A Missa pelos meios de comunicação, neste período de pandemia, tem que ser assistida ao vivo, ou posso ver uma Missa gravada?

(Carlos Francisco Bonard)

Primeiramente devemos nos atentar para o preceito dominical. No Código de Direito Canônico (CDC) no início do capítulo um, sobre os dias festivos, o Cânon 1246, § 1° diz:

“O domingo, em que se celebra o mistério pascal, por tradição apostólica, deve guardar-se como dia festivo de preceito em toda a Igreja. Do mesmo modo devem guardar-se os dias do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, Epifania, Ascensão e santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, Santa Maria Mãe de Deus, e sua Imaculada Conceição e Assunção, São José e os Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, e finalmente de Todos os Santos.

O Cânon 1247 complementa:

“No domingo e nos outros dias festivos de preceito os fiéis têm obrigação de participar na Missa(…).

Até aqui acho que não há surpresa. A participação da Missa dominical, bem como nos dias festivos de preceito é obrigatória (sem excluir a validade do cumprimento do preceito quando se participa da Missa na tarde do dia anterior).

Agora vamos começar a montar a resposta.

A primeiríssima pergunta que deve ser feita é: neste tempo, por conta da covid-19, nós leigos somos obrigados a cumprir o preceito da Missa dominical? A resposta é depende.

Na metrópole do Rio de Janeiro o decreto de 16/03/2020, da nossa arquidiocese, DISPENSA DA OBRIGAÇÃO DO PREVISTA NO CANON 1247 do CDC.

Observe que o próprio CDC, no número 87, dá ao Bispo da diocese a autoridade de dispensar os fiéis das leis disciplinares. Isso significa que cabe a cada Bispo ou Arcebispo julgar a necessidade, caso a caso, na abrangência da sua competência territorial.

Então a questão que fica, dando como exemplo o que ocorreu na metrópole do Rio de Janeiro, é que não nos foi autorizado a participação da Missa pela TV, pois não se participa da Missa pela TV. Nos foi dispensada a obrigação de cumprimento do preceito sobre a Missa dominical e demais dias de preceito.

No decreto daqui, há uma recomendação de acompanhar (atenção ao termo utilizado) as Missas pelos meios de comunicação a aqueles que optarem por não participar (atenção novamente ao termo) da Missa presencialmente (estou sendo redundante de propósito), conforme o item 2 do decreto.

Voltando ao CDC, no cânon 1248, § 2º, é dito que a quem for impossível a participação na celebração eucarística por falta de ministro sagrado ou por outra causa grave, recomenda-se (mesmo termo do decreto) muito que os fiéis tomem parte na liturgia da Palavra, (…) ou consagrem um tempo conveniente à oração pessoal ou em família ou em grupos de famílias conforme a oportunidade.

Recomendar muito não é obrigar, pois o preceito não pode ser substituído.

Dado tudo isto, voltamos a pergunta: A missa pelos meios de comunicação, neste período de pandemia, tem que ser assistida ao vivo, ou posso ver uma missa gravada?

A resposta é, tanto faz se for ao vivo ou gravada, pois o que você estará fazendo é seguir a recomendação tanto do decreto, quanto do 1248, §2° do CDC, que recomenda consagrar um tempo conveniente para a oração pessoal.

Perceba que mesmo sem o preceito da Missa, que é insubstituível, a Igreja recomenda que haja uma disposição mais próximo possível da vida de fé comunitária. E aqui vale destacar o texto do 1248, §2° do CDC:

“Se for impossível a participação na celebração eucarística por falta de ministro sagrado ou por outra causa grave, recomenda-se muito que os fiéis tomem parte na liturgia da Palavra, se a houver na igreja paroquial ou noutro lugar sagrado, celebrada segundo as prescrições do Bispo diocesano, ou consagrem um tempo conveniente à oração pessoal ou em família ou em grupos de famílias conforme a oportunidade.

Perceba que somos chamados a unidade, pois a fé não deve ser vivida de forma isolada.

Por fim, neste momento em que estamos distantes dos sacramentos, é hora de aumentar em nós as virtudes. É hora de crescermos na Fé, na Esperança e na Caridade. É a hora de crescermos na fé dos sacramentais.

Deus nos abençoe e nos guarde.

Catequista, adorador em espírito e verdade

(Vandeia Ramos)


Chegou Jesus a uma cidade do Brasil, a sua, em que tinha uma Igreja no centro, a partir da qual as casas foram construídas. E sentou-se na praça. Era em torno da hora do almoço e todos estavam cuidando de sua própria vida. Chegou uma jovem que foi comprar água, pois tinha acabado em casa e todos precisavam beber. Jesus a encontra e pede um pouco de sua garrafa, pois seus discípulos tinham ido providenciar um lanche e ainda não tinham voltado.
A jovem, com pouca roupa por causa do calor e em uma moda que muitos discutiriam, com marcas no corpo, desconfiou Daquele que lhe pedia. Estava tão acostumada a ser vista com desprezo que se fechava em si mesma. E questiona como que Aquele Homem poderia dirigir a palavra à ela.
Jesus lhes responde: se conhecesses o dom de Deus, não se preocuparia com a fala dos demais, pois somente Deus basta! E o sorriso iluminaria toda a sua pessoa, mesmo que não viesse ao seu rosto. A jovem responde: Senhor, não me conheces, à minha família, meus vizinhos ou mesmo as pessoas deste bairro, como podes saber o que é bom para nós?
Jesus lhes responde: quem se alimenta do Pão do Céu não terá mais fome nem medo, pois nada mais poderá abalar. Não são problemas com água ou com vírus, pois todos eles vão passar. Precisamos cuidar da criação, das pessoas, com a sabedoria que é dom de Deus, para que possamos viver melhor e cuidar do Jardim. É no cuidar e no guardar o que lhes foi dado que poderá passar pelas situações difíceis e mesmo limites.
A mulher disse a Jesus: Senhor, dai-me deste Pão, para que nem eu nem minha família soframos com a contaminação da água nem com a proliferação de vírus e outras doenças, e assim não precise me expor na rua para buscar água e comida.
Jesus lhes disse: vá buscar seus amigos. Ela respondeu: não tenho amigos, todos se foram quando começaram as dificuldades e precisei ficar em casa para cuidar das pessoas mais idosas da minha família. Jesus disse: disseste bem, não tens mais amigos; tiveste muitos, quando deixastes as pessoas mais importantes por diversão e falsas companhias, enfraquecendo sua pessoa, seu corpo, e deixando a todos em situações de espera. A jovem: Senhor, sabes tudo, deves ser um religioso, mas conheci muitos que não foram fiéis a Deus e ao que anunciavam.
Jesus: meu discípulo Paulo já anunciou que estou voltando, e estou aqui agora, para que cada um faça sua escolha fundamental pelo que realmente é importante em sua vida, em um passo definitivo para a eternidade. É preciso que sejas luz do mundo para que Meu Espírito brilhe com a Verdade. Não em notícias fakes ou indiferença com os que mais precisam. É preciso que tenhais responsabilidade e cuidado com os que estão à sua volta – neles terás minha Presença.
Os discípulos chegaram e perguntaram por que Jesus falava com aquela jovem, que parecia mais preocupada consigo mesma. A jovem, no caminho de casa, saiu falando para todos de sua conversa, e muitos saíram para ir ao Encontro de Jesus, buscando o Pão do Céu.
Jesus disse aos seus discípulos: é em momentos de crise que se pode conhecer meus amigos, os que fazem a vontade do Pai, que servem junto com os demais nas inúmeras necessidades, como atendendo os doentes em hospitais e em casa, ajudando com o alimento, informando na verdade, sendo esperança quando o desespero está à porta de tantos… Muitos acreditam porque uma jovem testemunha seu encontro com Jesus, como fazemos na catequese.
No entanto, em muitas cidades a catequese e os serviços pastorais estão sendo suspensos. Há um drama acontecendo e é preciso que estejamos atentos às orientações de nossos bispos e autoridades da saúde. É o momento pelo qual nos preparamos em nosso alimento semanal, no Pão que recebemos. A messe aguarda os operários para que sirvam de acordo com o momento pontual que estamos enfrentando.
É importante que sejamos testemunhas no mundo de que o Senhor está presente entre nós. Então, não fechemos nosso coração e ouçamos hoje a voz de Deus! Que Nossa Senhora traga a cada um de nós em seu Imaculado Coração, para que possamos fazer o que seu Filho nos disser!

Ouve, Catequista, o Meu Filho Amado

(Vandeia Ramos)

O Evangelho nos remete ao quarto mistério luminoso do terço, em uma caminhada de fé quaresmal que nos leva direto para a Páscoa. Como Jesus chama o trio André-Pedro-João entre os que seguem e mesmo entre os apóstolos, somos também nós chamados para estarmos mais próximos: para participamos e sermos membros do Corpo de Cristo, a qual anunciamos em nossa vida e na catequese.
De vez em quando, Jesus nos chama a alguns momentos particulares com Ele, para subir a Montanha e se revelar. É algo que não merecemos, independente de nós, ao qual somos chamados a participar.
Revelação envolve a Lei (Moisés) e os Profetas (Elas). Através deles a Palavra de Deus falou a nós, até que se fez carne e nos fala diretamente hoje. Nosso impulso e limitação humanas é de cuidar, de fazer uma tenda para abrigar, para que possamos servir de acordo com nosso alcance. Mas o que Deus deseja é muito maior do que poderíamos alcançar: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!”
Deus não precisa de tenda ou de nossa ajuda. Ele SÓ nos pede que acreditemos em Jesus através da sempre presente Palavra dada a Israel e aos cristãos: Escutai-o! Não é nossa missão delimitar um espaço de ação e de descanso para Jesus. Ainda temos dificuldades em compreender sua grandeza e majestade. A Palavra que criou o céu e a terra não precisa de pedaços de pano para se abrigar. Ele deseja nosso coração, mas na compreensão de Israel: Ele quer toda a nossa pessoa em comunhão com Ele.
Ouve, catequista: Jesus é o Filho amado do Pai, que quer ser presente no mundo através de nós, apresentando seu caminho, sua verdade e sua vida. Não para que nós o coloquemos em nossos achismos, em nossos sentimentos, e sim para que aprendamos a ouvi-lo, em uma audição silenciosa e humilde, repleta de confiança.
Jesus nos toca de modo especial, pedindo para que levantemos e não tenhamos medo. Não nos deixa sozinhos. Mas lembra que nem tudo que vivemos pode ser anunciado para os que ainda não entenderiam – somente após a Ressurreição, em que nossos catecúmenos tenham feito sua experiência com o Cristo, dizendo o “sim” no seu segmento. Há intimidades que só podemos falar com quem vive a mesma experiência.
Assim começamos mais um ano de catequese, seguindo a Palavra no seu envio, sua direção, mas sem clareza de onde vai dar, como Abrão. Só conhecemos o passo seguinte, mas não o caminho todo. Cada dia, sua graça. Conhecer toda a estrada, todas as dificuldades, cansaços… seria um peso muito grande e poderíamos não suportar. Então, seguimos na confiança deste ano, em um encontro de cada vez. A própria graça de Deus vai sustentar-nos, pela missão que nos foi confiada.
Como Nossa Senhora na Anunciação, sabemos que não é por mérito ou por nossa própria capacidade que assumimos a catequese. Nosso “sim” está na confiança de quem nos envia. É esta a resposta ao “Escutai-o”: o nosso “sim” ao que Jesus nos diz, seguindo os passos de sua Mãe e das grandes mulheres de Israel e do Cristianismo.
O “sim” de quem sabe que a força que tem vem do Senhor, para assumir todos os momentos da missão que nos é confiada, de silenciar em vários momentos para que possamos assistir Deus agindo, para que nossa voz e nossas atitudes sejam sustentadas pelo Espírito. Aquelas que geram a humanidade, que ouvem a Deus, tem em Nossa Senhora o modelo de escuta e de ação, não para agradar ao mundo, mas para alcançar a plenitude do ser mulher no coração de Deus.
A partir de nossa casa e em todas as catequeses, cantemos todas juntas: Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, venha a vossa Salvação!

Chamados a Ser Povo Eleito

(Vandeia Ramos)

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O Evangelho de Mateus, escrito para cristãos vindos do judaísmo, chama à abertura do coração para todos os povos. Daí temos uma preocupação teológica, de apresentar o Filho de Deus vindo para a salvação de todos, não somente de Israel. O Povo Eleito, pelo qual Deus se revela, precisa se abrir para o Novo Povo Eleito, com a marca do espírito que paira sobre cada um.
Jesus não nasce em Jerusalém nem vem da terra de Israel, e sim da Galileia das nações, como o próprio Mateus vai identificar, lugar de passagem e de miscigenação histórica de vários povos. E vai para o Jordão, vai procurar seu primo, João Batista, fazendo a passagem da Antiga Aliança para a Nova, assumindo a Promessa em Si mesmo, iluminando seus seguidores para que continuem o Caminho.
O batismo de João é de arrependimento do pecado, de busca de remissão, de abertura do coração para Deus – é nosso primeiro passo na adesão a Cristo. Como Cabeça do Corpo Místico, Jesus nasce sob a Lei para dar testemunho da Lei. Ele é o Filho, semelhante a nós em tudo, menos no pecado. E seguiu os passos da humanidade para nos ensinar que Deus é maior que tudo e que devemos seguir confiando e esperando.
Batista identifica em Jesus o Cordeiro de Deus sem pecado e fica desconcertado. Jesus o tranquiliza e o incentiva a seguir, pois é preciso mostrar-se como Caminho da Verdade e da Vida. E temos uma das mais bonitas teofanias, em que a Santíssima Trindade se manifesta à humanidade através do Filho, com o Espírito pairando, como para Moisés no Sinai e em Nossa Senhora na Encarnação, e o Pai anunciando Jesus. É um sinal do que será nosso batismo, em que seremos inseridos no Corpo Místico pela água e pelo sangue da cruz, de sermos Templos da Trindade.
Somos os Eleitos do Senhor para manifestar Sua presença ao mundo, o que nos exige uma vida de testemunho, de deixar que o próprio Deus fale em nós, através de nós. Ou seja, a presença do Espírito nos silencia, pois reconhecemos nossa imperfeição e, por misericórdia, não denunciamos o pecado do irmão que briga consigo para sustentar a fé e a esperança; somos sustentados na catequese, em que, através de cada encontro, revemos nossa vida à luz do amor de Deus; iluminamos a cegueira espiritual que não nos permite ver a ação divina através dos acontecimentos; libertamo-nos dos vícios que nos escravizam e nos afastam do Reino; saímos das trevas da ignorância, que não deixam ver além de nós mesmos e de necessidades que nos limitam.
Justiça e Boa Nova se entrelaçam. Através do anúncio de João Batista, do nosso, a Trindade se faz presente aos que buscam a Deus. Através do Filho, a Igreja se torna critério de justiça, dos que se abrem ao Espírito, dos que são eleitos pelo Pai.
Que o Senhor nos sustente na Paz, na Sua Paz, para que possamos ser Seu Povo Eleito, luz das nações, testemunho da esperança no Reino.

O Menino Jesus e o Culto Mariano e Josefino

(Vandeia Ramos)

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Epifania, do grego, nos lembra clareza de compreensão. Em epistemologia, segundo Piaget, poderíamos chamar de acomodação, ou seja, a capacidade que temos de inserirmos uma nova informação ao que sabemos, iluminando tudo o anteriormente entendido.
Nossa imagem da chegada dos Reis Magos é influenciada pelo presépio de São Francisco de Assis, em que todos os personagens que envolvem o nascimento de Jesus estariam em uma mesma cena, em um único tempo. São Francisco, ao elaborar tal representação, tinha uma intenção teológica, tendo em consideração as pessoas as quais se dirigia. No entanto, a Palavra tem algumas especificações que nos ajudam em alguns aspectos.
Enquanto Messias, Jesus era esperado por Israel para libertar do jugo romano. Tal expectativa causava desconforto nas lideranças, pois não sabemos o que esperar de um bebê. Então elaboramos projeções de nossos medos para tentar justificar a necessidade de uma cultura de morte, seja por bem estar material pessoal ou familiar, seja pela tentativa de eliminar grupos específicos, como pobres, negros, diferenças genéticas, justificando na legislação e em ideologias a intervenção estatal: novos Herodes, príncipes venerados por muitos.
Aí chegam uns pagãos de outros povos, guiados pela sua própria cultura de observação da Criação, e anuncia para as lideranças de Israel que seu esperado Messias está entre eles. São recebidos no palácio, com toda a pompa de sua posição, indicando que são proeminentes e que deveriam estar em uma comitiva. São sábios que percebem as manipulações e que seguem para encontrar o Menino.
Aqui há um vácuo de tempo, entre o nascimento de Jesus em uma manjedoura e a chegada dos magos em uma casa, considerando que Jesus já tinha sido circuncidado (8 dias) e apresentado ao templo para a purificação (40 dias), já que em seguida José é orientado pelo anjo Gabriel para se retirar com Maria e o Menino para o Egito.
Como os pastores hebreus na noite de Natal, os magos encontram Jesus com sua Mãe. É Deus cumprindo a Promessa: Israel seria a luz para as nações, trazendo paz aos de boa-vontade. Assim, primeiro temos os pais, seguidos pelos pastores, o sinagogo que faz a circuncisão em uma celebração da comunidade, os sacerdotes do Templo de Jerusalém… Sem ignorar os pagãos, sem que os seus o percebam, o Evangelho é anunciado!
Ao chegarmos na casa, José nos recebe à porta e Maria cuida do Filho. Nosso olhar sabe a quem procurar, mas sabemos que precisamos pedir licença aos pais, que garantem que o Filho seja bem acolhido. Profetas, apóstolos e pagãos recebem o abraço do Menino a partir do colo de sua Mãe.
A visita dos magos, com os presentes tão necessários à sobrevivência em terra egípcia, completa e ilumina o quadro tão familiar da família humana, em que a porta do céu tem alguém nos abre, outra pessoa cuida e Jesus abre seus bracinhos pedindo colo e abraço de todos.

O martírio do “Viva Cristo Rei!”

(Vandeia Ramos)

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Último domingo do ano litúrgico e a Igreja celebra Cristo Rei do Universo. Para quem gosta da história da vida dos santos, lembra logo de São José Luis Sánches del Rio, o menino que morreu mártir com o grito de “Viva Cristo Rei!”
Como o início, o fim está em Jesus e na Salvação. A dificuldade é compreendermos o que isso significa. Muitas vezes o anúncio da Boa Nova é mal compreendido por se remeter à cruz, levantando o questionamento de como poderíamos acreditar na grandiosidade de Cristo se o seu fim seria morrer crucificado. Esta questão dificultou muito o processo evangelizador na América. Esperamos luz e grandes feitos. Pensemos só no que seria se Jesus descesse da cruz e virasse um super herói da Marvel, soltando raios destruidores pelas mãos e refletindo os ataques. A imagem de um Messias guerreiro, que vem para destruir e fundar um Reino a partir de nossos próprios valores e projeções ainda prevalece hoje.
No entanto, quem chama Jesus de Rei é Pilatos, ao escrever a placa que iria no topo da cruz, como a causa de sua condenação. Olhemos de outra forma: enquanto os sacerdotes judeus estavam com medo de que Jesus pudesse competir com eles pela liderança de Israel, o prefeito romano anuncia para a história que Ele é Rei dos Judeus. Ironicamente, Roma reconhece Jesus como Rei e é um centurião que, ao fim, dirá: “Este homem realmente era o Filho de Deus” (Mc 15, 39).
João, por 7 vezes, coloca a expressão “Eu sou” nas palavras de Jesus (6, 35; 8, 12; 10, 9-10; 10, 11-16; 11, 25-26; 15, 1-2), lembrando-nos do “Eu sou” do êxodo (3, 14), quando Deus fala a Moisés no deserto. Em Jesus, o divino se apresenta de uma forma inesperada: na cruz. Sua coroa é de espinhos, sua túnica está ensanguentada e lhe é arrancada, seu perfume escorre pelo calor e pela dor, sua corte está dispersa e poucos permanecem próximos. E, também inesperadamente, um dos condenados reconhece a justiça e a realeza do que era insultado. Jesus não retribui as ofensas e nem mesmo se defende ou corrige. Ele silencia sobre. Mas não deixa no vazio o que lhe reconhece e promete o Paraíso no mesmo dia.
Não há céu sem cruz. O que nos lembra a devida força que precisamos para enfrentá-la: o silêncio e o anúncio de quem servimos. Como o ladrão ao lado na cruz, São José Luis Sanches del Rio, um jovem como nossos jovens, enfrentou a tudo, como a dor, os pés escalpelados, o pedido da mãe para renunciar e a caminhada até a própria cova, mas sem perder a certeza de que estava caminhando para Jesus. Não só não sabemos quando chegaremos ao nosso fim, como não há idade para anunciar com a própria vida quem de fato manda em tudo.
É o próprio Deus quem escolhe a cada um de nós e nos envia a Jesus, para sermos outros cristos por aqui, para que, através de nós, outras pessoas possam conhecer o Reino, participar da família do Pai, reconhecer Jesus como irmão, identificar-se como parte da Criação e ser responsável por ela, em usufruto.
Do mesmo modo que Jesus nos ensina e sustentou São José Luis, sabemos que o caminho é a doação completa de si pelas pessoas, do nosso tempo, da nossa disponibilidade, fazendo da vida uma oferta de amor e sacrifício. Como temos o Ressuscitado como referência, sabemos que a cruz é por onde devemos ir para chegar ao final. Tudo tem um sentido, que nos é revelado durante o Ano Litúrgico. Neste domingo, a mensagem se completa, trazendo à nossa memória o spoiler da história.
Jesus não é um herói de um filme americano. Ele é o Rei do Universo, pelo qual tudo foi feito e para Ele nos dirigimos. No encontro da alegria com a justiça, anunciemos sua vitória: “Viva Cristo Rei!”