Pequeno Rebanho

(Vandeia Ramos)

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A expressão de Jesus no início do Evangelho é de ternura. Somos as ovelhas do Senhor, unidas em um pequeno rebanho muito querido. Nós nos sentimos como se estivéssemos sendo acarinhados… Ele quer nos mostrar seu cuidado para conosco, para que confiemos e não tenhamos medo das situações em que vivemos, de atender ao seu chamado, de olhar reto para o Céu, para o Reino de Deus. Não é uma simples promessa a se realizar em um futuro incerto. O Reino já acontece em nós!
Não é por mérito, por algo que tenhamos feito, mas simplesmente porque o Pai quis! É gratuito, é por amor! Deus nos quer com Ele, fazendo parte de sua vida já aqui, até chegarmos à plenitude do Céu. Esta fé elimina muitos possíveis fardos que possamos acreditar que tenhamos que carregar… E chama somente para que estendamos a mão e aceitemos sermos conduzidos.
Isso significa que precisamos nos desapegar de tudo que possa atrapalhar nossa caminhada, que possa nos reter. E isso só acontece na confiança plena de quem nos chama, à medida em que vamos nos conformando, tomando a forma de cristãos, deixando a graça agir em nós e a partir de nós.
Envolve prontidão para a ação, para atender aos que precisam, a estarmos atentos aos sinais que nossos catecúmenos apresentam, de problemas que possamos ajudar; de desenvolver a sensibilidade de ver as necessidades dos que estão à nossa volta, de trabalhar para que os demais descansem. Seguindo o modelo do lava-pés, nossa casa é sempre a primeira referência, da pia de louça ao quarto, da roupa para lavar e passar a colocar as coisas no lugar. Este testemunho silencioso nos forma para a atenção aos demais.
Somos pessoas cheias de dons. Eles nos foram dados por Deus para que façamos uso em prol dos demais. Ele nos tornou Seus arautos, anunciadores da Boa Nova com nossa própria vida. Dia a dia, inúmeros bens são nos confiados, da crescente compreensão da Mensagem Evangélica ao suspiro de cada instante. Sempre para aprendermos a fazer de nossa vida uma oferta de amor e sacrifício.
Quando chegar o momento em que Jesus virá nos chamar, e não sabemos quando será, podendo mesmo ser agora, o que temos para apresentar? O que fizemos com tanto que recebemos? Todo o tempo que recebemos, todo o acesso a bens espirituais, a vida em comunidade na Igreja, a família que nos cuida e somos chamados a cuidar, nossos estudos e trabalhos?… Como nos apresentaremos diante dEle?
Participamos dos bens celestes através dos dons que recebemos. Isso envolve testemunho e anúncio, antecipação do Reino, iluminar o mundo, receber resistência das trevas.
A fé que sustentou gerações é nossa base. Nela descansamos no Senhor frente às dificuldades e alegrias, apelos, acomodações e certezas. Conforme afirmamos a fé frente às adversidades, crescemos na certeza de que nosso lugar é o céu. Aqui é somente um lugar de passagem, para que possamos crescer em Deus e aprendermos a conviver com os demais, preparando-nos para o Reino definitivo.
Assim, na herança que recebemos da Igreja, podemos cantarmos juntos com os nossos que “feliz é o povo que o Senhor escolheu por sua herança!”
Somos muito felizes por ter nossa vida como a vinha do Senhor. Que Ele ao voltar nos encontre “em paz, puros e santos”.

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Aos pais, o desafio de amar

(Vandeia Ramos)

Acabarmos o último domingo do ano onde tudo começa: na família. Do ventre da mãe até o aconchego do lar, Deus nos colocou em um Paraíso. Este é seu plano original para nós. Portanto, o amor entre os mais próximos será também o nosso maior desafio ao longo da vida. Eu diria mesmo que os problemas do mundo passam pela não compreensão ou por um entendimento deturpado do que seja família. Afinal, da família doméstica para a família humana é só o tamanho dos nossos braços…
Aqui temos a pessoa de Maria. Romper com a limitação cultural do que seja a Mulher e a Mãe ajuda a entendermos o que é ser mulher e mãe no mundo, bem como a dificuldade que muitos têm em olhar para a Mãe de Jesus e chamá-la de Nossa Mãe. É a fala dela que ouvimos no evangelho de hoje junto a Jesus. É pelo “sim” de Maria que começa nossa Redenção, é seu silêncio em momentos difíceis que garante a vida do Filho, é sua presença discreta que garante as necessidades, sua dor que sustenta a Igreja aos pés da cruz. Maria, Mãe e Mulher, pré-figurada nas grandes matriarcas do Antigo Testamento, espelho de toda mulher cristã no Novo.
José, o humilde José, que sabe da gravidez de três meses de sua esposa e não se sente digno de assumir a paternidade do Filho de Deus. Ele confia em Maria e na grandeza do que o Pai pode fazer através dos seus. E precisa da graça que o anjo traz no sonho para deixar-se conduzir para nos ensinar o que seja a paternidade. A partir de então, é a ele que o anjo se dirige para conduzir a Família de Nazaré. Isso não lhe reveste de um autoritarismo, mas faz com que cresça em humildade em ser o guardião de tão grande tesouro.
Jesus, o Filho de Deus, que quis vir ao mundo através de uma família. Ele se torna Filho de Maria e de José, com tudo que isso significa. A Palavra pela qual tudo foi feito, que deu o mandamento no Monte Sinai de “amar pai e mãe”, quis um pai e uma mãe. Quis viver o Paraíso em ser Filho na Família de Nazaré. E ensinou a humildade a nós, na grandiosidade do que é crescer em obediência aos pais, mesmo sendo, pela lei de então, maior de idade após os 12 anos.
Deus não nos manda amar nosso pai e nossa mãe. O mandamento usa a palavra “honrar”, que também pode ser traduzida por “glorificar”. Os pais não podem estar abaixo de nós, pois são nossos pais. Na Sagrada Escritura, o amor é reservado às pessoas maduras. Amar pai e mãe significa ter alcançado a maturidade enquanto pessoa, que nossa fé nos ajuda a percorrer.
Na honra aos pais, temos a continuidade dos ensinamentos de Deus, que nos agraciou com um plano específico para cada um de nós, iniciado em nossa família, em sua história, em seus dramas. Aprender a amá-los é a resposta de agradecimento a Deus pelo dom da vida, dado através da história desta maria e deste josé, a quem nós somos confiados. Sim, o Pai sabia de tudo o que isso iria significar para nós e mesmo assim nos confiou a eles. Junto, nos deu a graça de ser Sua presença de santidade em nossa família, olhando para nossos pais pelos olhos da fé, de Deus que nos dá o paraíso através do encontro destas pessoas.
Mas temos muito o que aprender com a Família de Nazaré: precisamos ser cada dia mais parecidos com Jesus, Maria e José, para que a graça de Deus possa ser melhor identificada no mundo. Que nossa família, nesta oitava de Natal, possa cantar o quanto é feliz em temer o Senhor e trilhar seus caminhos! E que 2019 seja a estrada de graça em que aprendamos a agradecer a Deus tudo o que recebermos!

“Eis que Eu venho”

(Vandeia Ramos)

Antevéspera de Natal e a expectativa já está no ar. A Igreja e as casas arrumadas, as famílias finalizando as preparações, o sentimento da ausência de alguns doendo mais forte… Depois de um ano tão intenso, começamos o ano litúrgico com a espera Daquele que vem para fazer tudo novo.
Na profecia de Miqueias podemos ter bem claro como Deus se utiliza das ações humanas que, mesmo com fim em si mesmas, são renovadas para que a Glória se manifeste. Mesmo com o censo obrigando José a ir até Belém fazer o recadastramento, o profeta já tinha anunciado que ali nasceria o Salvador. Aqui identificamos com facilidade Quem é que comanda a história e intervém na hora certa em nosso favor. Também é no nosso dia a dia.
A abertura dos corações de José e Maria nesta confiança faz com que não se prendam nas dificuldades, no atravessar Israel, Samaria e parte da Judeia, com uma gravidez chegando ao fim, para irem até Belém. Eles sabem que Deus cuida de nós. Não ficam presos no mimimi, na reclamação do calor, da areia do deserto, no autoritarismo de Herodes, nas condições insalubres de vida. Eles simplesmente seguem fazendo o que precisa ser feito. A preocupação está centrada no Filho que está chegando. Fazem o que lhes cabe e seguem o caminho.
É nesta confiança que nove meses antes Maria atravessou o mesmo caminho para ir até a casa de Isabel, logo no início de sua gravidez. Ela não chamou as amigas para celebrar a notícia, não marcou evento no Facebook, não começou a organizar o chá de bebê, não colocou anúncio no jornal nem mesmo foi a José. Ela foi ao encontro de quem precisava, como faz conosco hoje. E temos um dos trechos mais belos e ternos no Evangelho, da “Mãe do meu Senhor” que nos visita, sem merecermos.
No início da gravidez, Isabel, cheia do Espírito Santo, sem ultrassonografia, diz que sua prima está grávida, que é um Menino, e que este Menino é o seu Senhor. Aqui temos a centralidade da Encarnação na defesa da Vida, desde o início da gestação. Temos aqui a confiança de Maria, “que acreditou” e acredita quando somos fracos para não acreditarmos, sustentando nossa fé. Nesta confiança leva Jesus até Isabel e a presença da Mulher e sua descendência (Gn 3, 15) santifica João Batista no ventre de sua mãe. Pela “dobradinha” Mãe e Filho, o antigo se faz novo, a alegria inicia pelo cumprimento da Promessa do Senhor.
Hoje, nossa face já mostra os sinais de nossa salvação. Que possamos abrir as portas de nossas casas e de nossos corações para acolhermos a Família de Nazaré que está chegando. E que nossa família seja um pouco de Jesus, Maria e José. Um Feliz Natal para todos!

Cornélia, mãe dos gracos

 Certa vez, na Roma antiga, houve uma festa de gala. Dessas em que todo mundo aparece com as suas melhores roupas, e as mulheres com as suas joias mais preciosas.

Naquela festa, caiu na vista de todos a Cornélia. Ela chegou vestida com extrema simplicidade, trazendo seus dois filhos. Sentou-se à mesa, colocou o menor no colo e abraçou o outro, que estava recostado em seu coração.

Uma das madames presentes disse a ela: “Cornélia, você esqueceu as suas joias?” Ela respondeu: “Não me esqueci. Eu as trouxe. São estes meus filhos”. E os abraçou.

Cornélia era uma das mulheres mais belas de Roma. Seu esposo chamava-se Graco. Os dois filhos ficaram conhecidos como “Os Gracos”. Eles se tornaram cidadãos notáveis em Roma, e o povo sabia que era devido à sua mãe, a Cornélia.

Mais tarde, foi erguida, numa praça de Roma, uma estátua de Cornélia com os dois filhos e os dizeres: “Cornélia, mãe dos Gracos”. A frase já dizia tudo: Os gracos foram o que foram, graças à mãe.

O nosso grande poeta Tobias Barreto chamou a Pátria Brasileira de “Cornélia, mãe de cem Gracos”. Com isso, ele quis aludir aos muitos heróis que a nossa Pátria gerou.

Maria Santíssima é outra mãe que viu nos filhos as suas joias. O primeiro deles é de valor infinito, pois é Deus encarnado. Que ela interceda pelas mães brasileiras.

Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no Céu” (Mt 6,19-20)

(Pe. Antônio Queiroz, C.Ss.R -www.A12.com)

Padrinhos são bússola

Eu estou muito feliz por ter sido convidada para ser madrinha da minha sobrinha que vai nascer em dezembro, por isso pesquisei sobre este tema, importante para a Catequese da Iniciação Cristã que começa justamente com o Batismo.

“Os padrinhos e madrinhas, e notadamente todos os seculares que prestam o seu auxílio à hierarquia eclesiástica na dilatação do reino de Cristo, ocupam um posto honorífico, embora muitas vezes humilde, na sociedade cristã, e podem muito bem sob a inspiração e com o favor de Deus subir aos vértices da santidade, que por promessa de Jesus Cristo nunca faltará na Igreja.”

(CARTA ENCÍCLICA MYSTICI CORPORIS – PAPA PIO XII)

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Ser convidado para ser padrinho ou madrinha de um bebê é uma honra, e, como todo grande privilégio, esse também revela uma grande responsabilidade.

Padrinhos terão uma influência muito grande na vida da criança, por esse motivo, os pais devem escolher alguém que desfrute das mesmas crenças, fé e valores que eles mesmos defendem.

É dever dos padrinhos auxiliar no cuidado e no crescimento dos afilhados, sendo muito mais importante isso do que presentear com bons brinquedos, mas permanecer ausente ou silencioso no tocante à criança.

Um casal de padrinhos é, por definição, outros pais, o que significa que uma criança pode contar com mais esse casal para sua orientação, apoio e bem-estar.

É uma função tão importante que, através da escolha, os pais afirmam a ideia que, na ausência deles, confiam plenamente nesse outro casal para cuidar de seu filho.

Como auxiliadores dos pais, os padrinhos devem incentivar a prática saudável da religião que partilham, assim como obedecer aos limites impostos pela função, sem ultrapassar as demarcações que dizem respeito somente aos pais.

Geralmente, a escolha recai sobre pessoas a quem os pais admiram e gostariam que seus filhos tivessem como espelho.

Uma bússola indica sempre, a direção certeira, assim como os padrinhos que, com dedicação e exemplo de vida, apresentam o caminho correto aos seus afilhados!

Exortação “Amoris laetitia”: a alegria do amor na família

 

 

a alegria do amor na família

Foi publicada na manhã desta sexta-feira, dia 8 de abril a Exortação Apostólica pós-Sinodal do Papa Francisco sobre a família. “Amoris laetitia”, a “Alegria do Amor” é um texto de nove capítulos no qual o Santo Padre recolhe os resultados de dois Sínodos dos Bispos sobre a família ocorridos em 2014 e 2015 citando anteriores documentos papais, contributos de conferências episcopais e de várias personalidades.

É uma Exortação Apostólica ampla com mais de 300 parágrafos e que nos primeiros 7 evidencia a plena consciência da complexidade do tema. Em particular, o Papa escreve que para algumas questões ”em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto, “as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (…), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”.

Capítulo primeiro: “À luz da Palavra”

No primeiro capítulo o Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras, em particular, com uma meditação acerca do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia ”aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares”(AL 8).

Capítulo segundo: “A realidade e os desafios das famílias”

Partindo do terreno bíblico, o Papa considera no segundo capítulo a situação atual das famílias, mantendo ”os pés assentes na terra” (AL 6) como se pode ler na Exortação. A humildade do realismo ajuda a não apresentar ”um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são”(AL 36). O matrimônio é “um caminho dinâmico de crescimento e realização”. “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las”(AL37) refere o Papa Francisco no seu texto, pois, Jesus propunha um ideal exigente, mas ”não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera” (AL 38).

Capítulo terceiro: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”

O terceiro capítulo da Exortação é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimônio e da família. Em 30 parágrafos ilustra a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Fazem-se inúmeras citações da Gaudium et spes do Vaticano II, da Humanae vitae de Paulo VI, da Familiaris consortio de João Paulo II.

O Papa Francisco neste capítulo terceiro lembra um princípio geral importante: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitem uma capacidade de decisão. Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza a doutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (AL 79).

Capítulo quarto: “O amor no matrimônio”

O amor no matrimônio é o título do quarto capítulo desta Exortação e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de S. Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor 13, 4-7). Este capítulo desenvolve o carácter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: ”não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimônio como sinal implica um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus” (AL 122).

Também neste capítulo uma reflexão sobre o amor ao longo da vida e da sua transformação. Pode-se ler no documento: “Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade” (AL 163).

Capítulo quinto: “O amor que se torna fecundo”

O capítulo quinto desta Exortação Apostólica foca-se sobre a fecundidade, do acolher de uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. A “Amoris laetitia” não toma em consideração a família ”mononuclear”, mas está bem consciente da família como rede de relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimônio tem um profundo carácter social (cf. AL 186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.

Capítulo sexto: “Algumas perspetivas pastorais”

No capítulo sexto da exortação o Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. Em particular, o Papa observa que ”os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias” (AL 202). Se, por um lado, é necessário melhorar a formação psico-afetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro ”pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados” (AL 202).

Também neste sexto capítulo uma importante referência à preparação para o matrimônio e do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que ”cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração” (AL 232).

Espaço neste capítulo para o acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas. É colocado em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito. Ao mesmo tempo é reiterada a plena comunhão na Eucaristia dos divorciados e em relação aos divorciados recasados é reforçada a sua “comunhão eclesial” e o acompanhamento das suas situações que não deve ser visto como uma debilidade da indissolubilidade do matrimônio mas uma expressão de caridade.

Referidas também as situações dos matrimônios mistos e daqueles com disparidade de culto, e a situação das famílias que têm dentro de si pessoas com tendência homossexual, insistindo no respeito para com elas e na recusa de qualquer discriminação injusta e de todas as formas de agressão e violência. No final do capítulo uma especial nota para o tema da perda das pessoas queridas e também da viuvez.

Capítulo sétimo: “Reforçar a educação dos filhos”

O capítulo sétimo é integralmente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. É ressaltado pelo Santo Padre que “o que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (AL 261).

A seção dedicada à educação sexual intitula-se muito expressivamente: «Sim à educação sexual». Sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber ”se as nossas instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade”. A educação sexual deve ser realizada ”no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua” (AL 280) – lê-se na Exortação. É feita uma advertência em relação à expressão ”sexo seguro”, pois transmite ”uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez do acolhimento”. (AL 283).

Capítulo oitavo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”

O capítulo oitavo faz um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: ”acompanhar, discernir e integrar”, os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a ”lógica da misericórdia pastoral”.

As situações ditas de irregulares devem ter um discernimento pessoal e pastoral e – segundo a Exortação – “os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis”.

Em particular, o Santo Padre afirma numa nota de pé de página que “em certos casos poderá existir também a ajuda dos sacramentos”, recordando que o confessionário não deve ser uma sala de tortura e que a Eucaristia “não é um prêmio para os perfeitos, mas um alimento para os débeis”.

Mais em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: ”é compreensível que não se devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos” (AL 300).

O Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja ”sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes” no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre «as normas e o discernimento», afirmando: ”É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem descuidar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma” (AL 304).

Espaço ainda neste capítulo para a lógica da misericórdia pastoral e para o convite do Papa Francisco nas suas palavras finais: «Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximarem-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja» (AL 312).

Capítulo nono: “Espiritualidade conjugal e familiar”

O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, ”feita de milhares de gestos reais e concretos” (AL 315). Diz-se com clareza que ”aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística” (AL 316). Tudo, ”os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição” (AL 317).
No parágrafo conclusivo, o Papa afirma: ”Nenhuma família é uma realidade perfeita e confecionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (AL 325).

(Fonte)

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