Nosso fruto: ser humus para nossos catequizandos

(Vandeia Ramos)

Nas leituras semanais, temos acompanhado o profeta Oseias. Do Reino do Norte, século VIII a.C., ele é apaixonado por sua esposa, que o trai por diversos amantes. Então ele eleva sua dor e faz uma leitura da relação entre Israel e Deus, inaugurando o casamento como expressão do amor de Iavé pela humanidade. Fiel, o Esposo é misericordioso e aguarda o retorno / conversão de sua Amada, que precisará aprender a deixar-se conduzir da situação em que se encontra ao acolhimento do abraço do Amado.
A infidelidade é lida como prostituição, denunciando a idolatria do poder através das alianças políticas das lideranças levando à dependência, exploração econômica e opressão do povo; interesses de minorias; confiança na supremacia do poder bélico, riquezas e injustiças; para vantagens pessoais, de grupos ou de instituições. Israel, com 10 tribos separadas do Sul, foi conquistada pela Assíria e os que foram deportados não tiveram nenhum edito de retorno. Podemos aqui vislumbrar a gravidade do grau a que chegou sua imoralidade.
A semente da Lei de Deus, a promessa da Terra Prometida, os ensinamentos do deserto… foram para todas as tribos. Unidas, saíram do Egito, atravessaram o deserto, enfrentaram povos para conquistar a terra, enfrentaram conflitos internos no período dos Juízes, organizaram-se como Monarquia. Tinham uma história em comum. Mas o tempo de Salomão, com os altos impostos e pressão política, levou à separação. Só que a monarquia constituída no Reino do Norte não ficou ilesa aos vícios, ao contrário.
Nosso tempo não é muito diferente. Política, moral, econômica, socialmente… Diversas influências podem ser comparadas a terras que podemos escolher para colocar em nossos vasos, em nossas famílias, em nossa vida. Para um bom canteiro, coloca-se primeiro pedras, para uma melhor drenagem, seguida de areia ou terra, dependendo da profundidade, terra enriquecida com humus (matéria orgânica) e, em alguns casos, com material para guardar a umidade, como casca de pinus. Nossa vida não é uma experiência de um grão de feijão em um algodão. É preciso preparo e manutenção constante.
Quando a Palavra de Deus chega até nós, uma família de fé e/ou uma comunidade fraterna auxiliam no que é necessário para uma criança e em um fiel que chega, estão atentos aos que chegam, às necessidades que se apresentam, muitas vezes oferecendo seu próprio humus, seus nutrientes, no que lhe é seu, para o acolhimento do nascituro e do neófilo. Em uma perspectiva mais ampla, podemos fazer uma leitura pessoal, da família, da comunidade, como de lideranças responsáveis por outras pessoas.
Neste mês temos visto algumas situações complicadas. Vídeos cortados, sem contexto, expondo a Igreja a críticas diversas. Pessoas em situações comprometedoras, sendo questionadas em suas falas. As mídias e a velocidade com que as informações nos chegam nem sempre dão tempo de compreendermos o que está acontecendo. O uso específico da palavra tem sido questionado. E podemos perceber o quanto nossa cultura foi formada pela linguagem verbal. E que esta tem sido usada contra o próprio ser humano, individualmente, por grupos ou em nome de lideranças e instituições – enquanto católicos, nossa responsabilidade cresce.
Somos catequistas e somos chamados a uma missão específica: preparar o solo, fornecer o húmus necessário, acompanhar a germinação. Como família e comunidade, cuidar da planta que cresce até que se fortaleça. Acreditamos na possibilidade uma pessoa madura, de frutos consistentes, responsáveis e próprios para assumirem missões pelo bem comum. Auxiliar que cada um tenha o Reino de Deus como perspectiva de vida. Também sabemos que não somos os únicos a atuar junto aos nossos e que eles têm a liberdade de fazer escolhas que devem ser respeitadas.
Entre nossa atuação pessoal e social, nem sempre é fácil fazer uma leitura coerente com nossa fé e uma atuação própria. Em meio a um panorama confuso, de uma arena social em que diversos grupos querem conquistar nossa atenção e adesão a propostas, temos o compromisso evangélico de termos a devida prudência, avaliando o pensamento e os frutos do que nos é proposto, lembrando que estamos formando não só nossa própria terra, mas fornecendo o húmus necessário para os demais.
Assim, podemos sempre estar prontos para apresentarmos nossa oferta, nosso serviço, nossa vida a Deus, apresentando-lhe a semente que caiu em terra boa germinada em seus frutos.

Uma pausa em Jesus para descansar

(Vandeia Ramos)

Quando Jesus diz que nele temos repouso, sempre lembro da Ceia da quinta-feira, em que São João deita a cabeça em seu colo. Estamos cansados. Muitos estão trabalhando em home office, em que as coisas da casa são simultâneas às do trabalho, em que a comida e a limpeza se impõem junto ao computador e ao celular. Os que estão fora, a tensão do transporte, medo da proximidade, crescente contágio e o descontrole no número de mortes pelo covid-19 deixam a todos sob estresse. Mas hoje é domingo, o dia do Senhor, dia da “pausa restauradora na caminhada rumo ao céu”.
E Jesus nos diz que se revela aos pequenos. Aqui, a crítica é aos que acreditam que o acúmulo de leituras e diplomas os fazem melhores que os demais. Não é desvalorizar a importância do estudo, mas a vaidade em associar conhecimento à superioridade em relação aos demais. Quem maior que o Pai e o Filho? Como o Pai se revela ao Filho, Este se revela aos pequenos. Aqui temos um sentido diferente de sabedoria, não no sentido de quantidade, e sim no conhecimento de Deus, a partir do qual podemos conhecer o mundo e os demais, seus filhos. Tendo o bem de todos, a contribuição que podemos fazer à humanidade, podemos procurar conhecer através de leituras e estudos validados com os respectivos diplomas.
Sabedoria é uma chave de leitura, a partir da qual podemos entender o que vivemos. Sendo Jesus nossa referência, nossa vida sendo colocada a partir da dele, podemos também descansar em seu colo, oferecendo-lhes tudo o que nos abala, sendo aliviados de nossas dores e dificuldades.
Hoje, no retorno às celebrações presenciais em muitas de nossas paróquias, na Aclamação em uma das missas foi “como o Pai me amou assim também eu vos amei”. Ao descansarmos em Deus na nossa celebração dominical somos lembrados do quanto somos amados: como o Pai ama o Filho! E esta certeza nos preenche de tal forma que o restante vai perdendo sua força.
Jesus vem ao nosso encontro na Palavra, na Assembleia reunida nas residências e igrejas, no ministro ordenado e na Eucaristia. Ele vem manso e humilde, falando conosco e como Pão e Vinho. Ele é grande e vem de modo acessível aos que sabem o que é ser pequeno. Nós O recebemos com alegria, no Glória que antecede à Palavra, no Santo, à Transubstanciação. Com Nossa Senhora, a que trará em si todo Israel em seu Magnificat, a Filha de Sião no Novo Testamento, estaremos prontos para receber o Senhor. Ele ainda não vem como Juiz. Ele vem escondido em um punhado de farinha, ao encontro dos seus para alimentá-los na caminhada, fortalecê-los enquanto Igreja, para que em nós sustente a Presença no mundo.
Não vivemos segundo a carne. Muitos ainda não estarão recebendo a Eucaristia, na restrição da presença. Como Corpo de Cristo, os que vão à celebração presencial e podem receber Jesus, o fazem por toda a Igreja, pois estamos unidos e nossa vida é em Espírito. Por Ele vivemos em unidade, sofrendo em nosso corpo o dia a dia cansativo e estressante e oferecendo na Missa como amor e sacrifício.
A Eucaristia é o centro do mundo, como São João Paulo II escreveu na Encíclica Ecclesia de Eucharistia. Na sua continuidade, na unidade em que participamos, a paz em Jerusalém é sustentada, Jesus é presente em todas as nações através da Igreja, no repartir do Pão. E nós, a cada dia, seguimos bendizendo seu Santo Nome, agora e para sempre!

Vós valeis mais…

(Vandeia Ramos)

A gente olha ao redor e parece tudo uma confusão, da política à saúde. Ninguém pode dizer como vai ficar a educação este ano. E a insegurança faz com que desconfiemos de tudo e de todos, das informações que passam, das instituições, das lideranças… Tem gente que nem acredita mais em Deus… Mas nós seguimos nos refugiando em seu colo no meio de toda tempestade ou calmaria.
E quem está em Deus, do que poderá ter medo? Quem é mais forte? O covid-19? Quem inventou, tratou de alguma mutação, espalhou, deturpou informações, escondeu projeções de contágio, usou de posições para tirar vantagens financeiras e políticas, e mesmo imperialistas? Frente a governos, países e mesmo impérios, parece que somos muito pequenos… brigando entre máscaras e respiradores… entre o “fica em casa”, a necessidade profissional e, em algumas vezes, psicológica, em sair para evitar situações complicadas na família e mesmo pessoais.
Não vemos o vírus que está sendo apontado como causador da pandemia, mas vemos que o ser humano não anda bem consigo mesmo. Vemos que pessoas se aproveitam da situação para tirar proveito. Vemos pressão em cima de autoridades para abrirem ou fecharem acesso a espaços. Não estamos vendo esta mesma pressão sobre a Igreja no último mês?
As mídias sociais são arenas de conflito e enfrentamento pela tensão histórica ou pontual que se acumulam. Nós olhamos tudo e vemos briga de poder, orgulho e vaidade como mais importantes que a vida humana e o bem comum. E a Verdade, onde está? Nós sabemos: não é onde, mas em quem. Para nós, a Verdade é uma Pessoa: Jesus Cristo. E é Ele que precisa ser revelado através dos seus, da afirmação de quem somos perante todos, em sermos ponto de referência e estabilidade na confusão em que o mundo se encontra.
Estamos em um momento de misericórdia, em que ofensas, medo, engano e desforra parecem ser o cotidiano dos noticiários. A Igreja não está imune à situação. Vira e mexe se torna referência de noticiários fakes ou não, em que é exposta à dura crítica, em que cada um de nós sente como pessoal a situação, pois somos Igreja.
Também pecamos e nossas falhas são motivo de vergonha para os demais. É comum que nos preocupemos com as notícias e situações paroquiais, como se não fizéssemos parte ou fôssemos imunes a qualquer erro. Sim, há a fraqueza humana, em que tentamos fazer o que é certo, mas nossa limitação dificulta e que precisamos nos esforçar em virtude para superar. E há também o vício, em que estamos corrompidos em fazer o que é errado, em prejudicar ao outro para tirar vantagens pessoais, sem se importar com as consequências para os demais.
Adão nos lembra que todos nós trazemos a escolha em crescer no amor e exercitarmos as virtudes, para superarmos nossas dificuldades, e que também podemos nos acomodar no pecado, aprofundando a indiferença e o egoísmo, sem se incomodar com os demais. Ambas as posições estão em uma situação de afastamento de Deus, pois são imperfeitas.
Somente com a vinda de Jesus podemos ser mais do que pessoas que buscam ser melhores. Em Jesus, somos seus amigos, filhos de Deus, em que formamos uma única família, que é reunida e aprende todos juntos a serem melhores dia a dia. Uma família à luz da de Nazaré, em que nós aprendemos a conviver com as limitações uns dos outros, a perdoar, a ter nossa referência, a nos refugiarmos em Nossa Senhora, a ouvir a Deus.
Esta abundância da vida divina transborda na terra e ilumina nossas dificuldades, nossos problemas, a situação confusa… Ela nos lembra que nosso Pai está cuidando de nós, que nos conhece, sabe do que precisamos, não deixa faltar seu apoio, sustenta nas dificuldades…
Nós valemos mais do que qualquer coisa que está ao nosso redor, pois não somos um objeto, somos filhos de Deus. E Ele, pelo seu imenso amor, nos guarda.

Jesus se compadece de nós

(Vandeia Ramos)

Jesus nos olha e vê o quanto andamos confusos, sem saber no que e em quem acreditar. Notícias fakes, grupos libertadores, portadores da verdade, justiceiros… Não são os primeiros na história nem na nossa vida. Só que estamos cansados. Há três meses em que o medo é semeado e as pessoas estão se arriscando por pouco, por nada ou por tudo. Shopping, protestos, justiças históricas… ovelhas sem pastor… São poucas as vozes que anunciam a paz, que são referências de Deus. Operários… Servos…
Jesus não trabalha com culpa, mas com solução. Ele é o Senhor de tudo. Mas quer que participemos. Então nos lembra que nós somos responsáveis. O Estado não é o salvador, grupos minoritários não trazem soluções, ideias não apresentam bons frutos… São as pessoas a serviço da humanidade, do bem comum, que servem através do Estado, que se associam em serviços específicos, que elaboram ideias para um bem maior… A diferença é sutil e central na mensagem evangélica: somos responsáveis uns pelos outros. Aqui a formação das famílias, atividades profissionais, estados de vida, amizades, grupos em que fazemos parte…
Para ser sua autoridade visível, Jesus escolhe os Doze. Eles são representativos da Igreja de todos os tempos. Jesus sabia quem era cada um deles, suas limitações, sua capacidade de amar… e os escolheu, como escolheu a nós. E não para sustentar um orgulho vazio superior sobre os demais. Somos quem somos porque nascemos onde nascemos, no tempo em que nascemos, com as escolhas que fizemos – estas últimas como diferencial. Mas quem seríamos nós em outra época e em outro lugar? Seríamos católicos em uma tribo no interior da Amazônia no nosso século X?
A autoridade dos discípulos não é deles, mas de Jesus que lhes dá, do mesmo modo que o Pai lhes deu. Eles não falam nem agem por si. Quando o evangelho de Mateus tem sua versão final, a Igreja está constituída, com Pedro à frente. Este que vai do não querer que Jesus lhes lave os pés a pedir que lave todo o corpo, que corta a orelha do soldado no Jardim, que diz que não conhece o Mestre, que não está presente no Calvário, que tem dificuldades em acreditar na Ressurreição – e que Jesus Ressuscitado confirma como chefe dos apóstolos, colocando-o para apascentar suas ovelhas e cabritos, pois é fiel e não muda de ideia.
Conhecemos muitas das dificuldades dos demais, como o publicano Mateus, cobrador de impostos, que hoje chamaríamos facilmente de corrupto. Simão Zelotes, membro da facção que defendia tomar pela espada a liderança de Israel. Nem preciso comentar de Judas Iscariotes…
Foram estes que Jesus escolheu, conhecendo o coração de todos, para, através da própria missão, educá-los na confiança em Deus, de que vão ter tudo que precisarem entre os seus. Então, primeiro os de casa, nossa família, nossos doentes, a catequese das nossas crianças e jovens, a permanente conversão-formação de todos nós, a cura de nossas sombras… E nossos próprios problemas diminuem e tendem a se resolver, seja com o tempo, seja porque encontramos quem nos ajude.
Por que esperar que com os demais seja diferente? Por que esperamos que as pessoas da Igreja, independente do estado de vida, também não se encontrem na mesma condição? De Pedro ao padre, da madre à freira, do monge ao leigo que serve, não nos revezamos entre as figuras que os apóstolos nos colocam? As pessoas não são projeções do que queremos que elas sejam. Elas são pessoas independente de nós, do que achamos de que elas devam ser – ainda que muitas tenham responsabilidades para conosco, que devem responder. Elas trazem um pouquinho de nós – talvez por isso seja difícil aceitar este cuidado de Jesus em nos mostrar delicadamente o que precisamos melhorar.
Dia a dia, Jesus continua confirmando cada um na messe que escolheu para cada um de nós. E não é pelas nossas fraquezas, erros, pecados, erros… mas pela autoridade com que cada um é investido. Não significa um seguimento cego. Daqui a necessidade de sempre aprofundarmos a fé, um estudo cuidadoso da doutrina, para sabermos como nos posicionarmos em cada situação. Obediência, caridade, humildade, escândalo, flagelação, privado e público, moral… tantas questões aqui…
No entanto, todos nós escolhemos a cada dia ficar nesta família. Vivemos não pela nossa capacidade, mas na certeza de que podemos ouvir a voz de Deus mesmo no mais pecador de seus servos (e aqui também estamos nós, catequistas), como ouvimos na Igreja de todos os tempos. Na permanência em Pedro, guardamos a Aliança, a Nova e Eterna Aliança, fazendo sua memória como Corpo de Cristo que serve ao mundo. Não somos reis, somos servos do Rei, que oferecemos nossa vida de serviço na Eucaristia e, com ela, o mundo em que estamos. Somos o povo do Senhor e, unidos em Jesus Cristo como sua Igreja, podemos dar glória a Deus pela eternidade.

A alegria do Espírito: anúncio e intimidade

(Vandeia Ramos)

Domingo passado, quando Jesus retorna ao Pai para ficar em Home Office, Ele deixa os discípulos reunidos em oração. Desde a Ressurreição, eles estavam tendo um intensivão para uma grande missão, ainda que não soubessem direito o que seria. Jesus tinha vencido o pior dos adversários, a morte, e veio retomar a história da salvação para dar-lhe sentido a partir do Filho do Homem. Agora, podíamos entender a humanidade em um antes e um depois de Cristo, a preparação para sua vinda e a uma nova realidade que era vislumbrada, mas não compreendida.
Para toda grande missão, uma grande preparação. E em comunidade, em família. Os discípulos, reunidos com Nossa Senhora, permanecem no cenáculo em oração. Eles se preparam, organizam seu dia, seu coração, meditam sobre o que aprenderam, conversam entre si, buscam o algo mais que não sabem o que é. As palavras de Jesus ressoam no que lhe é mais íntimo. Confiam. E aguardam.
O Dia de Pentecostes é narrado no Atos dos Apóstolos. A palavra é grega, não hebraica, que passa a ser usada para shavuot, a festa das 7 semanas, a alegria das colheitas, em que todos participavam: judeus, estrangeiros, escravos, livres… O movimento de Israel para o mundo já tinha começado.
A narração de Lucas nos lembra Gênesis: o Espírito que paira sobre as águas, paira sobre a Criação; Ele vem do céu, do Pai e do Filho. Semana passada Jesus foi ao céu na Ascenção. Hoje, o Espírito, através de Jesus e do Pai, vem do céu até nós. Não de modo íntimo como o contato com Jesus nos 40 dias. Este momento passou. Agora o Espírito vem como uma forte ventania, chamando a atenção de Jerusalém. E o Espírito enche a casa onde estão, a casa de oração, em que discípulos e Nossa Senhora estão reunidos, a Igreja.
Tendo a atenção de Jerusalém pela ventania, preenchendo o lugar da Igreja reunida, o Espírito se apresenta como em línguas de fogo sobre cada um deles. Temos o Espírito do Pai e do Filho pairando sobre a Igreja, depositado em cada um de seus membros. E cada um começa a falar em línguas, conforme a inspiração do Espírito, a necessidade da Igreja, a missão recebida. O Dom que recebemos não é nosso. É através da Igreja que, em missão ao mundo, o santifica.
Muitos se aproximam para ver. Curiosidade? Medo? São pessoas de vários lugares. Podemos encontrar colônias judaicas em todo o Império Romano e cada judeu adulto pagava anualmente uma dracma ao Templo. Além do desejo pessoal de uma vez na vida ir a Jerusalém, sempre tinham representantes das diferentes sinagogas para levar o devido. Ir em um dia de festa era aproveitar uma oportunidade. Prosélitos eram os que gostavam do judaísmo e seguiam em parte seus preceitos, mas não faziam a circuncisão.
Pela Palavra, fez-se a Criação. Agora, através do Espírito que atua na Igreja, temos uma nova Criação, a manifestação dos filhos de Deus. A Palavra é uma das principais referências da Igreja, é seu primeiro ato a partir de Pentecostes – o anúncio da Salvação. Pela Palavra, a Igreja vai se inserir nas diferentes culturas e transpassá-las, convidando o ser humano a nascer de novo, a fazer-se novo em Cristo. Somos felizes porque não vemos, mas cremos no testemunho dos Apóstolos, na Palavra que se faz palavra nos seus, na Igreja.
É o início da Igreja visível, pública. Mas não só. Há um coração que permanece íntimo, em oração, junto à Nossa Senhora, que não se expõe, que sustenta, que só é percebido por quem vive nesta intimidade, que se encontra de portas sempre abertas para receber “a Mãe do meu Senhor”. Afinal, é ela quem gera os santos de Deus. E, onde Maria está, o Espírito Santo também está junto de sua amada esposa. Por isso, hoje e sempre,
“Vinde, Espírito Santo, vinde por meio da poderosa intercessão do Imaculado Coração de Maria, Vossa Amadíssima Esposa”.

Jesus fica conosco até o fim (e nos leva para depois!)

(Vandeia Ramos)

O final é um novo começo! A vida não acaba! Jesus é o Caminho e vai conosco até o fim! Esta é uma das mais bonitas certezas que podemos ter. Não estamos sozinhos!
E o caminho começa em não se afastar em Jerusalém, em não sairmos de casa sem real necessidade, em ficarmos em espera na oração, de modo especial esta semana entre a Ascenção e Pentecostes, Semana de Oração pela Unidade Cristã, preparação para a vinda do Espírito. Os discípulos não entendem o que significa. Eles interpretam a partir do que sabem, a restauração de Israel. Poderiam alcançar a universalidade da Igreja de hoje? Também não precisamos entender tudo, mas seguir as orientações: em oração, com Maria e os discípulos, aguardar a vinda do Espírito.
O Paráclito é o Dom para manifestarmos a Igreja publicamente através da catequese, formando discípulos, batizando e ensinando. Não um processo que termina no sacramento, mas na mistagogia que continua no aprender contínuo, em que nós seguimos aprendendo.
Nas leituras, vemos que a relação entre Jesus e os discípulos é pessoal, como conosco. Lucas nos descreve suas últimas recordações, suas limitações, comuns à nossa humanidade. A humildade é identidade de um discípulo. Nós também não somos as melhores pessoas do mundo, mas somos as que Jesus escolheu para catequistas. E nossas fraquezas nos dizem que precisamos do Espírito para que esta missão se realize.
E Jesus vai ao Pai, não mais visível entre nós. Após a Ressurreição Ele se manifestava aos seus, agora Ele se retira, para que tenhamos liberdade em segui-lo ou não. Sua presença passa a ser sutil, para que escolhamos se queremos e o quanto queremos permanecer na Palavra. E para que esta liberdade seja real, a Igreja é a mediadora, fundada no testemunho dos apóstolos.
Ficamos com saudades. Não queremos ir embora. Queremos Jesus de volta! Queremos Ele conosco! No dia da celebração da primeira comunhão, do batismo… mesmo cansados, olhamos em volta e resistimos a voltar para casa…
Precisamos que dois anjos nos tirem desta situação. Jesus foi, mas vai voltar. Só que não virá mais do modo que conhecemos. Virá como Rei. E nós seremos os amigos do Rei. Mas amizade só pode ser feita enquanto nossa relação é próxima, pessoal… Os anjos antecipam uma realidade que não conhecemos e, como os apóstolos, somos limitados pelo tempo e pelo conhecimento para alcançarmos a plenitude da eternidade. Mas, de alguma forma, a Palavra dos anjos antecipa este futuro e, à medida em que acreditamos, esperamos e damos o nosso “sim”, já começamos a participar deste futuro.
Os discípulos esperavam um Cristo cheio de glória. O evangelho nos apresenta esta glória com o erguimento da cruz. Um outro conceito nos é apresentado. Quantos estão realmente prontos para discutir sobre a glória de Deus? Os santos dão testemunho desta glória, da associação à cruz de Cristo e participação na eternidade já aqui na terra (ainda que não de forma plena).
São Paulo, ao escrever aos Efésios, nos dá algumas pistas deste caminho. A glória de Deus, a qual somos chamados a participar, está na força em Jesus Cristo, força maior do que a de qualquer governante que a terra tem ou já teve, maior do que qualquer dor que possa nos abater, maior que doenças, pandemias, cansaços, maior até que a morte. A glória de Deus é maior do que tudo que possamos imaginar. E não é excluir nossas fraquezas, ao contrário. Jesus assumiu a carne humana e conhece bem tudo que se refere a nós. E é justamente quando somos mais fracos que mais facilmente nos abrimos para que Deus seja tudo em nós, fazendo-nos seus templos.
Como Jesus subiu ao toque da trombeta, um dia chegará a nossa vez. Mas sabemos que até este dia, não estaremos sozinhos. E nem vamos sozinhos!
Para alegrar nosso coração, uma oração: