Vem ver, Senhor

(Vandeia Ramos)


Desde sexta-feira, estamos com o Papa Francisco, entre a Praça São Pedro e o Santíssimo, reunidos com Nossa Senhora aos pés da Cruz. Nossos irmãos estão doentes e estamos chorando por eles, outros estão acompanhando, ainda outros estão cuidando para que as necessidades estejam sendo atendidas. E nós, Igreja, rezamos a Jesus: “Senhor, aqueles que amas estão doentes”.
Em nossa fé, Jesus nos lembra através das palavras de Francisco que não temos cuidado da Criação, que temos trocado nossas prioridades, que a morte não é a última palavra. Não é um vírus que leva a morte, mas somos nós mesmos que viramos as costas para o que é mais importante e nos destruímos através do pecado, não cuidando uns dos outros.
Jesus não nos abandona. Só quer o que é o melhor para cada um de nós: o Céu. E nem sempre é simples de entendermos isso, de aprendermos o caminho. Ele não nos força. É preciso que escolhamos com liberdade. Não basta Jesus querer nos abrir as portas da Eternidade, é preciso que nós a queiramos. E querer envolve vontade e liberdade, compromisso da vida com o Filho.
E os sacerdotes celebram nas igrejas. Nós participamos em nossas casas. Através da quaresma, Jesus vai nos ensinando que o Espírito nos leva para o deserto para que possamos ficar a sós com Deus e aprendermos a ouvir sua voz, a não discriminar, a deixar-nos guiar, a cuidar, a confiar. No momento oportuno, em que estivermos maduros o suficiente para o próximo momento, Ele nos convida a seguirmos.
Nós, como os discípulos, temos dificuldades em entender para onde Jesus nos guia e apresentamos nossa resistência de várias formas, mas o importante é que continuemos juntos, ainda que não entendamos.
Para os judeus, o corpo começa a se decompor depois de três dias, por isso que é importante Jesus só ter chegado depois. Ele sabia o que ia fazer. Ele sabe tudo. Sabe que muitas pessoas estariam presentes, pela importância da família envolvida. E eles foram escolhidos por serem amigos de Jesus. Quanto mais perto de Seu coração, maiores são os pedidos de Jesus. Podemos ver a prontidão das irmãs em ir ao encontro deste tão querido Amigo.
Além da questão entre saduceus, que defendiam o descanso eterno, e dos fariseus, na ressurreição no último dia, Jesus vem anunciar o Novo. As irmãs declaram sua fé em Deus a partir do que sabem, com toda a dor que sentem. E Jesus, através da dor de Marta e Maria, vê o que a morte trouxe ao mundo, pode vislumbrar a dor que trará à sua Mãe, a profundidade do sofrimento a que somos lançados. E (se) lança a luz. Nada está perdido. Há algo além. Podemos começar a ver através…
Jesus vem até nós, até onde não podemos ir. Mas há um movimento que cabe a nós, do querer. E não o fazemos sozinhos. Somos nós que tiramos a pedra dos que estão mortos, dos que estão doentes, dos que não têm forças suficientes, uns dos outros. E o Filho intercede ao Pai. E fala diretamente aos que mais precisam. Agora é a vez deles. Cabe a eles dizer o “sim”. Não pela força deles. Mas de deixarem que o Espírito aja. Eles estão atados pelas mãos e pés, não conseguem andar sozinhos. Também não temos condições de entramos no escuro do sepulcro para tirarmos eles de lá. Tem coisas que não nos cabe fazer. Só nos resta confiar e esperar.
E, depois de tirarmos a pedra, da intercessão de Jesus, do “sim” de quem estava morte, nossos irmãos retornam ao nosso convívio. Ainda precisam de nós para que possam ser limpos, roupas novas e sandálias aos pés, para restabelecer completamente a saúde do corpo e da alma.
Se o momento é de atenção, de deserto, em que estamos afastados de nossas atividades cotidianas, também é de recolhimento no Espírito para aproveitarmos e refazermos nossa vida em Cristo, quando estamos chamamos Jesus, juntos com Maria e Marta, para a Páscoa que se aproxima: “Vem ver, Senhor”.

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2020

Boletim da Santa Sé

«Em nome de Cristo, suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus» (2 Cor 5, 20)

Queridos irmãos e irmãs!

O Senhor concede-nos, também neste ano, um tempo propício para nos prepararmos para celebrar, de coração renovado, o grande Mistério da morte e ressurreição de Jesus, perne da vida cristã pessoal e comunitária. Com a mente e o coração, devemos voltar continuamente a este Mistério. Com efeito, o mesmo não cessa de crescer em nós na medida em que nos deixarmos envolver pelo seu dinamismo espiritual e aderirmos a ele com uma resposta livre e generosa.

1. O Mistério pascal, fundamento da conversão
A alegria do cristão brota da escuta e receção da Boa Nova da morte e ressurreição de Jesus: o kerygma. Este compendia o Mistério dum amor «tão real, tão verdadeiro, tão concreto, que nos proporciona uma relação cheia de diálogo sincero e fecundo» (Francisco, Exort. ap. Christus vivit, 117). Quem crê neste anúncio rejeita a mentira de que a nossa vida teria origem em nós mesmos, quando na realidade nasce do amor de Deus Pai, da sua vontade de dar vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Se, pelo contrário, se presta ouvidos à voz persuasora do «pai da mentira» (Jo 8, 44), corre-se o risco de precipitar no abismo do absurdo, experimentando o inferno já aqui na terra, como infelizmente dão testemunho muitos acontecimentos dramáticos da experiência humana pessoal e coletiva.

Por isso, nesta Quaresma de 2020, quero estender a todos os cristãos o mesmo que escrevi aos jovens na Exortação apostólica Christus vivit: «Fixa os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar sempre de novo. E quando te aproximares para confessar os teus pecados, crê firmemente na sua misericórdia que te liberta de toda a culpa. Contempla o seu sangue derramado pelo grande amor que te tem e deixa-te purificar por ele. Assim, poderás renascer sempre de novo» (n. 123). A Páscoa de Jesus não é um acontecimento do passado: pela força do Espírito Santo é sempre atual e permite-nos contemplar e tocar com fé a carne de Cristo em tantas pessoas que sofrem.

2. Urgência da conversão
É salutar uma contemplação mais profunda do Mistério pascal, em virtude do qual nos foi concedida a misericórdia de Deus. Com efeito, a experiência da misericórdia só é possível «face a face» com o Senhor crucificado e ressuscitado, «que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim» (Gl 2, 20). Um diálogo coração a coração, de amigo a amigo. Por isso mesmo, é tão importante a oração no tempo quaresmal. Antes de ser um dever, esta expressa a necessidade de corresponder ao amor de Deus, que sempre nos precede e sustenta. De fato, o cristão reza ciente da sua indignidade de ser amado. A oração poderá assumir formas diferentes, mas o que conta verdadeiramente aos olhos de Deus é que ela escave dentro de nós, chegando a romper a dureza do nosso coração, para o converter cada vez mais a Ele e à sua vontade.

Por isso, neste tempo favorável, deixemo-nos conduzir como Israel ao deserto (cf. Os 2, 16), para podermos finalmente ouvir a voz do nosso Esposo, deixando-a ressoar em nós com maior profundidade e disponibilidade. Quanto mais nos deixarmos envolver pela sua Palavra, tanto mais conseguiremos experimentar a sua misericórdia gratuita por nós. Portanto não deixemos passar em vão este tempo de graça, na presunçosa ilusão de sermos nós o dono dos tempos e modos da nossa conversão a Ele.

3. A vontade apaixonada que Deus tem de dialogar com os seus filhos
O fato de o Senhor nos proporcionar uma vez mais um tempo favorável para a nossa conversão, não devemos jamais dá-lo como garantido. Esta nova oportunidade deveria suscitar em nós um sentido de gratidão e sacudir-nos do nosso torpor. Não obstante a presença do mal, por vezes até dramática, tanto na nossa existência como na vida da Igreja e do mundo, este período que nos é oferecido para uma mudança de rumo manifesta a vontade tenaz de Deus de não interromper o diálogo de salvação conosco. Em Jesus crucificado, que Deus «fez pecado por nós» (2 Cor 5, 21), esta vontade chegou ao ponto de fazer recair sobre o seu Filho todos os nossos pecados, como se houvesse – segundo o Papa Bento XVI – um «virar-se de Deus contra Si próprio» (Enc. Deus caritas est, 12). De fato, Deus ama também os seus inimigos (cf. Mt 5, 43-48).

O diálogo que Deus quer estabelecer com cada homem, por meio do Mistério pascal do seu Filho, não é como o diálogo atribuído aos habitantes de Atenas, que «não passavam o tempo noutra coisa senão a dizer ou a escutar as últimas novidades» (At 17, 21). Este tipo de conversa, ditado por uma curiosidade vazia e superficial, carateriza a mundanidade de todos os tempos e, hoje em dia, pode insinuar-se também num uso pervertido dos meios de comunicação.

4. Uma riqueza que deve ser partilhada, e não acumulada só para si mesmo
Colocar o Mistério pascal no centro da vida significa sentir compaixão pelas chagas de Cristo crucificado presentes nas inúmeras vítimas inocentes das guerras, das prepotências contra a vida desde a do nascituro até à do idoso, das variadas formas de violência, dos desastres ambientais, da iníqua distribuição dos bens da terra, do tráfico de seres humanos em todas as suas formas e da sede desenfreada de lucro, que é uma forma de idolatria.

Também hoje é importante chamar os homens e mulheres de boa vontade à partilha dos seus bens com os mais necessitados através da esmola, como forma de participação pessoal na edificação dum mundo mais justo. A partilha, na caridade, torna o homem mais humano; com a acumulação, corre o risco de embrutecer, fechado no seu egoísmo. Podemos e devemos ir mais além, considerando as dimensões estruturais da economia. Por este motivo, na Quaresma de 2020 – mais concretamente, de 26 a 28 de março –, convoquei para Assis jovens economistas, empreendedores e transformativos, com o objetivo de contribuir para delinear uma economia mais justa e inclusiva do que a atual. Como várias vezes se referiu no magistério da Igreja, a política é uma forma eminente de caridade (cf. Pio XI, Discurso à FUCI, 18/XII/1927). E sê-lo-á igualmente ocupar-se da economia com o mesmo espírito evangélico, que é o espírito das Bem-aventuranças.

Invoco a intercessão de Maria Santíssima sobre a próxima Quaresma, para que acolhamos o apelo a deixar-nos reconciliar com Deus, fixemos o olhar do coração no Mistério pascal e nos convertamos a um diálogo aberto e sincero com Deus. Assim, poderemos tornar-nos aquilo que Cristo diz dos seus discípulos: sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13.14).

Feliz és tu, catequista!

(Vandeia Ramos)

Todos nós sabemos que ser catequista é uma aventura. Se olharmos para o dia de hoje, vamos tomar consciência de uma história de amor que começou lá atrás, quando fomos adquirindo consciência de uma presença muito importante conosco: o próprio Deus!
Desde o ventre de nossa mãe, já pertencíamos a Ele. Fomos batizados, fizemos iniciação cristã e vivenciamos os sacramentos no cotidiano de nossa vida, em uma história que dá sentido a tudo que somos e o que acontece em torno de nós.
Um dia, tamanho amor cresceu que veio o chamado a transbordar, a deixar que outras pessoinhas também pudessem ver através de nós as maravilhas que Deus faz, a ponto de podermos ler o evangelho de modo pessoal, de o próprio Jesus nos dizendo: “Feliz és tu, catequista, filho de Maria, porque não foi uma pessoa que te revelou, mas o Pai que está no céu. Por isso você se formará através de Pedro, pedra angular de minha Igreja, aprendendo a dignidade de ser quem és e, a partir desta filiação divina, anunciarás a Boa Nova aos que Eu te apresentar. E nada nem ninguém vai poder impedir que, aquilo que Eu mesmo anunciar através de você, se perca. Pois és um arauto da minha Igreja e tudo que vem dela, vem de Mim.”
Ao aceitarmos a mão que nos foi estendida, vamos aprendendo a responsabilidade de precisar sempre estarmos em formação, para sermos melhores instrumentos nas mãos do Senhor. Isso significa uma vida de fé, de constante crescimento espiritual, de busca frequente de formação adequada, leituras pertinentes, dinâmicas para melhor facilitar, diálogo entre a catequese do dia e a visita ao Santíssimo…
Isso significa que, enquanto nossos amigos e família estão se divertindo, muitas vezes estaremos em retiro, cursos, lendo em casa, assumindo um grupo de catequese. A pressão sobre nós faz parecer que estamos numa prisão, seja pelas nossas relações, seja pelos compromissos na Igreja que vamos assumindo. Diga-se que também ninguém disse que seria fácil. É que tem dias que são mais difíceis que outros, que o fardo parece pesar… E, do nada, vem um sorriso, um consolo, uma fala de algum de nossos catecúmenos, um outro que aparece, que faz tudo valer a pena, como o Sol que abre uma brecha entre nuvens pesadas. Depois olhamos e respiramos felizes, pois neste dia combatemos o bom combate e guardamos a fé.
São Paulo, com sua linguagem esportiva, abre-nos a possibilidade de leitura da realidade com a perspectiva do Evangelho. Ele lê a cultura de competição e a situa no Reino de Deus, não de disputas entre uns e outros, mas de batalhas que enfrentamos conosco para continuar, para assumir o sacrifício que nos é apresentado, para seguir apesar do cansaço, das pressões, aguardando a intervenção de Deus em nosso favor.
Neste dia em que celebramos São Pedro e São Paulo, temos justamente a memória da batalha que permanece na história, de Deus que nos guarda e direciona nosso olhar para o que é mais importante: Ele mesmo. Olhando para Pedro e Paulo, temos a certeza de que Deus confia mais em nós do que nós mesmos. Na tradição judaico-cristã, as chaves confiadas ao que poderíamos chamar de mordomo, ou primeiro ministro. O castelo não é dele. No entanto, é ele que é o responsável para manter tudo funcionando devidamente, em nome do seu Senhor, do alimento à limpeza, do exército aos convidados, dos moradores aos servos. É a posição de maior confiança.
Participamos desta confiança no serviço de catequese. Guardamos a fé e os ensinamentos de Jesus. Abrimos as portas e alimentamos os que são colocados sob nossa responsabilidade. Quando em dúvida, temos a riqueza bimilenar de Pedro a nos guiar. Neste mistério de graça, podemos permanecer no “sim” que demos, pois sabemos que não precisamos ter medo, já que “de todos os temores me livrou o Senhor Deus”.

Mensagem do Papa para a Quaresma 2019

«A criação encontra-se em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19)

Queridos irmãos e irmãs!Todos os anos, por meio da Mãe Igreja, Deus «concede aos seus fiéis a graça de se prepararem, na alegria do coração purificado, para celebrar as festas pascais, a fim de que (…), participando nos mistérios da renovação cristã, alcancem a plenitude da filiação divina» (Prefácio I da Quaresma). Assim, de Páscoa em Páscoa, podemos caminhar para a realização da salvação que já recebemos, graças ao mistério pascal de Cristo: «De facto, foi na esperança que fomos salvos» (Rm 8, 24). Este mistério de salvação, já operante em nós durante a vida terrena, é um processo dinâmico que abrange também a história e toda a criação. São Paulo chega a dizer: «Até a criação se encontra em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). Nesta perspetiva, gostaria de oferecer algumas propostas de reflexão, que acompanhem o nosso caminho de conversão na próxima Quaresma.

1. A redenção da criação

A celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação, cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 29) é um dom inestimável da misericórdia de Deus.

Se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Espírito Santo (cf. Rm 8, 14), e sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção. Por isso, a criação – diz São Paulo – deseja de modo intensíssimo que se manifestem os filhos de Deus, isto é, que a vida daqueles que gozam da graça do mistério pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcançar o seu completo amadurecimento na redenção do próprio corpo humano. Quando a caridade de Cristo transfigura a vida dos santos – espírito, alma e corpo –, estes rendem louvor a Deus e, com a oração, a contemplação e a arte, envolvem nisto também as criaturas, como demonstra admiravelmente o «Cântico do irmão sol», de São Francisco de Assis (cf. Encíclica Laudato si’, 87). Neste mundo, porém, a harmonia gerada pela redenção continua ainda – e sempre estará – ameaçada pela força negativa do pecado e da morte.

2. A força destruidora do pecado

Com efeito, quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz. Então sobrepõe-se a intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados que, no livro da Sabedoria, se atribuem aos ímpios, ou seja, a quantos não têm Deus como ponto de referência das suas ações, nem uma esperança para o futuro (cf. 2, 1-11). Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.

Como sabemos, a causa de todo o mal é o pecado, que, desde a sua aparição no meio dos homens, interrompeu a comunhão com Deus, com os outros e com a criação, à qual nos encontramos ligados antes de mais nada através do nosso corpo. Rompendo-se a comunhão com Deus, acabou por falir também a relação harmoniosa dos seres humanos com o meio ambiente, onde estão chamados a viver, a ponto de o jardim se transformar num deserto (cf. Gn 3, 17-18). Trata-se daquele pecado que leva o homem a considerar-se como deus da criação, a sentir-se o seu senhor absoluto e a usá-la, não para o fim querido pelo Criador, mas para interesse próprio em detrimento das criaturas e dos outros.

Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado – que habita no coração do homem (cf. Mc 7, 20-23), manifestando-se como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros e muitas vezes também do próprio – leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.

3. A força sanadora do arrependimento e do perdão

Por isso, a criação tem impelente necessidade que se revelem os filhos de Deus, aqueles que se tornaram «nova criação»: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5, 17). Com efeito, com a sua manifestação, a própria criação pode também «fazer páscoa»: abrir-se para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). E o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal.

Esta «impaciência», esta expetativa da criação ver-se-á satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto é, quando os cristãos e todos os homens entrarem decididamente neste «parto» que é a conversão. Juntamente connosco, toda a criação é chamada a sair «da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). A Quaresma é sinal sacramental desta conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.

Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade.

Queridos irmãos e irmãs, a «quaresma» do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus que era antes do pecado das origens (cf. Mc 1,12-13; Is 51,3). Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação, que «será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora.

(Foto: Daniel Ibáñez /Fonte: ACI)

Ser Igreja no mundo

(Vandeia Ramos)

Esta semana estive no Simpósio Introdução ao Cristianismo, de J. Ratzinger. É um livro de nosso Bento XVI que apresenta o Credo à luz do Concílio Vaticano II (1962-1965). Teólogo novo, é chamado em 1962 a ser perito. Em 1967 leciona a disciplina de Cristologia, de onde sai a obra, publicada em 1968.
Sua profundidade em ler a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja torna esta produção atual ainda hoje.
Assim podemos acompanhar os diversos pastores que tivemos e de como afirmar-se como Igreja agindo no mundo, em diferentes épocas e lugares, exigiu um salto de fé permanente: enfrentar novas línguas, a estrutura do Império Romano, o encontro da fé judaica com o pensamento filosófico grego, a fundação de mosteiros, os novos mundos… E hoje temos o desafio de evangelizar os cristãos.
Somos ovelhas conduzidas pelo Pastor, que não desistiu de nós, que permanece conosco até o fim. Que aparece ressuscitado para Maria Madalena e, através dela, nos chama pelo nome. Que nos faz anunciadores de Cristo Ressuscitado para os apóstolos e para o mundo, porque Ele vai para o Seu Pai e nosso Pai, Seu Deus e Nosso Deus.
Fico pensando o que não será ouvir Jesus nos chamar pelo nome quando for a nossa hora… Conduzir-nos ao Pai, nosso Pai e nosso Deus…
A profissão de fé que fazemos todo domingo na Missa nos confirma neste caminho. Preparamo-nos para o céu desde o Batismo, até que estejamos plenos para o encontro definitivo. Somos pessoas novas, reconciliadas com Deus, feitos seus filhos, membros de seu Corpo Místico, a Igreja.
Temos uma missão importante a anunciar no mundo, pois tem muitas ovelhas sem pastor. Nossa presença é importante. Acolhemos os irmãos que procuram nas paróquias, como vamos no dia a dia ser presença de Jesus Cristo no mundo.
Mas Ele cuida de nós, leva-nos a lugares desertos para descansar…
Aqui não podemos deixar de lembrar do sacerdócio ministerial, heróico em dias que professam valores divergentes aos do Evangelho. Que enfrentam tanto para nos garantir a Eucaristia. Com afeto especial, pelos Papas Francisco e Bento XVI, que seguem sendo unidade da Igreja neste mundo.
Deixo uma oração:

ORAÇÃO PELOS SACERDOTES