CREIO EM DEUS (…) TODO PODEROSO, CRIADOR DO CÉU E DA TERRA …(…) DE TODAS AS COISAS VISÍVEIS E INVISÍVEIS…

(Carlos Francisco Bonard)

Continuando o pensamento sobre o Credo, a luz do que ensina a Igreja Católica, temos a afirmativa de que Deus é Criador.

Este atributo está diretamente ligado ao primeiro trecho do Credo que diz Deus é TODO PODEROSO.

Como nós falamos no primeiro trecho apenas sobre a unidade de Deus, aqui falaremos sobre a sua onipotência também, tratando assim do fragmento todo.

Além de Pai, Deus também é todo poderoso. E o é devido a sua onipotência.

“Nós cremos que ela [a onipotência de Deus] é universal, pois Deus que criou tudo (Genesis 1, 1; João 1, 3), governa tudo e pode tudo, é também de amor, pois Deus é nosso Pai; e é misteriosa, pois somente a fé pode discerni-la, quando (a onipotência divina) “se manifesta na fraqueza” (2Cor 12,9)”.

Catecismo da Igreja Católica nº 268

Sendo Deus Todo-poderoso “no céu e na terra” (Salmo 134[135], 6), Ele ordena todas as coisas segundo a sua vontade.  Em Deus a palavra CRIAÇÃO tem seu significado pleno, vez que só Ele cria do nada. Nós até podemos fazer um invento, mas não estaremos criando, pois nós temos que usar alguma matéria prima para obtermos êxito. Na verdade nós adaptamos os materiais para a finalidade que almejamos.

Sendo assim, a criação é uma das “provas da existência de Deus”, e da sua onipotência.

“(…) o homem que procura a Deus descobre certas “vias” para aceder ao conhecimento de Deus. Chamamo-las também de “provas da existência de Deus”, não no sentido das provas que as ciências naturais buscam, mas no sentido de “argumentos convergentes e convincentes” que permitem chegar a verdadeiras certezas”.

Catecismo da Igreja Católica 31

Dissemos anteriormente que o homem é capaz de Deus, e que pelo uso da razão ele pode chegar a descobrir Deus.

Isso ocorre porque a criação, de certa forma, consegue de forma muito limitada, apontar para o esplendor de Deus.

Deus cria todas as coisas no seu Verbo ou na sua Sabedoria, que é o Filho. E cada coisa criada reflete alguma qualidade existente em Deus, por isso a criação fala de Deus:

“Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.”

Carta de São Paulo aos Romanos 1, 20

Leia também o que diz o livro da Sabedoria, no capítulo 13, dos versículos 1 ao 9:

“São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer aquele que é, nem reconhecer o artista, considerando suas obras (…) pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor”

Sabedoria, 13, 1.5

Cada coisa criada era antes uma ideia de Deus. E Ele coloca na criação essa ideia, que é um reflexo, um vestígio da sua divindade (a criação em geral), e a sua imagem e semelhança (o homem).

Então, criando um leão, por exemplo, Deus o faz para representar uma qualidade sua, e daí vem a sua imponência.

Como Deus é um artista perfeito, cada criatura corresponde perfeitamente à ideia que Deus teve dela.

Deus não está na natureza, como sua substância. Deus não é a natureza e não é o mundo, que são, ainda que belos, limitados. Deus é absoluto, e não carece de evoluir.

É bom frisar essa realidade

Estas “vias” para chegar a Deus têm como ponto de partida a criação: o mundo material e a pessoa humana.

O mundo não pode ter origem nem fim em si mesmo. Isso é, sua razão de ser não pode ser ele próprio. A ordem da criação, a beleza e o desenvolvimento do mundo apontam para Deus.

Quando falamos de provas da existência de Deus, não nos referimos a uma certeza absoluta, pois Deus não pode ser provado cientificamente ou matematicamente. Falamos de uma certeza moral.

Através do raciocínio humano você, escutando a voz da consciência que nos impele para o bem e nos afasta ou adverte do mal, percebe a existência de Deus.

Voltando, vemos um movimento no mundo, ao qual o nosso intelecto nos aponta para algo fora dele que o cria.

Por exemplo, toda causa é anterior ao seu efeito, isso é, alguma coisa ocasiona outra coisa. Podemos pensar em algo, mas esse algo terá que ter uma causa anterior. A ORDEM NÃO BROTA DO CAOS, é necessário uma inteligência por trás da ordem.

A isso Santo Tomás de Aquino chama de CAUSA DAS CAUSAS NÃO CAUSADASou CAUSA INCAUSADA.

O nome pode assustar, mas a ideia é simples. Dou como exemplo um resfriado causado pela chuva que é causada pela evaporação que é causada pelo Sol. Se pararmos no Sol duas possibilidades ocorrem:

  1. O Sol sempre existiu (logo ele é causa de si mesmo);
  2. O Sol nem sempre existiu (teríamos que descobrir a causa da sua existência);

Se a ciência diz que tudo tem uma causa, ela irá se contradizer a si mesma se não afirmar que haja uma causa primeira.

Junto a esta teoria temos a teoria do SER NECESSÁRIO[i]. O que não existe não começa a existir se não mediante outrem [que já exista]. Seguindo esta linha de raciocínio filosófico vislumbramos novamente duas possibilidades:

  1. Há um processo ad infinitum de seres criadores;
  2. Há UM SER que tenha em SI MESMO a necessidade de existir, SEM RECEBÊ-LA DE OUTRO;

Quando olhamos a natureza, de uma forma geral, percebemos que há seres que começam a existir e seres que deixam de existir. Bebês são gerados, pessoas morrem; sementes brotam, árvores fenecem; plástico é produzido, e outro, ainda que demore séculos, é deteriorado. Logo TUDO O QUE VEMOS NA NATUREZA TEM A POSSIBILIDADE DE NÃO SER, pois em algum momento aquilo não existia.

Se tudo o que vemos na natureza têm a possibilidade de não ser, houve tempo em que nenhuma dessas coisas existia. Se nada existia, nada existiria hoje, porque aquilo que não existe não pode passar a existir por si mesmo.

Olhando para essa realidade, aquilo que não existia, não passa a existir por si só. A sua existência depende de um motivo anterior.

Logo é impossível que nada existia (um nada absoluto) por que tem que existir algo primeiro, que sempre esteve lá. Um ser que era necessário e absoluto e que existia antes de tudo.

“Isto [a inaudita precisão dos fenômenos do Big Bang] terá acontecido por acaso?! Mas que ideia absurda!”

Walter Thirring[ii].

Este ser necessário, absoluto, é Deus que não pode deixar de existir ou mesmo deixar de ser Deus, sob a consequência de passar a ser contingente, dependente. Ele é o ser necessário em virtude do qual os seres contingentes tem existência (quanto as 5 vias, deixo para aprofundar o tema em um momento posterior).

Não estou afirmando que a onipotência de Deus venha destes dois conceitos, apenas estou dando explicações racionais para a razão de se dizer que Deus é onipotente, e que ele existe.

No credo o parágrafo é lido junto. Temos um PAI TODO PODEROSO:

“tendes compaixão de todos, porque vós podeis tudo”

Sabedoria 11, 23

Logo sua onipotência e paternidade iluminam-se mutuamente. E isto nos fará crer no restante do Credo que será ainda abordado.

O símbolo dos apóstolos afirma que Deus é o criador do céu e da terra, enquanto o símbolo niceno-constantinopolitano esmiúça: “(…) de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Quanto a isso o Compêndio nos diz:

“No princípio Deus criou o céu e a terra” (Gênesis 1, 1). A Igreja, na sua profissão de fé, proclama que Deus é o criador de todas as coisas visíveis e invisíveis: de todos os seres espirituais e materiais, isto é, dos anjos e do mundo visível, e em particular do homem”.

Compêndio da Igreja Católica nº 59

O termo “Céu e a terra” tem o significado de tudo.  Toda a criação foi feita por Deus, do nada. Sendo que:

  1. Terra – aqui ela é o mundo dos homens (Salmo 115[113B] 16[24]). O lugar das coisas “visíveis”;
  2. Céu ou céus, indica:
    1. Lugar das coisas invisíveis;
    1. Lugar dos seres imateriais – anjos;
  • A TERRA, o lugar das coisas visíveis.

Deus criou o mundo por força da sua palavra. A Bíblia mostra a obra de criação de forma simbólica no relato das origens. O mundo é feito por Ele em seis dias de trabalho, tendo descansado no sétimo (Genesis 1, 1-2, 4)[iii].

“No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Genesis 1, 1). Dizer no princípio Deus criou é afirmar que antes dele nada havia. Apesar de parecer repetitivo, reforço isto pois extraímos daqui duas verdades:

  1. O mundo não surgiu de si mesmo;
  2. Antes do princípio não havia nada, tendo Deus criado tudo do nada;

Apesar de a criação ser atribuída ao Pai, Este não tem exclusividade, vez que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são “o único e indivisível princípio da criação”[iv].

Deus ama todas as suas criaturas (Salmo 145[149], 9) e aqui se reflete a dependência que temos do resto da criação. Poderíamos viver sem o sol? Sem as plantas ou os outros animais? A harmonia de todo este universo criado resulta em um equilíbrio na forma das leis da natureza, a qual descobrimos progressivamente.

“A beleza do universo. A ordem e a harmonia do mundo criado resultam da diversidade dos seres e das relações que existem entre eles. O homem as descobre progressivamente como leis da natureza. Elas despertam a admiração dos sábios. A beleza da criação reflete a infinita beleza do Criador. Ela deve inspirar o respeito e a submissão da inteligência do homem e de sua vontade”.

Catecismo da Igreja Católica 341

A catequese católica aponta para a realidade de que cada criatura possui sua bondade e sua perfeição próprias vez que o Deus que cria diz que “tudo isto era bom”.

Pode passar imperceptível a maioria das pessoas, mas a Igreja, baseado nisto chama o homem a estar em harmonia com a natureza evitando o uso desordenado da criação que acarrete a degradação do meio ambiente.

São Francisco de Assis no Cântico das Criaturas louva a beleza infinita de Deus que se manifesta de forma reflexa na Sua criação.

“Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia e com sua LUZ nos alumia. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é muito útil e humilde e preciosa e casta… Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas. Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.”

São Francisco de Assis

Essa manifestação reflexa não se dá pelo que a criatura é, mas por aquilo que ela faz, assim ele diz:

Especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia e com sua LUZ nos alumia.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é muito útil e humilde e preciosa e casta…

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas.

Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.”

  • O CÉU, o lugar das coisas invisíveis.

Esta realidade se dá nos anjos e sua condição espiritual, incorpórea, invisível e imortal.

“Eles jamais poderão morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, porque são ressuscitados”

São Lucas, 20, 36

Por se tratarem de seres espirituais, os anjos são dotados de INTELIGENCIA e VONTADE[v], e, ao contrário dos homens, não necessitam dos sentidos. Diz Santo Tomás de Aquino “Os anjos sendo substâncias puramente simples, são como que formas que não são limitadas e determinadas por qualquer matéria, mas possuem, pela sua única natureza específica, todas as suas determinações substanciais”[vi].

Apesar de podermos dizer que o céu é o lugar da Igreja celeste, esta realidade da Igreja se dará de forma espiritual assim como os anjos[vii].  Quando a Igreja afirma em qual realidade se dará estas verdades ela implicitamente rechaça a TEOLOGIA A LIBERTAÇÃO.

Ocupando um lugar único da criação se encontra o homem que “Deus criou (…) à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Genesis 1, 27).

O Homem une, na sua natureza, o mundo material e o mundo espiritual, vez que, fazendo parte da criação visível, tem a capacidade de CONHECER e AMAR seu criador[viii]. Ele as une por que o Homem é “CORPORE ET ANIMA UNUS[ix] – UNO DE ALMA E CORPO – e esta alma é espiritual.

É claro que nem todas as realidades humanas serão divinas.

Mas cabe uma pergunta: Se Deus criou tudo, ele criou o Inferno?

Pensem sobre isso que responderemos a seguir.

Um abraço a todos

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem.

(Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz.)


[i] A CAUSA INCAUSADA e O SER NECESSÁRIO são duas das 5 vias da prova da existência de Deus de Santo Tomás de Aquino;

[ii] 1927, físico austríaco;

[iii] Inicialmente continuei o texto abordando as teorias sobre a literalidade, ou não do relato da criação. Após muito escrever percebi que fugiria da temática inicial do Credo. Mas a quem interessar saber, no futuro poderemos falar sobre o Genesis, em especial as contradições do capítulo 1 e 2, e suas explicações teológicas;

[iv] Catecismo da Igreja Católica nº 316;

[v] Catecismo da Igreja Católica nº 330;

[vi] De Unitate Intelectus;

[vii] Compêndio da Igreja Católica nº 60 c/c 209;

[viii] Aspectos de sua ALMA ESPIRITUAL que desenvolveremos em momento;

[ix] Gaudium et Spes (SOBRE A IGREJA NO MUNDO ATUAL) 14;

“Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”…

(Carlos Francisco)

O catecismo, no parágrafo segundo, dos artigos 232 até 260, fala da realidade trinitária de Deus.

O mistério da Santíssima Trindade só é conhecido por que nos foi revelado. Em que pese termos dito que através do uso da razão e pela observação da natureza o homem pode encontrar Deus, a percepção de que Deus é Trino só é possível através da revelação do Filho.

Contudo, o Filho, Jesus, não diz que existe um Deus e três Pessoas distintas, Pai, Filho e Espírito Santo, com a mesma natureza divina.

Nós vislumbramos esse Mistério olhando para a revelação de Jesus. Revelação não de forma verbal, mas através das suas ações, e das ações de Deus dentro da história: a história da salvação nos revela a Trindade.

Em um dos seus textos a Vandeia Ramos bem diz que esse Mistério foi sendo revelado e conhecido aos poucos, pois “enquanto Mistério divino, esta mesma compreensão não se esgotaria, [estando] sempre aberta a aprofundamentoi”. Esta é a mistagogia da Igreja.

“O verbo grego mystagogêin significa orientar nos mistérios. Dele deriva o substantivo “mistagogia”, um gênero literário comum no início da vida cristã, especialmente na época patrística, para introduzir os catecúmenos na fé, vida e santidade da Igrejaii”.

Frei Boaventura Kloppenburg O.F.M.

Com os mistérios de Deus sendo revelados aos poucos através da história da salvação, é em Jesus Cristo que temos a plenitude dessa revelação, a qual não haverá outra. Após Cristo, mais nada é revelado, pois ele é a última palavra de Deus. Não que tudo esteja explicitado por completo, pois o próprio Espírito Santo vem introduzir-nos nessa verdade de forma cada vez mais profunda. Mas é o Verbo Eterno que dá o conhecimento do Pai.

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória como de Filho Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.(…)Todos nós participamos da sua plenitude, e recebemos graça sobre graça; (…)Ninguém jamais viu Deus; o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, ele mesmo é que o deu a conhecer”.

Evangelho segundo São João 1, 14.16.18

Isso significa que a Igreja não inventou a Santíssima Trindade, ainda que a formulação do dogma trinitário ocorra apenas com o passar dos séculos.

Bem, O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo.

Vamos começar dividindo o artigo 236 do catecismo em duas partes para melhor entender a revelação da Trindade:

“Os Padres da Igreja distinguem entre “Theologia” e “Oikonomia”, designando pelo primeiro termo o mistério da vida íntima de Deus-Trindade e, pelo segundo, todas as obras de Deus pelas quais Ele Se revela e comunica a sua vida”.

Theologia, ou simplesmente teologia, é Deus nele mesmo. É Deus como ele é, e como nós conseguimos concebê-lo.

Oikonomiaiii, ou simplesmente economia, tem como ideia original um administrador de uma casa que provê o necessário para a sua família. Aqui no Catecismo se está falando de economia da salvação, isto é, como Deus age dentro da casa, dentro da história, suas obras e sua revelação.

“É pela “Oikonomiaque nos é revelada aTheologia”; mas, inversamente, é a “Theologiaque esclarece toda aOikonomia””.

Em outras palavras, é pela ECONOMIA que nos é revelado o Deus uno e trino, mas inversamente é o Deus uno e trino que esclarece a Economia da salvação.

Seguindo e aprofundando essa ideia no artigo 237 do catecismo, a Trindade Imanente (Deus em si) é revelada pela Trindade econômica (Deus na sua realidade histórica).

Nós vamos desenvolver o raciocínio, mas para ficar claro já aqui, obviamente não existem duas trindades, mas uma só, que ao entrar dentro da história (através da encarnação do verbo e do envio do Espírito Santo) nos revela como Deus é nele mesmo, na eternidade, mas não de forma completa, por que só veremos a Trindade em toda a sua plenitude na vida eterna.

Feita esta introdução, avancemos.

A anunciação do anjo Gabriel a Maria trouxe duas novidades espantosas: que Deus tem um Filho, e que existe um Espírito Santoiv.

“O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus.”

Evangelho segundo São Lucas, 1, 35

Isso era uma novidade que foi sendo entendida aos poucos.

  • Deus é Pai

Deus é Pai no sentido de ser Pai de Israel, seu povo eleito, e no sentido de ser o Criador ou a fonte de tudo, mas, mais que isso, Jesus nos revela que Deus é seu Pai de uma forma única.

“é [Deus] Pai eternamente em relação ao seu Filho único, o qual, eternamente, só é Filho em relação ao Pai: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (Mt 11, 27)”.

Catecismo da Igreja Católica 240

Tudo o que Deus é, ele é na sua essência. Então, é da essência de Deus ser Pai. Eu sou pai, mas ainda que não fosse, seria eu, uma pessoa. Mas Deus só é Pai por que ele sempre teve um Filho, gerado antes de todos os séculos, na eternidade.

Por isso a relação de Deus Pai conosco é diferente da relação com o Filho eterno. Nós somos filhos por adoção, Jesus é Filho Unigênito.

Repare que Jesus, em relação aos discípulos, nunca diz nosso Pai, mas sim Vosso pai.

“Disse-lhe Jesus: “Não me retenhas, porque ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”.”

Evangelho segundo São João, 20, 17

Mesmo quando ensina a oração do Pai nosso Jesus diz como nós devemos orar.

“Disse-lhes ele, então: “Quando orardes, dizei [vocês]: Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso Reino”(…)

Evangelho segundo São Lucas, 11, 2

Por ser o Filho de Deus, João pode dizer que o Verbo estava junto de Deus e que era Deus desde sempre (Jo 1, 1).

Deus, como ser inteligente, tem um autoconhecimento perfeito, que é o seu Verbo real, idêntico à sua essência divina. Conhecendo-se, o Pai gera um Verbo real que Lhe faz face.

“Respondeu Jesus: “Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai… Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim?”

Evangelho segundo São João, 14, 9-10

O Pai contempla sua própria essência divina neste Verbo que é sua “expressão”, sua “imagem” eterna e incriada, seu Filhov.

Temos que ter em conta que a Santíssima Trindade é um mistério da fé. Então, apenas para ilustrar de forma muito limitada, nós, ao nos contemplarmos, formamos uma imagem de nós que é o nosso “eu”. Porém o nosso conhecimento próprio é imperfeito, pois não nos conhecemos plenamente. Tanto que é comum que outras pessoas nos apontem características, manias, trejeitos que nós mesmos não percebemos a princípio. E ainda que esse autoconhecimento fosse perfeito, seria somente um pensamento que não sairia do nosso interior, e deixaria de existir assim que eu pensasse em outra coisa.

Mas o existir é próprio de Deus. Ele é.

O conceito que Deus tem de Si mesmo é um pensamento infinitamente completo e perfeito, que possui existência. Deus Filho é a expressão do conhecimento que Deus tem de Si.

Ao se conhecer, Deus tem uma Palavra, um Logos, que é perfeitíssimo. Igual a Ele em tudo. Literalmente o Pai dá tudo que ele tem, e é, pro Filho, exceto o fato de Ele ser Pai.

O Pai dá todo o conhecimento de Si ao Filho.

Geralmente o que partilhamos nos torna mais pobres, materialmente falando. Se eu tenho um pão e divido, fico com meio pão. Se doo R$100, eu fico com menos R$100.

Mas o conhecimento que eu dou para alguém não se reparte. O conhecimento se multiplica. Conhecimento é um bem espiritual. Ao se compartilhar conhecimento você enriquece o outro, sem perder nada.

Essa é a relação do Pai e do Filho. O Pai dá tudo sem nada perder.

Por isso esse Filho é gerado. Sua geração se dá na eternidade, a partir do momento que há essa contemplação, isso é, desde sempre. Deus nunca foi sozinho.

Essa ideia deve ficar clara na catequese. Automaticamente quando falamos que Deus é Pai, tendemos ao pensamento humano que o filho sempre vem depois do pai. Deve-se reforçar que Deus é Pai na sua essência, e que essa geração do Filho acontece na eternidade, desde sempre.

Essa ideia é foi sendo desenvolvida e explicitada no concílio de Nicéia e no concílio de Constantinopla.

Na esteira deles[dos Apóstolos], seguindo a Tradição apostólica, a Igreja, no ano de 325, no primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia, confessou que o Filho é “consubstancial” ao Pai, isto é, um só Deus com Ele. O segundo Concílio Ecumênico, reunido em Constantinopla em 381, conservou esta expressão em sua formulação do Credo de Nicéia e confessou “o Filho Único de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”

Catecismo da Igreja Católica 242

  • O Espírito Santo enviado pelo Pai através do Filho revela o Pai e o Filho

Na noite da última ceia Jesus fez uma promessa aos apóstolos: ele partiria, mas enviaria um outro paráclito.

“Entretanto, digo-vos a verdade: convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei. E, quando ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do juízo. Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em mim. Ele o convencerá a respeito da justiça, porque eu me vou para junto do meu Pai e vós já não me vereis; ele o convencerá a respeito do juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado. Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ele vos ensinará toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e vos anunciará as coisas que virão. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse: Há de receber do que é meu, e vo-lo anunciará.”

Evangelho segundo São João, 16, 7-15

Essa passagem tem muito a nos dizer, mas nos ateremos ao Espírito que tudo revela. Jesus passa 3 anos com os discípulosvi, mas, ainda assim, é preciso a vinda do Espírito Santo para capacitar os apóstolos, para que melhor entendam a revelação.

Falamos antes que Deus é A Verdade. Jesus vem para dar testemunho da verdade, mas é o Espírito Santo – que nos refaz – que nos capacita para recepcionar essa verdade.

Por isso, é significativo que os apóstolos que, semanas antes haviam se dispersado após a morte de Jesus, e que, após a ressurreição e a ordenança de Jesus, estavam reunidos escondidos no cenáculo, em pentecostes com a descida do Espírito Santo passam a proclamar a todos que os judeus haviam condenado e matado a Jesus; que Jesus era Senhor e Cristo; que Deus ressuscitara Jesus dos mortos, ao contrário do rei Davi.

Continuando nossa explicação sobre a relação do Pai e do Filho, Deus Pai (Deus conhecendo-se a Si mesmo) e Deus Filho (o conhecimento de Deus sobre Si mesmo) contemplam a natureza que ambos têm em comum. E ao, em linguagem meramente humana, verem-se, contemplam nessa natureza tudo que é bom e belo. Ou seja, tudo que produz amor, só que em grau infinito. Essa vontade divina de se autoconhecer gera um amor infinito para com a bondade e a beleza divinas.

Como o amor por Si mesmo, assim como o conhecimento sobre Si mesmo, é da própria natureza divina, tem que ser esse amor um amor vivo. Amor infinitamente perfeito e intenso, que eternamente, desde sempre, flui do Pai e do Filhovii.

O Pai e o Filho amam-se mutuamente.

O amor que eu dou para alguém também não se divide, mas se multiplica. O amor também é um bem espiritual. Ao se dar amor a outrem você se enriquece.

Então esse Pai eterno que, desde toda a eternidade sempre teve esse Filho bendito e amado, igual a Ele em tudo, glorioso como Ele, infinito, onipotente, esse Pai ama esse Filho. E esse amor é tão, tão perfeito que é também igual aos dois em tudo.

Dessa relação do Pai e do Filho, procede o Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade.

Essa ideia também deve ficar clara na catequese. Ao falarmos que o Espírito Santo procede do amor do Pai e do Filho, não estamos falando que ele vem depois.

Deve-se reforçar que Deus é Amor na sua essência, e que se esse ato de amar ocorre desde sempre, o Espírito Santo está presente ali desde sempre.

Esse é o mistério da Santíssima Trindade, que todas as palavras e lógicas do mundo não conseguem assimilar. Um Deus e três pessoas. É essa ideia que é evocada na fórmula batismal.

Conforme expresso no Catecismo da Igreja Católica número 233, o cristão é batizado “em nome” do Pai e do Filho e do Espírito Santo, pois há um só Deus – a Santíssima Trindade. Batizar ou fazer qualquer ato “nos nomes” seria incorreto. As pessoas divinas são realmente distintas entre si (CIC 254) pelas relações que existem entre eles, mas Pai e Filho e Espírito Santo não são meros nomes, pois tudo neles é um (CIC 255). Uma só substância divina – um só Deus. E no nome desse único Deus – Pai e Filho e Espírito Santo – somos batizados.

Alguém pode perguntar se a letra da música “em nome do Pai, em nome do Filho, em nome do Espírito Santo, estamos aqui”, estaria errada. Teologicamente sim, pois não são nos nomes, como se fossem divindades diversas. O correto seria adaptar a letra a fórmula.

O desenvolvimento da teologia sobre o Espírito Santo também é melhor explicitado no concílio de Nicéia e no concílio de Constantinopla.

“A fé apostólica no tocante ao Espírito foi confessada pelo segundo Concílio Ecumênico, em 381, em Constantinopla: “Cremos no Espírito Santo, que é Senhor e que dá a vida; ele procede do Pai”. Com isso a Igreja reconhece o Pai como “a fonte e a origem de toda a divindade”. Mas a origem eterna do Espírito Santo não deixa de estar vinculada à do Filho: “O Espírito Santo que é a Terceira Pessoa da Trindade, é Deus, uno e igual ao Pai e ao Filho, da mesma substância e também da mesma natureza….Contudo, não se diz que Ele é somente o Espírito do Pai, mas ao mesmo tempo o Espírito do Pai e do Filho”. O Credo da Igreja do Concilio de Constantinopla, confessa: “Com o Pai e o Filho ele recebe a mesma adoração e a mesma glória”.”

Catecismo da Igreja Católica 245

Sobre o Filioque, falaremos quando entrarmos especificamente na parte sobre o Espírito Santo. Contudo já adianto brevemente algo que pode gerar dúvida e também será visto posteriormente: Pelos acréscimos no Credo de Nicéia e Constantinopla, não parece que só nesse momento a Igreja percebeu a terceira pessoa da Santíssima Trindade?

A resposta é não. Como já foi dito antes, a Igreja, desde o seu início, já pregava a crença na pessoa do Espírito Santoviii.

  • O desenvolvimento do dogma trinitário

Em que pese ter percebido a existência da trindade desde seu nascimento, a Igreja precisou de um tempo para desenvolver uma linguagem para expressa-la e transmiti-la, o que causou o surgimento de algumas heresias trinitárias como o Arianismo e o Subordinacionismo, o Sabelianismo (ou Modalismo) e o Triteísmo.

Essa precisão terminológica, se deu, sobretudo, nos dois primeiros Concílios Ecumênicos: o de Nicéia (325), e o de Constantinopla (381).

Nestes dois Concílios, estabeleceu-se a linguagem canônica que a Igreja passou a utilizar para exprimir sua fé na Santíssima Trindade. Surge então o chamado Credo niceno-constantinopolitano.

Sendo assim aprouve desenvolver uma terminologia própria recorrendo a noções de origem filosófica:

SUBSTÂNCIA (uma só), ESSENCIA (uma só) ou NATUREZA (uma só)

Para designar o ser divino em sua unidade

As pessoas divinas não dividem entre si a única divindade, mas cada uma delas é Deus por inteiro. O Pai é aquilo que é o Filho, o Filho é aquilo que é o Pai, o Espírito Santo é aquilo que são o Pai e o Filho, ou seja, um só Deus por natureza.

PESSOA ou HIPÓSTASE

para designar o Pai, o Filho e o Espírito Santo em sua distinção real entre si

Deus é único mas não é solitário. Pai, Filho e Espírito Santo não são simplesmente nomes que significam modalidades ou máscaras de Deus (como diz o Sabelianismo), pois realmente são distintos: Aquele que é o Pai não é o Filho e aquele que é o Filho não é o Pai, nem aquele que é o Espírito Santo é o Pai ou o Filho.

Em relação a natureza e pessoa, se perguntamos “o que é?” estamos olhando para a natureza. Se perguntamos “quem é?” estamos olhando para a pessoa.

Então, por exemplo, o que é o Espírito Santo? Ele é Deus. E quem é o Espírito Santo? É a 3ª pessoa da Santíssima Trindade.

A única pessoa que contém duas naturezas é Jesus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Porém ele não é metade Deus e metade Homem, mas sim totalmente Deus e totalmente homemix.

Nós, o nosso vocabulário confunde pessoa com ser. Mas a Igreja quando pensou na formulação da linguagem para significar o dogma da Santíssima Trindade, pegou o conceito de Pessoa e deu a ela um significado novo. Eu sou uma pessoa e sou um ser humano, mas em Deus o conceito de Pessoa é diferente do conceito de Ser, da sua natureza.

Quem é Jesus? A segunda pessoa da Santíssima Trindade. E o que é Jesus? É um ser humano e Divino. Tendo Jesus a natureza humana e divina, Maria é verdadeiramente mãe de Deus (Theotókos).

RELAÇÃO

para designar o fato de a distinção entre eles residir na referência de uns aos outros

Essa relação é observada pelas suas Missõesx e pelas suas Processões.

  • Quanto as Missões:

Quando o catecismo diz que “Ele [o amor trinitário por nós] se desdobra na obra da criação, em toda história da salvação após a queda, nas missões do Filho e do Espírito, prolongadas pela missão da Igrejaxi”, se quer dizer que as Missões estão diretamente ligadas a ação salvífica dentro da história.

Não há Missão do Pai porque o Pai não entra na história ao contrário do Filho que se encarna e do Espírito Santo que é efuso ou derramado.

Santo Irineu de Lião diz que tudo é modelado pelas duas mãos de Deus (o Verbo e o Espírito). Então tudo o que é criado, é criado pelo Pai, mas através da sua Palavra (o Filho) e através do seu Espírito (Santo), pois eles entram na história agindo, enquanto o Pai permanece em luz inacessívelxii.

São João também nos fala dos dois paráclitos (Filho e o Espírito Santo) que são enviadosxiii, mas o Pai não é enviado.

– Dizemos que o Filho é Redentor, e a Missão do Filho se relaciona com a sua encarnação que nos apresenta Deus (vez ser a Sabedoria de Deus), e nos salva, mas não sem o Pai pela ação do Espírito Santo;

– Dizemos que o Espírito Santo é Santificador, e a Missão do Espírito Santo se relaciona com as manifestações visíveis que acompanharam a sua vinda em pentecostes, que impulsionam e santificam a Igrejaxiv, mas não sem o Pai e o Filho;

Percebam que, a ação redentora e santificadora é obra da Trindade, mas cada um conforme aquilo que lhe é próprio.

“Inseparáveis naquilo que são, da mesma forma o são naquilo que fazem. Mas na única operação divina cada uma delas manifesta o que lhe é próprio na Trindade, sobretudo nas missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo”.

Catecismo da Igreja Católica 267

  • Quanto as Processões:

Processão (ou ainda Espiraçãoxv) como sendo de algo que procede de alguma coisa. O sentido é de PRINCÍPIO, tanto na eternidade quanto na história.

Disso nos fala o catecismo quando lemos que “As pessoas divinas são realmente distintas entre si. “Deus é único, mas não solitário”. “Pai”, “Filho”, “Espírito Santo” não são simplesmente nomes que designam modalidades do ser divino, pois são realmente distintos entre si: “Aquele que é o Pai não é o Filho, e aquele que é o Filho não é o Pai, nem o Espírito Santo é aquele que é o Pai ou o Filho”. São distintos entre si por suas relações de origem: “É o Pai que gera, o Filho que é gerado, o Espírito Santo que procede”xvi”.

Assim como temos duas Missões, temos então duas Processões.

A processão na eternidade é o Princípio Eterno de uma das Pessoas Divinas (geração do Filho e procedência do Espírito Santo conforme diz o credo maior), e a processão na história é o envio de uma das Pessoas Divinas na história da salvação (encarnação do Filho e envio do Espírito Santo conforme vemos na história da salvação).

“O Pai não foi feito por ninguém, nem criado nem gerado; o Filho é só pelo Pai, nem feito nem criado, mas gerado; o Espírito Santo <é> do Pai e do Filho, nem feito, nem criado, nem gerado, mas procedente. Portanto, um só Pai, não três Pais; um só Filho, não três Filhos; um só Espírito Santo, não três Espíritos Santosxvii.”.

Henrici Denzinger 75

Sendo assim, o Pai que Gera o Filho desde toda a eternidade, na plenitude dos tempos o envia até nós por intermédio do Espírito Santo. Assim como o Espírito Santo que procede do Pai e do Filho é enviado até nós.

Gera o Filho desde toda a eternidade”. É importantíssimo entender com a fé essa realidade. O Filho foi gerado do Pai, mas nunca houve algum momento em que o Filho não fosse. Nós temos dificuldade de, com a lógica, entender esse conceito pois estamos presos ao conceito de TEMPO. Mas lembremos as palavras do próprio Jesus de que “antes que Abraão fosse, EU SOU” (Jo 8, 58), isso é, Jesus também é, desde sempre.

Ainda, alguém pode pensar “Se Deus é onipresente e está em toda a parte, como pode ser enviado a algum lugar?

Lembre-se que Missão, aqui na Trindade, é manifestação, fazer-se visível. Não é uma presença como a nossa, mas uma presença através de uma ação, pois nas pessoas divinas, a presença sempre tem um porquê, um motivo.

Pois, “tudo é uno [neles] onde não se encontra a oposição de relação”. “Por causa desta unidade, o Pai está todo (a sua natureza) inteiro no Filho, todo inteiro (a sua natureza) no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro (a sua natureza) no Pai, todo inteiro (a sua natureza) no Espírito Santo; o Espírito Santo, todo inteiro (a sua natureza) no Pai, todo inteiro (a sua natureza) no Filho”.”

Catecismo da Igreja Católica 255

Esse é o mistério da santíssima trindade, impossível de compreender totalmente pela lógica humana.

Mas podemos tentar ajudar a penetrar razoavelmente nesse mistério através de citações bíblicas (o próprio catecismo nos parágrafos 232 até 260 são uma excelente fonte), ou através de dinâmicas, como constam algumas aqui no blog. Mas a fé é o melhor caminho para isso, pois a Santíssima Trindade estará sempre além da nossa compreensão, até que vejamos a Deus face a face.

Posteriormente nós falaremos sobre Deus criador, e encerraremos esta primeira parte do credo.

Até a próxima

“Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente, para me estabelecer em Vós, imóvel e pacífica como se já a minha alma estivesse na eternidade.(…) Pacificai a minha alma; fazei dela o vosso céu, vossa morada querida e o lugar do vosso repouso. Que eu não vos deixe nunca só, mas que esteja lá, com todo o meu ser, toda vigilante na minha fé, toda em adoração, toda oferecida à vossa ação criadora”

(Beata Isabel da Trindade).


i https://semeandocatequese.wordpress.com/2019/06/16/santissima-trindade-comunhao-de-amor/;

ii KLOPPENBURG, Frei Boaventura. Mistagogias de Bento XVI sobre a Igreja. Editora: Vozes, 2007, p.9;

iii Oikos = casa; nomos = lei;

iv Óbvio que podemos fazer uma leitura, por exemplo, de Gn 1, 2, como sendo o Espirito Santo pairando sobre as águas, porém isso é uma leitura cristã. No contexto hebraico a tradução seria um “sopro de Deus” ou um grande vento, que, no caos inicial, a tudo vai organizando, ou seja, uma ação de Deus, não uma pessoa;

v J.E. Martins Terra. Os Mistérios Da Vida De Jesus. Editora: Ave Maria, 2009, p.253;

vi Ao observarmos o evangelho segundo São João, vemos que Jesus, já com os discípulos, participa de 3 páscoas;

vii TRESE, Leo J. A fé explicada. Editora: Quadrante, 2011, p.28;

viii https://semeandocatequese.wordpress.com/2020/05/18/o-credo/;

ix CIC §464;

x Missão no sentido de manifestação. A Missão supõe uma relação com aquele que envia;

xi CIC §257;

xii IRINEU de Lião. Adversus Haereses, IV, 20,1;

xiii Conforme Jo 14, 16 ss. Apesar de, comumente, apenas o Espírito Santo ser visto como paráclito, Jesus também o é. Paráclito significa auxílio, sustentáculo, intercessor. O Espírito Santo cumprirá a mesma missão de Jesus, que foi também de ser: sustentáculo, advogado, intercessor;

xiv “E como entender o evangelista que diz: Pois não havia ainda Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado, senão no sentido de que aquela doação ou missão do Espírito Santo aconteceria no futuro de modo inusitado?” (AGOSTINHO, Trindade, IV, 20, 29);

xv No sentido de Soprar o Espírito Santo;

xvi CIC §254;

xvii DENZINGER, Henrici. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral da Igreja católica, p.41;

Santidade, perfeição e sabedoria, assim é o Catequista

(Vandeia Ramos)


Último domingo antes da quaresma e a Liturgia se antecede, anuncia nossa santidade enquanto configuração a Cristo, fim de nossa caminhada. E Jesus anuncia a Si mesmo como chegada, a Antiga Aliança como preparação para sua vinda, o Novo Testamento como realização do Reino através da Igreja.
E tal realidade exige de nós uma mudança radical, já que somos testemunhas junto aos nossos catecúmenos. As inscrições para a Iniciação Cristã estão se aproximando do início de uma nova turma e precisamos repensar se nossas palavras estão coerentes com nossas ações, se nossos atos anunciam e nossos silêncios não são omissões.
Pelo Batismo somos chamados à santidade e, no mundo em que vivemos, sentimos falta de modelos que nos ajudem a compreender o Evangelho. O desafio da catequese está justamente neste ponto: aprendermos diretamente com o Mestre, através da Igreja, a sermos este modelo. E isso leva à ressignificação de nossa vida: a abertura do coração ao próximo, principalmente aos mais difíceis, aos que precisam ser amados, que gritam esta carência com atitudes para chamar nossa atenção – o amor não é mérito, senão não é gratuito e dom. E isso envolve não entrar em discussões, que não levam a nenhum lugar e acumulam rancor e mágoa; a não revidar agressões e resistência de crianças e jovens, que ainda não conseguem expressar suas necessidades através de argumentos; à disponibilidade do ouvido e do coração na paciência com quem tem mais dificuldade, precisando repetir o ensinamento ou mesmo elaborá-lo de outro modo; permanecer em oração pelos que estão sendo colocados sob nossa responsabilidade, para orientar nos caminhos da fé.
Jesus, nosso Mestre, é nossa maior referência, e toda a Igreja lhe é testemunha. Nossa comunidade se torna modelo à medida em que conseguimos observar sua direção ao Senhor. Assim temos duas dimensões da santidade a que somos configurados: a pessoal, no compromisso de cada um em se tornar imagem e semelhança de Deus, e a comunitária, em que uns são modelos e auxílio aos demais. Santidade se relaciona intrinsecamente com o amor-dom.
A perfeição não é um elemento individual, pois não somos sozinhos. Somos enquanto plural, em uma Igreja que se apresenta ao mundo através de diferentes rostos. O que nos é limitado, difícil, temos um irmão próximo que pode nos ajudar e iluminar aspectos que sozinhos não conseguiríamos sequer perceber. Somos mais porque somos diversos, enriquecidos como membros de um único Corpo. Não é a toa que somos vários catequistas, em faixas etárias distintas, com grupos específicos, em tantos lugares e tempos…
A sabedoria nos é dada enquanto percebemos e vivemos a dinâmica da fé. Nossa razão é transpassada pela graça, que ilumina e dirige nosso olhar, nosso coração, e vemos o que outros não conseguem: a intimidade do coração humano que se inclina para Deus. Distinguir o melhor caminho para dar a mão aos nossos catecúmenos é nossa tarefa de todo dia, sermos mediadores no Mediador.
Comecemos nossa quaresma na conversão de nosso ser e pedindo a Deus que nos guie em sua bondade, para que, a catequese possa bendizer ao Senhor, que nos cerca com sua compaixão e ternura.

Chamados a sermos Santos do Reino de Deus

(Vandeia Ramos)


A narração do Evangelho de São Mateus está no começo do Sermão da Montanha, em que, através das Bem-Aventuranças e de parábolas, Jesus vai não só anunciando o Reino, como também o instaurando no coração de todos os presentes. O fio condutor não é mais o “pode” ou “não pode”, característico dos mandamentos e que permeia a Antiga Aliança. Temos aqui um salto qualitativo. Mais que os mandamentos, é o Espírito que os norteiam, é a plenitude, é o Reino.
O Cristianismo não é uma negação do que veio antes, um “tudo pode” ou que “Deus perdoa a tudo porque é misericordioso”, no sentido de liberalismo, do fazer tudo o que quiser, como se a Salvação fosse inevitável e não considerasse a Justiça, a Cruz ou o livre arbítrio. Para nós, é difícil compreender um Deus Justo e Misericordioso, em que um atributo não ignora o outro.
Assim, o anúncio da Boa Nova contempla os que fazem uma escolha radical por Deus, os “violentos de coração”, os que sofrem na carne e no dia a dia a difícil escolha pelo Céu. Somente a partir de Jesus, de Maria, de José e das inúmeras pessoas que continuam o Reino aqui é que podemos vislumbrar o sentido destas palavras, que afirmam que calar não é se omitir, e sim um gesto grandioso de caridade para com o próximo e que nos custa a humilhação de abrir mão do orgulho, do ego, de achar que nós somos a vara da Justiça e do Bem, que nosso dedo está limpo… O grau de exigência está acima do que somos capazes – temos necessidade da graça!
A “pureza de coração”, despir-se de uma falsa concepção de si, traz constantes humilhações, dores… E muita alegria. Como explicar a alegria de Pedro ao apanhar na prisão? De Felipe Néri em viver na miséria com as crianças, na marginalidade da Cidade Eterna? De Lourenço em ser frito em olho fervendo? De Dulce dos Pobres em ser cuspida na feira? Não é masoquismo! É preciso a ousadia heroica de dar o “salto da fé” para viver esta nova realidade.
É preciso a decisão de acreditar no que não podemos ver! Temos inclinações, vontades, desordens… com as quais trariam mais caos e violência ao mundo se cada um se deixasse levar. Podemos ver as consequências nos inúmeros problemas de saúde pelo descaso das autoridades, do desleixo nosso com o lixo, com a higiene, com o cuidado com a família e com os que nos são responsáveis. Não só a morte física paira à nossa volta, como a desesperança, o desespero e a indiferença são sinais de um espírito que se perde…
Jesus nos lembra dos mandamentos, balizas para que possamos respeitar, em uma vida de quem aceita viver o Reino, a começá-lo aqui e agora, como Ele mesmo se fez Modelo. É sinal de sabedoria e de quem toca a eternidade, de uma escolha consciente e corajosa em ter o Coração de Deus como diretriz (e não o momentâneo frenesi que o mundo oferece).
A transcendência, alimentada pela Eucaristia, pelos Mandamentos e pelos Sacramentos, torna-se visível aos olhos do mundo, atraindo a atenção de quem traz em si o desejo íntimo pelo que é mais importante, mas que não sabe por onde seguir. Quem já começou no caminho do Reino, torna-se luz, sal, servo, santo, já vivendo um pouquinho das alegrias que nos esperam no céu…
Nossa vida é um caminho, que pode ser vivida nO Caminho, tornando-se A Vida nA Verdade. Como tal, é a abertura constante e perseverante à Lei do Senhor, no “sim” de quem vai dizendo “não” ao pecado em favor de seguir na direção do Céu, indicando a tantos por onde ir.
Sejamos estes “convidados para a Ceia do Senhor”, seguindo em sua Lei, dando o salto das Bem-Aventuranças, num “sim” não somente com a boca, mas com todo nosso ser!

No colo de Maria, protegidos por José

(Vandeia Ramos)


A Festa da Purificação é uma festa dupla, em que a mãe se purifica do parto, o que hoje chamamos de resguardo, e os pais ofertam a criança a Deus. Aqui já se manifesta o Mistério de Deus, pois Maria não precisava de purificação, já que ela é a “cheia de graça”. No entanto, como veremos seu Filho, ao longo da vida, submete-se à Lei. E ela faz sua oferta, mais que as duas rolinhas ou dois pombinhos (Lv 12), Maria sustenta sua oferta de si mesma.
Na Antiga Aliança, o primogênito deveria ser ofertado a Deus e, em seguida, resgatado (Ex 13, 1-2.12-14; Nm 18, 15-18), o que não aconteceu. Maria e José sabiam que, antes de Jesus ser seu Filho, era Filho de Deus. E os santos pais oferecem o Filho e não O resgatam.
Podemos identificar este despojamento quando Simeão chega e pega o Menino no colo, sem resistência de Maria e de José. Recebemos uma das mais belas orações de nossa fé, inserida na Liturgia das Horas quando vamos nos recolher. Simeão sabe que seu tempo está acabando e recebe o carinho de Deus ao estender os braços para o Bebê, alcançando a plenitude de sua vida. Jesus não veio somente para Simeão, e este fica feliz pela esperança que vem até o seu povo e a todos. Possamos também nós, ao nos deitarmos, também poder entregar toda a vida do dia nas mãos de Deus.
Tal sacrifício de Maria lhe valerá uma dor tal, pois seu Amado será rejeitado. E ela trará a dor do Filho, calando em seu coração nossa resistência e violência, ainda que não saiba o que isso significa. Guarda em seu íntimo, acolhe a mensagem, sem desviar-se da ternura de sua família. No amor da Mãe, Jesus recebe o amor humano que se torna divino.
Ana, profetisa que dedicava sua vida a Deus, identifica na Família de Nazaré Aquele que vem para cumprir a Promessa. A dedicação ao serviço do Templo é coroada quando vê o Cumprimento. Assim, ela nos ensina a esperar em Deus, sem desistir.
O Bebê seguiu o Caminho de um Filho, como todos nós, crescendo em tamanho, sabedoria e graça, na casa de seus pais, envolvido de cuidado e ternura, como somos nos braços de Deus, de modo especial a partir do Batismo.
Jesus segue uma vida ordinária, sem destaque no Egito e/ou em Nazaré. Um entre tantos meninos. Quem poderia dizer quem Ele é? É na vida pública que sua firmeza vai atrair atenção, por Palavra e Atos. Ele faz o que diz e diz o que faz. Os que buscam verdadeiramente o Senhor logo O identificam e O seguem. Os que apresentam incoerências entre o que diz e o que faz serão chamados a se converterem e, muitas vezes, não aceitarão, causando dor e rejeitando o Amor, escolhendo viver como escravo do orgulho, da vaidade, da super valorização de si mesmo, colocando-se como definidor do certo e errado.
Vivemos em constante tentação desta incoerência, resistindo à santidade e ficando afastados de Jesus, argumentando que, por Ele ser Misericordioso, tudo perdoa. Só que realmente queremos Seu perdão? Não é um modo de esvaziar Sua justiça?
Na Festa da Purificação temos o Rei da Glória indo ao Templo de Jerusalém no colo de Maria que, junto com José, apresentam-no ao Pai. O Deus se faz Menino e se deixa conduzir pelos pais, mostrando como quer ser acolhido pela humanidade. Vindo a nós, chama-nos a ir com Ele para purificar-nos e ofertar o que o ser humano tem de mais precioso: o Verbo de Deus.
Sigamos nós com Maria e com José, tornando-nos seus filhos no Filho, pedindo que a Família de Nazaré nos apresente também ao Pai!