos examinar o que nos ensina a Carta aos hebreus, no capítulo 12, sobre as provações. Começa dizendo que assim como fizeram os santos, devemos nos “desvencilhar das cadeias do pecado” (v.1), enfrentando o “combate que nos é proposto”, como Jesus, que “suportou a cruz” (v.2), sem se deixar “abater pelo desânimo”(v 3). Em seguida mostra”nos que tudo é válido na luta contra o pecado. “Ainda não tendes resistido até ao sangue, na luta contra o pecado” (v.4).

Nesta luta vale a pena derramar até o próprio sangue, a própria vida. Em seguida a Carta recorda a citação dos Provérbios que diz:“Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes,quando repreendido por ele, pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho”(Prov. 3,11).

Assim como nós pais terrenos, corrigimos os nossos filhos, porque os amamos, Deus também o faz conosco. Quantas vezes eu precisei segurar no colo os meus filhos, quando ainda pequenos, para que o farmacêutico os aplicasse uma injeção. Só o amor por eles me obrigaria a tal ato, mesmo com o seu choro nos meus ouvidos. Assim também Deus faz conosco; por amor, permite que as provações arranquem as ervas daninhas do jardim precioso de nossa alma.

A palavra de Deus diz: “não desprezes a correção do Senhor” (v.5), portanto devemos acolhe-la, amá-la, mesmo que nos incomode. E ela continua: “Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige ?” (v. 7). Somos filhos legítimos de Deus, e não bastardos, por isso Ele nos corrige (V.8). E a palavra de Deus nos diz que Ele nos corrige “para nos comunicar a sua santidade” (v.10). Aí está a razão pela qual Jesus nos manda abraçar a cruz de cada dia. É pelas pequenas e numerosas cruzinhas de cada dia que o Artista Divino vai moldando a nossa alma, à sua própria imagem. A nós cabe ter paciência e aceitar cada sofrimento, cada revés, cada humilhação, cada doença, enfim, cada golpe do Artista, com resignação e ação de graças.

A nossa natureza sempre se revolta, se impacienta e se agita desesperada, e com isso, só faz aumentar ainda mais o sofrimento e agrava a situação. O segredo para se sofrer com paciência é não olhar nem para o passado e nem para o futuro, mas viver, na fé, o presente. Um dos grandes conselhos que Jesus nos deixou no Sermão da Montanha foi este:“Não vos preocupeis pois com o dia de amanhã (…). A cada dia basta o seu mal” (Mt 6,34). Deus sempre nos dará a graça necessária para carregar, com determinação, a cruz de cada dia que nos santifica.

Cada um de nós têm a sua própria cruz, única e exclusiva, pois para cada tipo de doença há um remédio próprio.

A nossa cruz “de cada dia” é formada de tudo o que fazemos e sofremos: o trabalho diário, as preocupações, a falta de dinheiro, a doença, o acidente, a contrariedade, as calúnias, os mal entendidos, enfim, tudo, o que nos desagrada. Tudo isto se torna sagrado quando abraçado na fé e colocado no cálice do sangue do Senhor celebrado a cada dia no altar.

Certa vez, andando no Cemitério, por entre as sepulturas, em dado momento deparei”me com essa frase em uma delas: “A melhor oração é o sofrimento”. É verdade, pensei, mas desde que seja abraçado na fé e na paciência, e oferecido ao Pai junto com o sangue de Jesus.

A cruz se torna mais suave quando é aceita por amor a Deus. Jesus mesmo ensinou à confidente do seu Coração, Soror Benigna Consolata, como se deve sofrer: “Quando sofres, quer interna quer externamente, não percas o merecimento da dor. Sofre unicamente por Mim”. Sofrer tudo por amor a Jesus, eis o segredo de sofrer bem . Santo Agostinho tem uma frase que nos ensina bem tudo isso: “Quando se ama não se sofre, e se sofre, ama-se o sofrimento”. Quanto mais calados sofrermos, sem ficarmos buscando o consolo das pessoas que nos cercam, choramingando as nossas dores, tanto mais cresceremos na santidade, e tanto mais teremos méritos diante de Deus. A maior vitória sobre o sofrimento, qualquer que ele seja, será sempre o nosso silêncio e aceitação.

Muitas vezes nos impomos uma série de mortificações, mas os santos ensinam que as melhores cruzes são aquelas que Deus permite que cheguem a nós. “São Francisco de Sales dizia que: “As cruzes que encontramos pelas ruas são excelentes, e que mais o são ainda” e tanto mais quanto mais importunas ”as que se nos deparam em casa”. Valem mais as cruzes do que as disciplinas e os jejuns. De que adianta a penitência que voluntariamente nos impomos, se não aceitamos aquelas que diariamente Deus nos impõe, na medida exata da nossa correção? De nada valeria o sacrifício de um enfermo que quisesse tomar muitos remédios amargos que não fosse aquele receitado pelo médico. De forma alguma devemos desprezar as mortificações que nos impomos, contudo, mais importante do que elas são as que a divina providência nos manda.

São Paulo dizia aos romanos que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8,28). Deus sabe aproveitar todos os acontecimentos da nossa vida para o nosso bem. Aceitar isso é ter fé, é saber abandonar-se nas mãos divinas, como o enfermo se entrega nas mãos do médico em que confia.

Tudo o que podemos passar nesta vida é pouco em vista da grande obra de santificação que Deus quer fazer em nós. Não podemos perder de vista o objetivo de Deus Pai que nos “predestinou para sermos conforme à imagem de seu Filho” (Rom 8,29). São Paulo tinha isto tão certo que disse aos romanos:

“Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rom 8,18).

É grande demais a obra que Deus está fazendo em nós. Santo Agostinho nos ensina que Deus “não permitiria o mal se não soubesse tirar dele um bem maior”. E que muitas vezes Deus permite que o mal nos atinja para evitar um mal maior.

As provações nos fortalecem para o combate espiritual; por isso, os Apóstolos sempre estimularam os fiéis a enfrentá”las com coragem. São Pedro diz:

“Caríssimos, não vos perturbeis no fogo da provação, como se vos acontecesse alguma coisa extraordinária. Pelo contrário, alegrai”vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo…”(1 Pe 4,12).

E ele ensina que a provação nos levará à perfeição:

“O Deus de toda graça, que vos chamou em Cristo à sua eterna glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vós fortificará” (1 Pe 5,10).

É importante notar que o Apóstolo ensina-nos que a provação nos “aperfeiçoará-e nos tornará “inabaláveis”. É importante não se deixar perturbar no fogo da provação. Não se exasperar, não perder a paz e a calma, pois é exatamente isto que o tentador deseja. Uma alma agitada fica a seu bel-prazer. Não consegue rezar, fica irritada, mal humorada, triste, indelicada com os outros, etc. O antídoto contra tudo isso é a humilde aceitação da vontade de Deus no exato momento em que algo desagradável nos ocorre, dando, de imediato, glória a Deus, como São Paulo ensina: “Em todas as circunstâncias dai graças, pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus” (1 Tes 5,16). É preciso fazer esse grande e difícil exercício de dar glória a Deus na adversidade. Nesses momentos gosto de ficar glorificando a Deus, rezando muitas vezes o “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo …” até que minha alma se acalme e se abandone aos cuidados de Deus. Essa atitude muito agrada a Deus, pois é a expressão da fé pura de quem se abandona aos seus cuidados. É como a fé de Maria e de Abraão que “esperaram contra toda a esperança” (Hb 11,17-19), e assim, agradaram a Deus sobremaneira.

Jó agradou muito a Deus porque no meio de todas as provações, tendo perdido todos os seus bens e todos os seus filhos, ainda assim soube dizer com fé :

“Nu sai do ventre da minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor! ” (Jo 1,21).

Afirmam os santos que vale mais um “bendito seja Deus!” pronunciado com o coração, no meio do fogo da provação, do que mil atos de ação de graças quando tudo vai bem.

O pecado original corrompeu tão intensamente o estado de santidade e de justiça original, em que Deus nos criou que, só mesmo com as provações Ele retira as “ervas daninhas” que se entranharam no jardim da nossa alma, que é propriedade de Deus. O Jardineiro divino da nossa alma sabe os métodos que deve empregar para limpar cada alma. Santa Teresa diz que sentiu Jesus dizer-lhe:

“Fica sabendo que as pessoas mais queridas de meu Pai são as que são mais afligidas com os maiores sofrimentos”. E por isso afirmava que não trocaria os seus sofrimentos por todos os tesouros do mundo. Tinha a certeza de que Deus a santificava pelas provações. A santa chega a dizer que “quando alguém faz algum bem a Deus, o Senhor lhe paga com alguma cruz”. Para nós essas palavras parecem até um absurdo, mas não para os santos, que conheceram todo o poder salvífico e santificador do sofrimento.

São Paulo ensina que:
“As nossas tribulações de momento são leves e nos preparam um peso de glória eterna” (2Cor 4,17).

Quando São Francisco de Assis passava um dia sem nada sofrer por Deus, temia que Deus tivesse se esquecido dele. São João Crisóstomo, doutor da Igreja, diz que “é melhor sofrer do que fazer milagres, já que aquele que faz milagres se torna devedor de Deus, mas no sofrimento Deus se torna devedor do homem”.

Só aceitaremos e amaremos o sofrimento quando enterdermos, como os santos, que por meio dele, Deus destrói em nós as más inclinações interiores e exteriores, que impedem a nossa santificação. As ofensas, as injúrias, os desprezos, os cinismos irritantes, as doenças, as dores, as lágrimas, as tentações, a humilhação do pecado próprio, etc., nos são necessários pois dão-nos a oportunidade de lutarmos contra as nossas misérias.

Isto não quer dizer que Deus seja o autor do mal, ou que Ele se alegre com o nosso sofrimento, não. O que Deus faz, de maneira até amável, é transformar o sofrimento, que é o salário do próprio pecado do homem, em matéria prima de sua própria salvação, dando assim, um sentido à dor. A partir daí, sob à luz da fé, podemos sofrer com esperança. É o enorme abismo que nos separa dos ateus, para quem a dor e a morte, continuam a ser o mais terrível dos absurdos da vida humana.

A paciência na dor é a grande arma do santo. São Tiago afirma que a paciência produz uma obra perfeita. Veja o que ele diz:

“Meus irmãos, tende por motivo de grande alegria o serdes submetidos a múltiplas provações, pois sabeis que a vossa fé, bem provada, leva à perseverança, mas é preciso que a perseverança produza uma obra perfeita, a fim de serdes perfeitos e íntegros sem nenhuma deficiência” (Tg 1,2″4).

A provação produz a perseverança, e por ela, passo a passo, chegaremos à perfeição, é o que nos ensina com essas palavras São Tiago.

O capítulo dois do Livro do Eclesiástico é o “hino da paciência”. Deveríamos decorar suas palavras:

“Meu filho, se entrares para o serviço de Deus (…) prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência (…) não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência” (Eclo 2,1-3).

“Aceita tudo o que te acontecer; na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (4-6).

Essas palavras precisam ser muito bem assimiladas, amadas e vividas. É a paciência que nos levará ao céu. São Gregório Magno afirma que todos os santos foram mártires ou pela espada ou pela paciência. São Paulo gloriava-se nas provações:

“Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança…” (Rom 5,3-5).

Sofrer com paciência é sabedoria, pois assim se vive com paz. Quem sofre sem paciência e sem fé, revolta-se, desespera-se, e sofre em dobro, além de fazer os outros sofrerem também. Santo Afonso diz que “neste vale de lágrimas não pode ter a paz interior senão quem recebe e abraça com amor os sofrimentos, tendo em vista agradar a Deus”. Segundo ele “essa é a condição a que estamos reduzidos em consequência da corrupção do pecado”.

É preciso aqui, ressaltar ainda uma vez mais, que as mortificações que aparecem contra a nossa vontade são as mais agradáveis a Deus, quando as abraçamos com fé e paciência. Diz o livro dos Provérbios que:

“Mais vale o homem paciente do que corajoso” (Pr 16,32).

Quando eu tinha vinte e dois anos de idade, recém formado na Faculdade, fui aprovado em concurso para Professor de uma Faculdade Federal de Engenharia. Casei-me no mesmo ano e nosso primeiro filho nasceu no ano seguinte. Sentia-me como um rei; tudo estava perfeito na minha vida. De repente, em poucos dias comecei a sentir a minha vista enfraquecer. Fui ao médico e ele constatou uma doença incurável, ceratocone, deformação da córnea. Eu teria que usar lentes de contato, de vidro, para sempre, até quem sabe, me submeter um dia a transplante das córneas.

Tudo aquilo, tão rápido, despencou sobre a minha cabeça como uma tempestade; e eu fiquei perguntando a Deus o que tudo aquilo significava. Isto já faz vinte e quatro anos. Lembro-me que naqueles dias, perguntei ao Pe Jonas Abib, que era o nosso diretor espiritual, sobre aquilo que eu sofria. Ele me disse:

“Eu não sei o que Deus quer com isso, mas certamente ele tem um plano atrás desses acontecimentos”.

Hoje, 24 anos depois, posso avaliar o quanto esta enfermidade ajudou-me a crescer espiritualmente. Talvez eu não estivesse hoje escrevendo essas páginas sobre o valor do sofrimento, se tudo isso não tivesse ocorrido. Aprendi a ser mais paciente comigo, com a doença, com os outros. Tive que fazer três transplantes das córneas, e atrás de tudo isto sempre vi a vontade de Deus na minha vida.

O homem de fé é aquele que está pronto a dizer sempre, em qualquer circunstância da vida: “Bendito seja Deus!”

(Fonte)

São José, guarda fiel e providente


É esta a regra geral de todas as graças especiais concedidas a qualquer criatura racional: quando a providência divina escolhe alguém para uma graça particular ou estado superior, também dá à pessoa assim escolhida todos os carismas necessários para o exercício de sua missão.

Isto verificou-se de forma eminente em São José, pai adotivo do Senhor Jesus Cristo e verdadeiro esposo da rainha do mundo e senhora dos anjos. Com efeito, ele foi escolhido pelo Pai eterno para ser o guarda fiel e providente dos seus maiores tesouros: o Filho de Deus e a Virgem Maria. E cumpriu com a máxima fidelidade sua missão. Eis por que o Senhor lhe disse: Servo bom e fiel! Vem participar da alegria do teu Senhor! (Mt 25,21).

Consideremos São José diante de toda a Igreja de Cristo: acaso não é ele o homem especialmente escolhido, por quem e sob cuja proteção se realizou a entrada de Cristo no mundo de modo digno e honesto? Se, portanto, toda a santa Igreja tem uma dívida para com a Virgem Mãe, por ter recebido a Cristo por meio dela, assim também, depois dela, deve a São José uma singular graça e reverência.

Ele encerra o Antigo Testamento; nele a dignidade dos patriarcas e dos profetas obtém o fruto prometido. Mas ele foi o único que realmente possuiu aquilo que a bondade divina lhes tinha prometido.
E não duvidemos que a familiaridade, o respeito e a sublimíssima dignidade que Cristo lhe tributou, enquanto procedeu na terra como um filho para com seu pai, certamente também nada disso lhe negou no céu, mas antes, completou e aperfeiçoou.

Por isso, não é sem razão que o Senhor lhe declara: Vem participar da alegria do teu Senhor! Embora a alegria da felicidade eterna penetre no coração do homem, o Senhor preferiu dizer: Vem participar da alegria. Quis assim insinuar misteriosamente que a alegria não está só dentro dele, mas o envolve de todos os lados e o absorve e submerge como um abismo sem fim.

Lembrai-vos de nós, São José, e intercedei com vossas orações junto de vosso Filho adotivo; tornai-nos também propícia vossa Esposa, a santíssima Virgem, mãe daquele que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos sem fim. Amém.

Dos Sermões de São Bernardino de Sena, presbítero
(Sermo 2, de S.Ioseph:Opera7,16.27-30) (Séc.XV)

Deus cuida de nós

(Vandeia Ramos)

Hoje é dia de São Brás, o protetor da garganta. Sendo nossa voz um dos nossos principais instrumentos, como não lembrar do santo que, mesmo condenado a ser decapitado, cuidou de uma criança com espinha de peixe presa na garganta, rezando pela sua cura? Tempos difíceis, em que ser cristão expunha a pessoa ao martírio de sangue…
Durante todo o tempo, vivemos na promessa de não sermos aceitos. A perseguição, o não aceitar a proposta do Evangelho, já pode ser identificado no Evangelho de hoje. Tanto “a luz que ilumina as trevas”, quanto a proximidade entre nós, expõe nossas contradições, dificuldades, limites… O de Jesus está no livre-arbítrio do Amor. Em si, cumpre todas as promessas de Deus, apresentando-se como Palavra Viva do Pai. No entanto, esta promessa chama a um passo de conversão, de confiança de que Deus traz em si o cuidado com cada um de nós. Precisamos abrir mão de achar que nós resolvemos tudo, que nosso “achar” é o que deve prevalecer, que podemos julgar quem quer que seja. É muito difícil aceitar um Deus que vem para salvar, e não para condenar… Pois chama à uma nova forma de viver…
E a Liturgia nos oferece a luz para este passo: Deus cuida de nós desde o ventre de nossa mãe, de nossas dificuldades, necessidades, de tudo que precisamos. De nós e de cada pessoa. O foco não é o mundo como o vemos, com suas estruturas de pecado que levam à destruição. Jeremias nos chama a um novo olhar: somos cuidados desde sempre! Deus é conosco! Não devemos nos prender em nossas fraquezas e incertezas, mas focar os olhos Naquele que nos dá a vida. Na Eucaristia e na Confissão, tornamo-nos muralhas de uma cidade fortificada, em que Deus habita em nós. Podemos ser fortes e calmos para assumir a turma de Iniciação Cristã deste ano que começa, reconhecendo e agradecendo por cada um envolvido que foi colocado ali para que déssemos testemunha do cuidado de Deus por nós.
Este amor pelo qual Deus se doa a cada um de nós é o mesmo que não se acomoda, mas que necessita ser dirigido às pessoas. A alegria é a expressão própria do cristão e precisa ser vivida claramente no catequista. Isso envolve a maturidade da fé, o constante aprofundamento na doutrina, a coerência do testemunho, a conformação a Cristo ao se dirigir ao outro, o acreditar que o Perfeito vive entre os imperfeitos. O que não conseguirmos entender e lidar, sabemos que precisamos fazer o melhor que pudermos, sob a guia do Espírito.
Não somos catequistas porque é legal, porque achamos bonitinho, interessante ou não temos nada melhor para fazer. Somos catequistas porque o Senhor nos enviou para anunciar a Boa Nova aos que Ele nos envia. Assim, refugiados em Deus e por Ele cuidados, anunciamos, todos os dias, as graças incontáveis do Senhor!