O segredo de Maria

(Por Luzia Santiago)

“Maria, a Mãe da sabedoria, nos ensina o seu segredo.

Trabalhe e reze. Fique em silêncio, reze, ame e reze. Escute e reze.
Não discuta, não queira ter razão: cale-se.
Não julgue, não condene: ame.
Não olhe, não queira saber: abandone-se.
Não arrazoe, não entre na profundidade dos problemas: creia.
Não se agite, não procure fazer: reze.
Não se inquiete, não se preocupe: tenha fé.
Quando você fala, Deus se cala e você diz coisas equivocadas.
Quando discute, Deus é esquecido e você peca.
Quando você argumenta, Deus é humilhado e você pensa em coisas vãs.
Quando você se apura, Deus é distanciado e você tropeça e cai.
Quando você se agita, Deus é lançado fora e você fica na escuridão.
Quando você julga o irmão, Deus é crucificado e você se julga a si mesmo.
Quando você condena o irmão, Deus morre e você se condena a si mesmo.
Quando desobedece, Deus fica distante e você morre.

É o segredo de Maria, no dia a dia, no corre-corre, no cotidiano, nas várias situações, nós vamos seguir Maria.

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“Eis que Eu venho”

(Vandeia Ramos)

Antevéspera de Natal e a expectativa já está no ar. A Igreja e as casas arrumadas, as famílias finalizando as preparações, o sentimento da ausência de alguns doendo mais forte… Depois de um ano tão intenso, começamos o ano litúrgico com a espera Daquele que vem para fazer tudo novo.
Na profecia de Miqueias podemos ter bem claro como Deus se utiliza das ações humanas que, mesmo com fim em si mesmas, são renovadas para que a Glória se manifeste. Mesmo com o censo obrigando José a ir até Belém fazer o recadastramento, o profeta já tinha anunciado que ali nasceria o Salvador. Aqui identificamos com facilidade Quem é que comanda a história e intervém na hora certa em nosso favor. Também é no nosso dia a dia.
A abertura dos corações de José e Maria nesta confiança faz com que não se prendam nas dificuldades, no atravessar Israel, Samaria e parte da Judeia, com uma gravidez chegando ao fim, para irem até Belém. Eles sabem que Deus cuida de nós. Não ficam presos no mimimi, na reclamação do calor, da areia do deserto, no autoritarismo de Herodes, nas condições insalubres de vida. Eles simplesmente seguem fazendo o que precisa ser feito. A preocupação está centrada no Filho que está chegando. Fazem o que lhes cabe e seguem o caminho.
É nesta confiança que nove meses antes Maria atravessou o mesmo caminho para ir até a casa de Isabel, logo no início de sua gravidez. Ela não chamou as amigas para celebrar a notícia, não marcou evento no Facebook, não começou a organizar o chá de bebê, não colocou anúncio no jornal nem mesmo foi a José. Ela foi ao encontro de quem precisava, como faz conosco hoje. E temos um dos trechos mais belos e ternos no Evangelho, da “Mãe do meu Senhor” que nos visita, sem merecermos.
No início da gravidez, Isabel, cheia do Espírito Santo, sem ultrassonografia, diz que sua prima está grávida, que é um Menino, e que este Menino é o seu Senhor. Aqui temos a centralidade da Encarnação na defesa da Vida, desde o início da gestação. Temos aqui a confiança de Maria, “que acreditou” e acredita quando somos fracos para não acreditarmos, sustentando nossa fé. Nesta confiança leva Jesus até Isabel e a presença da Mulher e sua descendência (Gn 3, 15) santifica João Batista no ventre de sua mãe. Pela “dobradinha” Mãe e Filho, o antigo se faz novo, a alegria inicia pelo cumprimento da Promessa do Senhor.
Hoje, nossa face já mostra os sinais de nossa salvação. Que possamos abrir as portas de nossas casas e de nossos corações para acolhermos a Família de Nazaré que está chegando. E que nossa família seja um pouco de Jesus, Maria e José. Um Feliz Natal para todos!

Somos todos da Imaculada

(Vandeia Ramos)

Logo no início do ano litúrgico temos a celebração da Imaculada Conceição de Maria, a concebida sem pecado original. Em frente a tantos desafios, podemos olhar para Nossa Senhora e vermos que Deus não desistiu de nós e de derramar suas graças. Que graça maior que a de recomeçar novamente a Criação?
Na Imaculada Conceição, podemos entender que o pecado, ainda que faça parte de nós, não é inerente. Só então pode o Cristo ser gerado, na pureza completa de uma mulher, da Mulher. Assim, a Imaculada nos chama também à pureza, ao recomeço, à santidade.
Assim temos as leituras da liturgia de hoje: a ação de Deus quer ser precedida da nossa aceitação, seja no “sim” de Maria, seja no “sim” de Zacarias. Também quer que preparemos o caminho, que sejamos preparados. Não podemos entrar numa turma, num cenáculo, num grupo de catequese e achar que o Espírito Santo vai agir em nós sem que consideremos sua ação anterior, em nossa preparação pessoal para a missão que nos é confiada. Entre o nascimento de João Batista e o de Jesus, tem a preparação de nove meses de seus pais.
Sabemos que a nossa preparação nunca estará completamente pronta, mas também sabemos que Deus só espera o nosso “sim” para começar a agir conosco e preparar o caminho para que nossos catecúmenos possam receber dignamente a Jesus.
Na gestação de João Batista podemos ver a esperança da Promessa que começa a ser cumprida. Um arauto é enviado para preparar o povo. Somos arautos que preparam Jesus Sacramento na Iniciação Cristã. Então, é o momento de tirarmos o cansaço do ano, o luto das perdas, as preocupações, e nos revestirmos da glória que o Advento nos traz. Já podemos anunciar que a Paz está chegando! A misericórdia vem vindo! A alegria de um Menino que nos é dado já começa a inundar os corações.
É o momento da comunhão. A exigência do Evangelho para sermos testemunhas é que seja anunciado a todos, e com nossas vidas. É a hora de perdoar, de olhar nos olhos, de suavizar a voz, de buscar o abraço. É a hora de rezar para que a graça de Deus aja em nossos corações. É o momento da Imaculada, que permite que a glória de Deus brilhe para todos através de si. Dirigindo nosso olhar para Maria, podemos ver a grandeza de Deus em sua pessoa, bem como a que nós somos chamados.
É o momento de cantar junto com Nossa Senhora que o Senhor faz maravilhas conosco, enchendo-nos da certeza de que Deus não nos abandonou e vem a nós em seu Filho. Que possamos, juntos com Maria, exultar de alegria no Senhor!

O nosso “sim” no “sim” de Maria

(Vandeia Ramos)

Uma voz clama: “Preparai o caminho.” Começa o Advento, o período de espera em que Jesus vem ao nosso encontro. Colocamo-nos ao lado de Maria em expectativa. A atitude cristã de esperar não é passiva, mas de festa. Como Mãe, Nossa Senhora se preocupa com o que é necessário para o nascimento do seu filho. E nós, como estamos nos preparando e ajudando os nossos a se prepararem? É preciso estar com tudo pronto.
O evangelho de Lucas nos lembra que Ele não é bem vindo pelos que temem a justiça. Como uma criança inocente causa tanto desconforto? Aqui podemos pensar nos projetos pessoais e de grupos em defender acirradamente o controle de natalidade com métodos abortivos. Ainda hoje uma criança é uma ameaça à vida de tantos… Ainda hoje uma criança inspira medo em pessoas, famílias, instituições e projetos de vida e de governo.
Uma criança, sempre um presente de Deus, exige uma mudança de vida, o romper com o egoísmo, um sair de si e voltar-se para as necessidades de outra pessoa, a confiança em quem envia o presente, muitas vezes de modo heróico, como Nossa Senhora. Pensemos numa adolescente do meio do nada de Nazaré, recém-casada, sem pais, que o filho não é do marido, numa sociedade marcadamente patriarcal, legalista e de moralismo exigente.
Queremos muito de Deus, mas em que medida confiamos? Em que medida aceitamos o que Ele nos apresenta? Maria não responde o “sim” porque acredita em sua capacidade maternal ou em suas condições materiais. O “sim” de Maria é de quem acredita Naquele que lhe presenteia, que vai cuidar dela e de seu Filho, que vai garantir tudo o que for necessário. É neste “sim” que o nosso precisa ser vivido. É esta radicalidade que possibilita seu e o nosso ficar em pé perante Deus.
Sabemos de tudo que envolve nossa vida e dos nossos. Muitas vezes o que queremos está ao alcance do nosso “sim”, da nossa entrega, do dar o passo da fé sem se preocupar com as nossas condições e limitações. É na distância de uma perna que se encontra a realização do que Deus preparou para nós e o que quer realizar através de nós. A um passo, temos o cumprimento das promessas. Com um “sim”, o Espírito Santo paira sobre Maria e o Pai envia seu Filho. Com um “sim”, o Sol da Justiça brilha na humanidade, o futuro se torna presente, no qual nossos catecúmenos são inseridos na dinâmica da salvação.
Sabemos que nosso “sim” precisa ser constantemente renovado, seja no credo, seja na riqueza da liturgia, seja em cada encontro de catequese. Vamos aprendendo uns com os outros sobre o amor de Deus que se manifesta em nossa vida, superando nossas dificuldades e dando sentido a elas. Na comunidade, aprendemos e ensinamos a agradecer e a seguir, tendo a escuta constante da Palavra, bem como a participação na vida familiar do céu através dos sacramentos.
Não vamos sozinhos a Deus. Vamos juntos. Não anunciamos sozinhos a sua vinda, mas como Igreja, acompanhados por Nossa Senhora, no anúncio de quem entra em processo de abertura e preparação para a vinda do Salvador. É o encontro entre a vinda de Deus até nós e nossa elevação em oração.
Preparemo-nos com Maria para o Natal. Que seja vivido em família e em comunidade, como Igreja que aguarda a vinda de seu Salvador.

Festas Marianas e a maternidade espiritual

(Vandeia Ramos*)

Este fim de semana está sendo uma celebração à ternura. Começamos com Nossa Senhora Aparecida, lembrando a cada um de nós que ela sempre intercede pelo Brasil. Continua com Nossa Senhora de Fátima, apresentando o terço como o segredo para se chegar ao coração de Deus. E amanhã é o dia dos professores, os que nos acompanham ao longo de nossa vida, sendo referência em nosso crescimento e maturidade.
Entre a saúde e a beleza, podemos situar aqui a Sabedoria como expressão de Deus nestas festas. Entre Nossa Senhora, os professores e nós, catequistas, temos o anúncio com a própria vida de uma riqueza que não se compra, mas que se oferece gratuitamente aos demais: o Filho de Deus.
Palavra Encarnada do Pai, que nos faz um com Ele, oferece-nos a própria Mãe como refúgio dos que já perderam a esperança. Mãe é sempre referência de ternura, de amor que não desiste, mesmo quando tudo corrobora contra. Na maternidade espiritual de Maria, nós também vamos aprendendo a não desistir dos que Deus colocou sob nossa responsabilidade. E podemos mesmo dizer que os mais difíceis acabam tendo uma atenção especial, pois sabemos que são os que mais precisam.
O trabalho de catequese é como o do jovem rico que quer seguir a Jesus, mas precisa deixar tudo. Estamos aqui porque não estamos dormindo, nos divertindo, vendo televisão ou cuidando de nossas coisas pessoais. Todas elas válidas. Mas escolhemos algo melhor. Deixamos o resto para trás porque descobrimos que há uma pérola preciosa dentro de cada concha que nos chega.
Sabemos também que esta escolha exige que o deixar nossa vida para trás seja algo constante, em um “sim” cotidiano, principalmente quando as dificuldades aparecem. Seguir a Cristo é se colocar como portador de uma espada de dois gumes, muitas vezes ferindo pessoas que amamos no testemunho que damos. Entre olhar para nossa família e a que nos é apresentada pelo serviço de catequese, nem sempre a escolha é fácil, mas precisa ser sempre feita.
Jesus não tem pressa. Ele diz para que voltemos para casa e ordenemos nossa vida a partir do que Ele nos oferece. Nossos amores e nossa família são orientados para o Amor Maior e para a resposta que precisamos dar. Família e amigos passam a ser expressão do amor que temos por Deus. É aqui que a diferença se faz e encontramos a força necessária para seguir e passar pelas dificuldades. Sabemos que não estamos sozinhos. Seguimos com a Mãe que nos orienta neste caminhar.
Assim, podemos exultar de alegria no Senhor, pois Ele é conosco! Somos seus servos e seguimos ouvindo o que Ele nos disser (Jo 2, 5).
Que Jesus, através de sua Mãe, um pouquinho de sua ternura, para que possamos ser melhor educadores de seus filhos!

(*) Sou Vandeia Ramos, catequista desde meus 14 anos. Sou professora da rede municipal do Rio de Janeiro, desde alfabetização às aulas de Ensino Religioso e História. Sou formada em Pedagogia, História e em Teologia. Pós graduada em Alfabetização e em Administração Escolar, mestrado em Teologia. Atuo como formadora em diferentes movimentos e pastorais, sendo a responsável pelo Apostolado Mariano São João Paulo II (formação para a consagração pelo método de São Luís Maria Grignion de Montfort) e coordenadora arquidiocesana da Pastoral da Educação. Também atuo como produtora de conteúdo de aulas, revisora de livro didático e aulas on line para graduação em Teologia.

Pelo dia dos teus anos

(Dom Marcos Barbosa, OSB)

Salve, Rainha, nós te saudamos pelo dia dos teus anos, a ti, que és a única a fazê-lo eternamente, pois talvez nem passaste pela morte, ou logo a venceste, retirada do sepulcro pelos anjos impacientes. Nós filhos de Eva, que temos a certeza de morrer um dia, te saudamos e convocamos, a cada instante, para a hora, o momento de nossa morte. Queremos-te agora, mas também naquela hora decisiva. Tu, e mais ninguém em teu lugar. Porque só tu podes tudo. Poderás obter que o teu Filho prepare diretamente o nosso coração, se já os outros sacerdotes não lhe tiverem acesso, pela distância ou enevoado véu que nos envolva. Tu estarás presente. Tu és a mais presente, e não apenas a mais bendita entre as mulheres.

Já o anjo te achou presente. Tu respondeste: “ Eis a escrava , que a sua vontade se faça… E logo já estavas presente junto à velha Isabel, que ia precisar de ti como criada, como escrava, quando te saudava, ao chegares: “ Bendita é o fruto do teu ventre!” E, depois, já estavas de novo presente junto àquele que te tomara por esposa. Ele é que pensou em deixar-te. Seja porque duvidasse da tua fidelidade, como pretendem alguns, seja porque pressentisse o que em ti se passava e não ousasse permanecer à sombra de um Deus.

E tu estavas presente em Belém. E nem podia ser de outro modo. Pois eras tu que levavas em ti o que devia nascer entre as palhas. Podia faltar a estrela, faltassem os anjos, o boi, o burro, e até mesmo José – só tu não podias faltar, jardim eternamente fechado, fonte lacrada, jorrando no entanto a salvação do mundo. Tu estavas presente. E que presença a tua naquela noite em que não disseste palavra, como se as palavras te distraíssem da contemplação absoluta! Guardavas, como escreve São Lucas, todas as coisas no coração. Guardavas, guardavas tudo, como um cofre imenso, arca de duas alianças, que vai recolhendo rápidos tesouros. Guardaste os anjos, guardaste a manjedoura, guardaste os panos que o envolviam, guardaste os pastores, como alguém recolhe numa grande caixa, no dia dos Reis, o presépio de cada ano … Só por São Lucas sabemos a existência de tudo, e foi ele teu confidente.

Tu estavas sempre presente em Nazaré, com a mesa posta para teu marido e teu Filho. Eles é que nem sempre estavam. Aos doze anos o menino, já quase um mocinho, desapareceu por três dias: estaria cuidando dos negócios do Pai do céu, e tu nem compreendeste. Depois foi José que partiu para sempre, assistido por ti, pois era preciso que santificasses também a viuvez, como santificaras a orfandade, a virgindade, o matrimônio e a própria maternidade. Os outros é que te deixavam, não tu.

Em cada momento importante o Evangelho usa a teu respeito o verbo estar. “ Houve um casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava lá.” E, então já compreendias, antecipavas a hora do teu Filho , exigias o vinho, precursor das bodas de sangue. E, agora, ele sempre ausente, cercado, devorado pela multidão faminta de pães e de prodígios, talvez de amor. E nem protestas quando lhe vão dizer: “Tua mãe e teus irmãos estão aí…”, e ele responde: “Quem é minha mãe e meus irmãos! Todo aquele que cumpre a minha palavra”.

Mas houve um momento em que também O deixaste. Pois a tua presença O impediria de sofrer, no Horto, tudo o que era preciso para pagar os pecados do mundo, do primeiro ao ultimo. Tu, a sem pecado, serias um oásis, gota de mel no amargo cálice. Mas, depois que ele sofrera o máximo, o infinito, já estás também no calvário, Stabat Mater, Não Lhe faltaste, Santa Maria, Mãe de Deus, na hora de Sua morte. Não faltarás também na hora da nossa. Pois, na pessoa de João, nos deu a ti como filhos.

Não estavas, com as outras Marias, no sepulcro do Ressuscitado; pois, adivinhando a sua vontade, passaste a cuidar da sua Igreja: as Escrituras te apontam no Cenáculo, Rainha dos apóstolos. Estarás, daí por diante, com todos nós. Discreta, mas pronta a intervir ao menor apelo, ou mesmo antes, ou mesmo sem ele.

Salve, Rainha, salve, estrela do mar! Rainha das virgens, das esposas e das mães; e das donas-de-casa, em Nazaré; e dos viajantes, em Belém; e das festas, em Caná; e dos poetas ao compor o Magnificat; e das viúvas, ao assistir a morte de José; e das dores, ao pé da cruz; e dos anjos, que te saúdam e trazem recados. Rainha de todos, mas escrava nossa, servidora nossa. Sempre atenta, sempre solicita, sempre a nos preparar o mais belo presente, mesmo quando, como hoje , o aniversário é teu!

(Natividade de Nossa Senhora – dia 8 de setembro)