O Menino Jesus e o Culto Mariano e Josefino

(Vandeia Ramos)

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Epifania, do grego, nos lembra clareza de compreensão. Em epistemologia, segundo Piaget, poderíamos chamar de acomodação, ou seja, a capacidade que temos de inserirmos uma nova informação ao que sabemos, iluminando tudo o anteriormente entendido.
Nossa imagem da chegada dos Reis Magos é influenciada pelo presépio de São Francisco de Assis, em que todos os personagens que envolvem o nascimento de Jesus estariam em uma mesma cena, em um único tempo. São Francisco, ao elaborar tal representação, tinha uma intenção teológica, tendo em consideração as pessoas as quais se dirigia. No entanto, a Palavra tem algumas especificações que nos ajudam em alguns aspectos.
Enquanto Messias, Jesus era esperado por Israel para libertar do jugo romano. Tal expectativa causava desconforto nas lideranças, pois não sabemos o que esperar de um bebê. Então elaboramos projeções de nossos medos para tentar justificar a necessidade de uma cultura de morte, seja por bem estar material pessoal ou familiar, seja pela tentativa de eliminar grupos específicos, como pobres, negros, diferenças genéticas, justificando na legislação e em ideologias a intervenção estatal: novos Herodes, príncipes venerados por muitos.
Aí chegam uns pagãos de outros povos, guiados pela sua própria cultura de observação da Criação, e anuncia para as lideranças de Israel que seu esperado Messias está entre eles. São recebidos no palácio, com toda a pompa de sua posição, indicando que são proeminentes e que deveriam estar em uma comitiva. São sábios que percebem as manipulações e que seguem para encontrar o Menino.
Aqui há um vácuo de tempo, entre o nascimento de Jesus em uma manjedoura e a chegada dos magos em uma casa, considerando que Jesus já tinha sido circuncidado (8 dias) e apresentado ao templo para a purificação (40 dias), já que em seguida José é orientado pelo anjo Gabriel para se retirar com Maria e o Menino para o Egito.
Como os pastores hebreus na noite de Natal, os magos encontram Jesus com sua Mãe. É Deus cumprindo a Promessa: Israel seria a luz para as nações, trazendo paz aos de boa-vontade. Assim, primeiro temos os pais, seguidos pelos pastores, o sinagogo que faz a circuncisão em uma celebração da comunidade, os sacerdotes do Templo de Jerusalém… Sem ignorar os pagãos, sem que os seus o percebam, o Evangelho é anunciado!
Ao chegarmos na casa, José nos recebe à porta e Maria cuida do Filho. Nosso olhar sabe a quem procurar, mas sabemos que precisamos pedir licença aos pais, que garantem que o Filho seja bem acolhido. Profetas, apóstolos e pagãos recebem o abraço do Menino a partir do colo de sua Mãe.
A visita dos magos, com os presentes tão necessários à sobrevivência em terra egípcia, completa e ilumina o quadro tão familiar da família humana, em que a porta do céu tem alguém nos abre, outra pessoa cuida e Jesus abre seus bracinhos pedindo colo e abraço de todos.

O Bem-Aventurado Catequista

(Vandeia Ramos)

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A imagem do Evangelho de hoje nos remete à função de ensinar. A Igreja coloca o processo educativo como um dos maiores atos de amor, pois é anunciar o Reino que é em nós. E Jesus, o Catequista, olha a multidão de pessoas e se compadece. Quantos ainda não vivem a alegria de Deus? Quantos ainda vagam sem sentido na vida, buscando a felicidade sem saber onde encontrá-la?
Como Mestre, Jesus busca um lugar alto, remetendo seu ensinamento a Deus. E senta-se. Para escutarmos Jesus, precisamos nos aproximar e olhar para o alto. Somente na posição de discípulos podemos compreender Seus ensinamentos.
A partir de Si, Jesus é o Bem-Aventurado e apresenta-se como modelo dos que são chamados ao Reino, ao Céu. Não segundo a compreensão do mundo, mas conforme a vida em Deus. Assim, os pobres, os aflitos, os mansos, os que têm fome de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os perseguidos, os que insistem em viver segundo o mandamento do amor a Deus e ao próximo, sentindo a dor do irmão, suas necessidades, e colocando-se em seu favor, como o Filho faz com a humanidade ao se encarnar – são os que se configuram a Jesus Cristo que são também os que se tornam presença filial entre os demais.
Naturalmente que esta escolha de vida tem um preço – e alto. Se um dia alguém anunciar o Evangelho como algo fácil, em acordo com o mundo, é para se desconfiar. Desconforto, incômodo, “pedra de contradição”… os que vivem segundo o Evangelho suscitam reações muitas vezes contraditórias nos demais, levando-os a precisarem fazer uma escolha de vida: questionar-se e pensar em possível mudança, ou tentar acabar com o que incomoda – e isso significa muitas vezes perseguições e situações não agradáveis. Não somos nós que somos diretamente atacados, mas o que significa o que somos, nossa relação com Deus.
Só que aqui tem um critério para nos associarmos ao Cristo: a relação entre a verdade e a mentira. O que traz a responsabilidade de nossa conduta justa e íntegra, que expõe a contradição de quem ataca. E esta conduta só tem sentido se a Verdade é a causa. Sustentar uma posição em Jesus, independente do que possa nos acontecer, enche-nos da verdadeira alegria.
É nesta perseverança que nos tornamos santos no Santo, testemunhando com nossa vida quem é o Bem Aventurado Catequista. Não anunciamos nossos achismos e nosso entendimento, muito menos nosso saber. Anunciamos uma Pessoa, que vive em nós, e escolhe a cada um de nós para chegar aos demais.
No sustentar a fé nas adversidades que nos purificamos de nossos pecados, limitações e contradições. Nas dificuldades é que afirmamos nossa filiação divina. E este processo faz com que manifestemos a Salvação no mundo, em que nada nem ninguém pode abalar, e sim agir como preparação para o Céu.
Ser semelhante a Jesus é a meta de vida de todo cristão. Sermos chamados de filhos é o desejo mais íntimo. E isso envolve a dor de abrir mão do que não pertence ao Céu pelo Bem Maior. Assim Jesus se manifesta através de nós, em nós.
Só então poderemos “amar como Jesus amou”, compreendendo seu coração de ternura e misericórdia pelos mais esquecidos e sofridos. Por eles, nossa sensibilidade se manifesta, nos mais difíceis, com histórias mais complicadas, com o comportamento que expõe problemas nem sempre evidentes.
Sermos outro Cristo, bem-aventurados ao fazer nossa opção de vida não por bens ou prestígio, e sim pelo Céu; viver a aflição de nem sempre poder fazer algo pelos que precisam, entendendo que a oração é deixar espaço para que Deus possa agir; sustentar a mansidão frente às contradições e agressões, para não sair da presença do Filho; manter a fome de justiça pelos que não a têm e buscar o mínimo de dignidade para eles; considerar falhas e erros como limitações pessoais e de compreensão; desenvolver o olhar a partir da Salvação da humanidade; manter o encontro de todos em torno da Mesa Eucarística, como família em que cada um é único em sua diferença; e, por tudo isso, ser fraterno mesmo quando os demais agridem e perseguem.
Só assim, poderemos participar plenamente da Comunhão dos Santos, participantes da Jerusalém Celeste, pelos Séculos dos Séculos.

Pequeno Rebanho

(Vandeia Ramos)

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A expressão de Jesus no início do Evangelho é de ternura. Somos as ovelhas do Senhor, unidas em um pequeno rebanho muito querido. Nós nos sentimos como se estivéssemos sendo acarinhados… Ele quer nos mostrar seu cuidado para conosco, para que confiemos e não tenhamos medo das situações em que vivemos, de atender ao seu chamado, de olhar reto para o Céu, para o Reino de Deus. Não é uma simples promessa a se realizar em um futuro incerto. O Reino já acontece em nós!
Não é por mérito, por algo que tenhamos feito, mas simplesmente porque o Pai quis! É gratuito, é por amor! Deus nos quer com Ele, fazendo parte de sua vida já aqui, até chegarmos à plenitude do Céu. Esta fé elimina muitos possíveis fardos que possamos acreditar que tenhamos que carregar… E chama somente para que estendamos a mão e aceitemos sermos conduzidos.
Isso significa que precisamos nos desapegar de tudo que possa atrapalhar nossa caminhada, que possa nos reter. E isso só acontece na confiança plena de quem nos chama, à medida em que vamos nos conformando, tomando a forma de cristãos, deixando a graça agir em nós e a partir de nós.
Envolve prontidão para a ação, para atender aos que precisam, a estarmos atentos aos sinais que nossos catecúmenos apresentam, de problemas que possamos ajudar; de desenvolver a sensibilidade de ver as necessidades dos que estão à nossa volta, de trabalhar para que os demais descansem. Seguindo o modelo do lava-pés, nossa casa é sempre a primeira referência, da pia de louça ao quarto, da roupa para lavar e passar a colocar as coisas no lugar. Este testemunho silencioso nos forma para a atenção aos demais.
Somos pessoas cheias de dons. Eles nos foram dados por Deus para que façamos uso em prol dos demais. Ele nos tornou Seus arautos, anunciadores da Boa Nova com nossa própria vida. Dia a dia, inúmeros bens são nos confiados, da crescente compreensão da Mensagem Evangélica ao suspiro de cada instante. Sempre para aprendermos a fazer de nossa vida uma oferta de amor e sacrifício.
Quando chegar o momento em que Jesus virá nos chamar, e não sabemos quando será, podendo mesmo ser agora, o que temos para apresentar? O que fizemos com tanto que recebemos? Todo o tempo que recebemos, todo o acesso a bens espirituais, a vida em comunidade na Igreja, a família que nos cuida e somos chamados a cuidar, nossos estudos e trabalhos?… Como nos apresentaremos diante dEle?
Participamos dos bens celestes através dos dons que recebemos. Isso envolve testemunho e anúncio, antecipação do Reino, iluminar o mundo, receber resistência das trevas.
A fé que sustentou gerações é nossa base. Nela descansamos no Senhor frente às dificuldades e alegrias, apelos, acomodações e certezas. Conforme afirmamos a fé frente às adversidades, crescemos na certeza de que nosso lugar é o céu. Aqui é somente um lugar de passagem, para que possamos crescer em Deus e aprendermos a conviver com os demais, preparando-nos para o Reino definitivo.
Assim, na herança que recebemos da Igreja, podemos cantarmos juntos com os nossos que “feliz é o povo que o Senhor escolheu por sua herança!”
Somos muito felizes por ter nossa vida como a vinha do Senhor. Que Ele ao voltar nos encontre “em paz, puros e santos”.

E você, catequista, quem diz que Jesus é?

(Vandeia Ramos)

Como católicos, é comum estarmos com Jesus em oração. E se um dia ele nos perguntasse quem nossos catecúmenos acham que Ele é? O que será que poderíamos dizer? Que Ele é um personagem muito legal da bíblia? Que é um “espírito de luz”? Que é alguém que viveu a muito tempo atrás? Um revolucionário? O que será que sairia do coração dos nossos?
E se Ele perguntasse a cada um de nós quem Ele é? Atenção ao verbo no presente: Jesus é. Um profeta? Alguém que poderíamos equiparar a um líder religioso histórico? Uma pessoa como nós, mais evoluída? Quem você diria que Jesus é?
E Jesus pergunta à Igreja, através de Pedro: quem, enquanto Igreja, acreditamos ser Jesus? O Verbo de Deus, o “princípio e o fim”, que se encarnou por nós e nos abriu a porta do céu… Podemos destacar diversas colocações na Sagrada Escritura e na continuidade da ação apostólica na história, guiada pelo Espírito Santo. Não querendo ser confundido com a ideia de Messias como líder militar e político, como era corrente entre o povo, Jesus pede a Pedro e aos demais que não comentem que Ele é a Verdade.
Identificar Jesus como o Cristo de Deus, além de ser uma ação movida pelo Espírito em nós, significa aceitar tudo o que isso significa: que o caminho é de morrer a cada dia para que Deus possa crescer em nós, até ser tudo em cada um. O Deus que é, presente em nós, torna-se presença no mundo através de nós, o que explica passarmos a ser tanto fonte de amor como pedra de contradição. Ser cristão é ser outro Cristo, passar pelo que passou no contexto de nossa vida, na nossa realidade pessoal.
Renúncia e cruz passam a andar de mãos dadas conosco. Não vivemos para objetivos pessoais de sucesso, mas para o Reino dos Céus. O fim, a finalidade, se modifica. E, se o fim muda, o caminho para chegar também. E o princípio deste caminho é iluminado: “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus…Nele havia a vida e a vida era a luz dos homens…” (Jo 1, 1.4). Entre o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, Jesus é o Caminho, o mesmo que percorreu e que nos convida a seguir.
Não somos mais os que choram em Magedo, que adoravam um deus, Hadade-Rimon, associado à fertilidade, chuvas e trovões, pela seca e falta de alimentos. Somos do Filho de Davi, portadores do Espírito, nos quais as graças são derramadas através de nossa constante oração. Não nos desesperamos com nossos dramas nem ficamos abandonados, como os acima que choram. Somos pertencentes à Casa de Davi, a Nova Jerusalém, a qual nos dirigimos para nos alimentarmos e nos refazermos.
Batizados na Santíssima Trindade, novos cristos, formamos a família de Deus. Não há uma hierarquia social em que cargos elevados são a meta. O serviço por amor é o que prevalece. Somos irmãos de uma mesma casa, com o mesmo alimento eucarístico, uma Mãe de todos, um Pai terno, um Irmão que nos precede e nos guia, em um Espírito que ilumina este caminho. Alcançamos todas as nações, em uma identidade que ultrapassa tempo e espaço, culturas e raças, herdeiros da Promessa, responsáveis pelo contínuo Anúncio nas diversas gerações.
Não estamos sozinhos e nossa sede é de Água Viva. A alegria é uma característica facilmente reconhecida, pois glorificamos a Deus em todos os momentos, dos mais difíceis aos mais doloridos, sempre guardados no seu Sagrado Coração de Jesus.

Corações ao alto!

(Vandeia Ramos)

Não é novidade para nós, catequistas, que a centralidade de nosso anúncio é Jesus Cristo. A Boa Nova é que, na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho para que estabelecesse conosco uma Nova Aliança, centrada em sua entrega total na cruz, seguida de sua Ressurreição. E tudo começa com os apóstolos e por Jerusalém. Por isso a Igreja é apostólica, no testemunho dos primeiros que são chamados para a missão de anunciar o que viram e ouviram.
Após os três anos de convívio, da realidade da Paixão-Morte-Ressurreição, Jesus passa 40 dias com os seus para que possam relacionar todas as experiências vividas a partir da relação entre cruz e vida. Só após ver Jesus Ressuscitado que muitos conseguem passar pelo drama do Calvário. Poucos somos os que sustentam o ouvir o anúncio do sofrimento e seguir em pé frente às dificuldades. Somente ao lado de Maria que João consegue.
Jesus sabe o quanto somos difíceis, que nosso coração é de pedra, que, por mais que acompanhemos sua vida e sua sabedoria, somos incapazes de elaborar sua mensagem de modo fiel. Por isso não nos deixa sozinhos, mantêm-nos reunidos na Nova Jerusalém, a que desce do céu e encontra a terra na Eucaristia. Ele promete o envio do Espírito, que fará tudo ganhar sentido de tal forma em nós que podemos ser seus instrumentos no anúncio de sua Mensagem.
Com os discípulos, somos levados por Jesus para fora. O mundo nos espera. E Ele nos abençoa. Portadores de sua bênção, podemos acompanhar sua ida ao céu. Nosso coração já não pertence a este mundo. Nossos olhos ficam admirando sua glória ao ser elevado. A alegria de saber que há muito mais nos aguardando faz com que fiquemos confortados ao voltarmos para casa, para nossos afazeres, nossos estudos e trabalhos. Sabemos que no domingo que vem teremos mais.
Ele vai, mas promete que voltará. Promete seu Espírito para nos confortar e animar. Precisamos Dele para aceitar que o Reino é no tempo do Pai, e não no nosso. Não é quando queremos, mas de uma difícil aprendizagem de vivermos na realidade que nos é dada, na qual somos chamados a agir em nome do Filho. Imbuídos do Espírito, somos enviados às nossas turmas, cenáculos, diferentes espaços familiares e sociais. Até à última pessoa.
Não podemos ver Jesus com os olhos. Frequentemente, quando pensamos Nele, nosso coração vai ao alto, ao céu, aos anjos e santos, à Nossa Senhora e a São José. No cansaço e na alegria, na dor e na dúvida. Quantas vezes nos perdemos de nós mesmos e nos voltamos ao céu?
Muitas vezes a realidade nos chama de volta. Aparece alguém que nos lembra que Jesus foi, mas volta, só que não agora. Neste momento, é hora de servirmos. Ao ir ao próximo que nossa vida ganha sentido, que superamos o cansaço pela necessidade do outro, que nossa alegria é partilhada, que o amor faz com que suportemos a dor, que a dúvida é sanada na nossa própria relação com a cruz.
Na vida entre o Calvário e a ascensão, entre a realidade e o céu, temos um caminho a percorrer, que nos prepara para a chegada do Espírito. A Ressurreição já é uma realidade que faz com que a morte seja somente um momento pelo qual passamos. A ascensão é a continuidade do caminho, pelo qual um dia seremos levados da terra a Jesus. Daqui já podemos vislumbrar, ainda que de modo velado, o Senhor em seu trono no céu, acima de tudo e de todos, dirigindo a história para Ele.
O caminho é o da elevação de todas as coisas a Deus. É o convite pessoal que nos faz de O acompanharmos. Inserir-nos em seu Mistério é anunciar com a própria vida que Jesus é o Senhor, no qual nos alegramos, adoramos e acompanhamos sua subida.
Aclamemos, Igreja, que Deus se elevou! E esperemos aqui o dia em nosso canto de vida se unirá definitivamente ao de todo o céu, no anúncio de que Deus é o Altíssimo, que reina sobre todas as nações.

Catequista, fonte de amor

(Vandeia Ramos)

João, o discípulo amado, apresenta a ternura de Jesus por nós. A palavra “filhinhos” nos coloca como direção de um carinho especial, tornando-nos suas crianças. A cruz é eminente, o afastamento já dá um tom de saudade. E Jesus quer aproveitar cada momento com os seus.
Esta mesma ternura é o que torna o sofrimento lugar de amor, de associação entre o Filho e o Pai, o lugar de manifestação da glória de Deus. Os braços estendidos abraçam toda a humanidade e a humanidade toda, fazendo com que nossos olhos saiam das situações cotidianas, muitas vezes esmagadoras, e se levantem para o Crucificado, no diálogo entre a miséria a que chegamos e o infinito de Deus.
Nesta intimidade, em que os amigos recebem todo o carinho do Mestre, eles se associam entre si. E Jesus apresenta um novo mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. É aqui que se reconhece quem de verdade é amigo de Jesus.
Lembramos do “amai ao próximo como a ti mesmo” das multidões. Para uma humanidade melhor, em uma cultura de paz, Jesus oferece o mandamento das relações interpessoais. Mas Ele quer mais dos seus amigos mais íntimos. É o Seu amor por nós que será a medida de todas as medidas, é o cuidado especial que nos faz sermos cristãos.
Quando entramos no círculo mais íntimo, vamos nos tornando mais próximos ao coração de Jesus, direção de sua ternura. Mergulhados em seu carinho, vamos aprendendo a sermos mais junto aos outros. Nossos catecúmenos vão se tornando um pouquinho de nós e vamos nos tornando modelos de vida. E não é somente na Igreja, mas em uma espiral que vai alcançando todas as nossas relações. É este o caminho que vão nos identificando com o Mestre, pelo amor com que vamos testemunhando nos lugares em que atuamos.
Amar nunca é algo isolado. Se não doer na carne, não é amor. Dispor de si para que o outro tenha vida, meu trabalho para que outro descanse, deixar-se humilhar para que o outro possa entender a disponibilidade imerecida do amor… é uma aventura que abre as portas do céu, do seguir o caminho do próprio Jesus. Não é uma alegria quando identificamos a mudança de vida de nossos catecúmenos? Não é uma sensação de que tudo tenha valido a pena no dia da Primeira Eucaristia? Não é um sentimento de entrega na celebração do Crisma?
Depois da travessia do “sim” que damos, há a promessa de uma relação nova, de habitar em Deus e Deus em nós, início de uma aventura eterna que nos apresenta uma realidade que nossos olhos ainda não são capazes de ver, nem nosso coração alcançar totalmente. Uma realidade que, por mais difícil que seja nossa dor, somos acolhidos no colo de Deus, que nos aconchega e secará toda nossa lágrima com um simples estar conosco e nós Nele. Experiência que nos torna plenamente humanos e de sermos capazes de fazer o mesmo entre nós.
Ser acolhido e acolher torna a aventura humana na terra sinal de vida, presença de Deus entre nós. A experiência de sermos os “filhinhos”, do acolhimento nos dramas humanos, do olhar que tudo supera, de um novo ver e um novo modo de ser junto aos demais, faz com que vivamos com um toque de eternidade. É nesta percepção que podemos bendizer todos juntos, o nome de nosso Deus, Senhor e rei para sempre!