Doutrina da Fé publica Instrução sobre sepultura e cremação

A norma eclesiástica vigente em matéria de cremação de cadáveres é regulada pelo Código de Direito Canônico: “A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã.”

“É preciso sublinhar que, não obstante esta norma, a prática da cremação se difundiu muito no âmbito da Igreja Católica. Em relação à prática de conservação das cinzas, não existe uma específica norma canônica. Por isso, algumas Conferências Episcopais se dirigiram à Congregação para a Doutrina da Fé levantando questões acerca da prática de conservar a urna cinerária em casa ou em lugares diferentes do cemitério, e sobretudo de espalhar as cinzas na natureza”, disse o Cardeal Müller na coletiva.

“Seguindo a antiga tradição cristã, a Igreja recomenda insistentemente que os corpos dos defuntos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado.  Ao lembrar a morte, sepultura e ressurreição do Senhor, mistério à luz do qual se manifesta o sentido cristão da morte, a inumação é a forma mais idônea para exprimir a fé e a esperança na ressurreição corporal. A sepultura nos cemitérios ou noutros lugares sagrados responde adequadamente à piedade e ao respeito devido aos corpos dos fiéis defuntos. Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne e se separa de comportamentos e ritos que envolvem concepções errôneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reencarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da “prisão” do corpo.”

Conservação as cinzas

“Quaisquer que sejam as motivações legítimas que levaram à escolha da cremação do cadáver, as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica.”

Segundo o documento, “a conservação das cinzas em casa não é consentida. Somente em casos de circunstâncias graves e excepcionais, o Ordinário, de acordo com a Conferência Episcopal ou o Sínodo dos Bispos das Igrejas Orientais, poderá autorizar a conservação das cinzas em casa. As cinzas, no entanto, não podem ser divididas entre os vários núcleos familiares e deve ser sempre assegurado o respeito e as adequadas condições de conservação das mesmas.

Para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não é permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar. Exclui-se, ainda a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos.

“Espera-se que esta nova Instrução possa fazer com que os fiéis cristãos tenham mais consciência de sua dignidade de filhos de Deus. Estamos diante de um novo desafio para evangelização da morte”, concluiu o Cardeal Müller. (MJ)

(Fonte)

A seguir, a íntegra do documento (clique no link):

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

Instrução Ad resurgendum cum Christo
a propósito da sepultura dos defuntos
e da conservação das cinzas da cremação

Anúncios

Oração para superar os momentos de angústia

(Prof. Felipe Aquino)

uma-oracao-real-sobre-a-depressao

Meu Senhor, minha alma está perturbada e angustiada; o medo e o pânico tomam conta de mim. Sei que isto acontece por causa da minha falta de fé, da falta de abandono nas tuas mãos santas e de não confiar totalmente no teu poder Infinito. Perdoa-me Senhor e aumenta a minha fé. Não olhe para a minha miséria e para o meu egocentrismo.

Eu sei que estou apavorado porque teimo e insisto, por minha miséria, em ficar contando apenas com as minhas forças humanas miseráveis, com os meus métodos e com os meus recursos. Perdoa-me Senhor e salva-me, ó meu Deus. Dá-me a graça da fé Senhor, dá-me a graça de confiar no Senhor sem medidas, sem olhar para o perigo, mas olhar somente para ti Senhor; socorre-me ó meu Deus.

Sinto-me só e abandonado, e não há quem possa me ajudar, a não ser o Senhor. Abandono-me em tuas mãos Senhor, nelas eu coloco as rédeas da minha vida, a direção do meu caminhar, e deixo os resultados nas tuas mãos. Eu creio em Vós Senhor, mas aumenta a minha fé. Eu sei que o Senhor ressuscitado caminha do meu lado, mas assim mesmo eu ainda temo, porque não consigo abandonar-me inteiramente em tuas mãos. Socorre a minha fraqueza, Senhor.

Sei meu Senhor, que para vós não há “beco sem saída”, não há problema sem solução. Sei que o Senhor pode fazer jorrar água da pedra e sei que pode transformar água em vinho e pedras em pães. Sei que o Senhor dá ordens aos ventos e ao mar…, e sei que nenhum passarinho cai por terra sem a vossa vontade, e que os fios de meus cabelos estão todos contados (Mt 10,29-30). Eu sei Senhor que o Senhor cuida das aves do céu e dos lírios dos campos, que não semeiam e não ceifam, e o Senhor lhes dá o alimento e as vestes, que valem muito menos do que nós. Eu sei de tudo isto Senhor, mas a minha fé é fraca; me perdoe, me cure e aumente a minha fé Senhor! Eu não desisto de procurar-te e de alcançar uma fé firme.

Em teu Nome levanto a minha cabeça Senhor, e expulso o medo e a angústia de minha alma. Em teu Nome Senhor eu não temerei mal algum, porque sei que o Senhor é o meu Pastor e nada me faltará; eu sei que o Senhor é protetor da minha vida; eu nada temerei.

Deixo tudo nas tuas mãos agora Senhor, seja feita a Vossa santa vontade em minha vida meu Deus. Eu aceito tudo e estou pronto para tudo que o Senhor quiser para mim, pois não pode haver coisa melhor para mim. Entrego o meu passado, o meu presente e o meu futuro em tuas mãos; tudo seja teu Senhor. Faça tudo o que o Senhor quiser fazer de mim. Mesmo que eu perca todos os meus bens, mesmo que eu perca a minha vida, eu quero fazer a tua vontade Senhor. Eu sei que não me faltará nada porque estou em tuas mãos.

Eu aceito tudo Senhor, aceito tudo. Eu sou todo teu, e tudo o que sou e que tenho te pertence meu Deus. Não quero estar apegado a nada; e sei que o Senhor está me libertando de todas essas amarras que me prendem a este mundo. O Senhor me quer livre, desapegado e despojado de tudo. Agora entendo um pouco mais Senhor o que o Senhor está fazendo em mim com este sofrimento que às vezes esmaga a minha alma.

Sei que TUDO concorre para o bem dos que te amam Senhor (Rm 8,28) e eu te amo Senhor; sou miserável pecador, mas te amo. Então, sei que tudo o que o Senhor permitir que me aconteça será para o meu bem, ainda que eu não entenda nada do que esteja acontecendo comigo agora. Sei que no fogo desta provação o Senhor está me moldando, está me lapidando, está me salvando e mudando para melhor. Sei que é no cadinho do fogo do sofrimento que o Senhor purifica as almas. Dai-me a graça de suportar tudo Senhor, na fé, com paciência, resignação, te dando sempre graças. Sei que amanhã eu colherei os frutos de toda esta provação. Bendito sejas Senhor!

E por isso eu quero te louvar Senhor, porque eu creio que o Senhor me ama e nada me acontece sem que o Senhor permita. Seja louvado Senhor, seja bendito o teu santo nome, seja glorificado, exaltado, amado e servido ó meu Deus.

Não quero ser covarde e fugir da missão que o Senhor me der; quero assumir convosco e avançar com tua graça. Sei que convosco eu nunca recuarei pois sei que não me faltará a tua graça Senhor; o Senhor não dá a missão sem a graça necessária. Sei que esta missão é difícil, mas agradeço ao Senhor por me tê-la dado, e eu quero cumpri-la somente por amor a Vós.

Quero fazer tudo com a intercessão de Nossa Senhora, Jesus. Sei que Maria, tua Mãe e minha Mãe, me segue e não me deixa recuar. Quero fazer tudo em Maria, com Maria, por Maria e para Maria, consagrado ao Seu amado Coração de Mãe que me guia e protege.

Sei que o Senhor ressuscitado caminha a meu lado, eu seguro em tuas mãos, lanço-me nos teus braços. Sei que o Senhor cuida de mim. Diante de cada problema quero te perguntar: Como vamos resolver isto Senhor? Eu não sei mas o Senhor sabe. Dá-me teu Santo Espírito, dá-me tua sabedoria e tua força. Vem Espírito Santo, ocupa a minha mente e o meu coração. Quero ser teu ó Divino Espírito Santo, quero ser renovado em vós, na fé e no amor de Deus.

Não permito Senhor que a tristeza tome conta de mim. Quero alegrar-me SEMPRE no Senhor, porque o Senhor está perto (Fl 4, 4s). Em teu Nome eu lanço fora toda a tristeza de minha alma e toda preocupação. Em teu Nome não permito que minha alma seja sufocada e minha vida esmagada e estragada pela tristeza.

Não quero mais ficar olhando para a tempestade que me assusta Senhor, e me enfraquece a fé; quero apenas olhar para o Senhor, com olhar fixo e confiante, no meio da tormenta e da dúvida. Não me deixe ser engolido pelo medo da tempestade Senhor. Ainda que eu tenha de atravessar o vale da morte, não temerei, pois o Senhor vai comigo.

Não quero mais estar aflito Senhor, pois sei que nenhuma aflição vem de Vós, mas do inimigo malvado. Não me deixe cair em sua tentação Senhor e me livre de sua presença e de sua ação sobre a minha mente e minha pessoa.

Sei que o Senhor estará comigo sempre, para me livrar de todos os perigos.”

“Levanta-se Deus pela intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, São Miguel Arcanjo e todas as milícias celestes; sejam dispersos todos os seus inimigos e fujam de Sua face todos os que o odeiam. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

Retirado do livro: A Luta Contra a Depressão

(Fonte)

“Alguém que eu amava morreu!”

Dom Pedro Brito Guimarães – Arcebispo de Palmas (TO)

finados

“Alguém que eu amava morreu” é o titulo de um livro – sem querer fazer propaganda, recomendo a todos que o leiam – do autor Earl A. Grollman. Ao mesmo tempo, é um livro sobre a morte e sobre a vida. Uma verdadeira chacoalhada na nossa postura com relação à morte de um ente querido. Foi escrito para ajudar as pessoas que estão sofrendo com a perda de um ser amado – parceiro(a), filho(a), mãe, pai, irmão(a), amigo(a) – a lidarem com as emoções da dor da morte e do luto e a experimentar, com sabedoria, esperança e fé, novamente a alegria. Para além da literatura, esta é, afinal, a experiência de vida, pela qual todos nós passamos ou passaremos. O desejo mais profundo do coração humano é a imortalidade. Saber e sentir-se finito é um dos maiores dramas do ser humano. Morrer, nem pensar! Nossa vida é medida pelo tempo. Poucos são os que acham que já viveram demais. Todos se acham no direito de esticar, o mais que puder, a sua vida aqui na terra. O que fazer então para matar esta sede de infinito? Basta ler um livro, ou há algo mais profundo para meditar?

O cristianismo vem em socorro desta angústia humana, ao apresentar o maior presente que Deus nos dá: a vida eterna. A morte entrou no mundo pelo pecado. A vida eterna começa no batismo, atravessa a morte e não tem fim. Crer na ressurreição é um elemento essencial da fé cristã. Crendo na ressurreição, somos cristãos. Não crendo, não somos cristãos (cf.Tertuliano, em Catecismo da Igreja Católica, n. 991), pois, “se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã também é a vossa fé” (1Cor 15,14). Foi Jesus quem disse: “quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Ele já foi levantado da terra, na cruz. E já nos atraiu a Ele. Jesus é a nossa páscoa, nossa ressurreição e nossa vida: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá. E todo aquele que nele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês nisto?” (Jo 11,25-26). A fé na ressurreição é a base da fé em Deus. A vida, vista nesta ótica, é como o amor, nunca termina (1Cor 13,8). “Não morro, entro na vida” (Santa Teresinha). Quem crê em Deus crê na vida eterna. Quem tiver comido do seu corpo e bebido do seu sangue terá a vida eterna (Jo 6,54).

Por que ir ao cemitério do dia de Finados? O que a Igreja indica litúrgico e espiritualmente para este dia de Finados? Ela indica três motivos para se rezar pelos defuntos: a comunhão que existe entre todos os membros de Cristo, vivos e mortos; consolar, confortar e prestar ajuda espiritual a quem ainda está vivo; e, por fim, ajudar espiritualmente a pessoa que morreu a se purificar e chegar a Deus. Para este dia de Finados, destacaremos cinco atitudes que podemos ter e devemos fazer:

Visitar o cemitério: para meditar sobre o mistério da vida, da morte e da ressurreição. Ele guarda os corpos que serviram à vida, até a chegada da morte, à espera da ressurreição, no dia final. Foi nos cemitérios (catacumbas) que a Igreja se escondia das perseguições em Roma. Ali ela cresceu e aprendeu a respeitar a vida dos mártires da fé e a rezar por eles. Ir ao cemitério é lembrar-se da Palavra do Senhor de que todos somos pó, mas em Cristo voltaremos à vida. A visita ao cemitério desperta em nós a fé na ressurreição.

Rezar pelos defuntos: é uma obra de misericórdia. Santo Agostinho dizia: “uma lágrima se evapora, uma flor murcha, só a oração chega ao trono de Deus”. Oferecer a Deus o sacrifício de seu Filho, Jesus, feito uma vez por todas, mas renovado liturgicamente em nossos altares, suplicando a Deus a remissão dos pecados dos mortos que ainda poderão passar pela purificação.

Levar flores: simbolizam a saudade e o pedido de oração para que estejam na glória de Deus. Elas mostram que respeitamos os sepulcros dos mortos, em consideração à fé de que ressuscitarão no último dia. E que, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor, somos um só corpo. O que fazemos de bom redunda em benefício para todos, nesta ou na outra vida. Não leve ao cemitério apenas flores materiais, mas também flores espirituais da oração, da fé e do amor.

Acender vela: é um holocausto em miniatura. A vida é como uma vela acesa que se derrete diariamente até a consumação total na morte. Acenda velas, mas não esqueça que elas são o símbolo do Senhor Ressuscitado e da fé na vida eterna. Enquanto a sua vela se queimar, eleve uma prece a Deus por seus irmãos que já partiram. Ela substitui, perante a Deus, a pessoa que a acende e se consome como um holocausto oferecido a Deus.

Receber indulgência: para aqueles ou aquelas que visitarem o cemitério e rezarem pelos defuntos, de primeiro a oito de novembro, é concedida a Indulgência Plenária, nas condições costumeiras: a confissão sacramental, a comunhão eucarística e as orações nas intenções do papa (cf. Anotações para o dia de Finados, Diretório Litúrgico da CNBB 2015, p. 184).

Portanto, visitando o cemitério, limpando os túmulos, colocando flores, acendendo velas e rezando pelos entes queridos falecidos, mesmo depois de admitirmos a morte de alguém querido, haverá um salto de qualidade na nossa vida. Na visita ao cemitério reserve um tempo para a oração pessoal; acenda velas e peça que seus entes queridos cheguem à plena luz de Cristo; cubra suas sepulturas com flores que falam do seu amor; ajude na limpeza do ambiente dos túmulos; participe da celebração eucarística ou da Palavra e comungue, se puder; professe sua fé na ressurreição e na vida eterna. Cristo ressuscitado estará lá, neste dia, para enxugar nossas lágrimas, fortalecer nossa fé e aumentar a nossa esperança (cf. padre Francisco Sehnem, SJC, Revista Brasil Cristão, novembro / 2013).

“É melhor para nós, entregues à morte pelos homens, esperar, da parte de Deus, que seremos ressuscitados por Ele (2Mc 7,14). São José, padroeiro da boa morte, e sua esposa, a Virgem Maria, intercedam a Deus, agora e na hora da nossa morte. Que as almas dos fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz. Amém!

(Fonte)

Para trabalhar o tema de Finados com as crianças da catequese:

quando-algem-muito-especial-morre

Nada te perturbe

(Emmir Nogueira)

teresa-01Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa! Só Deus não muda. A paciência, por fim, tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta, pois só Deus basta.

Escrita há 500 anos, essa poesia de Santa Teresa de Jesus continua a ensinar o essencial: Só Deus basta! Mas, o que isso significa concretamente?

Vivemos sobressaltados, preocupados. Inquietos, passamos o dia tentando resolver mil coisas. Ansiosos, não conseguimos dormir bem. Preocupados, acabamos por meter os pés pelas mãos no desejo de evitar que aconteça o que nós consideramos “o pior”. Estressados, acabamos por nos irritar contra tudo e todos. Gritamos no trânsito, gritamos em casa, desmoronamos de cansaço.

O problema está, entre outras coisas, em achar que sabemos o que é o “melhor” e “pior” para nós. Uma vez estabelecido o que consideramos nos convir ou não, tomamos as rédeas para determinar o que consideramos “melhor”. Ocorre que tudo, mas tudo mesmo, passa e o que ontem nos parecia “o melhor”, hoje é, visivelmente, “o pior”.

A raiz da inquietação, estresse, preocupação e ansiedade que aos poucos nos matam, contudo, reside além do fato de tudo passar, reside na fé.

Há a fé que acredita em Deus e reza, contrita, o “Creio em Deus Pai”. Acreditar desse jeito, afirma São Tiago, até os demônios crêem e tremem. Nós, até cremos, quanto a tremer…

Há aquela “fé” que pede a Deus o que acha “necessário”, “imprescindível”, “melhor” e fica ressentida com Deus se ele não atende seu pedido por mais que peça através de todos os meios – diga-se de passagem, nem sempre lícitos. É a fé infantil, diria, até, “birrenta”. Essa fé, “contrariada”, muda de igreja quando não é atendida, assim como criança birrenta põe cara feia e diz aos pais que não é mais filho deles.

Há a fé madura, que crê no Evangelho e na Igreja e vive seus ensinamentos, custe o que custar. É a fé dos santos.

Há a fé que confia em Deus e a ele se entrega inteiramente, tranquila, pois sabe que ele é Pai e sempre providencia o melhor para nós. E, para Deus, o melhor para nós é a santidade.

É essa fé madura e inteiramente confiante no amor de Deus que não se perturba com nada. Sabe ser fiel a Deus e ao Evangelho na penúria e na fartura, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

Essa fé madura e confiante que é amada por Deus, não se espanta com nada. Nada a escandaliza, ainda que seja grande tristeza. Seus olhos não estão aqui na terra, mas fixos no céu. Sabe que, aqui na terra, tudo passa, tudo muda. Sabe que tudo pode nos enganar e iludir. Sabe, sobretudo, que Só Deus é o mesmo sempre. Só Deus não muda. Só o amor de Deus é sempre o mesmo, pois ele é amor em ato. Essa fé não vive para a terra nem valoriza o que à terra pertence. Vive para o céu, usando as coisas da terra para alcançá-lo.

Por isso tem paciência. Não aquela paciência de autodomínio, nem aquela que rói as unhas e balança as pernas para controlar a impaciência interior. Trata-se, aqui, da paciência-esperança, a paciência-fé, a paciência-amor.

É aquela paciência que sabe que Deus está no comando. Sabe que ele pode tudo e tudo realiza por amor. Está certa de que, no tempo de Deus – e não no seu! – ele mesmo resolverá da melhor forma de todas, sempre visando nossa santificação e a do mundo. Sabe que, ainda que tudo esteja negro, verá a vitória de Deus e que essa vitória nem sempre é tal qual pensamos.

Fé, caridade, esperança, paciência, confiança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Corretíssimo. Mas, quem é mesmo que “tem Deus”? Todos. Porém, Santa Teresa fala aqui daquele que conhece Deus não por palavras e teorias, mas pela oração e pelo amor. Em uma palavra, pelo relacionamento pessoal, relacionamento de amizade. Este, que ora com a Palavra, que tem a Deus como o centro de sua vida, que procura amá-lo em tudo, a este, nada lhe falta. Dele cuida o Pai muito melhor do que as aves do céu e os lírios dos campos, pois ele vale muito mais aos seus olhos.

Nada te perturbe, homem de pouca fé! Nada te espante, mulher de pouca esperança! Tudo, mas tudo, mesmo, passa, exceto Deus. Fica, então, com o Único que é digno do teu amor e deixa-o cuidar de ti. Espera. Confia. Espera sempre, confia sempre. Quem tem a Deus, quem o conhece, quem confia nele, vive de forma diferente, vive de olho no céu e de coração no coração de Deus. Por isso, é tranqüilo e feliz.

Só Deus basta. Dedica-te a Ele. Deixa-te amar por ele. Ama-o. Nada, então, te perturbará.

(Fonte)

A Experiência Autêntica

cristãos

O itinerário da espiritualidade cristã tem seis dados fundamentais, ou seja, uma experiência religiosa, quando autêntica, tem as seguintes características:

1.É uma experiência profunda. Torna-se algo inesquecível, marcante, envolvente, avassalador. A pessoa tem certeza que algo de importante, duradouro, profundo, aconteceu.

2.É uma experiência transformadora. Acontece a conversão, a mudança de vida. Mudo o modo de pensar e agir. A pessoa percebe que algo novo, transformante, aconteceu. Não sou mais a mesma pessoa, mudei, sou outra, sou diferente.

3.É uma experiência irradiadora. A pessoa comunica aos outros o que aconteceu. A experiência é partilhada e atinge positivamente as outras pessoas. Algo de cativante, atraente e encantador está acontecendo. Outras pessoas percebem, valorizam e crescem com a experiência partilhada que se tornou irradiante.

4.É uma experiência provada. Aparecem os obstáculos, as críticas, as oposições, as dúvidas. Acontece a manifestação do inimigo. Estas dificuldades, porém, não intimidam, pelo contrário, comprovam a veracidade da experiência, pois as pessoas se tornam ainda mais fortes, convictas e seguras da veracidade da experiência.

5.É uma experiência humanizadora. A pessoa adquire uma nova consciência, cresce, amadurece, principalmente na dimensão da responsabilidade e da fidelidade. Ela age com uma certeza interior, uma convicção firme, uma opção fundamental.

6.É uma experiência simples. A pessoa pode ter passado por altas iluminações, mas volta ao cotidiano. Como dizem os monges: “ninguém que teve grande experiência de Deus, deixa de descascar batatinhas”. Os grandes místicos levam uma vida normal, simples. Não se acham melhores que os outros. Pelo contrário, tornam-se mais compreensivos e misericordiosos. As pessoas de Deus, não são estranhas, exageradas, complicadas, mas, ao contrário, vivem o cotidiano com amor extraordinário.

Vemos, nestas seis características, os seguintes elementos: o encantamento inicial, a mudança de vida, a presença da cruz, a irradiação ou comunicação da experiência e a iluminação da vida. Geralmente, depois da experiência do encantamento, vem a provação, o deserto, a dúvida, os obstáculos. Todavia, estas provações levam para um grau maior de espiritualidade ou de iluminação. O mais bonito de tudo isto é que a verdadeira experiência de Deus faz a pessoa viver seu cotidiano com simplicidade, bom humor, humanismo. Nada de estranho, nem exagerado ou afetado acontece. Tudo o que dissemos tem hoje um grande valor, porque estamos vivendo uma época de misticismos excêntricos, complicados, endeusados. Com facilidade atribui-se dons, auréolas, poderes a pessoas que, mesmo em boa fé, não estão percorrendo o caminho da verdadeira experiência cristã.

Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina

O papel da Fé na busca pela Felicidade

Há um episódio muito interessante vivido por São Francisco de Assis e Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa) que li no livro “Os Segredos da Felicidade”, do Padre Alessandro Campos, leia a seguir:

francisco_antonio“Um belo dia, São Francisco convidou Santo Antônio para passear às margens de um rio turbulento e, então, pediu que ele tentasse enxergar o próprio reflexo nas águas do rio.

Santo Antônio, surpreso com o pedido, olhou e viu que as águas daquele rio estavam tão agitadas que seria impossível enxergar-se ali. Disse, confuso, que não conseguiria realizar a tarefa. Naquele instante, São Francisco explicou a Santo Antônio o sentido da Fé, afirmando que, quando se confia, mesmo em meio a águas turbulentas, é possível ver-se nitidamente.

Quando as águas estão paradas, é fácil enxergar, assim como é fácil ter fé quando não há problemas com o curso de nossa vida. mas quando os ventos sopram e as águas se agitam, sentimos medo e não mais enxergamos. Aquela visão límpida de antes é distorcida pelo peso dos problemas, do sofrimento, do vazio que nos angustia.

Do mesmo modo, acreditamos que Deus está conosco somente quando nossa vida está bem. Quando o sofrimento aparece, sentimos que Ele nos abandonou. No entanto, Ele continua conosco porque nunca nos abandona.”

A história de São Francisco e Santo Antônio nos ensina a essência da Fé. Ter Fé é enxergar principalmente quando as águas estão agitadas. Ter Fé é continuar confiando mesmo quando tudo está confuso e difícil, embora não seja fácil. Por isso, concluímos que a Fé, além de ser um dom divino, é também uma escolha. É preciso tomar a decisão de acreditar todos os dias, mesmo não tendo nenhum consolo, mesmo quando tudo parece perdido. Deus nos acompanha durante nosso sofrimento e não nos deixa sozinhos nunca, mas vigia para que nossa Fé amadureça.

O sofrimento não significa que Deus não nos ama ou que não se importa com nossa felicidade. Esse sofrimento é causado por uma Fé imatura ou por uma visão distorcida de Deus. Quem tem uma Fé madura sente o amor de Deus de forma tão extraordinária que nada – absolutamente nada, nem o sofrimento – pode torna-lo infeliz. O sofrimento pode lhe causar dor, mas não infelicidade.