Feliz és tu, catequista!

(Vandeia Ramos)

Todos nós sabemos que ser catequista é uma aventura. Se olharmos para o dia de hoje, vamos tomar consciência de uma história de amor que começou lá atrás, quando fomos adquirindo consciência de uma presença muito importante conosco: o próprio Deus!
Desde o ventre de nossa mãe, já pertencíamos a Ele. Fomos batizados, fizemos iniciação cristã e vivenciamos os sacramentos no cotidiano de nossa vida, em uma história que dá sentido a tudo que somos e o que acontece em torno de nós.
Um dia, tamanho amor cresceu que veio o chamado a transbordar, a deixar que outras pessoinhas também pudessem ver através de nós as maravilhas que Deus faz, a ponto de podermos ler o evangelho de modo pessoal, de o próprio Jesus nos dizendo: “Feliz és tu, catequista, filho de Maria, porque não foi uma pessoa que te revelou, mas o Pai que está no céu. Por isso você se formará através de Pedro, pedra angular de minha Igreja, aprendendo a dignidade de ser quem és e, a partir desta filiação divina, anunciarás a Boa Nova aos que Eu te apresentar. E nada nem ninguém vai poder impedir que, aquilo que Eu mesmo anunciar através de você, se perca. Pois és um arauto da minha Igreja e tudo que vem dela, vem de Mim.”
Ao aceitarmos a mão que nos foi estendida, vamos aprendendo a responsabilidade de precisar sempre estarmos em formação, para sermos melhores instrumentos nas mãos do Senhor. Isso significa uma vida de fé, de constante crescimento espiritual, de busca frequente de formação adequada, leituras pertinentes, dinâmicas para melhor facilitar, diálogo entre a catequese do dia e a visita ao Santíssimo…
Isso significa que, enquanto nossos amigos e família estão se divertindo, muitas vezes estaremos em retiro, cursos, lendo em casa, assumindo um grupo de catequese. A pressão sobre nós faz parecer que estamos numa prisão, seja pelas nossas relações, seja pelos compromissos na Igreja que vamos assumindo. Diga-se que também ninguém disse que seria fácil. É que tem dias que são mais difíceis que outros, que o fardo parece pesar… E, do nada, vem um sorriso, um consolo, uma fala de algum de nossos catecúmenos, um outro que aparece, que faz tudo valer a pena, como o Sol que abre uma brecha entre nuvens pesadas. Depois olhamos e respiramos felizes, pois neste dia combatemos o bom combate e guardamos a fé.
São Paulo, com sua linguagem esportiva, abre-nos a possibilidade de leitura da realidade com a perspectiva do Evangelho. Ele lê a cultura de competição e a situa no Reino de Deus, não de disputas entre uns e outros, mas de batalhas que enfrentamos conosco para continuar, para assumir o sacrifício que nos é apresentado, para seguir apesar do cansaço, das pressões, aguardando a intervenção de Deus em nosso favor.
Neste dia em que celebramos São Pedro e São Paulo, temos justamente a memória da batalha que permanece na história, de Deus que nos guarda e direciona nosso olhar para o que é mais importante: Ele mesmo. Olhando para Pedro e Paulo, temos a certeza de que Deus confia mais em nós do que nós mesmos. Na tradição judaico-cristã, as chaves confiadas ao que poderíamos chamar de mordomo, ou primeiro ministro. O castelo não é dele. No entanto, é ele que é o responsável para manter tudo funcionando devidamente, em nome do seu Senhor, do alimento à limpeza, do exército aos convidados, dos moradores aos servos. É a posição de maior confiança.
Participamos desta confiança no serviço de catequese. Guardamos a fé e os ensinamentos de Jesus. Abrimos as portas e alimentamos os que são colocados sob nossa responsabilidade. Quando em dúvida, temos a riqueza bimilenar de Pedro a nos guiar. Neste mistério de graça, podemos permanecer no “sim” que demos, pois sabemos que não precisamos ter medo, já que “de todos os temores me livrou o Senhor Deus”.

Anúncios

Corações ao alto!

(Vandeia Ramos)

Não é novidade para nós, catequistas, que a centralidade de nosso anúncio é Jesus Cristo. A Boa Nova é que, na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho para que estabelecesse conosco uma Nova Aliança, centrada em sua entrega total na cruz, seguida de sua Ressurreição. E tudo começa com os apóstolos e por Jerusalém. Por isso a Igreja é apostólica, no testemunho dos primeiros que são chamados para a missão de anunciar o que viram e ouviram.
Após os três anos de convívio, da realidade da Paixão-Morte-Ressurreição, Jesus passa 40 dias com os seus para que possam relacionar todas as experiências vividas a partir da relação entre cruz e vida. Só após ver Jesus Ressuscitado que muitos conseguem passar pelo drama do Calvário. Poucos somos os que sustentam o ouvir o anúncio do sofrimento e seguir em pé frente às dificuldades. Somente ao lado de Maria que João consegue.
Jesus sabe o quanto somos difíceis, que nosso coração é de pedra, que, por mais que acompanhemos sua vida e sua sabedoria, somos incapazes de elaborar sua mensagem de modo fiel. Por isso não nos deixa sozinhos, mantêm-nos reunidos na Nova Jerusalém, a que desce do céu e encontra a terra na Eucaristia. Ele promete o envio do Espírito, que fará tudo ganhar sentido de tal forma em nós que podemos ser seus instrumentos no anúncio de sua Mensagem.
Com os discípulos, somos levados por Jesus para fora. O mundo nos espera. E Ele nos abençoa. Portadores de sua bênção, podemos acompanhar sua ida ao céu. Nosso coração já não pertence a este mundo. Nossos olhos ficam admirando sua glória ao ser elevado. A alegria de saber que há muito mais nos aguardando faz com que fiquemos confortados ao voltarmos para casa, para nossos afazeres, nossos estudos e trabalhos. Sabemos que no domingo que vem teremos mais.
Ele vai, mas promete que voltará. Promete seu Espírito para nos confortar e animar. Precisamos Dele para aceitar que o Reino é no tempo do Pai, e não no nosso. Não é quando queremos, mas de uma difícil aprendizagem de vivermos na realidade que nos é dada, na qual somos chamados a agir em nome do Filho. Imbuídos do Espírito, somos enviados às nossas turmas, cenáculos, diferentes espaços familiares e sociais. Até à última pessoa.
Não podemos ver Jesus com os olhos. Frequentemente, quando pensamos Nele, nosso coração vai ao alto, ao céu, aos anjos e santos, à Nossa Senhora e a São José. No cansaço e na alegria, na dor e na dúvida. Quantas vezes nos perdemos de nós mesmos e nos voltamos ao céu?
Muitas vezes a realidade nos chama de volta. Aparece alguém que nos lembra que Jesus foi, mas volta, só que não agora. Neste momento, é hora de servirmos. Ao ir ao próximo que nossa vida ganha sentido, que superamos o cansaço pela necessidade do outro, que nossa alegria é partilhada, que o amor faz com que suportemos a dor, que a dúvida é sanada na nossa própria relação com a cruz.
Na vida entre o Calvário e a ascensão, entre a realidade e o céu, temos um caminho a percorrer, que nos prepara para a chegada do Espírito. A Ressurreição já é uma realidade que faz com que a morte seja somente um momento pelo qual passamos. A ascensão é a continuidade do caminho, pelo qual um dia seremos levados da terra a Jesus. Daqui já podemos vislumbrar, ainda que de modo velado, o Senhor em seu trono no céu, acima de tudo e de todos, dirigindo a história para Ele.
O caminho é o da elevação de todas as coisas a Deus. É o convite pessoal que nos faz de O acompanharmos. Inserir-nos em seu Mistério é anunciar com a própria vida que Jesus é o Senhor, no qual nos alegramos, adoramos e acompanhamos sua subida.
Aclamemos, Igreja, que Deus se elevou! E esperemos aqui o dia em nosso canto de vida se unirá definitivamente ao de todo o céu, no anúncio de que Deus é o Altíssimo, que reina sobre todas as nações.

Catequista, guardião do Amor

(Vandeia Ramos)

“SE me amas, guardará a minha Palavra…” A relação entre nós e Jesus é uma relação de amor. E, quem ama, ouve o que o Amado diz, confia, se enamora, sabe-se cuidado e bem orientado. Quem ama, guarda. E o Amado permanece em quem ama. E a vida ganha uma luz própria, de quem traz em si um segredo que só compreende quem também o tem.
Deus não se dá em partes, Ele se doa totalmente, enquanto Trindade: o Pai que envia o Filho e ambos, o Espírito. Primeiro vivemos nesta realidade, e só depois vamos compreender. Com auxílio do Espírito, recordando toda a ação de Deus em nossa vida. Iluminados no Amor, vamos aprendendo como não só a sermos amados, mas também a amar. E este amor vai sendo dirigido aos que estão à nossa volta.
Entre ser amado e amar, encontramos a paz. Não a paz de quem acumula coisas, de quem acredita ter tudo o que deseja, de quem sustenta relações com pessoas queridas. A paz que vem do céu envolve a tranquilidade de quem se sabe cuidado e que traz a presença de Deus em si. E isso é algo que nada nem ninguém pode retirar, perturbar, intimidar, sendo fonte permanente de uma alegria que enfrenta as dificuldades e os dramas da vida.
Nesta relação de ternura, ao se revelar, Jesus revela seus segredos. Ele conta para nós o que devemos esperar em sermos seus discípulos. Que sua retirada temporária significa um Dom maior para nós. Assim, podemos sustentar sua ausência em alguns momentos, como na Noite Escura, de São João da Cruz, pois é o caminho para a alegria do retorno. O amor faz com que possamos ouvir sobre o afastamento e esperar confiantes pelo retorno.
Aqui encontramos muitos que não se encontram nesta relação, alguns com uma concepção legalista do certo ou errado, na lei ou fora, que ficam impondo fardos pesados aos demais. O amor confiante é distorcido em uma série de preceitos com fim em si mesmos. A orientação terna para a Civilização do Amor se torna rígida e moralizante. Assim, a confusão entre orientações cresce e ameaça a unidade da Igreja. Uma rápida pesquisa na internet podemos identificar várias situações como esta.
Aqui também encontramos a referência à unidade e a centralidade da fé. Paulo e Barnabé, como nossos bispos, ao encontrarem situações controversas, não tomam a si mesmos como referências. Eles vão aos demais e, juntos, com auxílio do Espírito Santo, fazem o devido discernimento sobre a questão apresentada. É bonito o encontro e as deliberações, como a resposta que o Concílio de Jerusalém oferece para os cristãos de todos os tempos: frente ao transtorno que orientações indevidas suscitou, em unidade, valorizando o serviço dos discípulos que verdadeiramente atuam em nome de Jesus, enviam outros dois discípulos, afirmando a fé única, não como um fardo, mas como uma relação coerente de amor.
Na vivência desta realidade tão comum em nossas comunidades, em que elaboramos instrumentos como reunião de catequistas, Conselho Paroquial, além de inúmeras formações específicas que podemos fazer entre as foranias, vicariatos, arquidioceses, vamos buscando elementos comuns na caminhada, discernindo os pontos de unidade, a doutrina que perpassa a história… A fé vai se encarnando nas situações cotidianas.
No encontro semanal da Celebração Dominical, reunidos na Missa, nossa atenção se volta para o altar. Ao redor das Mesas da Palavra e da Eucaristia, o Reino nos é apresentado: primeiro através das palavras que apresentam a Palavra, na qual ouvimos com atenção e o ministro atualiza em nossa vida; no ouvir confiante, podemos acompanhar o momento em que Jesus se faz presente na Eucaristia. Nossa vida ganha sentido toda vez que estamos ali e, aprendemos a ler nossa vida à luz da Palavra, somos preparados para receber Jesus.
É o Reino que se faz presente entre nós, em nós. Vamos ao encontro da Jerusalém celeste, junto com nossa comunidade. A Igreja padecente e gloriosa encontra-se entre nós, para que vivamos de modo antecipado o encontro final.
A Igreja não é limitada a paredes ou uma a instituição humana. A Igreja é o próprio Corpo de Cristo, que nos torna participantes Dele. Não somente à nossa comunidade, ou arquidiocese. A Igreja perpassa o tempo e o espaço, reunindo no Reino as pessoas de todas as épocas, que glorificam o Senhor por toda a eternidade.

Catequista, fonte de amor

(Vandeia Ramos)

João, o discípulo amado, apresenta a ternura de Jesus por nós. A palavra “filhinhos” nos coloca como direção de um carinho especial, tornando-nos suas crianças. A cruz é eminente, o afastamento já dá um tom de saudade. E Jesus quer aproveitar cada momento com os seus.
Esta mesma ternura é o que torna o sofrimento lugar de amor, de associação entre o Filho e o Pai, o lugar de manifestação da glória de Deus. Os braços estendidos abraçam toda a humanidade e a humanidade toda, fazendo com que nossos olhos saiam das situações cotidianas, muitas vezes esmagadoras, e se levantem para o Crucificado, no diálogo entre a miséria a que chegamos e o infinito de Deus.
Nesta intimidade, em que os amigos recebem todo o carinho do Mestre, eles se associam entre si. E Jesus apresenta um novo mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. É aqui que se reconhece quem de verdade é amigo de Jesus.
Lembramos do “amai ao próximo como a ti mesmo” das multidões. Para uma humanidade melhor, em uma cultura de paz, Jesus oferece o mandamento das relações interpessoais. Mas Ele quer mais dos seus amigos mais íntimos. É o Seu amor por nós que será a medida de todas as medidas, é o cuidado especial que nos faz sermos cristãos.
Quando entramos no círculo mais íntimo, vamos nos tornando mais próximos ao coração de Jesus, direção de sua ternura. Mergulhados em seu carinho, vamos aprendendo a sermos mais junto aos outros. Nossos catecúmenos vão se tornando um pouquinho de nós e vamos nos tornando modelos de vida. E não é somente na Igreja, mas em uma espiral que vai alcançando todas as nossas relações. É este o caminho que vão nos identificando com o Mestre, pelo amor com que vamos testemunhando nos lugares em que atuamos.
Amar nunca é algo isolado. Se não doer na carne, não é amor. Dispor de si para que o outro tenha vida, meu trabalho para que outro descanse, deixar-se humilhar para que o outro possa entender a disponibilidade imerecida do amor… é uma aventura que abre as portas do céu, do seguir o caminho do próprio Jesus. Não é uma alegria quando identificamos a mudança de vida de nossos catecúmenos? Não é uma sensação de que tudo tenha valido a pena no dia da Primeira Eucaristia? Não é um sentimento de entrega na celebração do Crisma?
Depois da travessia do “sim” que damos, há a promessa de uma relação nova, de habitar em Deus e Deus em nós, início de uma aventura eterna que nos apresenta uma realidade que nossos olhos ainda não são capazes de ver, nem nosso coração alcançar totalmente. Uma realidade que, por mais difícil que seja nossa dor, somos acolhidos no colo de Deus, que nos aconchega e secará toda nossa lágrima com um simples estar conosco e nós Nele. Experiência que nos torna plenamente humanos e de sermos capazes de fazer o mesmo entre nós.
Ser acolhido e acolher torna a aventura humana na terra sinal de vida, presença de Deus entre nós. A experiência de sermos os “filhinhos”, do acolhimento nos dramas humanos, do olhar que tudo supera, de um novo ver e um novo modo de ser junto aos demais, faz com que vivamos com um toque de eternidade. É nesta percepção que podemos bendizer todos juntos, o nome de nosso Deus, Senhor e rei para sempre!

Catequistas, embaixadores de Cristo!

(Vandeia Ramos)

O Evangelho de hoje é conhecido tanto como Evangelho do Filho Pródigo como Evangelho dos Dois Irmãos, o que traz duas perspectivas diferentes. Quando nossa atenção recai sobre o Filho Pródigo, a figura do Pai se destaca. Tradicionalmente lemos nós mesmos, pecadores insistentes, e nossa permanente necessidade da misericórdia de Deus. A ordem é simples: vivemos na casa do Pai, mas frequentemente desviamos a atenção e acabamos sendo atraídos para coisas que o mundo nos oferece: vida fácil, prazer, falsas amizades, diversão desregrada… tudo centralizado no que suponhamos ser uma necessidade ou mesmo o que nos deixamos convencer como sendo o melhor. Claro que, quando o dinheiro, a saúde, a beleza, a juventude… acabam, ficamos abandonados à própria sorte, entre os miseráveis, os impuros, os porcos. Nem seu alimento, o resto dos demais, temos permissão de comer. Quantos de nossos irmãos não estão esquecidos nestas condições?…
Para uma família judaica tradicional, fica faltando uma personagem importante, que dificilmente aparece em público, mas está em momentos decisivos: a Mãe. Ela não só se ressente da ausência do Filho, como sua tristeza sensibiliza a família. Em toda visita, ela recebe a esperança de ter notícias. Há os que defendem que é esta tristeza-esperança que sustenta a sensibilidade do Pai. Fazemos rapidamente a relação com Nossa Senhora.
E temos o Irmão Mais Velho. Quantas vezes não nos colocamos como os certinhos, que não hesitam em colocar o dedo na cara de tantos, acusando-os de pecadores, pagãos… Caso nós estivéssemos no lugar do Pai, o que faríamos com nosso Irmão? O que já nos acostumamos fazer com aqueles que se afastam da família por diversos motivos? E os que não vivem a mesma fé que nós? Que não concordam com nossa opção política, profissional, moral?
Toda vez que leio este Evangelho, lembro de uma pregação do Frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. Ele identifica o Filho Mais Velho, não como um de nós, egoísta e moralmente centrados. Ele diz que Jesus é o Primogênito. Ele não fica limitado à casa do Pai, cuidando de seus negócios. Jesus vem até nós, vai ao encontro de seus irmãos, para tentar levar-nos de volta. Caso não consiga, não nos deixa sem o necessário para viver, à mercê de porcos.
Nós não somos iniciantes na fé, somos catequistas. Temos um caminho de vivência em contínua misericórdia de Deus para conosco. Ser Filho Pródigo, abandonado às misérias de porcos, não responde devidamente ao nosso perfil. Então o de Filho Mais Velho, de nossos catecúmenos, fica melhor. Somos os que se colocam como os “certinhos”, detentores de um código moral legalista, rápidos em julgar e lentos em acolher? Não estou falando de pieguismos, de que devemos fechar os olhos para o pecado. Sem este discurso em que nos colocamos como juiz que critica quem se coloca com juiz, e que não chega ao necessário.
Temos muitas demandas sociais que gritam de dor, que assumem atitudes e movimentos que muitas vezes se apresentam contra a fé que cremos. Estamos entre uma estrutura social que impõe fardos pesados aos demais. Acusamos a vítima de seu próprio sofrimento e dor, colocando-nos frequentemente ao lado dos que a fazem sofrer. Sem direito, assumimos o lugar do Pai, afastando-nos emocionalmente dos irmãos perdidos entre as misérias do mundo, em uma postura que vai do indiferente ao acusador. O discurso comum reforça o conflito, o confronto, a raiva.
Perante a dor do outro, que tem sua dignidade humana ameaçada, o que se espera de um cristão? O que Jesus e/ou Nossa Senhora fariam em nosso lugar? O Pai não se preocupou se entre os hebreus que saíram do Egito haviam os que tinham um caráter discutível, Ele enviou o Maná para todos. Também não era de modo permanente, mas com o tempo de que pudessem colher o fruto do próprio trabalho.
Somos “embaixadores de Cristo”, através de quem Jesus chega aos demais. Somos os que continuamente deixam suas casas para ir ao encontro dos que mais precisam, pois estes já não têm condições de se levantarem por si e caminhar. Somos enviados para aliviar o jugo de sua condenação, assumindo sobre nós sua dor, carregando sobre nós o julgamento dos que “dize com quem andas e eu te direi quem és”. Enquanto não conseguem caminhar sozinhos, nós cuidamos de suas feridas. Um “olho nos olhos”, uma presença que diz ao outro que ele não está sozinho, uma mão estendida, fazem mais do que discursos raivosos e condenativos, que mais reforçam a miséria do que restabelece a dignidade.
Só quem se percebe em sua limitação e continuamente vive a misericórdia, identifica a dor dos que gritam, ainda que usem palavras que escondem suas feridas profundas em raiva e ódio. Só assim podem anunciar em cada atitude quão suave é o Senhor!

Subindo a montanha para rezar

(Vandeia Ramos)

É comum em grupos de Iniciação Cristã, ao término do encontro “subir a montanha” até o Santíssimo para rezar -depois de refletido sobre os ensinamentos do dia, meditá-los face a face com Jesus Sacramento. Ali, na presença do Corpo e Sangue, Alma e Divindade, deixamos um pouco do que somos e vivemos perante Deus. No Evangelho, temos nós, os discípulos, Jesus, o centro da nossa vida, Moisés e Elias, o Profeta e a Lei. E a cruz nos é apresentada. Sem ela, não há vida cristã. Ali no Santíssimo, ao contemplarmos o mistério de Deus, Ele nos revela e nos prepara para assumirmos de modo pleno este mistério em nossa vida.
Sim, muitas vezes dá medo. Mas sempre somos lembrados de que não devemos ouvi-lo, que não devemos tentar reter Jesus, cobrindo-o com uma tenda, deixando-o na glória do Céu. Nossa missão enquanto cristãos é ouvir o que Jesus diz. Ele sabe de todas as coisas, nos conhece e nos ama. Ele diz o que é melhor e o que precisamos fazer. Então, não podemos nos refugiar no medo e restringir nosso anúncio, nem mesmo querer guardar Jesus no alto, inalcançável. A iniciativa da catequese e da evangelização não é nossa, mas da própria Palavra que se faz anúncio, que quer se comunicar a todos. E Ela escolhe a nós, catequistas, para sermos instrumentos deste anúncio.
Esta é a nossa fé, justiça de criaturas que reconhecem quem é Deus e quem somos. Na disposição de oferecer não mais os sacrifícios da Lei antiga, mas nossa própria vida “por Cristo, com Cristo e em Cristo, a Deus Pai Todo-Poderoso”, como na catequese semanal, é um modo de como a aliança de Deus conosco se manifesta. Já não é mais a formação do povo com Abraão, mas a formação da família de Deus em Jesus. Sacrifício este que atrai os irmãos para a comunhão com a Trindade.
Sim, conhecemos irmãos que vivem como se não fôssemos uma só família, rápidos em acusar, em achar que Jesus vive na tenda deles, na qual tentam guardar também Moisés e Elias. Eles causam inúmeras dores à Igreja, nossa Mãe. Nosso coração sangra com tantas e diversas situações, que ofendem e, principalmente, para o fechamento de seus corações à graça, à Palavra. Sabemos o fim de quem se mantém neste caminho. E causa horror que também nós possamos nos perder, de nos distrairmos de tal modo e logo pensamos “que não seja eu, Senhor, a me perder de Ti”. E o caminho de São Paulo é simples, ainda que não seja fácil: sermos modelos de vida cristã para nossos catecúmenos, sermos perfeitos, santos, cidadãos do céu. Enquanto nossa atenção está em sermos espelho de Jesus, vivemos na certeza de que chegará o dia que também nós subiremos definitivamente a montanha para ser em Jesus, não mais presos às misérias deste mundo, mais plenamente livres como filhos de Deus na glória.
Neste esperar, neste configurar-se a Jesus diariamente, vamos superando nossos medos, aprendendo a ter compaixão, a confiar, a nos reconhecermos como servos obedientes ao que Jesus nos fala, sabendo que Ele mesmo é nosso auxílio neste caminhar rumo à casa do Pai. Assim, no dia a dia anunciamos a certeza de que “O Senhor é minha luz e salvação”.