De um mundo dividido à comunhão em Deus

(Vandeia Ramos)

E de repente estamos não só num mundo dividido, mas muitos de nós estamos contribuindo para dividir o mundo. E sabemos que, quando um Reino se divide, ele não poderá sobreviver… Como esperarmos um futuro para a humanidade se estamos segmentados e em confronto entre nós? Acessamos os meios de comunicação e desfilam diante de nós notícias que influenciam oposição entre grupos. E quase que somos obrigados a nos posicionarmos. Se for em uma mídia de postagens e comentários, ficamos até assustados com a violência de muitos, principalmente se estes forem católicos. Agressões, adjetivos que desqualificam, julgamentos sem direito de defesa, retaliação, ataques… isso é mesmo quem somos?
O que seria de nós se Jesus não tivesse vindo em nosso socorro? O que seria de nós sem o Amor? Se alguns não tivessem tido o compromisso heróico de ousar seguir contra a corrente? Jesus passou três anos conosco e sabemos que não foi uma vida simples. Temos refletido sobre suas últimas palavras no evangelho de João e nos emocionado em como Ele se oferece por nós ao Pai e nos promete seu Espírito. Ele não nos abandona. Ele se coloca ao lado dos seus perante o Pai, aceitando o mesmo destino – é assim que Ele vai para a cruz.
Com todos os motivos para nos condenar, Ele não desistiu. Ele formou uma comunidade, e nos chamou de amigos. Quando não tinha mais nada a oferecer, deu-nos sua Mãe e fez-nos sua família. Antes de voltar para casa, diz que é nossa casa e que vai prepará-la para nos receber. E, para não ficarmos sozinhos, envia o Espírito, mas não é visível ao mundo. É este Espírito que une o Pai e o Filho, e que nos une como família. Agora, a Santíssima Trindade acolhe algo novo: a humanidade do Filho. Jesus, que se encarnou, que se fez Homem, ascendeu ao céu e, encontrando-se à direita do Pai, também como Homem, também o está com a humanidade assumida. Nossa comunhão com Deus está garantida em Cristo por toda a eternidade.
Já podemos perceber esta atitude figurada em Moisés. Quando ele sobe o Sinai não vai somente como pessoa, mas também como chefe de Israel – o povo está ali representado com ele. E ele tem consciência que seu comportamento, atitudes, palavras, trazem Israel consigo. Ele se coloca por seu povo. É assim que enfrenta a idade e a dificuldade em subir o Sinai com as duas tábuas de pedra. É assim que invoca o Senhor.
Quando Deus vem e encontra Moisés, vê seu justo amado. Sabe que ele está ali em nome do povo. Mas tem uma atenção especial com a pessoa de seu líder, pois sabe do sacrifício que este fez por estar ali. E ouve seu querido chamando-lhe. O coração de Deus se enternece com a coragem e o heroísmo de seu escolhido que, mesmo sabendo os limites e pecados do seu povo, coloca-se ao seu lado e escolhe assumir o mesmo destino que será dado a ele. E mesmo por este povo ousa ir ao encontro de Deus e interceder, pedindo em nome da bondade de Deus, não por mérito de Israel ou mesmo seus.
E Moisés se curva até o chão, para que Deus faça dele o que quiser, em lugar do povo. Ele sabe que conseguiu o favor divino pela obediência anterior, pela presteza, e por esta atenção intercede não por si, mas por todos. E se inclui. Coloca-se como membro do povo cabeça dura, cheio de culpas, pecados, e pede que Ele seja seu Deus. Ele assume o povo em si, ainda que seja disponível para a ação de Deus. É uma imagem muito bonita já no Antigo Testamento do que Jesus será no Novo por nós, do que a Igreja (nós) vai aprendendo a ser na história.
São Paulo fará o mesmo quando for primeiro aos judeus antes de ir aos pagãos, garantindo-lhes em seguida a Aliança. Ele descreve o caminho para que possamos também sermos como Moisés e Jesus, e revermos nossas atitudes e posturas: uma Igreja em contínuo aperfeiçoamento, corajosa, que busca a concórdia, a paz, para que o Deus do amor e da paz esteja conosco. É neste caminho que todos os santos nos saúdam e, no Espírito Santo, por Jesus Cristo, estaremos na graça do Pai – participando da Santíssima Trindade, dando louvor, honra e glória eternamente.

Deus pode estar punindo a humanidade com esta pandemia?


Hoje eu abri a Bíblia em uma passagem do Antigo Testamento sobre o templo de Salomão, onde o Senhor diz:


“Mas se vos desviardes de mim e negligenciardes os preceitos e mandamentos que vos prescrevi, para servirdes a outros deuses e render-lhes culto, então extirpar-vos-ei da terra que vos dei, e arrojarei para longe de mim este templo que consagrei a meu nome, e dele farei para todas as nações pagãs objeto de fábula e de riso.
Este templo, tão excelso, será para todos os transeuntes um objeto de espanto. Eles dirão: Como tratou o Senhor dessa maneira esta terra e este templo?
E responderão: É porque abandonaram o Senhor, o Deus de seus pais, que os tinha tirado do Egito, e se apegaram a outros deuses, prostrando-se diante deles e rendendo-lhes culto. Eis porque fez sobrevir a eles todas essas calamidades.” (II Crônicas 7,19-22)

Então me questionei: será que Deus pode estar punindo a humanidade com esta pandemia?
Mas meu noivo e professor, da Comunidade Filhos da Redenção, Antônio José, me respondeu:


Penso que a própria humanidade se pune ao se afastar de Deus e de seus preceitos.
Sempre houve na história da humanidade epidemias e pandemias:
(https://brasilescola.uol.com.br/curiosidades/grandes-epidemias-da-historia.htm)
Porém, com integração menor entre os povos antigamente, muitas epidemias se limitavam apenas a atingir duramente alguns povos. Não havia circulação internacional como hoje (muitas e rápidas).
Logo é algo que periodicamente ocorre e ocorrerá.
A questão é: o ser humano está enfrentando a pandemia com princípios cristãos? Vejamos:

  • Falta de respiradores – em alguns casos, fábricas cancelam vendas feitas porque outro pagou mais… Isso é de Deus?
  • Hospitais de campanha que demoram séculos pra ficarem prontos E COM DENÚNCIAS DE SUPERFATURAMENTO!
    Isso é de Deus?
  • Pessoas se aglomerando. Se fosse a questão de isso acontecer porque muitos têm que sair pra trabalhar, seria pelo menos justificável. Mas fazem isso para soltar pipa! Pra fazer bailes! Só querem sabem de satisfazer seus próprios prazeres. Isso é cristão?

E tantos outros…

Assim, vale o texto bíblico de que é porque abandonaram o Senhor e se apegaram a deuses (dinheiro, ego,…) , mas não propriamente que Deus enviou a calamidade.
Entendo assim este momento que vivemos…

Reflexão sobre o Evangelho

(Carlos Francisco Bonard)

“Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai. Há alguém que vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu” (Jo 5, 45-46).

No livro do Deuteronômio, encontra-se uma promessa que tem um significado decisivo para a compreensão da figura de Jesus: não é prometido um rei de Israel e do mundo, mas um novo Moisés.
Em Dt 18, 15, lemos “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir”.
Uma leitura isolada pode fazer parecer crer que se está instituindo o profetismo em Israel, mas o fim do livro, na sequencia da morte de Moisés, nos diz “Não se levantou mais em Israel profeta comparável a Moisés, com quem o Senhor conversava face a face”.
O decisivo na figura de Moisés não são suas ações maravilhosa, não são as obras e os sofrimentos desde casa da escravidão no Egito, através do deserto até as bordas da Terra Prometida. Decisivo é que ele tenha falado com Deus como um amigo, pois era daqui que vinham as suas obras, a lei e o ensinamento dado a Israel.
Por isso, o profetismo de Israel é único. O profeta de Israel não é um adivinho. Não é alguém que prediz o futuro. O verdadeiro profeta não esta aqui para revelar o acontecimento de amanhã, ou de depois de amanhã, para servir à curiosidade humana ou a humana necessidade de segurança (como aconteceu com Saul, que diante do silêncio de Deus as portas da batalha contra os filisteus, recorreu a vidente de Endor). O profeta está aqui para revelar o rosto de Deus, e, assim, nos mostrar o caminho a seguir: o autêntico “êxodo”, que é aquilo que sempre observamos ao fim de toda a quaresma. A fuga da escravidão do Egito é um sinal fugaz daquilo que nos espera no fim dos tempos “quando amanhecer o dia eterno, a plena visão”.

Em todos os caminhos da história, em todos os caminhos da nossa história, devemos procurar o caminho para Deus como autêntica direção.

Um profeta que “via” a Deus face a face…. as aspas se dá por que não era possível a Moisés contemplar a face de Deus, não era possível a Moisés ver a glória de Deus, mas apenas ter um vislumbre dela (Ex 33, 18-23). Em que pese a intimidade de falar com Deus como um amigo, existe um limite até para um profeta, até para Moisés. É permitido a intimidade da nuvem, mas não a visão da face de Deus.
Isso deveria ser guardado para o Novo Moisés. Ele receberia o que foi negado ao primeiro. Ele teria mais que um olhar “detrás”.

Esse novo profeta é Jesus, e o prólogo de São João nos aponta essa realidade quando diz “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou”. Ele não vive diante de Deus como amigo, mas como Filho, e assim vive na mais íntima unidade com o Pai.

Moisés era testemunha de Jesus por conta da sua intimidade com Deus. Isso que o Evangelho de hoje nos aponta também.

Podemos nós sermos testemunhas de Cristo se também tivermos essa intimidade. Os judeus a quem Jesus interroga (contextualizando, esse Evangelho de hoje é a continuação da cura do paralítico na beira da piscina de Betesda, quando os judeus perguntavam ao paralítico quem o curou. Reparem que o curado não sabia quem era Jesus) não compreendem de onde vem as palavras e o poder de Jesus. Os doutores do tempo de Jesus não conseguiam admitir essa intimidade de Filho.

Contudo nós podemos e devemos, mas para isso é necessário observar que em sua vida, Jesus se retirava ao monte para ter sua intimidade. Não era só por que Jesus era Deus de Deus que ele se retirava para, sozinho, ter intimidade.

Nessa quaresma, nesses tempos difíceis, mas que vão passar, caminhemos com Jesus para também termos essa intimidade, e, com ela, alcançarmos a redenção.

Fonte: livro Jesus de Nazaré (Bento XVI)

Santificados pelo sofrimento

(Prof. Felipe Aquino)

O sofrimento santifica?

Sentimos em nossa carne, que a conquista da santidade é algo que supera as nossas forças humanas, por isso os santos parecem aos nossos olhos como sobre-humanos. Na verdade, foi com o auxílio da graça de Deus que chegaram ao estado da bem-aventurança. “O que é impossível à natureza, é possível à graça de Deus”, disse Santo Agostinho. Ele ensina que a graça não anula e nem dispensa a natureza, a enriquece.

Como Deus nos vocacionou para sermos santos, Ele dirige a nossa vida e os nossos passos sempre nessa direção. Na medida que a nossa liberdade o consente Ele dirige os nossos passos para esse fim. É por isso que nos acontecimentos de nossa vida muitas vezes não entendemos o que nos sucede. Na verdade é a mão de Deus a nos conduzir.

O médico não prescreve o medicamento que agrada ao paciente, mas aquele que o cura. Assim também, como o Médico das almas, Deus nos apresenta muitas vezes remédios amargos, mas é para a nossa santificação. Assim, as provações e as tentações que Deus permite que nos atinjam são para o nosso bem espiritual. A Bíblia nos dá essa certeza. Àqueles que querem ser seus discípulos o Senhor exige: “Tome a sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9,23). Após a disposição interior de “renunciar a si mesmo”, é preciso a mesma disposição para “tomar a cruz cada dia”. Foi com a cruz que o Cordeiro de Deus tirou o pecado do mundo, e é também com a cruz que Ele tira o pecado enraizado em cada um de nós. Sabemos que o sofrimento não é obra de Deus, é a consequência do pecado.

“O salário do pecado é a morte”(Rom 6,23). Para dar um sentido ao sofrimento, Jesus o transformou em “matéria prima” da nossa salvação. Quem quer chegar à santidade não deve ter medo da cruz e deve toma-la, resolutamente, “a cada dia”, como disse Jesus, porque é ela que nos santificará.

Para entender essa pedagogia divina vamos examinar o que nos ensina a Carta aos hebreus, no capítulo 12, sobre as provações. Começa dizendo que assim como fizeram os santos, devemos nos “desvencilhar das cadeias do pecado” (v.1), enfrentando o “combate que nos é proposto”, como Jesus, que “suportou a cruz” (v.2), sem se deixar “abater pelo desânimo”(v 3). Em seguida mostra”nos que tudo é válido na luta contra o pecado. “Ainda não tendes resistido até ao sangue, na luta contra o pecado” (v.4).

Nesta luta vale a pena derramar até o próprio sangue, a própria vida. Em seguida a Carta recorda a citação dos Provérbios que diz:“Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes,quando repreendido por ele, pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho”(Prov. 3,11).

Assim como nós pais terrenos, corrigimos os nossos filhos, porque os amamos, Deus também o faz conosco. Quantas vezes eu precisei segurar no colo os meus filhos, quando ainda pequenos, para que o farmacêutico os aplicasse uma injeção. Só o amor por eles me obrigaria a tal ato, mesmo com o seu choro nos meus ouvidos. Assim também Deus faz conosco; por amor, permite que as provações arranquem as ervas daninhas do jardim precioso de nossa alma.

A palavra de Deus diz: “não desprezes a correção do Senhor” (v.5), portanto devemos acolhe-la, amá-la, mesmo que nos incomode. E ela continua: “Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige ?” (v. 7). Somos filhos legítimos de Deus, e não bastardos, por isso Ele nos corrige (V.8). E a palavra de Deus nos diz que Ele nos corrige “para nos comunicar a sua santidade” (v.10). Aí está a razão pela qual Jesus nos manda abraçar a cruz de cada dia. É pelas pequenas e numerosas cruzinhas de cada dia que o Artista Divino vai moldando a nossa alma, à sua própria imagem. A nós cabe ter paciência e aceitar cada sofrimento, cada revés, cada humilhação, cada doença, enfim, cada golpe do Artista, com resignação e ação de graças.

A nossa natureza sempre se revolta, se impacienta e se agita desesperada, e com isso, só faz aumentar ainda mais o sofrimento e agrava a situação. O segredo para se sofrer com paciência é não olhar nem para o passado e nem para o futuro, mas viver, na fé, o presente. Um dos grandes conselhos que Jesus nos deixou no Sermão da Montanha foi este:“Não vos preocupeis pois com o dia de amanhã (…). A cada dia basta o seu mal” (Mt 6,34). Deus sempre nos dará a graça necessária para carregar, com determinação, a cruz de cada dia que nos santifica.

Cada um de nós têm a sua própria cruz, única e exclusiva, pois para cada tipo de doença há um remédio próprio.

A nossa cruz “de cada dia” é formada de tudo o que fazemos e sofremos: o trabalho diário, as preocupações, a falta de dinheiro, a doença, o acidente, a contrariedade, as calúnias, os mal entendidos, enfim, tudo, o que nos desagrada. Tudo isto se torna sagrado quando abraçado na fé e colocado no cálice do sangue do Senhor celebrado a cada dia no altar.

Certa vez, andando no Cemitério, por entre as sepulturas, em dado momento deparei”me com essa frase em uma delas: “A melhor oração é o sofrimento”. É verdade, pensei, mas desde que seja abraçado na fé e na paciência, e oferecido ao Pai junto com o sangue de Jesus.

A cruz se torna mais suave quando é aceita por amor a Deus. Jesus mesmo ensinou à confidente do seu Coração, Soror Benigna Consolata, como se deve sofrer: “Quando sofres, quer interna quer externamente, não percas o merecimento da dor. Sofre unicamente por Mim”. Sofrer tudo por amor a Jesus, eis o segredo de sofrer bem . Santo Agostinho tem uma frase que nos ensina bem tudo isso: “Quando se ama não se sofre, e se sofre, ama-se o sofrimento”. Quanto mais calados sofrermos, sem ficarmos buscando o consolo das pessoas que nos cercam, choramingando as nossas dores, tanto mais cresceremos na santidade, e tanto mais teremos méritos diante de Deus. A maior vitória sobre o sofrimento, qualquer que ele seja, será sempre o nosso silêncio e aceitação.

Muitas vezes nos impomos uma série de mortificações, mas os santos ensinam que as melhores cruzes são aquelas que Deus permite que cheguem a nós. “São Francisco de Sales dizia que: “As cruzes que encontramos pelas ruas são excelentes, e que mais o são ainda” e tanto mais quanto mais importunas ”as que se nos deparam em casa”. Valem mais as cruzes do que as disciplinas e os jejuns. De que adianta a penitência que voluntariamente nos impomos, se não aceitamos aquelas que diariamente Deus nos impõe, na medida exata da nossa correção? De nada valeria o sacrifício de um enfermo que quisesse tomar muitos remédios amargos que não fosse aquele receitado pelo médico. De forma alguma devemos desprezar as mortificações que nos impomos, contudo, mais importante do que elas são as que a divina providência nos manda.

São Paulo dizia aos romanos que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8,28). Deus sabe aproveitar todos os acontecimentos da nossa vida para o nosso bem. Aceitar isso é ter fé, é saber abandonar-se nas mãos divinas, como o enfermo se entrega nas mãos do médico em que confia.

Tudo o que podemos passar nesta vida é pouco em vista da grande obra de santificação que Deus quer fazer em nós. Não podemos perder de vista o objetivo de Deus Pai que nos “predestinou para sermos conforme à imagem de seu Filho” (Rom 8,29). São Paulo tinha isto tão certo que disse aos romanos:

“Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rom 8,18).

É grande demais a obra que Deus está fazendo em nós. Santo Agostinho nos ensina que Deus “não permitiria o mal se não soubesse tirar dele um bem maior”. E que muitas vezes Deus permite que o mal nos atinja para evitar um mal maior.

As provações nos fortalecem para o combate espiritual; por isso, os Apóstolos sempre estimularam os fiéis a enfrentá”las com coragem. São Pedro diz:

“Caríssimos, não vos perturbeis no fogo da provação, como se vos acontecesse alguma coisa extraordinária. Pelo contrário, alegrai”vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo…”(1 Pe 4,12).

E ele ensina que a provação nos levará à perfeição:

“O Deus de toda graça, que vos chamou em Cristo à sua eterna glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vós fortificará” (1 Pe 5,10).

É importante notar que o Apóstolo ensina-nos que a provação nos “aperfeiçoará-e nos tornará “inabaláveis”. É importante não se deixar perturbar no fogo da provação. Não se exasperar, não perder a paz e a calma, pois é exatamente isto que o tentador deseja. Uma alma agitada fica a seu bel-prazer. Não consegue rezar, fica irritada, mal humorada, triste, indelicada com os outros, etc. O antídoto contra tudo isso é a humilde aceitação da vontade de Deus no exato momento em que algo desagradável nos ocorre, dando, de imediato, glória a Deus, como São Paulo ensina: “Em todas as circunstâncias dai graças, pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus” (1 Tes 5,16). É preciso fazer esse grande e difícil exercício de dar glória a Deus na adversidade. Nesses momentos gosto de ficar glorificando a Deus, rezando muitas vezes o “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo …” até que minha alma se acalme e se abandone aos cuidados de Deus. Essa atitude muito agrada a Deus, pois é a expressão da fé pura de quem se abandona aos seus cuidados. É como a fé de Maria e de Abraão que “esperaram contra toda a esperança” (Hb 11,17-19), e assim, agradaram a Deus sobremaneira.

Jó agradou muito a Deus porque no meio de todas as provações, tendo perdido todos os seus bens e todos os seus filhos, ainda assim soube dizer com fé :

“Nu sai do ventre da minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor! ” (Jo 1,21).

Afirmam os santos que vale mais um “bendito seja Deus!” pronunciado com o coração, no meio do fogo da provação, do que mil atos de ação de graças quando tudo vai bem.

O pecado original corrompeu tão intensamente o estado de santidade e de justiça original, em que Deus nos criou que, só mesmo com as provações Ele retira as “ervas daninhas” que se entranharam no jardim da nossa alma, que é propriedade de Deus. O Jardineiro divino da nossa alma sabe os métodos que deve empregar para limpar cada alma. Santa Teresa diz que sentiu Jesus dizer-lhe:

“Fica sabendo que as pessoas mais queridas de meu Pai são as que são mais afligidas com os maiores sofrimentos”. E por isso afirmava que não trocaria os seus sofrimentos por todos os tesouros do mundo. Tinha a certeza de que Deus a santificava pelas provações. A santa chega a dizer que “quando alguém faz algum bem a Deus, o Senhor lhe paga com alguma cruz”. Para nós essas palavras parecem até um absurdo, mas não para os santos, que conheceram todo o poder salvífico e santificador do sofrimento.

São Paulo ensina que:
“As nossas tribulações de momento são leves e nos preparam um peso de glória eterna” (2Cor 4,17).

Quando São Francisco de Assis passava um dia sem nada sofrer por Deus, temia que Deus tivesse se esquecido dele. São João Crisóstomo, doutor da Igreja, diz que “é melhor sofrer do que fazer milagres, já que aquele que faz milagres se torna devedor de Deus, mas no sofrimento Deus se torna devedor do homem”.

Só aceitaremos e amaremos o sofrimento quando enterdermos, como os santos, que por meio dele, Deus destrói em nós as más inclinações interiores e exteriores, que impedem a nossa santificação. As ofensas, as injúrias, os desprezos, os cinismos irritantes, as doenças, as dores, as lágrimas, as tentações, a humilhação do pecado próprio, etc., nos são necessários pois dão-nos a oportunidade de lutarmos contra as nossas misérias.

Isto não quer dizer que Deus seja o autor do mal, ou que Ele se alegre com o nosso sofrimento, não. O que Deus faz, de maneira até amável, é transformar o sofrimento, que é o salário do próprio pecado do homem, em matéria prima de sua própria salvação, dando assim, um sentido à dor. A partir daí, sob à luz da fé, podemos sofrer com esperança. É o enorme abismo que nos separa dos ateus, para quem a dor e a morte, continuam a ser o mais terrível dos absurdos da vida humana.

A paciência na dor é a grande arma do santo. São Tiago afirma que a paciência produz uma obra perfeita. Veja o que ele diz:

“Meus irmãos, tende por motivo de grande alegria o serdes submetidos a múltiplas provações, pois sabeis que a vossa fé, bem provada, leva à perseverança, mas é preciso que a perseverança produza uma obra perfeita, a fim de serdes perfeitos e íntegros sem nenhuma deficiência” (Tg 1,2″4).

A provação produz a perseverança, e por ela, passo a passo, chegaremos à perfeição, é o que nos ensina com essas palavras São Tiago.

O capítulo dois do Livro do Eclesiástico é o “hino da paciência”. Deveríamos decorar suas palavras:

“Meu filho, se entrares para o serviço de Deus (…) prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência (…) não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência” (Eclo 2,1-3).

“Aceita tudo o que te acontecer; na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (4-6).

Essas palavras precisam ser muito bem assimiladas, amadas e vividas. É a paciência que nos levará ao céu. São Gregório Magno afirma que todos os santos foram mártires ou pela espada ou pela paciência. São Paulo gloriava-se nas provações:

“Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança…” (Rom 5,3-5).

Sofrer com paciência é sabedoria, pois assim se vive com paz. Quem sofre sem paciência e sem fé, revolta-se, desespera-se, e sofre em dobro, além de fazer os outros sofrerem também. Santo Afonso diz que “neste vale de lágrimas não pode ter a paz interior senão quem recebe e abraça com amor os sofrimentos, tendo em vista agradar a Deus”. Segundo ele “essa é a condição a que estamos reduzidos em consequência da corrupção do pecado”.

É preciso aqui, ressaltar ainda uma vez mais, que as mortificações que aparecem contra a nossa vontade são as mais agradáveis a Deus, quando as abraçamos com fé e paciência. Diz o livro dos Provérbios que:

“Mais vale o homem paciente do que corajoso” (Pr 16,32).

Quando eu tinha vinte e dois anos de idade, recém formado na Faculdade, fui aprovado em concurso para Professor de uma Faculdade Federal de Engenharia. Casei-me no mesmo ano e nosso primeiro filho nasceu no ano seguinte. Sentia-me como um rei; tudo estava perfeito na minha vida. De repente, em poucos dias comecei a sentir a minha vista enfraquecer. Fui ao médico e ele constatou uma doença incurável, ceratocone, deformação da córnea. Eu teria que usar lentes de contato, de vidro, para sempre, até quem sabe, me submeter um dia a transplante das córneas.

Tudo aquilo, tão rápido, despencou sobre a minha cabeça como uma tempestade; e eu fiquei perguntando a Deus o que tudo aquilo significava. Isto já faz vinte e quatro anos. Lembro-me que naqueles dias, perguntei ao Pe Jonas Abib, que era o nosso diretor espiritual, sobre aquilo que eu sofria. Ele me disse:

“Eu não sei o que Deus quer com isso, mas certamente ele tem um plano atrás desses acontecimentos”.

Hoje, 24 anos depois, posso avaliar o quanto esta enfermidade ajudou-me a crescer espiritualmente. Talvez eu não estivesse hoje escrevendo essas páginas sobre o valor do sofrimento, se tudo isso não tivesse ocorrido. Aprendi a ser mais paciente comigo, com a doença, com os outros. Tive que fazer três transplantes das córneas, e atrás de tudo isto sempre vi a vontade de Deus na minha vida.

O homem de fé é aquele que está pronto a dizer sempre, em qualquer circunstância da vida: “Bendito seja Deus!”

(Fonte)

Entre o silêncio e o barulho

(Vandeia Ramos)

O primeiro pensamento que nos vem com o Carnaval encontra-se entre explosão de cores e barulho. Multiplicam-se a diversão e os críticos. Lembra muito a fábula A Cigarra e a Formiga: a formiga trabalha incessantemente enquanto a Cigarra fica na música; quando chega o inverno, a formiga tem alimento estocado enquanto a cigarra bate em sua porta pedindo ajuda. Será que a formiga vai lembrar que só conseguiu sustentar as dificuldades de seu trabalho pela alegria que a música da cigarra proporcionava? Que, lá no fundo, quando chegava em casa cansada do trabalho, um relance de inveja passava em seu coração e desejava um pouco da alegria da cigarra? Por que, no século XXI, ainda desvalorizamos o trabalho artístico e cultural?
Fico pensando no quanto somos pequenos e medíocres, evangelicamente hipócritas, mais preocupados com os pecados dos demais em vez de cuidarmos daquilo que está cheio o nosso coração, a ponto de extrapolar… Vale o dito que, quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro que de João. Não repetimos esta mesma postura quando reclamamos da grama do vizinho? Da turma do outro catequista? De agentes de pastoral que parecem estar em situações de destaque enquanto somos esquecidos? Dos bens morais, espirituais e mesmo financeiros dos demais?
Às vezes parece que há um gostinho de “bem feito”, “eu bem que sabia”, um certo prazer em divulgar escândalos, sejam religiosos, civis ou de qualquer outro gênero. Dá um grau de superioridade em quem coloca o dedo na ferida do outro e a expõe e multiplica inúmeras vezes nas mídias. O que estamos tirando de nosso coração? Que fruto estamos oferecendo? É esta a postura que aprendemos a ser enquanto cristãos? Não estou criticando a quem cabe julgar, estou somente questionando este quem e os critérios que trazemos à tona ao fazê-lo.
O cuidado com a língua sempre foi uma preocupação cristã, a ponto de tornarmos Nossa Senhora do Silêncio uma devoção. É pela reserva que conseguimos a distância suficiente para nos ajudar a controlar nossos impulsos, nossa falsa necessidade de ter um posicionamento em tudo para afirmar que estamos acima, que evitamos de nos desviarmos da Cruz e esperamos a Ressurreição. O centro cristão não é morrer para si a cada dia como caminho de vencer a própria morte? No fundo, não é esta talvez a mais difícil obra que o Senhor quer fazer em nós?
Sabemos que ver tudo e ficar com o que é bom, ensinamento paulino, não é algo tão simples. Precisa de muito discernimento e firmeza. Neste domingo de Carnaval, sabendo que a quaresma nos espera para intensificar nossa purificação no caminho rumo ao Pai, tomemos cuidado com nosso falar e voltemos para anunciar com a nossa vida “como é bom agradecermos ao Senhor!”

Sobre o ser cristão

(Vandeia Ramos)

Entre tantas ideias modernas, a consciência cristã tem ficado abafada devido às ondas que varrem a sociedade. Muitas vezes tenho a impressão que não prestamos a devida atenção ao básico, ao que é mais importante, ao, como diz nosso amado Papa Emérito Bento XVI, à hierarquia de verdades. Meditemos o evangelho de Lucas: Jesus desce da montanha e fala à multidão. Não faz acepção de pessoas, não discrimina, e ensina aos discípulos que o anúncio não tem limites. É para todos! Ele não ensina a gente a ficar de mimimi, fofoquinha, postando os pecados dos demais nas mídias sociais, só porque muitas vezes somos atingidos. Jesus nos apresenta uma dignidade muito maior, heroica, que cala fundo em quem somos: pobres, famintos e chorosos. Ele não fixa nossa condição como meramente humana, mas a utiliza como a que precisa de Deus. Sem este testemunho pessoal, como apresentar o mesmo aos nossos catecúmenos?
E não para aqui. A recompensa por injúrias, perseguições, maldições, mas que sejam “falsas” (Mt 5, 11) E por causa do Filho, é a alegria e a exultação. Como lembra o Papa Francisco na exortação Gaudete et Exultate, a humilhação é o caminho da humildade. Jesus não diz para irmos para o Facebook ficar reclamando, para as mídias contar nossos “causos”, para o mundo anunciar nosso drama. Ele diz simplesmente para nos alegrarmos. É aqui que pisamos no orgulho, na posição de acharmos que somos mais que os demais, que somos os “certinhos” da parada. O silêncio, tão custoso no pisar na vaidade, é que forja o cristão, o que se configura ao Cristo na cruz, à Nossa Senhora em toda a sua vida. “Manso e humilde…” Os verdadeiros profetas, anunciadores do Reino…
É no silêncio, muitas vezes fruto da dor da humilhação, do sufocar a rebelião do encontro entre a injustiça com o orgulho e a vaidade ferida, que nos encontramos no deserto da existência. Quando parece que tudo nos é tirado é que se afirma a única certeza: Deus é a nossa força e Nele esperamos! Temos Advogada junto ao Trono, temos intercessores, temos a Justiça e a Misericórdia. No silêncio ao mundo e ao que é humano, nos refugiamos e nos colocamos perante o Senhor.
Não somos catequistas para vivermos entre farturas e gargalhadas, elogios e luxo. Como cristãos, sabemos e anunciamos que o caminho é o da Cruz e da Ressurreição. Ensinamos o que e a Quem procurar e pedir por uma relação pessoal com Deus. É nesta realidade radical que esperamos no relacionamento com as pessoas. Sim, seremos humilhados, ofendidos, injustiçados, como Jesus o foi. E a certeza de que ressuscitamos com Ele nos dá a paz que precisamos, a esperança de que não estamos sozinhos, de que há Alguém com o qual todo o resto perde seu brilho e importância. Vejamos o rosto de alegre paz dos santos… com tudo o que eles nos têm a ensinar sobre o cristianismo.
Juntemo-nos aos que cantam a glória de Deus e cantemos com toda a certeza de quem somos e o que fazemos aqui: É feliz quem a Deus se confia!