Santificados pelo sofrimento

(Prof. Felipe Aquino)

O sofrimento santifica?

Sentimos em nossa carne, que a conquista da santidade é algo que supera as nossas forças humanas, por isso os santos parecem aos nossos olhos como sobre-humanos. Na verdade, foi com o auxílio da graça de Deus que chegaram ao estado da bem-aventurança. “O que é impossível à natureza, é possível à graça de Deus”, disse Santo Agostinho. Ele ensina que a graça não anula e nem dispensa a natureza, a enriquece.

Como Deus nos vocacionou para sermos santos, Ele dirige a nossa vida e os nossos passos sempre nessa direção. Na medida que a nossa liberdade o consente Ele dirige os nossos passos para esse fim. É por isso que nos acontecimentos de nossa vida muitas vezes não entendemos o que nos sucede. Na verdade é a mão de Deus a nos conduzir.

O médico não prescreve o medicamento que agrada ao paciente, mas aquele que o cura. Assim também, como o Médico das almas, Deus nos apresenta muitas vezes remédios amargos, mas é para a nossa santificação. Assim, as provações e as tentações que Deus permite que nos atinjam são para o nosso bem espiritual. A Bíblia nos dá essa certeza. Àqueles que querem ser seus discípulos o Senhor exige: “Tome a sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9,23). Após a disposição interior de “renunciar a si mesmo”, é preciso a mesma disposição para “tomar a cruz cada dia”. Foi com a cruz que o Cordeiro de Deus tirou o pecado do mundo, e é também com a cruz que Ele tira o pecado enraizado em cada um de nós. Sabemos que o sofrimento não é obra de Deus, é a consequência do pecado.

“O salário do pecado é a morte”(Rom 6,23). Para dar um sentido ao sofrimento, Jesus o transformou em “matéria prima” da nossa salvação. Quem quer chegar à santidade não deve ter medo da cruz e deve toma-la, resolutamente, “a cada dia”, como disse Jesus, porque é ela que nos santificará.

Para entender essa pedagogia divina vamos examinar o que nos ensina a Carta aos hebreus, no capítulo 12, sobre as provações. Começa dizendo que assim como fizeram os santos, devemos nos “desvencilhar das cadeias do pecado” (v.1), enfrentando o “combate que nos é proposto”, como Jesus, que “suportou a cruz” (v.2), sem se deixar “abater pelo desânimo”(v 3). Em seguida mostra”nos que tudo é válido na luta contra o pecado. “Ainda não tendes resistido até ao sangue, na luta contra o pecado” (v.4).

Nesta luta vale a pena derramar até o próprio sangue, a própria vida. Em seguida a Carta recorda a citação dos Provérbios que diz:“Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes,quando repreendido por ele, pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho”(Prov. 3,11).

Assim como nós pais terrenos, corrigimos os nossos filhos, porque os amamos, Deus também o faz conosco. Quantas vezes eu precisei segurar no colo os meus filhos, quando ainda pequenos, para que o farmacêutico os aplicasse uma injeção. Só o amor por eles me obrigaria a tal ato, mesmo com o seu choro nos meus ouvidos. Assim também Deus faz conosco; por amor, permite que as provações arranquem as ervas daninhas do jardim precioso de nossa alma.

A palavra de Deus diz: “não desprezes a correção do Senhor” (v.5), portanto devemos acolhe-la, amá-la, mesmo que nos incomode. E ela continua: “Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige ?” (v. 7). Somos filhos legítimos de Deus, e não bastardos, por isso Ele nos corrige (V.8). E a palavra de Deus nos diz que Ele nos corrige “para nos comunicar a sua santidade” (v.10). Aí está a razão pela qual Jesus nos manda abraçar a cruz de cada dia. É pelas pequenas e numerosas cruzinhas de cada dia que o Artista Divino vai moldando a nossa alma, à sua própria imagem. A nós cabe ter paciência e aceitar cada sofrimento, cada revés, cada humilhação, cada doença, enfim, cada golpe do Artista, com resignação e ação de graças.

A nossa natureza sempre se revolta, se impacienta e se agita desesperada, e com isso, só faz aumentar ainda mais o sofrimento e agrava a situação. O segredo para se sofrer com paciência é não olhar nem para o passado e nem para o futuro, mas viver, na fé, o presente. Um dos grandes conselhos que Jesus nos deixou no Sermão da Montanha foi este:“Não vos preocupeis pois com o dia de amanhã (…). A cada dia basta o seu mal” (Mt 6,34). Deus sempre nos dará a graça necessária para carregar, com determinação, a cruz de cada dia que nos santifica.

Cada um de nós têm a sua própria cruz, única e exclusiva, pois para cada tipo de doença há um remédio próprio.

A nossa cruz “de cada dia” é formada de tudo o que fazemos e sofremos: o trabalho diário, as preocupações, a falta de dinheiro, a doença, o acidente, a contrariedade, as calúnias, os mal entendidos, enfim, tudo, o que nos desagrada. Tudo isto se torna sagrado quando abraçado na fé e colocado no cálice do sangue do Senhor celebrado a cada dia no altar.

Certa vez, andando no Cemitério, por entre as sepulturas, em dado momento deparei”me com essa frase em uma delas: “A melhor oração é o sofrimento”. É verdade, pensei, mas desde que seja abraçado na fé e na paciência, e oferecido ao Pai junto com o sangue de Jesus.

A cruz se torna mais suave quando é aceita por amor a Deus. Jesus mesmo ensinou à confidente do seu Coração, Soror Benigna Consolata, como se deve sofrer: “Quando sofres, quer interna quer externamente, não percas o merecimento da dor. Sofre unicamente por Mim”. Sofrer tudo por amor a Jesus, eis o segredo de sofrer bem . Santo Agostinho tem uma frase que nos ensina bem tudo isso: “Quando se ama não se sofre, e se sofre, ama-se o sofrimento”. Quanto mais calados sofrermos, sem ficarmos buscando o consolo das pessoas que nos cercam, choramingando as nossas dores, tanto mais cresceremos na santidade, e tanto mais teremos méritos diante de Deus. A maior vitória sobre o sofrimento, qualquer que ele seja, será sempre o nosso silêncio e aceitação.

Muitas vezes nos impomos uma série de mortificações, mas os santos ensinam que as melhores cruzes são aquelas que Deus permite que cheguem a nós. “São Francisco de Sales dizia que: “As cruzes que encontramos pelas ruas são excelentes, e que mais o são ainda” e tanto mais quanto mais importunas ”as que se nos deparam em casa”. Valem mais as cruzes do que as disciplinas e os jejuns. De que adianta a penitência que voluntariamente nos impomos, se não aceitamos aquelas que diariamente Deus nos impõe, na medida exata da nossa correção? De nada valeria o sacrifício de um enfermo que quisesse tomar muitos remédios amargos que não fosse aquele receitado pelo médico. De forma alguma devemos desprezar as mortificações que nos impomos, contudo, mais importante do que elas são as que a divina providência nos manda.

São Paulo dizia aos romanos que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8,28). Deus sabe aproveitar todos os acontecimentos da nossa vida para o nosso bem. Aceitar isso é ter fé, é saber abandonar-se nas mãos divinas, como o enfermo se entrega nas mãos do médico em que confia.

Tudo o que podemos passar nesta vida é pouco em vista da grande obra de santificação que Deus quer fazer em nós. Não podemos perder de vista o objetivo de Deus Pai que nos “predestinou para sermos conforme à imagem de seu Filho” (Rom 8,29). São Paulo tinha isto tão certo que disse aos romanos:

“Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rom 8,18).

É grande demais a obra que Deus está fazendo em nós. Santo Agostinho nos ensina que Deus “não permitiria o mal se não soubesse tirar dele um bem maior”. E que muitas vezes Deus permite que o mal nos atinja para evitar um mal maior.

As provações nos fortalecem para o combate espiritual; por isso, os Apóstolos sempre estimularam os fiéis a enfrentá”las com coragem. São Pedro diz:

“Caríssimos, não vos perturbeis no fogo da provação, como se vos acontecesse alguma coisa extraordinária. Pelo contrário, alegrai”vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo…”(1 Pe 4,12).

E ele ensina que a provação nos levará à perfeição:

“O Deus de toda graça, que vos chamou em Cristo à sua eterna glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vós fortificará” (1 Pe 5,10).

É importante notar que o Apóstolo ensina-nos que a provação nos “aperfeiçoará-e nos tornará “inabaláveis”. É importante não se deixar perturbar no fogo da provação. Não se exasperar, não perder a paz e a calma, pois é exatamente isto que o tentador deseja. Uma alma agitada fica a seu bel-prazer. Não consegue rezar, fica irritada, mal humorada, triste, indelicada com os outros, etc. O antídoto contra tudo isso é a humilde aceitação da vontade de Deus no exato momento em que algo desagradável nos ocorre, dando, de imediato, glória a Deus, como São Paulo ensina: “Em todas as circunstâncias dai graças, pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus” (1 Tes 5,16). É preciso fazer esse grande e difícil exercício de dar glória a Deus na adversidade. Nesses momentos gosto de ficar glorificando a Deus, rezando muitas vezes o “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo …” até que minha alma se acalme e se abandone aos cuidados de Deus. Essa atitude muito agrada a Deus, pois é a expressão da fé pura de quem se abandona aos seus cuidados. É como a fé de Maria e de Abraão que “esperaram contra toda a esperança” (Hb 11,17-19), e assim, agradaram a Deus sobremaneira.

Jó agradou muito a Deus porque no meio de todas as provações, tendo perdido todos os seus bens e todos os seus filhos, ainda assim soube dizer com fé :

“Nu sai do ventre da minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor! ” (Jo 1,21).

Afirmam os santos que vale mais um “bendito seja Deus!” pronunciado com o coração, no meio do fogo da provação, do que mil atos de ação de graças quando tudo vai bem.

O pecado original corrompeu tão intensamente o estado de santidade e de justiça original, em que Deus nos criou que, só mesmo com as provações Ele retira as “ervas daninhas” que se entranharam no jardim da nossa alma, que é propriedade de Deus. O Jardineiro divino da nossa alma sabe os métodos que deve empregar para limpar cada alma. Santa Teresa diz que sentiu Jesus dizer-lhe:

“Fica sabendo que as pessoas mais queridas de meu Pai são as que são mais afligidas com os maiores sofrimentos”. E por isso afirmava que não trocaria os seus sofrimentos por todos os tesouros do mundo. Tinha a certeza de que Deus a santificava pelas provações. A santa chega a dizer que “quando alguém faz algum bem a Deus, o Senhor lhe paga com alguma cruz”. Para nós essas palavras parecem até um absurdo, mas não para os santos, que conheceram todo o poder salvífico e santificador do sofrimento.

São Paulo ensina que:
“As nossas tribulações de momento são leves e nos preparam um peso de glória eterna” (2Cor 4,17).

Quando São Francisco de Assis passava um dia sem nada sofrer por Deus, temia que Deus tivesse se esquecido dele. São João Crisóstomo, doutor da Igreja, diz que “é melhor sofrer do que fazer milagres, já que aquele que faz milagres se torna devedor de Deus, mas no sofrimento Deus se torna devedor do homem”.

Só aceitaremos e amaremos o sofrimento quando enterdermos, como os santos, que por meio dele, Deus destrói em nós as más inclinações interiores e exteriores, que impedem a nossa santificação. As ofensas, as injúrias, os desprezos, os cinismos irritantes, as doenças, as dores, as lágrimas, as tentações, a humilhação do pecado próprio, etc., nos são necessários pois dão-nos a oportunidade de lutarmos contra as nossas misérias.

Isto não quer dizer que Deus seja o autor do mal, ou que Ele se alegre com o nosso sofrimento, não. O que Deus faz, de maneira até amável, é transformar o sofrimento, que é o salário do próprio pecado do homem, em matéria prima de sua própria salvação, dando assim, um sentido à dor. A partir daí, sob à luz da fé, podemos sofrer com esperança. É o enorme abismo que nos separa dos ateus, para quem a dor e a morte, continuam a ser o mais terrível dos absurdos da vida humana.

A paciência na dor é a grande arma do santo. São Tiago afirma que a paciência produz uma obra perfeita. Veja o que ele diz:

“Meus irmãos, tende por motivo de grande alegria o serdes submetidos a múltiplas provações, pois sabeis que a vossa fé, bem provada, leva à perseverança, mas é preciso que a perseverança produza uma obra perfeita, a fim de serdes perfeitos e íntegros sem nenhuma deficiência” (Tg 1,2″4).

A provação produz a perseverança, e por ela, passo a passo, chegaremos à perfeição, é o que nos ensina com essas palavras São Tiago.

O capítulo dois do Livro do Eclesiástico é o “hino da paciência”. Deveríamos decorar suas palavras:

“Meu filho, se entrares para o serviço de Deus (…) prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência (…) não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência” (Eclo 2,1-3).

“Aceita tudo o que te acontecer; na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (4-6).

Essas palavras precisam ser muito bem assimiladas, amadas e vividas. É a paciência que nos levará ao céu. São Gregório Magno afirma que todos os santos foram mártires ou pela espada ou pela paciência. São Paulo gloriava-se nas provações:

“Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança…” (Rom 5,3-5).

Sofrer com paciência é sabedoria, pois assim se vive com paz. Quem sofre sem paciência e sem fé, revolta-se, desespera-se, e sofre em dobro, além de fazer os outros sofrerem também. Santo Afonso diz que “neste vale de lágrimas não pode ter a paz interior senão quem recebe e abraça com amor os sofrimentos, tendo em vista agradar a Deus”. Segundo ele “essa é a condição a que estamos reduzidos em consequência da corrupção do pecado”.

É preciso aqui, ressaltar ainda uma vez mais, que as mortificações que aparecem contra a nossa vontade são as mais agradáveis a Deus, quando as abraçamos com fé e paciência. Diz o livro dos Provérbios que:

“Mais vale o homem paciente do que corajoso” (Pr 16,32).

Quando eu tinha vinte e dois anos de idade, recém formado na Faculdade, fui aprovado em concurso para Professor de uma Faculdade Federal de Engenharia. Casei-me no mesmo ano e nosso primeiro filho nasceu no ano seguinte. Sentia-me como um rei; tudo estava perfeito na minha vida. De repente, em poucos dias comecei a sentir a minha vista enfraquecer. Fui ao médico e ele constatou uma doença incurável, ceratocone, deformação da córnea. Eu teria que usar lentes de contato, de vidro, para sempre, até quem sabe, me submeter um dia a transplante das córneas.

Tudo aquilo, tão rápido, despencou sobre a minha cabeça como uma tempestade; e eu fiquei perguntando a Deus o que tudo aquilo significava. Isto já faz vinte e quatro anos. Lembro-me que naqueles dias, perguntei ao Pe Jonas Abib, que era o nosso diretor espiritual, sobre aquilo que eu sofria. Ele me disse:

“Eu não sei o que Deus quer com isso, mas certamente ele tem um plano atrás desses acontecimentos”.

Hoje, 24 anos depois, posso avaliar o quanto esta enfermidade ajudou-me a crescer espiritualmente. Talvez eu não estivesse hoje escrevendo essas páginas sobre o valor do sofrimento, se tudo isso não tivesse ocorrido. Aprendi a ser mais paciente comigo, com a doença, com os outros. Tive que fazer três transplantes das córneas, e atrás de tudo isto sempre vi a vontade de Deus na minha vida.

O homem de fé é aquele que está pronto a dizer sempre, em qualquer circunstância da vida: “Bendito seja Deus!”

(Fonte)

Entre o silêncio e o barulho

(Vandeia Ramos)

O primeiro pensamento que nos vem com o Carnaval encontra-se entre explosão de cores e barulho. Multiplicam-se a diversão e os críticos. Lembra muito a fábula A Cigarra e a Formiga: a formiga trabalha incessantemente enquanto a Cigarra fica na música; quando chega o inverno, a formiga tem alimento estocado enquanto a cigarra bate em sua porta pedindo ajuda. Será que a formiga vai lembrar que só conseguiu sustentar as dificuldades de seu trabalho pela alegria que a música da cigarra proporcionava? Que, lá no fundo, quando chegava em casa cansada do trabalho, um relance de inveja passava em seu coração e desejava um pouco da alegria da cigarra? Por que, no século XXI, ainda desvalorizamos o trabalho artístico e cultural?
Fico pensando no quanto somos pequenos e medíocres, evangelicamente hipócritas, mais preocupados com os pecados dos demais em vez de cuidarmos daquilo que está cheio o nosso coração, a ponto de extrapolar… Vale o dito que, quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro que de João. Não repetimos esta mesma postura quando reclamamos da grama do vizinho? Da turma do outro catequista? De agentes de pastoral que parecem estar em situações de destaque enquanto somos esquecidos? Dos bens morais, espirituais e mesmo financeiros dos demais?
Às vezes parece que há um gostinho de “bem feito”, “eu bem que sabia”, um certo prazer em divulgar escândalos, sejam religiosos, civis ou de qualquer outro gênero. Dá um grau de superioridade em quem coloca o dedo na ferida do outro e a expõe e multiplica inúmeras vezes nas mídias. O que estamos tirando de nosso coração? Que fruto estamos oferecendo? É esta a postura que aprendemos a ser enquanto cristãos? Não estou criticando a quem cabe julgar, estou somente questionando este quem e os critérios que trazemos à tona ao fazê-lo.
O cuidado com a língua sempre foi uma preocupação cristã, a ponto de tornarmos Nossa Senhora do Silêncio uma devoção. É pela reserva que conseguimos a distância suficiente para nos ajudar a controlar nossos impulsos, nossa falsa necessidade de ter um posicionamento em tudo para afirmar que estamos acima, que evitamos de nos desviarmos da Cruz e esperamos a Ressurreição. O centro cristão não é morrer para si a cada dia como caminho de vencer a própria morte? No fundo, não é esta talvez a mais difícil obra que o Senhor quer fazer em nós?
Sabemos que ver tudo e ficar com o que é bom, ensinamento paulino, não é algo tão simples. Precisa de muito discernimento e firmeza. Neste domingo de Carnaval, sabendo que a quaresma nos espera para intensificar nossa purificação no caminho rumo ao Pai, tomemos cuidado com nosso falar e voltemos para anunciar com a nossa vida “como é bom agradecermos ao Senhor!”

Sobre o ser cristão

(Vandeia Ramos)

Entre tantas ideias modernas, a consciência cristã tem ficado abafada devido às ondas que varrem a sociedade. Muitas vezes tenho a impressão que não prestamos a devida atenção ao básico, ao que é mais importante, ao, como diz nosso amado Papa Emérito Bento XVI, à hierarquia de verdades. Meditemos o evangelho de Lucas: Jesus desce da montanha e fala à multidão. Não faz acepção de pessoas, não discrimina, e ensina aos discípulos que o anúncio não tem limites. É para todos! Ele não ensina a gente a ficar de mimimi, fofoquinha, postando os pecados dos demais nas mídias sociais, só porque muitas vezes somos atingidos. Jesus nos apresenta uma dignidade muito maior, heroica, que cala fundo em quem somos: pobres, famintos e chorosos. Ele não fixa nossa condição como meramente humana, mas a utiliza como a que precisa de Deus. Sem este testemunho pessoal, como apresentar o mesmo aos nossos catecúmenos?
E não para aqui. A recompensa por injúrias, perseguições, maldições, mas que sejam “falsas” (Mt 5, 11) E por causa do Filho, é a alegria e a exultação. Como lembra o Papa Francisco na exortação Gaudete et Exultate, a humilhação é o caminho da humildade. Jesus não diz para irmos para o Facebook ficar reclamando, para as mídias contar nossos “causos”, para o mundo anunciar nosso drama. Ele diz simplesmente para nos alegrarmos. É aqui que pisamos no orgulho, na posição de acharmos que somos mais que os demais, que somos os “certinhos” da parada. O silêncio, tão custoso no pisar na vaidade, é que forja o cristão, o que se configura ao Cristo na cruz, à Nossa Senhora em toda a sua vida. “Manso e humilde…” Os verdadeiros profetas, anunciadores do Reino…
É no silêncio, muitas vezes fruto da dor da humilhação, do sufocar a rebelião do encontro entre a injustiça com o orgulho e a vaidade ferida, que nos encontramos no deserto da existência. Quando parece que tudo nos é tirado é que se afirma a única certeza: Deus é a nossa força e Nele esperamos! Temos Advogada junto ao Trono, temos intercessores, temos a Justiça e a Misericórdia. No silêncio ao mundo e ao que é humano, nos refugiamos e nos colocamos perante o Senhor.
Não somos catequistas para vivermos entre farturas e gargalhadas, elogios e luxo. Como cristãos, sabemos e anunciamos que o caminho é o da Cruz e da Ressurreição. Ensinamos o que e a Quem procurar e pedir por uma relação pessoal com Deus. É nesta realidade radical que esperamos no relacionamento com as pessoas. Sim, seremos humilhados, ofendidos, injustiçados, como Jesus o foi. E a certeza de que ressuscitamos com Ele nos dá a paz que precisamos, a esperança de que não estamos sozinhos, de que há Alguém com o qual todo o resto perde seu brilho e importância. Vejamos o rosto de alegre paz dos santos… com tudo o que eles nos têm a ensinar sobre o cristianismo.
Juntemo-nos aos que cantam a glória de Deus e cantemos com toda a certeza de quem somos e o que fazemos aqui: É feliz quem a Deus se confia!

Como pobres viúvas

(Vandeia Ramos)

Nas leituras de hoje temos duas figuras importantes: a viúva e o mediador. Na Antiguidade, a viúva era a que tinha sido casada e, como tal, tinha se desvinculado de sua família para assumir a do marido. Sem ele, ela ficava sozinha. Daí a necessidade de filhos para ser amparada. Retrata bem a situação da mulher que, mesmo com um papel social importante, sua presença no espaço público a expunha a muitos incômodos. No entanto, a Palavra sempre orientou para que as mesmas fossem amparadas.
Mesmos com mudanças de estruturas históricas, ainda precisamos de legislação, nem sempre suficiente, para garantir a cidadania feminina. Não só pela própria vida, mas pelo cuidado da família, pois as mulheres são vítimas de exploração. Sua dignidade não é respeitada em diversos espaços, mesmo com a insistência de diversos escritos bíblicos, como o do profeta Elias. Ele assume função de mediador junto a Deus no sustento da viúva, que alcançará a plenitude no Sumo Sacerdócio de Jesus, que assume a nossa humanidade para que superemos nele estas nossas contradições.
Quando refletimos sobre a Mulher e sobre a Viúva, a pessoa de Maria nos vem à mente. Ela é a que abre mão de tudo que tem, inclusive de seu Filho, por nós. Fico visualizando Jesus vendo a pobre viúva entregando tudo ao templo e lembrando de sua Mãe… O “quase nada” de Maria que, por Jesus, valeu a nossa salvação. Aí vem uma multidão confusa, ricos, aquele publicano presunçoso, e acha que pode comprar os favores de Deus com dinheiro… Quantas Mães não deveriam estar ali, oferecendo-se e tudo que tem a Deus, em uma fé inabalável?
Importante identificarmos o modo com que Jesus e toda a Sagrada Escritura tratam a mulher para que nos esvaziemos do senso comum e percebamos a dignidade a que é chamada. A presença constante suprindo as necessidades do Filho e dos apóstolos, presença junto à cruz, chamadas a anunciar a Ressurreição aos discípulos, em Pentecostes, administrando as comunidades na Igreja nascente… Presença de serviço e oração em nossas comunidades, e nos grupos de Iniciação Cristã.
Também é preciso lembrar que A Igreja é Mãe… da qual somos filhos e filhas, com chamados específicos por ela, para ela, nela e com ela. E um deles é a oferta “de tudo o que somos e o que temos”, como a pobre viúva. Quantas moedas temos ofertado? Quantos talentos nos foram dados para o serviço que estamos dispondo? Estamos servindo a Igreja e o mundo ou nos servindo deles?
O Salmo nos lembra o Magnificat, o Canto de Maria, que não só entrega tudo que tem a Deus, como entrega a si mesma, bendizendo as maravilhas que Deus faz. O cuidado e a ternura que Deus tem conosco, com cada um de nós, é o início do seu Reino. Afinal, “não temas!”, pois Ele prometeu estar conosco todos os dias, até o fim!

Sua turma de catequese vai bem?

(Vandeia Ramos)

Hoje é dia de eleições. São tantas funções que ficamos confusos e trazemos a responsabilidade do futuro na ponta de nossos dedos. Entre paixões e idolatrias, no meio dos que testam a Deus indicando ou se colocando como salvadores da pátria, encontramos nós, os que procuram a Jesus para tentar pegá-lo em uma incoerência: Jesus, se sou humano demais, pequeno, pecador, incapaz, como posso assumir algo tão grandioso como formar uma nova geração de cristãos? Como posso fazer parte de uma pastoral com tanta gente mesquinha, hipócrita e que só quer saber de poder? Se a gente falar de alguma atuação na esfera pública, nem vou conseguir controlar as desculpas…
No nosso orgulho de ser referência para tudo, de nos colocarmos como perfeitos, pezinho no céu, julgamos os demais e nos isentamos da responsabilidade de ser Igreja na posição para a qual somos chamados. E Jesus não se prende às nossas palavras rasas: é por causa da dureza do vosso coração que o Rio de Janeiro está assim, o Brasil está do jeito que está, porque vocês ficam se desculpando para não fazerem o que lhes cabe e não aceitam a atuação política como um dos maiores atos de caridade que Eu vos deixei.
É preciso ser como criança, para que não sejamos proibidos de ir a Jesus. Ao contrário. Elas ainda se tornam referência para o Reino. Que não é deste mundo, que fique bem claro.
A unidade dual, homem e mulher, duas faces da humanidade em toda a sua dignidade em imagem e semelhança de Deus, tem sido situada em confronto com Deus no pecado (Gn 3). A Nova Criação em Jesus, o novo Adão, precisa corresponder também a uma resposta à altura de cada um de nós. Como?
Na discípula perfeita, Nossa Senhora. É o próprio Deus que a elege para a Mãe do Filho. E ela o recebe livre e totalmente como o maior dom que podemos receber. As pessoas são dons, não são? Espero que continuemos acreditando nisso quando saírem os resultados das eleições, independente dos eleitos terem recebido ou não o nosso voto. Maria também não votou em Herodes, em Pilatos, muito menos em Caifás. Ela não escolheu Pedro, João ou Iscariotes… E, mesmo assim, não deixou de acreditar quem era o verdadeiro Senhor, que poderia mandar legiões de anjos para resolver os babados por aqui… Mas que Se revelou no escondimento do Crucificado. E ainda nos disse que era este o Caminho.
Pelos candidatos que temos e pela situação de polarização e conflito que vivemos, temos a sensação de que os dias serão difíceis. No entanto, temos a graça destas eleições caírem no dia de Nossa Senhora do Rosário. O terço é o instrumento por excelência de meditarmos os mistérios de Deus junto à Maria. Não estaria na hora de apresentarmos aos nossos catecúmenos? O Papa Francisco pede que rezemos o Sub Tuum e a oração de São Miguel junto ao terço, todos os dias deste mês. Ele sabe que o mundo passa por momentos difíceis e que precisamos de toda a ajuda do céu. E nós estamos seguindo sua orientação, não é?
Então nos juntemos à corte celeste e apontemos para aqueles sob nossa responsabilidade, inserindo-os na grandiosidade dos mistérios, sendo abençoados pelo Senhor, junto à Filha de Sião, que nos apresenta seu Filho e nos pede para fazer o que Ele nos disser. Cuidemos dos nossos. Deus cuida de cada um de nós.

O que você faz aqui?

(Vandeia Ramos)

Fui à uma missa de sétimo dia do pai de um amigo e, no final, o padre perguntou se ele queria falar alguma coisa. Fiquei pensando…
Todos nós sabemos que a morte é a única certeza que temos. Não é “se”, e sim “quando”. Então, o que gostaria que dissessem na minha missa? E você, o que gostaria que dissessem em sua missa de sétimo dia?
Somos enviados ao mundo e sabemos, como o profeta Ezequiel, que nossa presença nem sempre é bem aceita. Nossa presença incomoda. Estamos no mundo, mas não pertencemos ao mundo. No entanto, Deus continua nos enviando, para que possamos dar testemunho da Verdade. E isso tem um preço.
Quantas vezes caímos será a quantidade de vezes que levantaremos. Neste cair e levantar que somos forjados cristãos. Enfrentamos nossa dificuldade em lidar com muitas pessoas, com limitações físicas e morais, com doenças, problemas na família, de convivência no trabalho… Não somos os donos da razão, muito menos do mundo. Na vida diária aprendemos a reconhecer quem somos e aprendemos a respeitar a liberdade dos demais. Tornamo-nos fracos aos olhos do mundo. O valor do silêncio vem junto com o tomar distância das situações para vermos de modo mais amplo. Exercitamos o modo de ver a partir da cruz. Assim, nos tornamos fortes na presença de Deus.
O ser cristão no mundo vai nos modificando por dentro, a ponto de muitas vezes sequer sermos reconhecidos pelos nossos. Afinal, “santo de casa não faz milagre!” Tornamo-nos pedra de tropeço para os que mais amamos. Talvez esta seja, muitas vezes, o espinho na carne que mais doa. Para que não tropecem, vamos aprendendo a não ficar no caminho, a suavizar nossas pontas, a sermos usados em construção, no serviço “para que os outros descansem”.
Sabemos o caminho. Precisamos de coragem para seguir!
Perguntando a jovens o que eles gostariam que dissessem na missa deles, eles responderam que queriam deixar algo de bom no mundo e que por isso queriam ser lembrados. Fazer a diferença na vida das pessoas. Como a juventude é bela em si mesma!
Talvez influenciada pelo livro de Chesterton, O Homem Eterno, que diz que Jesus veio para morrer, eu fiquei com este pensamento fixo: Eu vivo para este momento!
Ver a vida a partir do seu fim, não como término, mas como finalidade, de viver para Cristo e morrer sendo ganho, oferece a cada pessoa um sentido diferente da própria vida.
Aprendemos a morrer todo dia, a sermos fracos, a vivermos com o espinho na carne para lembrar-nos que estamos aqui para crescermos e ter os olhos fixos nas mãos do Senhor.
Rezemos para que Nossa Senhora esteja sempre conosco, agora e na hora de nossa morte!