Nosso fruto: ser humus para nossos catequizandos

(Vandeia Ramos)

Nas leituras semanais, temos acompanhado o profeta Oseias. Do Reino do Norte, século VIII a.C., ele é apaixonado por sua esposa, que o trai por diversos amantes. Então ele eleva sua dor e faz uma leitura da relação entre Israel e Deus, inaugurando o casamento como expressão do amor de Iavé pela humanidade. Fiel, o Esposo é misericordioso e aguarda o retorno / conversão de sua Amada, que precisará aprender a deixar-se conduzir da situação em que se encontra ao acolhimento do abraço do Amado.
A infidelidade é lida como prostituição, denunciando a idolatria do poder através das alianças políticas das lideranças levando à dependência, exploração econômica e opressão do povo; interesses de minorias; confiança na supremacia do poder bélico, riquezas e injustiças; para vantagens pessoais, de grupos ou de instituições. Israel, com 10 tribos separadas do Sul, foi conquistada pela Assíria e os que foram deportados não tiveram nenhum edito de retorno. Podemos aqui vislumbrar a gravidade do grau a que chegou sua imoralidade.
A semente da Lei de Deus, a promessa da Terra Prometida, os ensinamentos do deserto… foram para todas as tribos. Unidas, saíram do Egito, atravessaram o deserto, enfrentaram povos para conquistar a terra, enfrentaram conflitos internos no período dos Juízes, organizaram-se como Monarquia. Tinham uma história em comum. Mas o tempo de Salomão, com os altos impostos e pressão política, levou à separação. Só que a monarquia constituída no Reino do Norte não ficou ilesa aos vícios, ao contrário.
Nosso tempo não é muito diferente. Política, moral, econômica, socialmente… Diversas influências podem ser comparadas a terras que podemos escolher para colocar em nossos vasos, em nossas famílias, em nossa vida. Para um bom canteiro, coloca-se primeiro pedras, para uma melhor drenagem, seguida de areia ou terra, dependendo da profundidade, terra enriquecida com humus (matéria orgânica) e, em alguns casos, com material para guardar a umidade, como casca de pinus. Nossa vida não é uma experiência de um grão de feijão em um algodão. É preciso preparo e manutenção constante.
Quando a Palavra de Deus chega até nós, uma família de fé e/ou uma comunidade fraterna auxiliam no que é necessário para uma criança e em um fiel que chega, estão atentos aos que chegam, às necessidades que se apresentam, muitas vezes oferecendo seu próprio humus, seus nutrientes, no que lhe é seu, para o acolhimento do nascituro e do neófilo. Em uma perspectiva mais ampla, podemos fazer uma leitura pessoal, da família, da comunidade, como de lideranças responsáveis por outras pessoas.
Neste mês temos visto algumas situações complicadas. Vídeos cortados, sem contexto, expondo a Igreja a críticas diversas. Pessoas em situações comprometedoras, sendo questionadas em suas falas. As mídias e a velocidade com que as informações nos chegam nem sempre dão tempo de compreendermos o que está acontecendo. O uso específico da palavra tem sido questionado. E podemos perceber o quanto nossa cultura foi formada pela linguagem verbal. E que esta tem sido usada contra o próprio ser humano, individualmente, por grupos ou em nome de lideranças e instituições – enquanto católicos, nossa responsabilidade cresce.
Somos catequistas e somos chamados a uma missão específica: preparar o solo, fornecer o húmus necessário, acompanhar a germinação. Como família e comunidade, cuidar da planta que cresce até que se fortaleça. Acreditamos na possibilidade uma pessoa madura, de frutos consistentes, responsáveis e próprios para assumirem missões pelo bem comum. Auxiliar que cada um tenha o Reino de Deus como perspectiva de vida. Também sabemos que não somos os únicos a atuar junto aos nossos e que eles têm a liberdade de fazer escolhas que devem ser respeitadas.
Entre nossa atuação pessoal e social, nem sempre é fácil fazer uma leitura coerente com nossa fé e uma atuação própria. Em meio a um panorama confuso, de uma arena social em que diversos grupos querem conquistar nossa atenção e adesão a propostas, temos o compromisso evangélico de termos a devida prudência, avaliando o pensamento e os frutos do que nos é proposto, lembrando que estamos formando não só nossa própria terra, mas fornecendo o húmus necessário para os demais.
Assim, podemos sempre estar prontos para apresentarmos nossa oferta, nosso serviço, nossa vida a Deus, apresentando-lhe a semente que caiu em terra boa germinada em seus frutos.

Catequista, mediador da misericórdia

(Vandeia Ramos)

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O Evangelho de hoje nos ensina a não desistirmos. Ano a ano podemos encontrar aquele catecúmeno mais difícil, mais resistente, mesmo revoltado e frequentemente agressivo, que está ali obrigado por alguém, e faz de tudo para demonstrar sua irritação. Quando o vemos no início, já pensamos: quem será a / o catequista sorteado? E (quase) desejando que não seja a gente mesmo.
Também temos o que falta, o da família difícil, outro que é indiferente… A parábola fala de 99 ovelhas que ficam e somente 1 que foge. Mas tem momentos que parece justamente o contrário: o rebanho ameaça se perder. E nós nem sempre sabemos o que fazer, como proceder.
A última parábola recebe alguns nomes da crítica teológica: o Filho Pródigo, o Pai Misericordioso, os Dois Irmãos… Vou apontar duas ideias que possam ajudar a pensarmos em nossa realidade.
Quando Jesus narra a história dos dois irmãos e do pai, não sentimos falta de mais alguém? Cadê a mãe / esposa? Fico pensando naquela mulher que, somente com sua presença, mesmo sem falar, não fica sentindo falta do filho mais novo, pensando nos riscos de ir ao mundo, com saudades, de ouvidos atentos em busca de notícias. E esta postura não deixa o pai e o irmão indiferentes. Ao contrário. A presença da mãe o faz lembrar da ausência de um dos filhos. Não ficamos um pouco assim quando algum dos nossos começa a faltar e desiste? Não ficamos esperando qualquer chance de ajudar, ainda que à distância?
Na narrativa, o filho mais velho é chamado a participar da festa do retorno e não fica claro se ele vai ou não. Para nós, Jesus é o Primogênito. Só que Ele não fica no céu cuidando das coisas do Pai, esperando nosso arrependimento e retorno. Muito pelo contrário. Jesus é o irmão que vem ao nosso encontro para estender a mão e nos guiar de volta. Com Ele, sentimo-nos seguros da acolhida. Às vezes falta uma mão estendida para ajudar a quem está longe. Alguém em quem se possa confiar. Alguém que ama incondicionalmente, independente de erros e fraquezas. E, como catequistas e cristãos, somos chamados a ser este alguém no Alguém.
E a imagem do Bom Pastor nos fica mais nítida. O que não é dito, mas subetendido para os ouvintes, é que o Pastor, ao resgatar a ovelha perdida e a conduzir em seus ombros, precisa primeiro quebrar-lhe a perna. O filho mais novo precisou ir parar entre os porcos para se entender e a situação em que se encontrava. Quantas vezes só nos damos conta de nossa pequenez quando somos chamados à realidade de modo frequentemente doloroso?
Já podemos ver esta imagem em Moisés. Mesmo o povo tendo caído na idolatria, ele se associa aos seus para os proteger junto a Deus. Por causa de Moisés, o povo é poupado. Esta é a sorte dos santos, de se colocarem como mediadores entre Deus e as pessoas, oferecendo-se em sacrifício pelos demais. E fica claro quando nos colocamos na defesa dos que mais precisam, das crianças e jovens mais complicados, insistindo que vale a pena continuar.
Que modelo de esperança melhor que o de São Paulo? Tanto aprontou, perseguiu, resistiu. E, no momento apropriado, seu coração se abriu à graça. Sua vida a partir de então não foi das mais tranquilas. Mas ele tinha a missão de conduzir para a família os que estavam mais distantes. E por eles sofreu percorrendo da Palestina à Ásia Menor, até chegar à Roma, do chicote ao naufrágio, para que o Evangelho chegasse a todos. E ainda nos deixa: “ai de mim se eu não evangelizar!”
Ai de nós, catequistas, se não evangelizarmos. Ai de nós se não testemunharmos com nossa vida o quanto Deus faz maravilhas por nós. Ai de nós se não formos presença da Misericórdia. Ai de nós, se não formos outros Cristos junto aos nossos catecúmenos.
Somente, então, ao chegar à nossa hora, poderemos cantar com os santos: “Vou agora levantar-me. Volto à casa do meu Pai.”

Catequistas, embaixadores de Cristo!

(Vandeia Ramos)

O Evangelho de hoje é conhecido tanto como Evangelho do Filho Pródigo como Evangelho dos Dois Irmãos, o que traz duas perspectivas diferentes. Quando nossa atenção recai sobre o Filho Pródigo, a figura do Pai se destaca. Tradicionalmente lemos nós mesmos, pecadores insistentes, e nossa permanente necessidade da misericórdia de Deus. A ordem é simples: vivemos na casa do Pai, mas frequentemente desviamos a atenção e acabamos sendo atraídos para coisas que o mundo nos oferece: vida fácil, prazer, falsas amizades, diversão desregrada… tudo centralizado no que suponhamos ser uma necessidade ou mesmo o que nos deixamos convencer como sendo o melhor. Claro que, quando o dinheiro, a saúde, a beleza, a juventude… acabam, ficamos abandonados à própria sorte, entre os miseráveis, os impuros, os porcos. Nem seu alimento, o resto dos demais, temos permissão de comer. Quantos de nossos irmãos não estão esquecidos nestas condições?…
Para uma família judaica tradicional, fica faltando uma personagem importante, que dificilmente aparece em público, mas está em momentos decisivos: a Mãe. Ela não só se ressente da ausência do Filho, como sua tristeza sensibiliza a família. Em toda visita, ela recebe a esperança de ter notícias. Há os que defendem que é esta tristeza-esperança que sustenta a sensibilidade do Pai. Fazemos rapidamente a relação com Nossa Senhora.
E temos o Irmão Mais Velho. Quantas vezes não nos colocamos como os certinhos, que não hesitam em colocar o dedo na cara de tantos, acusando-os de pecadores, pagãos… Caso nós estivéssemos no lugar do Pai, o que faríamos com nosso Irmão? O que já nos acostumamos fazer com aqueles que se afastam da família por diversos motivos? E os que não vivem a mesma fé que nós? Que não concordam com nossa opção política, profissional, moral?
Toda vez que leio este Evangelho, lembro de uma pregação do Frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. Ele identifica o Filho Mais Velho, não como um de nós, egoísta e moralmente centrados. Ele diz que Jesus é o Primogênito. Ele não fica limitado à casa do Pai, cuidando de seus negócios. Jesus vem até nós, vai ao encontro de seus irmãos, para tentar levar-nos de volta. Caso não consiga, não nos deixa sem o necessário para viver, à mercê de porcos.
Nós não somos iniciantes na fé, somos catequistas. Temos um caminho de vivência em contínua misericórdia de Deus para conosco. Ser Filho Pródigo, abandonado às misérias de porcos, não responde devidamente ao nosso perfil. Então o de Filho Mais Velho, de nossos catecúmenos, fica melhor. Somos os que se colocam como os “certinhos”, detentores de um código moral legalista, rápidos em julgar e lentos em acolher? Não estou falando de pieguismos, de que devemos fechar os olhos para o pecado. Sem este discurso em que nos colocamos como juiz que critica quem se coloca com juiz, e que não chega ao necessário.
Temos muitas demandas sociais que gritam de dor, que assumem atitudes e movimentos que muitas vezes se apresentam contra a fé que cremos. Estamos entre uma estrutura social que impõe fardos pesados aos demais. Acusamos a vítima de seu próprio sofrimento e dor, colocando-nos frequentemente ao lado dos que a fazem sofrer. Sem direito, assumimos o lugar do Pai, afastando-nos emocionalmente dos irmãos perdidos entre as misérias do mundo, em uma postura que vai do indiferente ao acusador. O discurso comum reforça o conflito, o confronto, a raiva.
Perante a dor do outro, que tem sua dignidade humana ameaçada, o que se espera de um cristão? O que Jesus e/ou Nossa Senhora fariam em nosso lugar? O Pai não se preocupou se entre os hebreus que saíram do Egito haviam os que tinham um caráter discutível, Ele enviou o Maná para todos. Também não era de modo permanente, mas com o tempo de que pudessem colher o fruto do próprio trabalho.
Somos “embaixadores de Cristo”, através de quem Jesus chega aos demais. Somos os que continuamente deixam suas casas para ir ao encontro dos que mais precisam, pois estes já não têm condições de se levantarem por si e caminhar. Somos enviados para aliviar o jugo de sua condenação, assumindo sobre nós sua dor, carregando sobre nós o julgamento dos que “dize com quem andas e eu te direi quem és”. Enquanto não conseguem caminhar sozinhos, nós cuidamos de suas feridas. Um “olho nos olhos”, uma presença que diz ao outro que ele não está sozinho, uma mão estendida, fazem mais do que discursos raivosos e condenativos, que mais reforçam a miséria do que restabelece a dignidade.
Só quem se percebe em sua limitação e continuamente vive a misericórdia, identifica a dor dos que gritam, ainda que usem palavras que escondem suas feridas profundas em raiva e ódio. Só assim podem anunciar em cada atitude quão suave é o Senhor!

Somos como a figueira, chamados a servir

(Vandeia Ramos)

O tempo passa e o coração humano continua o mesmo, talvez até mais duro se considerarmos o quanto temos recebido ao longo do tempo. Para os hebreus do tempo de Jesus, sofrimento era associado ao pecado pessoal, daí questionarem sobre a punição de Roma sobre os judeus, os mortos da queda da torre de Siloé. Mudamos o nosso coração? O ‘bem feito” perante algumas situações não nos vem à mente? Quando alguém está doente, perguntamos logo o que fez para estar? Não imprimimos diversos adjetivos ao povo quando vota em pessoas que nós não consideramos como sendo as melhores? Não temos grupos na Igreja que, muitas vezes nós participamos, e que se posicionam como os que sabem mais que e se posicionam sobre o modo como os demais devem viver?
Quantas vezes deixamos de ser servos para colocar-nos no lugar de Deus e julgamos, como se fôssemos melhores que os demais, os santos, os que não pecam? Nossa Senhora, Mãe da Igreja, acaba se tornando somente uma referência distante, não mais a que está à frente do povo. O Espírito Santo que perpassa os santos e que os queima como uma sarça, é frequentemente esquecido na condução da Igreja, principalmente quanto ao soprar onde quer.
Iniciar no Cristianismo não é sinônimo de iniciar na cristandade. São conceitos diferentes. Enquanto o segundo se refere a um tempo histórico em que a cultura é perpassada por uma política cristã, o Cristianismo é mais, é a comunidade, a família dos que são em Deus. Do mesmo modo que Deus se apresenta como sendo o “Eu sou o que sou”, aprendemos com Jesus a sermos com Ele, nele, por Ele e para Ele. Eu sou Igreja, eu sou cristã. E isso envolve reconhecer-se quem se é perante Deus e os irmãos, de ver a miséria do outro como espelho da própria, de entender que o sofrimento não é limitado a um pecado pessoal, mas que cresce com a estrutura de pecado em que todos vivemos e alimentamos. Pecar não afeta somente a pessoa que comete o ato, mas toda a família humana. A responsabilidade é muito maior.
E o lugar de superar o pecado é no deserto, onde encontramos com Deus. Lá não há distrações nem descanso. Deserto é aridez, secura, busca do essencial da vida, espaço de caminhada de longas distâncias atrás de um oásis. Ou, como faziam os eremitas, de combate com os próprios demônios para alcançar o equilíbrio. Os momentos difíceis são ocasiões especiais de sermos em Deus. Doenças, desemprego, contrariedades, mal-estar, dívidas, vexame, humilhações… Reconhecemos nossa pequenez e temos a oportunidade de nos refazermos, crescermos, em um novo modo de ser. Deus está conosco, sustentando e orientando.
É no deserto da tentação de Jesus, no de Moisés, das montanhas, das dificuldades na vida, que podemos nos abrir totalmente para Deus, sem público ou espetáculo, somente nós e Ele. Ser com Deus. Ter e poder não têm força no deserto. É na solidão original, no silêncio, quando chegamos ao próprio limite e mesmo assim seguimos confiando, que Deus nos apresenta nossas maiores missões. Ele nos envia para sermos sua voz no meio dos demais, para iniciar nossos irmãos na busca da solidão e do silêncio, no deserto, na esperança e na confiança, para conversar com Deus.
No nada, vemos como somos tão pouco. Humilhados no calor, na solidão, na fome, na sede, percebemos o quanto somos sustentados no dia a dia. Deus provê todas as nossas necessidades, o “pão nosso de cada dia”. São Paulo nos lembra que não cabem murmúrios, reclamações, de quem acha que Deus lhe deve algo ou que é mais do que realmente é: “quem julga estar de pé, tome cuidado para não cair”. Nesta existência tão humana e tão limitada, aprendemos que não sou, mas que somos. A miséria do outro é a nossa miséria. As histórias de nossos catecúmenos encontram eco na nossa vida. Reconhecemo-nos nelas. Ao estender a mão para levantar o irmão, na verdade nós que nos levantamos com ele. Ao preparar um tema da catequese, nós que aprendemos. Ao formar, nos formamos. Ao darmos as mãos para estar juntos, nossa sorte se encontra e é partilhada. A solidão de uma torre de marfim, onde ficamos isolados e vemos os demais como inferiores não é a imagem do céu. Até a de Siloé caiu. A nossa, é uma questão de momento.
Sim, Deus nos sustenta, leva ao deserto, revela-se, indica uma missão para serviço aos demais, imprime sua autoridade para que possamos participar de sua glória. Não há “meu canto”, mas o canto de “toda a Igreja reunida”, militante, padecente e glorificada, em que todos cantamos juntos o quanto “o Senhor é bondoso e compassivo”.

Parábola do aquário

aquário

Era uma vez um aquário onde viviam peixes grandes, médios e pequenos. Ali imperava a lei do mais forte. Os alimentos atirados pelo Criador eram disputados. Primeiro comiam os maiores. O que sobrava destes era devorado pelos médios. E o que sobrava dos médios era devorado pelos pequenos. Na falta de outro alimento, os grandes devoravam os médios e estes, por sua vez, devoravam os pequenos.

Ora, havia um peixinho muito pequenino, que morava no fundo do aquário, onde estava a salvo da fome e da gula dos demais. Ali, naquelas profundezas, poucas vezes caía algum alimento. Mas, o peixinho, ao invés de maldizer a sorte, enganava a fome distraindo-se a contemplar os desenhos dos azulejos, as plantinhas, a areia branca e as pedrinhas brilhantes que enfeitavam o fundo do aquário.

Um belo dia, o peixinho descobriu um ralo, por onde saía a água do aquário. Admirado, exclamou: “Ué! Então este aquário não é tudo? Existe outro lugar onde se pode viver? Para onde irá essa água que não para de correr?

E, o peixinho, curioso, tentou passar pelo ralo. Como os vãos fossem muito estreitos, ele se dispôs a fazer sacrifícios e emagrecer até passar para o outro lado. Foi assim que, dias mais tarde, bem mais magro e ainda assim perdendo algumas escamas na travessia, ele conseguiu seu intento. E foi assim que ele conheceu, pela primeira vez na vida, o que é a água corrente. – Uma delícia! Uma maravilha! O peixinho ia pulando feliz pelo rego da água, deslumbrado com tudo. E o rego da água levou o peixinho até uma enxurrada…

Na enxurrada, mais água ainda. E a correnteza mais forte. Não era preciso nadar. Bastava soltar o corpo. Que maravilha! Quantos peixinhos livres! Quantos barquinhos de papel! E o sol??? Que coisa linda! E aqueles bobos, lá no aquário, pensando que aquilo fosse tudo, aquela água suja e parada. Coitados!!! E a enxurrada levou o peixinho a um riacho.

E o peixinho nunca pudera imaginar tanta água de uma vez. Nunca vira crianças nadando. Nunca vira mulheres lavando roupa e cantando. Nunca pudera ver tantas plantas, tantas flores, tanta beleza junta! E julgou que estivesse delirando. Quanta comida, quanta água, quanto lugar onde viver em paz, quanta felicidade para todos! Ah! Aqueles pobres diabos lá no aquário … se vissem tudo isto! E o riacho levou o peixinho até o rio.

Não. Não é possível! Isto não existe! Olha quanta água! Parece não ter fim. Quanta comida! Quanto sol, quanta luz, quanta beleza! E foi assim, extasiado, maravilhado, deslumbrado, quase não acreditando em seus próprios olhos, que o peixinho, levado pelo grande rio, chegou enfim ao mar.

Ali, diante daquele infinito de águas, de alimentos, de luz, de cores, de plantas, de um mundo de coisas maravilhosas, diante daquela majestade toda, o peixinho chorou. Chorou comovido, agradecido, porque a alegria era tanta que não cabia dentro de si. E chorou, sobretudo, de pena de seus coleguinhas, grandes e pequenos, que haviam ficado lá no aquário, naquelas águas poluídas, escuras, pardas, estragadas, espremidos, pensando viver no melhor dos mundos. E o peixinho, então resolveu voltar e contar a boa nova a todos.

E o peixinho voltou. Do mar para o rio (sacrifício, porque agora a viagem era contra a correnteza). Ele nadou para o riacho, para a enxurrada e da enxurrada para o rego e do rego para o fundo do aquário. E atravessou o ralo de volta…

Desse dia em diante, começou a circular pelo aquário um boato de que havia um peixinho contando coisas mirabolantes, falando de um lugar muito melhor para viver, um lugar de amor e paz, um lugar de fartura infinita, onde ninguém precisa fazer sacrifício, nem se devorar uns aos outros. E todos acorreram ao fundo do aquário para saber da novidade. Os grandes, os médios, os pequenos, todos os peixes queriam saber o que era preciso fazer para chegar a esse mundo maravilhoso…

E o peixinho, mostrando-lhes o ralo, explicou, que para chegar ao outro mundo, era preciso algum sacrifício, pois a passagem era realmente estreita. Segundo o tamanho, uns teriam de sacrificar-se mais, outros menos. E os peixes pequenos passaram, a seguir, a escutar o peixinho, enquanto os médios e os grandes, sobretudo, consideravam-no maluco, um visionário. Onde já se viu? Impossível passar por aquele vãozinho tão estreito! Só um louco mesmo!

E a história do peixinho se alastrou. De tal maneira se alastrou e pegou, que modificou a vida no aquário e perturbou o sossego dos peixes grandes e médios, que estes acabaram por matar o peixinho para acabar com aquelas besteiras. Mas o peixinho não morreu. Continuou vivendo, pois sua mensagem imortal, passava de geração em geração…

Até hoje, a história do peixinho é lembrada no aquário. Até hoje, há os que crêem. E até hoje há os passam pelo ralo e os que jamais conseguirão fazê-lo, porque, quanto maior e poderoso, tanto maior será o sacrifício exigido. E por isso está escrito:

“EM VERDADE, EM VERDADE VOS DIGO: É MAIS FÁCIL UM CAMELO PASSAR PELO FUNDO DE UMA AGULHA DO QUE OS RICOS ENTRAREM NO REINO DE DEUS”.

(Fonte)

Devolva o peixe

(Uma reflexão sobre ética)

A nossa sociedade passa por uma crise moral e ética. Assistimos a todo momento escândalos na política, nas relações interpessoais e na convivência em sociedade como um todo.

As coisas seriam bem diferentes se as pessoas tivessem uma boa conduta ética e moral. Sinteticamente, a moral está na esfera dos costumes culturalmente aprendidos que guiam as pessoas através de seus valores e crenças e a ética seria uma reflexão crítica da moral.

Seria um clichê falar aqui do “jeitinho brasileiro”, o qual o nosso povo se vangloria sempre de conseguir “burlar” uma norma, uma regra.

Hoje colhemos os frutos desse jeitinho. Uma sociedade caótica com dirigentes mais caóticos ainda. Para continuar essa reflexão segue uma pequena parábola:

pescaria

Jorge tinha onze anos e sempre ia pescar no cais próximo ao chalé da família.
A temporada de pesca só começaria no dia seguinte, mas Jorge e seu pai saíram no fim da tarde para pegar apenas peixes cuja captura estava liberada.
O menino amarrou uma isca e começou a arremessar. Logo o caniço vergou, e ele se deu conta que havia algo enorme na ponta da linha.
O pai olhava com admiração, enquanto Jorge habilmente e com muito cuidado, retirava o peixe exausto da água. Era o maior que já tinha visto, porém sua pesca só era permitida na temporada, que ainda não havia começado.
Enquanto apreciavam aquela beleza de peixe, o pai acendeu um fósforo e olhou para o relógio. Pouco mais de dez da noite – Ainda faltavam quase duas horas para a abertura da temporada.
Seu pai então olhou para o peixe e depois para Jorge, e disse:
– Filho, você tem que devolvê-lo!
– Mas papai! – reclamou o menino.
– Vai aparecer outro – insistiu o pai.
– Não tão grande quanto este – choramingou Jorge.
Jorge olhou à volta do lago. Não havia outros pescadores ou embarcações à vista. Voltou novamente o triste olhar para o pai, porém ele sabia, pela firmeza em sua voz, que a decisão era inegociável. Mesmo não havendo ninguém por perto.
Com cuidado, tirou o anzol da boca do enorme peixe e o devolveu à água escura. O peixe rapidamente desapareceu.
Naquele momento, Jorge teve a certeza de que jamais pegaria novamente um peixe tão grande quanto aquele.
Trinta anos depois, o Chalé continua lá, e Jorge, um bem-sucedido arquiteto, leva seus filhos pra pescar no mesmo cais.
Sua intuição estava correta. Nunca mais conseguiu pescar um peixe tão maravilhoso como o daquela noite, porém, vê o mesmo peixe todas as vezes que se depara com uma questão ética.
Como seu pai lhe ensinou, a ética é simplesmente uma questão de CERTO e ERRADO.

Se desejo o melhor para mim, é isto que devo oferecer aos outros. Agir corretamente quando se está sendo observado, é uma coisa. A ética, porém, se revela quando agimos corretamente enquanto ninguém está nos observando.

(Fonte)