Fazer da vida um canto de amor!

(Vandeia Ramos)

Hoje, Jesus nos chama a sermos discípulos e nos prepara. No centro está o amor – o centro da identidade cristã. “Se me amas…” é o critério de quem é e o quanto é seguidor de Cristo. O amor é gratuito. Não espera resposta, gratidão ou reconhecimento. Quanto mais difícil, mais livre é, pois não está preso a nada.
Amamos por sermos quem somos, não por quem o outro é ou pelo que pode oferecer. Amamos amigos, conhecidos, inimigos, esquecidos, os que nos ofendem… A centralidade do amor está no Outro. Amamos porque Jesus nos amou primeiro, porque reconhecemos que não somos a melhor pessoa do mundo, ao contrário. Somos capazes de ofender, maltratar, ofender, e ir além, mais do que os que nos ofendem.
Se ao bater o dedinho na quina da porta somos capazes de falar em várias línguas, o que não fazemos quando nos xingam, ferem alguém que gostamos, oferecem oportunidades em que podemos ganhar favores… até que ponto somos aquilo que queremos que o outro seja?
Se não fosse a graça de Deus, a vida de constante oração, o que não seria de nós? Se não pedirmos a Jesus para ficar conosco, como guardaríamos os seus mandamentos? Precisamos renovar sempre nossa vontade e nosso “sim”.
Jesus sabe e não nos deixa sozinhos. Ao chegar ao Pai, envia-nos seu Defensor, o Espírito da Verdade. Ele nos revela quem somos: os filhos de Deus. Conforta-nos, acalma, dá-nos o conhecimento do quanto somos amados e cuidados, preenche-nos com a paz para que confiemos que o nosso amanhã está guardado em Deus.
E Jesus retoma o tom de testamento: Ele vai e já vem, Ele está indo ao Pai, mas já anuncia a vinda do Espírito Santo. Ele prepara os discípulos, colocando os mandamentos no centro do amor. Por ser amada, e saber que Deus cuida e quer o melhor para mim, sei que Ele indica qual o caminho mais fácil, rápido, curto e seguro para Ele. E, quem ama, confia. Assim, os mandamentos se tornam convites para trilhar o caminho para o Pai através de Jesus.
São um caminho de encontro de Deus sobre todas as coisas, de Deus através da Igreja, de Deus através da família, de Deus através da humanidade, de Deus através da reta disposição dos bens materiais e espirituais.
Assim fizeram os habitantes da Samaria. Sabemos que Jesus já tinha passado por lá, que a mulher do poço tinha anunciado e agora Felipe. Que grande alegria quando nós ouvimos e passamos a viver o Evangelho. Pedro e João é enviado à Samaria. Não dá para viver a Palavra sem ser comunidade, sem ser Igreja. Sabemos o quanto é difícil. Precisamos uns dos outros. Pela oração da Igreja, recebemos o Espírito Santo.
Com Jesus em nossos corações, santificados no Espírito, podemos dar razão da nossa esperança. São Pedro nos apresenta a razão de ser do catequista. Nossa fé tem razão, ela pode ser explicada. Não com palavras ao vento, impondo a verdade como se fôssemos donos e quiséssemos dominar o mundo tendo a doutrina como instrumento. Somos servidores e não donos da Verdade. A quem nos pede, podemos explicar a nossa fé, com mansidão e respeito. Como cordeiros, mansos e humildes servos da Palavra, respeitando quem acredita diferente, considerando o limite de nosso conhecimento.
O testemunho do amor que é nossa identidade. Se as palavras não forem expressão deste testemunho, são em vão e serão utilizadas contra nós e contra os demais cristãos. É esta coerência que nos dá autoridade, que ilumina, que incomoda. Como continua São Pedro, o sofrimento é inerente ao homem, mas, se for por ter feito o bem, sendo associado à cruz de Cristo, ele ganha uma dimensão salvífica, que nem sempre poderemos alcançar.
Assim, somos convidados a fazer de nossa vida um canto de amor!

Catequistas, pedras vivas na Igreja de Cristo

(Vandeia Ramos)

Costumamos ter acesso ao testamento de uma pessoa depois que ela se vai. Mas Jesus, sabendo das dificuldades que temos, antecipa a nós. Antes de sua Paixão, Ele partilha com seus amigos os bens do Reino e o que nos espera. O Reino está entre nós e, ao mesmo tempo, ele vem. Como um pai, explica aos filhinhos, com um tom que somente São João sabe usar, fazendo nos sentir deitados com a cabeça no seu colo.
Jesus sabe que nossa vida não é nem fácil nem simples, que nossa ansiedade já antecipa os problemas do amanhã, que a realidade em que nos encontramos invade nossa casa e nos causa inúmeros transtornos. Aí Jesus vem, olha para nós, aguarda que olhemos para Ele, e nos diz: “Não se perturbe o seu coração. Tendes fé em Deus. Tendes fé em mim.” Sabemos que, somente se não desviarmos os olhos dos dele que poderemos ter paz no hoje e enfrentar o amanhã – Ele já está lá nos esperando e preparando-o para nós.
Tomé parece uma daquelas crianças que a gente não sabe se fala para perturbar, se é ingênuo ou não entendeu mesmo. No fundo, ele é um pouco de cada um de nós. Mas Jesus tem uma paciência… e nos ensina a aproveitar estas oportunidades para anunciar o Pai.
São Pedro nos traz o símbolo da pedra, já presente no Antigo Testamento. Jesus é a Pedra Angular. Nas construções antigas, a pedra angular é primeira pedra colocada, a base, a pedra fundamental que sustenta toda a construção. Sobre ela, as demais são dispostas. Sem ela, toda a construção cai. No entanto, ela não é vista.
Sobre a pedra angular, as demais pedras vão sendo postas, com o cuidado de que, cada uma é sustentada pelas anteriores e sustenta as que serão colocadas depois. É assim que entendemos a Igreja e cada um de nós. Ela não é um amontoado de cimento e tijolos. Através deste amontoado, temos cada pessoa, que traz atrás de si uma multidão de santos que tornou possível a Igreja de hoje, e nós, que continuamos este edifício, que seguirá com nossos catecúmenos.
Quando o mundo nos vê, vê a Igreja, vê Cristo. Não vamos à Igreja. Somos Igreja, pedras vivas. Muitos só têm a nós para ter acesso ao Evangelho e ao Reino, ao nosso testemunho, na permanência espiritual em Cristo. Nas palavras de São Paulo: “já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim”.
De modo especial neste período, temos uma consciência mais sensível de como estamos em Cristo e Cristo em nós, nosso sacrifício se realiza na permanência em casa e/ou na atividade no trabalho, quando somos chamados a ser luz em um mundo em que tantos estão nas trevas da indiferença, da depressão, da ansiedade, do pânico, do oportunismo… em que, junto à crise de saúde, junto temos a crise da pessoa humana, de sua dignidade que vem sendo substituída pelo egoísmo e individualismo, levando muitos à fome, ao desemprego, às doenças pela falta de condições sanitárias e alimentares.
É preciso identificar os gregos que possam atender suas viúvas e cuidar dos que precisam. A ajuda não vem de fora, de um exército de anjos que vai descer do céu – dificilmente Deus faz o que Ele nos deu para fazer (Ele não é uma mãe que cria filhos mimados!). Muitos dos nossos problemas têm soluções ao alcance de nossas mãos. É preciso identificá-los e buscar soluções em conjunto. Temos belas iniciativas sendo tomadas, o que nos mostra que é possível sorrir em meio às dificuldades, que é possível retomar às atividades de convívio fraterno.
No mistério Filho-Pai que Jesus nos insere, não podemos esquecer de Nossa Senhora, rosto materno de Deus. A Filha de Sião, em uma das situações mais problemática, ela canta as maravilhas de Deus. Cantemos com Maria nossa esperança, de Deus que já realiza suas promessas hoje, abençoando o futuro através das famílias, de modo especial, na ternura das mães:
“Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,
porque olhou para sua pobre serva.
Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações,
porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo.
Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem.
Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos.
Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.
Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos.
Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais,
em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre.” (Lc 1, 46-45)
Um abençoado Dia das Mães!

Somos ovelhas do redil do Bom Pastor

(Vandeia Ramos)

Ser cristão, pertencer à Igreja de Cristo, é ser a ovelha que confia no Pastor, pois Ele nos chama pelo nome, nos recolhe no redil, toma conta, protege, conhece e nos ama. Recolhidos, Jesus fica à porta para não deixar que nenhum ladrão nos roube ou nos machuque. E hoje o redil é nossa casa. Seguindo os conselhos das autoridades e recomendações de nossos pastores. Nosso cantinho é nossa Igreja doméstica, em que nosso Pastor está à porta, tomando conta de nós.
Se precisamos sair, o Bom Pastor nos conduz, vai à nossa frente. Se acontece algo inesperado, não entendemos, mas temos certeza de que não estamos sozinhos e que continuamos sendo guardados.
O ser ovelha do Bom Pastor nos guarda dos problemas, pois exige de nós docilidade e humildade. Exige de nós conversão permanente. Ser ovelha exige uma moral social, política e espiritual. Não podemos nos comportar como se tudo estivesse normal. Visitas a amigos e familiares, festas, saidinhas… tanto precisa ser guardado… os profissionais não conseguem mais dar conta da demanda nos hospitais enquanto tantos se expõem sem necessidade… a responsabilidade consigo, com o que leva para casa e com a exigência do cuidado exige o resguardo. Somos responsáveis uns pelos outros.
Ser ovelha do Bom Pastor exige uma moral política. Não estou falando de extremismos partidários ou lideranças, mas de construir pontes para o bem comum. Já passou da hora de querermos provar para o coleguinha que o nosso certo é mais certo que o do outro, perdendo tempo quando temos tanto a fazer, a começar com nossas famílias, nosso trabalho, nossos estudos, com as relações políticas. Temos um ideal que lado algum tem correspondido – daí tanta discussão. Não está na hora de definirmos melhor o que entendemos por uma política justa e que trabalhe por todos? Que as lideranças políticas são funcionários públicos a serviço da população, independente do partido político ou da ideologia? Este é o desafio da quarentena para refazermos nosso futuro.
Ser ovelha do Bom Pastor exige uma moral espiritual. A conversão é diária e de nossa conversão depende que Jesus chegue a outros, que nossa conversão depende que nos afastemos do que nos faz cair. Por causa da quarentena, muitos se encontram em situação difícil e limitada, precisando de ajuda, mas outros nem tanto, e estão se expondo, simulando uma dificuldade para um favorecimento indevido. A corrupção se tornou estrutural e não podemos dizer que todos nós estamos isentos.
Quem é afinal nosso Pastor? Em tempos que inocentes sofrem em leitos de hospital e muitas famílias perdem pessoa amadas, quantos poderão comparecer diante de Jesus como ovelhas? Cada um de nós pode ser o próximo na situação, seja de doença, seja de perder alguém.
Jesus é nosso Bom Pastor. Ele nos conduz pelo vale tenebroso, em que nos encontramos cercados por tentações e perigos. À nossa frente, não nos deixa faltar nada que realmente precisamos. Nele repousamos e nele restauramos nossas forças. Ele é o caminho seguro, que não nos deixa errar, que é reto, que nos leva direto ao Pai.
Como ovelhas do Bom Pastor, temos o alimento que nos é necessário. Se estamos afastados da Eucaristia, somos oferecidos como hóstia por tudo que estamos vivendo, no sacrifício da obediência, na humildade do silêncio, na renúncia à crítica ao que não nos cabe.
Com os olhos no cajado do Bom Pastor podemos seguir pelo Caminho e descansar à sua sombra. Ele nos unge com o óleo para nos proteger da poeira da estrada, do que poderia nos abalar enquanto estamos seguindo. Com Ele, nossa alegria sempre transborda.
Como ovelhas do Bom Pastor, somos guiados à casa do Senhor, onde habitaremos pela eternidade.

Jesus aproxima-se e caminha conosco

(Vandeia Ramos)

No nosso tempo, no primeiro dia da semana, a maioria de nós está em nossas casas, com nossas famílias. Cuidamos para que tudo esteja pronto e todos reunidos. Aproveitamos para falarmos das dificuldades, das mídias, da semana que nos espera, das necessidades… às vezes, também da saudade da Igreja cheia, da Eucaristia, dos sacramentos… Nem percebemos que nossa casa é Igreja doméstica, que nossa família é comunidade cristã, que Jesus está presente na Palavra e na comunidade reunida…
Será que não percebem nossa dor, nosso sentimento de abandono, nosso isolamento, nossas perdas, o medo em cada partícula do ar? Parece que cada pessoa na rua se tornou uma ameaça. Pregam uma segurança em cuidados entre sabão e álcool com tudo que entra em casa. O ser humano se tornou ameaça a si mesmo.
Como seguir assim sem Jesus? Na história da Igreja, não foi nossa fé que nos sustentou? A Eucaristia não é nosso alimento? Não temos provas da intervenção divina que veio ao encontro de nossas necessidades? E a quarentena já está no segundo mês. Estamos cansados de ficarmos em casa, isolados. Queremos sair para reclamar que queremos ficar em casa. Queremos nossa vida de antes, as celebrações, o encontro, os amigos…
Rezamos por uma intervenção de Deus, que faça um milagre o mais rápido possível. Como se nós fizéssemos o que quiséssemos com a criação e não quiséssemos assumir as consequências; como se não tivéssemos sido chamados a manifestar o Reino de Deus; como se não tivéssemos responsabilidade com as pessoas e com o mundo em que vivemos. Nós, nossos pecados, nossas lideranças, entregamos Jesus à cruz. E este é o momento que podemos rever nossa vida, e em família, arrumarmos algumas coisinhas que estavam pendentes, não é? Do nosso armário às relações, de tudo o que adiávamos para quando tivéssemos tempo… Pois é. Como os discípulos de Emaús, esperamos que Deus restaure Israel, restaure nossa vida, nossa família, nossa cidade, o mundo todo. Um Deus que faz tudo sozinho, mas que não mexa com quem sou e com que faço.
Algumas pessoas nos deram avisos, mas não as escutamos. Fatos da vida foram nos avisando que nem sempre nosso caminho era o caminho reto para Deus… Cada um sabe a dificuldade que é conviver com a família e consigo mesmo neste período. Nós víamos que muita coisa no mundo não ia bem, mas preferimos seguir cuidando da própria vida… Não damos ouvidos a quem se preocupou com o bem estar de todos, de quem ainda se preocupa… Uso de máscara na rua, ficar em casa, distância… a grande maioria não estava preparada. A dificuldade em ir a um mercado nos diz o quão difícil seria um retorno precipitado à vida cotidiana… Pensar em todos e agir no que posso é uma regra cristã.
Aí vem aquela chamada básica de Jesus. Ele tinha nos dado várias chances e desperdiçamos: as mulheres tinham anunciado (tantos nos avisaram, de questões pessoais à natureza, política e economia mundiais); a Igreja avisou inúmeras vezes que não cuidamos como devíamos uns dos outros e da Criação (a Laudato Si do Papa Francisco é imperdível!) e sequer a ouvimos, requisito para acolher e entender; deixamos a comunidade reunida em Jerusalém e fomos cuidar de nossa própria vida, de nossos próprios interesses (minhas necessidades, o que acho, o que quero… e não todos da minha casa, da minha paróquia, da humanidade. Não queremos seguir as orientações das nossas lideranças religiosas… Se não é do jeito que eu quero, como penso…)… Jesus foi muito bonzinho ao dizer que somos “só” sem inteligência…
E a missa começa. São Pedro começa a nos explicar, como Jesus explicou aos discípulos de Emaús, sobre a responsabilidade e consequência de nossas ações, pessoais, comunitárias e mundiais. E nos ilumina com a esperança da ressurreição. Mesmo que tenhamos “metido os pés pelas mãos” inúmeras vezes, Jesus caminha conosco. Somos testemunhas de que Ele está vivo em nossa casa, real, presente no mundo, andando pelas ruas, na fila do mercado, nos hospitais… E nossa esperança nos sustenta e alimenta nossa fé.
Ele não impõe sua presença. É preciso que nossa vida esteja aberta, nossa fé disponível. Mas sabemos que “eu creio, Senhor, mas aumenta a minha fé”. Então, pedimos: fica conosco, Senhor, já é tarde, estamos cansados, a quarentena avança, tem muita gente falando muita coisa que nos deixa confusos, temos muitas dificuldades que nem sempre conseguimos resolver, sentimos medo e dor. Precisamos da tua presença para não para não te ofender, para não cair, para não te abandonar.
É Jesus quem está presente em nossa casa e mostra num simples pão não nos deixou, em pequenas coisas, como termos uma televisão e acesso à missa, a aproximação de algumas pessoas… Como catequistas, nossa missão continua. Precisamos anunciar as maravilhas que o Senhor fez para nós, por nós, em nós. Num mundo confuso, somos chamados a sermos os que anunciam a ressurreição e alimentam a esperança. Não tenhamos medo do nosso caminho, Jesus está conosco para não errarmos. Quando nos sentirmos fragilizados, podemos rezar com Pe Pio, oração musicada na voz de Celina Borges:
https://www.youtube.com/watch?v=TjK3u-vS7hk

Senhor, ajudai-nos a ser misericordiosos

(Vandeia Ramos)


Das três leituras de hoje, o evangelho de João foi o último a ser escrito, em torno do ano 90. Jesus Ressuscitado aparece para os seus. Ele não é mais o homem das multidões. Agora sua divindade é revelada somente aos seus escolhidos, àqueles que se encontram reunidos no domingo, sua Igreja. Aqui, Ele é bem-vindo, não precisa que lhe abram a porta, somente que sintonizem o canal da televisão ou que iniciem a live no horário marcado. Sua família o espera!
Entre nós, Jesus se coloca e logo anuncia: “A paz esteja convosco”. Não temos Jesus sacramental pela situação em que vivemos. No entanto, sabemos que Ele é real em nossa casa, na Palavra proclamada, acolhida, meditada, vivida. Sua graça nos basta!
Ele nos mostra as mãos e os lados. Não é um fantasma, uma alucinação, uma fantasia ou mera imaginação. Jesus traz as marcas da Paixão, do que passou por nós. Sua divindade traz sua humanidade glorificada, revela o sentido do tempo que viveu, apresente o germe do que é esperado dos seus. E nós ficamos felizes por tê-lo! Ele verdadeiramente está entre nós, conosco, em nossa casa, em nossa família!
Jesus dá-nos a sua paz, não para que a guardemos. Dá-nos para fazer de nossa vida uma única vida com Ele. Do mesmo modo que Ele veio para cumprir a vontade do Pai, Jesus nos envia para uma missão: continuar o que Ele começou. Temos aqui claramente o envio da Igreja, na administração dos bens espirituais. Do lado transpassado do Ressuscitado, um rio de misericórdia centrado no primeiro domingo após a Páscoa por São João Paulo II.
Em missão, nossa catequese se torna criativa, em casa e pelas mídias sociais, muitos trabalhando e outros nas atividades do cuidado da casa. Cuidar com amor é nossa primeira necessidade hoje, é a mensagem que precisamos anunciar. Cuidar dos que chegam atrasados, como os Tomés, atualizando com paciência sobre o que perderam, das grandes diferenças de idade que podem ficar mais distantes com a maior convivência, cuidar dos doentes ainda que tragam risco para quem atende, cuidar da limpeza mesmo que precise repetir constantemente, cuidar da alimentação para que a saúde seja forte, cuidar da imunidade para sermos mais resistentes e cuidar de nossa fé para que possamos ser os “seus” de Jesus.
Somos felizes porque começamos nossa vida de fé acreditando sem termos visto. Hoje, podemos ver Jesus em cada aspecto de nossa vida, sabendo que Ele caminha conosco, que fazemos parte de seu Corpo, que o recebemos em nossa casa-igreja, em nossa perseverança em cuidar uns dos outros, rezando e agradecendo, cuidando e partilhando com os que mais precisam, não deixando que os que dependem da Igreja fiquem desprotegidos.
Passamos por um momento de grande provação, mas sabemos que é só isso: um momento. Em que precisamos rever nossa vida, como acreditamos, o modo como encontramos Jesus, em que centramos nossa fé. Como toda prova, teremos algumas perdas, que nem sempre serão fáceis. Mas também sabemos que não estaremos sozinhos. Somos Igreja peregrina que caminha sob a direção do Espírito Santo.
Muitos estão precisando da misericórdia hoje. Não é só dia de pedir a misericórdia de Jesus para nós, mas para todos os que precisam. É dia de sermos uma Igreja de misericórdia: pelos doentes que não então mais encontrando vaga nos hospitais, pelas famílias que não sabem o que fazer com os seus doentes, pelos médicos que têm decisões difíceis a tomar, pela equipe de apoio que precisam ser precisos e rápidos pela demanda do trabalho, pelos falecidos que a família não conseguiu cuidar e acompanhar até o final, pelos doentes em situação de rua que nem serão identificados, pelos que serão preteridos por políticas públicas e por tantos outros que trazemos em nossos corações e por outros tantos que só Jesus pode identificar.
Neste domingo de oitava pascal, domingo da misericórdia, em um mundo que perde a confiança em tudo que vinha se apoiando, podemos aclamar com alegria: Jesus, eu confio em vós!

Reflexão sobre o Evangelho

(Carlos Francisco Bonard)

“Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai. Há alguém que vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu” (Jo 5, 45-46).

No livro do Deuteronômio, encontra-se uma promessa que tem um significado decisivo para a compreensão da figura de Jesus: não é prometido um rei de Israel e do mundo, mas um novo Moisés.
Em Dt 18, 15, lemos “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir”.
Uma leitura isolada pode fazer parecer crer que se está instituindo o profetismo em Israel, mas o fim do livro, na sequencia da morte de Moisés, nos diz “Não se levantou mais em Israel profeta comparável a Moisés, com quem o Senhor conversava face a face”.
O decisivo na figura de Moisés não são suas ações maravilhosa, não são as obras e os sofrimentos desde casa da escravidão no Egito, através do deserto até as bordas da Terra Prometida. Decisivo é que ele tenha falado com Deus como um amigo, pois era daqui que vinham as suas obras, a lei e o ensinamento dado a Israel.
Por isso, o profetismo de Israel é único. O profeta de Israel não é um adivinho. Não é alguém que prediz o futuro. O verdadeiro profeta não esta aqui para revelar o acontecimento de amanhã, ou de depois de amanhã, para servir à curiosidade humana ou a humana necessidade de segurança (como aconteceu com Saul, que diante do silêncio de Deus as portas da batalha contra os filisteus, recorreu a vidente de Endor). O profeta está aqui para revelar o rosto de Deus, e, assim, nos mostrar o caminho a seguir: o autêntico “êxodo”, que é aquilo que sempre observamos ao fim de toda a quaresma. A fuga da escravidão do Egito é um sinal fugaz daquilo que nos espera no fim dos tempos “quando amanhecer o dia eterno, a plena visão”.

Em todos os caminhos da história, em todos os caminhos da nossa história, devemos procurar o caminho para Deus como autêntica direção.

Um profeta que “via” a Deus face a face…. as aspas se dá por que não era possível a Moisés contemplar a face de Deus, não era possível a Moisés ver a glória de Deus, mas apenas ter um vislumbre dela (Ex 33, 18-23). Em que pese a intimidade de falar com Deus como um amigo, existe um limite até para um profeta, até para Moisés. É permitido a intimidade da nuvem, mas não a visão da face de Deus.
Isso deveria ser guardado para o Novo Moisés. Ele receberia o que foi negado ao primeiro. Ele teria mais que um olhar “detrás”.

Esse novo profeta é Jesus, e o prólogo de São João nos aponta essa realidade quando diz “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou”. Ele não vive diante de Deus como amigo, mas como Filho, e assim vive na mais íntima unidade com o Pai.

Moisés era testemunha de Jesus por conta da sua intimidade com Deus. Isso que o Evangelho de hoje nos aponta também.

Podemos nós sermos testemunhas de Cristo se também tivermos essa intimidade. Os judeus a quem Jesus interroga (contextualizando, esse Evangelho de hoje é a continuação da cura do paralítico na beira da piscina de Betesda, quando os judeus perguntavam ao paralítico quem o curou. Reparem que o curado não sabia quem era Jesus) não compreendem de onde vem as palavras e o poder de Jesus. Os doutores do tempo de Jesus não conseguiam admitir essa intimidade de Filho.

Contudo nós podemos e devemos, mas para isso é necessário observar que em sua vida, Jesus se retirava ao monte para ter sua intimidade. Não era só por que Jesus era Deus de Deus que ele se retirava para, sozinho, ter intimidade.

Nessa quaresma, nesses tempos difíceis, mas que vão passar, caminhemos com Jesus para também termos essa intimidade, e, com ela, alcançarmos a redenção.

Fonte: livro Jesus de Nazaré (Bento XVI)