Entre o silêncio e o barulho

(Vandeia Ramos)

O primeiro pensamento que nos vem com o Carnaval encontra-se entre explosão de cores e barulho. Multiplicam-se a diversão e os críticos. Lembra muito a fábula A Cigarra e a Formiga: a formiga trabalha incessantemente enquanto a Cigarra fica na música; quando chega o inverno, a formiga tem alimento estocado enquanto a cigarra bate em sua porta pedindo ajuda. Será que a formiga vai lembrar que só conseguiu sustentar as dificuldades de seu trabalho pela alegria que a música da cigarra proporcionava? Que, lá no fundo, quando chegava em casa cansada do trabalho, um relance de inveja passava em seu coração e desejava um pouco da alegria da cigarra? Por que, no século XXI, ainda desvalorizamos o trabalho artístico e cultural?
Fico pensando no quanto somos pequenos e medíocres, evangelicamente hipócritas, mais preocupados com os pecados dos demais em vez de cuidarmos daquilo que está cheio o nosso coração, a ponto de extrapolar… Vale o dito que, quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro que de João. Não repetimos esta mesma postura quando reclamamos da grama do vizinho? Da turma do outro catequista? De agentes de pastoral que parecem estar em situações de destaque enquanto somos esquecidos? Dos bens morais, espirituais e mesmo financeiros dos demais?
Às vezes parece que há um gostinho de “bem feito”, “eu bem que sabia”, um certo prazer em divulgar escândalos, sejam religiosos, civis ou de qualquer outro gênero. Dá um grau de superioridade em quem coloca o dedo na ferida do outro e a expõe e multiplica inúmeras vezes nas mídias. O que estamos tirando de nosso coração? Que fruto estamos oferecendo? É esta a postura que aprendemos a ser enquanto cristãos? Não estou criticando a quem cabe julgar, estou somente questionando este quem e os critérios que trazemos à tona ao fazê-lo.
O cuidado com a língua sempre foi uma preocupação cristã, a ponto de tornarmos Nossa Senhora do Silêncio uma devoção. É pela reserva que conseguimos a distância suficiente para nos ajudar a controlar nossos impulsos, nossa falsa necessidade de ter um posicionamento em tudo para afirmar que estamos acima, que evitamos de nos desviarmos da Cruz e esperamos a Ressurreição. O centro cristão não é morrer para si a cada dia como caminho de vencer a própria morte? No fundo, não é esta talvez a mais difícil obra que o Senhor quer fazer em nós?
Sabemos que ver tudo e ficar com o que é bom, ensinamento paulino, não é algo tão simples. Precisa de muito discernimento e firmeza. Neste domingo de Carnaval, sabendo que a quaresma nos espera para intensificar nossa purificação no caminho rumo ao Pai, tomemos cuidado com nosso falar e voltemos para anunciar com a nossa vida “como é bom agradecermos ao Senhor!”

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Sobre o ser cristão

(Vandeia Ramos)

Entre tantas ideias modernas, a consciência cristã tem ficado abafada devido às ondas que varrem a sociedade. Muitas vezes tenho a impressão que não prestamos a devida atenção ao básico, ao que é mais importante, ao, como diz nosso amado Papa Emérito Bento XVI, à hierarquia de verdades. Meditemos o evangelho de Lucas: Jesus desce da montanha e fala à multidão. Não faz acepção de pessoas, não discrimina, e ensina aos discípulos que o anúncio não tem limites. É para todos! Ele não ensina a gente a ficar de mimimi, fofoquinha, postando os pecados dos demais nas mídias sociais, só porque muitas vezes somos atingidos. Jesus nos apresenta uma dignidade muito maior, heroica, que cala fundo em quem somos: pobres, famintos e chorosos. Ele não fixa nossa condição como meramente humana, mas a utiliza como a que precisa de Deus. Sem este testemunho pessoal, como apresentar o mesmo aos nossos catecúmenos?
E não para aqui. A recompensa por injúrias, perseguições, maldições, mas que sejam “falsas” (Mt 5, 11) E por causa do Filho, é a alegria e a exultação. Como lembra o Papa Francisco na exortação Gaudete et Exultate, a humilhação é o caminho da humildade. Jesus não diz para irmos para o Facebook ficar reclamando, para as mídias contar nossos “causos”, para o mundo anunciar nosso drama. Ele diz simplesmente para nos alegrarmos. É aqui que pisamos no orgulho, na posição de acharmos que somos mais que os demais, que somos os “certinhos” da parada. O silêncio, tão custoso no pisar na vaidade, é que forja o cristão, o que se configura ao Cristo na cruz, à Nossa Senhora em toda a sua vida. “Manso e humilde…” Os verdadeiros profetas, anunciadores do Reino…
É no silêncio, muitas vezes fruto da dor da humilhação, do sufocar a rebelião do encontro entre a injustiça com o orgulho e a vaidade ferida, que nos encontramos no deserto da existência. Quando parece que tudo nos é tirado é que se afirma a única certeza: Deus é a nossa força e Nele esperamos! Temos Advogada junto ao Trono, temos intercessores, temos a Justiça e a Misericórdia. No silêncio ao mundo e ao que é humano, nos refugiamos e nos colocamos perante o Senhor.
Não somos catequistas para vivermos entre farturas e gargalhadas, elogios e luxo. Como cristãos, sabemos e anunciamos que o caminho é o da Cruz e da Ressurreição. Ensinamos o que e a Quem procurar e pedir por uma relação pessoal com Deus. É nesta realidade radical que esperamos no relacionamento com as pessoas. Sim, seremos humilhados, ofendidos, injustiçados, como Jesus o foi. E a certeza de que ressuscitamos com Ele nos dá a paz que precisamos, a esperança de que não estamos sozinhos, de que há Alguém com o qual todo o resto perde seu brilho e importância. Vejamos o rosto de alegre paz dos santos… com tudo o que eles nos têm a ensinar sobre o cristianismo.
Juntemo-nos aos que cantam a glória de Deus e cantemos com toda a certeza de quem somos e o que fazemos aqui: É feliz quem a Deus se confia!

Como pobres viúvas

(Vandeia Ramos)

Nas leituras de hoje temos duas figuras importantes: a viúva e o mediador. Na Antiguidade, a viúva era a que tinha sido casada e, como tal, tinha se desvinculado de sua família para assumir a do marido. Sem ele, ela ficava sozinha. Daí a necessidade de filhos para ser amparada. Retrata bem a situação da mulher que, mesmo com um papel social importante, sua presença no espaço público a expunha a muitos incômodos. No entanto, a Palavra sempre orientou para que as mesmas fossem amparadas.
Mesmos com mudanças de estruturas históricas, ainda precisamos de legislação, nem sempre suficiente, para garantir a cidadania feminina. Não só pela própria vida, mas pelo cuidado da família, pois as mulheres são vítimas de exploração. Sua dignidade não é respeitada em diversos espaços, mesmo com a insistência de diversos escritos bíblicos, como o do profeta Elias. Ele assume função de mediador junto a Deus no sustento da viúva, que alcançará a plenitude no Sumo Sacerdócio de Jesus, que assume a nossa humanidade para que superemos nele estas nossas contradições.
Quando refletimos sobre a Mulher e sobre a Viúva, a pessoa de Maria nos vem à mente. Ela é a que abre mão de tudo que tem, inclusive de seu Filho, por nós. Fico visualizando Jesus vendo a pobre viúva entregando tudo ao templo e lembrando de sua Mãe… O “quase nada” de Maria que, por Jesus, valeu a nossa salvação. Aí vem uma multidão confusa, ricos, aquele publicano presunçoso, e acha que pode comprar os favores de Deus com dinheiro… Quantas Mães não deveriam estar ali, oferecendo-se e tudo que tem a Deus, em uma fé inabalável?
Importante identificarmos o modo com que Jesus e toda a Sagrada Escritura tratam a mulher para que nos esvaziemos do senso comum e percebamos a dignidade a que é chamada. A presença constante suprindo as necessidades do Filho e dos apóstolos, presença junto à cruz, chamadas a anunciar a Ressurreição aos discípulos, em Pentecostes, administrando as comunidades na Igreja nascente… Presença de serviço e oração em nossas comunidades, e nos grupos de Iniciação Cristã.
Também é preciso lembrar que A Igreja é Mãe… da qual somos filhos e filhas, com chamados específicos por ela, para ela, nela e com ela. E um deles é a oferta “de tudo o que somos e o que temos”, como a pobre viúva. Quantas moedas temos ofertado? Quantos talentos nos foram dados para o serviço que estamos dispondo? Estamos servindo a Igreja e o mundo ou nos servindo deles?
O Salmo nos lembra o Magnificat, o Canto de Maria, que não só entrega tudo que tem a Deus, como entrega a si mesma, bendizendo as maravilhas que Deus faz. O cuidado e a ternura que Deus tem conosco, com cada um de nós, é o início do seu Reino. Afinal, “não temas!”, pois Ele prometeu estar conosco todos os dias, até o fim!

Sua turma de catequese vai bem?

(Vandeia Ramos)

Hoje é dia de eleições. São tantas funções que ficamos confusos e trazemos a responsabilidade do futuro na ponta de nossos dedos. Entre paixões e idolatrias, no meio dos que testam a Deus indicando ou se colocando como salvadores da pátria, encontramos nós, os que procuram a Jesus para tentar pegá-lo em uma incoerência: Jesus, se sou humano demais, pequeno, pecador, incapaz, como posso assumir algo tão grandioso como formar uma nova geração de cristãos? Como posso fazer parte de uma pastoral com tanta gente mesquinha, hipócrita e que só quer saber de poder? Se a gente falar de alguma atuação na esfera pública, nem vou conseguir controlar as desculpas…
No nosso orgulho de ser referência para tudo, de nos colocarmos como perfeitos, pezinho no céu, julgamos os demais e nos isentamos da responsabilidade de ser Igreja na posição para a qual somos chamados. E Jesus não se prende às nossas palavras rasas: é por causa da dureza do vosso coração que o Rio de Janeiro está assim, o Brasil está do jeito que está, porque vocês ficam se desculpando para não fazerem o que lhes cabe e não aceitam a atuação política como um dos maiores atos de caridade que Eu vos deixei.
É preciso ser como criança, para que não sejamos proibidos de ir a Jesus. Ao contrário. Elas ainda se tornam referência para o Reino. Que não é deste mundo, que fique bem claro.
A unidade dual, homem e mulher, duas faces da humanidade em toda a sua dignidade em imagem e semelhança de Deus, tem sido situada em confronto com Deus no pecado (Gn 3). A Nova Criação em Jesus, o novo Adão, precisa corresponder também a uma resposta à altura de cada um de nós. Como?
Na discípula perfeita, Nossa Senhora. É o próprio Deus que a elege para a Mãe do Filho. E ela o recebe livre e totalmente como o maior dom que podemos receber. As pessoas são dons, não são? Espero que continuemos acreditando nisso quando saírem os resultados das eleições, independente dos eleitos terem recebido ou não o nosso voto. Maria também não votou em Herodes, em Pilatos, muito menos em Caifás. Ela não escolheu Pedro, João ou Iscariotes… E, mesmo assim, não deixou de acreditar quem era o verdadeiro Senhor, que poderia mandar legiões de anjos para resolver os babados por aqui… Mas que Se revelou no escondimento do Crucificado. E ainda nos disse que era este o Caminho.
Pelos candidatos que temos e pela situação de polarização e conflito que vivemos, temos a sensação de que os dias serão difíceis. No entanto, temos a graça destas eleições caírem no dia de Nossa Senhora do Rosário. O terço é o instrumento por excelência de meditarmos os mistérios de Deus junto à Maria. Não estaria na hora de apresentarmos aos nossos catecúmenos? O Papa Francisco pede que rezemos o Sub Tuum e a oração de São Miguel junto ao terço, todos os dias deste mês. Ele sabe que o mundo passa por momentos difíceis e que precisamos de toda a ajuda do céu. E nós estamos seguindo sua orientação, não é?
Então nos juntemos à corte celeste e apontemos para aqueles sob nossa responsabilidade, inserindo-os na grandiosidade dos mistérios, sendo abençoados pelo Senhor, junto à Filha de Sião, que nos apresenta seu Filho e nos pede para fazer o que Ele nos disser. Cuidemos dos nossos. Deus cuida de cada um de nós.

O que você faz aqui?

(Vandeia Ramos)

Fui à uma missa de sétimo dia do pai de um amigo e, no final, o padre perguntou se ele queria falar alguma coisa. Fiquei pensando…
Todos nós sabemos que a morte é a única certeza que temos. Não é “se”, e sim “quando”. Então, o que gostaria que dissessem na minha missa? E você, o que gostaria que dissessem em sua missa de sétimo dia?
Somos enviados ao mundo e sabemos, como o profeta Ezequiel, que nossa presença nem sempre é bem aceita. Nossa presença incomoda. Estamos no mundo, mas não pertencemos ao mundo. No entanto, Deus continua nos enviando, para que possamos dar testemunho da Verdade. E isso tem um preço.
Quantas vezes caímos será a quantidade de vezes que levantaremos. Neste cair e levantar que somos forjados cristãos. Enfrentamos nossa dificuldade em lidar com muitas pessoas, com limitações físicas e morais, com doenças, problemas na família, de convivência no trabalho… Não somos os donos da razão, muito menos do mundo. Na vida diária aprendemos a reconhecer quem somos e aprendemos a respeitar a liberdade dos demais. Tornamo-nos fracos aos olhos do mundo. O valor do silêncio vem junto com o tomar distância das situações para vermos de modo mais amplo. Exercitamos o modo de ver a partir da cruz. Assim, nos tornamos fortes na presença de Deus.
O ser cristão no mundo vai nos modificando por dentro, a ponto de muitas vezes sequer sermos reconhecidos pelos nossos. Afinal, “santo de casa não faz milagre!” Tornamo-nos pedra de tropeço para os que mais amamos. Talvez esta seja, muitas vezes, o espinho na carne que mais doa. Para que não tropecem, vamos aprendendo a não ficar no caminho, a suavizar nossas pontas, a sermos usados em construção, no serviço “para que os outros descansem”.
Sabemos o caminho. Precisamos de coragem para seguir!
Perguntando a jovens o que eles gostariam que dissessem na missa deles, eles responderam que queriam deixar algo de bom no mundo e que por isso queriam ser lembrados. Fazer a diferença na vida das pessoas. Como a juventude é bela em si mesma!
Talvez influenciada pelo livro de Chesterton, O Homem Eterno, que diz que Jesus veio para morrer, eu fiquei com este pensamento fixo: Eu vivo para este momento!
Ver a vida a partir do seu fim, não como término, mas como finalidade, de viver para Cristo e morrer sendo ganho, oferece a cada pessoa um sentido diferente da própria vida.
Aprendemos a morrer todo dia, a sermos fracos, a vivermos com o espinho na carne para lembrar-nos que estamos aqui para crescermos e ter os olhos fixos nas mãos do Senhor.
Rezemos para que Nossa Senhora esteja sempre conosco, agora e na hora de nossa morte!

Cornélia, mãe dos gracos

 Certa vez, na Roma antiga, houve uma festa de gala. Dessas em que todo mundo aparece com as suas melhores roupas, e as mulheres com as suas joias mais preciosas.

Naquela festa, caiu na vista de todos a Cornélia. Ela chegou vestida com extrema simplicidade, trazendo seus dois filhos. Sentou-se à mesa, colocou o menor no colo e abraçou o outro, que estava recostado em seu coração.

Uma das madames presentes disse a ela: “Cornélia, você esqueceu as suas joias?” Ela respondeu: “Não me esqueci. Eu as trouxe. São estes meus filhos”. E os abraçou.

Cornélia era uma das mulheres mais belas de Roma. Seu esposo chamava-se Graco. Os dois filhos ficaram conhecidos como “Os Gracos”. Eles se tornaram cidadãos notáveis em Roma, e o povo sabia que era devido à sua mãe, a Cornélia.

Mais tarde, foi erguida, numa praça de Roma, uma estátua de Cornélia com os dois filhos e os dizeres: “Cornélia, mãe dos Gracos”. A frase já dizia tudo: Os gracos foram o que foram, graças à mãe.

O nosso grande poeta Tobias Barreto chamou a Pátria Brasileira de “Cornélia, mãe de cem Gracos”. Com isso, ele quis aludir aos muitos heróis que a nossa Pátria gerou.

Maria Santíssima é outra mãe que viu nos filhos as suas joias. O primeiro deles é de valor infinito, pois é Deus encarnado. Que ela interceda pelas mães brasileiras.

Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no Céu” (Mt 6,19-20)

(Pe. Antônio Queiroz, C.Ss.R -www.A12.com)