Administradores de Bens, somos catequistas

(Vandeia Ramos)

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Ao longo de nosso serviço pastoral, bem como em nossa vida, aprendemos a agradecer, a sermos sensíveis aos dons e graças que recebemos. Mas também sabemos que estes não são nos dados por mérito e nem limitados a nós. Recebemos para que possamos compartilhar. E é isso que fazemos na Iniciação Cristã.
O que vamos aprendendo não é para enriquecimento próprio, para ser guardado embaixo do travesseiro. Deus nos apresenta suas riquezas do Reino para que, através de nós, cheguem aos demais. Somos convocados a este serviço: de anunciar a Boa Nova, Deus entre nós, em nós.
Temos uma responsabilidade que faz com que a alegria diminua a dor do mundo, atenue seu sofrimento. Através de nós, a esperança se espalha e permanece – até o fim! Através de nossa disponibilidade, a Palavra se encarna no mundo. Se há os que agem contra, oportunistas e aproveitadores, se há os que conseguem espalhar as trevas, mais ainda é necessário que os filhos da Luz se manifestem, que o Sol brilhe no mundo, que alcance o que nós sozinhos somos incapazes.
É preciso fazer uma escolha diária, uma decisão entre servir e ser servido. Não somos os donos da riqueza do céu. A autoridade da Igreja está no serviço, da humilde ação junto aos que mais precisam, da manifestação da justiça e da paz, do aceitar muitas humilhações para que nos identifiquemos com o Crucificado e com Ele a Ressurreição se realize.
Isso envolve atenção especial com as autoridades, tanto eclesiásticas como civis, familiares e de trabalho. O conceito de autoridade perpassa as relações humanas, não em uma hierarquia de mérito, e sim de serviço. Sabemos pela frágil posição que ocupamos junto aos nossos catecúmenos o quanto, muitas vezes, é difícil liderar, considerar todas as necessidades e assumir atitudes sem um critério refletido com tempo suficiente.
Pensemos nos pais, nos líderes paroquiais, nos postos de governo. Quantas influências, grupos em posições opostas e muitas vezes conflitantes, diversidade de necessidades a atender, escolhas nem sempre fáceis de assumir.
Sabemos que Deus é o Senhor de todas as coisas e que nos envia seus anjos para nos acompanhar e guiar. Nossas lideranças também os têm, mesmo que não sejam conscientes. Não somente como pessoas, mas também como lideranças de um povo, seja ele restrito ao município e mesmo à nação. Quanto mais alto na hierarquia, mais pessoas em volta, mais precisa de discernimento espiritual para agir em prol do bem comum. A responsabilidade com todos envolve consequências em sua própria vida e no modo como se relaciona com Deus.
O valor de um governo não é se concordamos ou não com posições políticas e / ou ideológicas de suas lideranças, e sim no bem estar da população, em sua dignidade respeitada e suas necessidades atendidas. A justiça gera a paz. E precisamos ser testemunhas de que oferecemos nossa vida por Deus, através de nosso respeito aos que nos lideram, bem como no oferecimento de orações por eles. Rezar pelas lideranças é rezar pelos que estão sob sua responsabilidade. Daí o ensinamento de que a política é uma forma privilegiada de caridade.
O que não podemos alcançar, o que humanamente não se pode fazer, temos a certeza de que Deus pode. E isso é um de seus mistérios, de escolher pessoas diferentes, em posições diversas, para que o Reino se manifeste. E o espaço público e civil não está isento de sua ação. Muito pelo contrário.
Na sensibilidade de nosso discernimento, no olhar evangélico que precisamos aprofundar, na atenção ao cuidado com os que mais precisam, na oração constante pelas lideranças, manifesta-se nosso louvor a Deus, que faz chegar sua graça e bênçãos a todos, através de pessoas como nós. Assim, podemos louvar que sua justiça se manifesta junto aos de boa vontade, e sua paz permaneça entre nós. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ir aonde Jesus deve ir

(Vandeia Ramos)

Dentre tantos, Jesus nos escolheu. Não para ficarmos na arquibancada ou no banco da Igreja, e sim para nos enviar à sua frente. Muitas vezes somos os primeiros a anunciar a Boa Nova a nossos catecúmenos. Sabemos que é uma missão grandiosa, o quão inútil e insuficientes somos, que é preciso muito mais para a centralidade do Evangelho: a vida em comunidade a partir de Jesus Cristo. Somos chamados a sermos discípulos que apontam para esta realidade, de inserir os que nos são colocados sob nossa responsabilidade no cotidiano da vida da Igreja, com tudo o que isso significa.
Formar novos discípulos não termina com nossa ação. É preciso que eles sejam acolhidos e orientados, dando continuidade à sua caminhada. Pastorais e movimentos precisam estar em diálogo com a catequese para abrirem-se aos novos, continuando a própria formação de acordo com seu servir na Igreja.
Também precisamos ter a sensibilidade de compreendermos que o anúncio é exigente, permeando a vida e formando uma nova pessoa em Jesus Cristo. Isso vai configurando a cada um de nós e aos nossos de um sentido de vida que frequentemente vai contrastar com uma cultura estruturada pelo pecado. E a luz vai incomodar as trevas… Isso é só um chamado à realidade, não ameaça ou para termos medo. É preciso saber que incômodos, perseguições e adversidades são comuns a quem segue o Evangelho. Justamente assim que temos o discernimento de percebermos quem somos e o que fazemos.
Somos portadores da paz. Não precisamos ir armados, esperando o pior, com resposta pronta para tudo. Lidamos com pessoas, muitas vezes de coração ferido, magoadas, com uma história em que o problema cresceu tanto que escravizou, viciando a vida. Nossa presença precisa iluminar, nosso olhar perpassar a superfície, nossa fala alcançar o íntimo, o silêncio ser amoroso. Muitas barreiras podem ser derrubadas com um sorriso e um abraço. Outras, levam tempo. Ainda outras, não nos cabem. Façamos o nosso melhor e sigamos em frente com a consciência de sermos guiados pelo Espírito, retornando a Deus todo o nosso viver.
Sem pressa, é importante vivermos o momento que nos é oferecido como presente. Estejamos com as pessoas sem nos preocuparmos com a quantidade e com a missão seguinte. Aprendamos a receber tudo que nos cabe em uma situação, sejam coisas boas ou mesmo humilhações, aprendendo a calar e a humildade, rezar e seguir nos passos de Jesus. Se Ele passou momentos difíceis por aqui, não esperemos que conosco seja diferente. Mas também teve encontros com pessoas que o amam e morrem por Ele. Sejamos um destes.
Fazer-nos outros cristos na terra é a missão de discípulo. Na catequese, como nas demais atividades de nossa vida, somos nós que recebemos primeiro o aprendizado: identificamos os pontos importantes do encontro, pensamos como melhor desenvolver, os instrumentos necessários e acompanhamos se os mesmos foram bem recebidos. Neste movimento, reservamos um tempo para repensar a vida à luz da Boa Nova, muitas vezes citando situações pessoais para ilustrar. Vamos percebendo o quanto vencemos grandes batalhas por não estarmos sozinhos. A realidade do céu é cada dia mais firme.
Ser Igreja no mundo é ser permanentemente alimentados por esta Mãe, que nos forma desde o batismo e nos acompanha até o último respiro. Nosso cansaço é depositado em cada Eucaristia, a partir da qual somos enviados como mensageiros da caridade ao mundo. Pela Igreja somos cuidados por Deus, em tudo que precisamos, desde o Pão ao Amigo, da família de Nazaré ao trabalho nosso de cada dia. Não estamos sozinhos! Jerusalém se torna nossa casa.
Somos todos irmãos, unidade que abrange a diversidade de povos, raças, culturas, idades, nem sempre fácil de conviver, mas com a certeza de que não estamos ali por nós mesmos. A paz e a misericórdia que recebemos com nossas próprias dificuldades são a cura de nossas feridas, que também são oferecidas através de nós. Como Cristo crucificado, chegamos flagelados, cansados, machucados. Carregamos as cicatrizes como parte de quem somos, bem como sinal do cuidado que recebemos. Aprendemos que nossa dor é instrumento de proximidade com muitos e que, cuidando dos demais, a nossa ferida é cuidada.
Assim, nosso canto não é solitário, mas em família. Juntos, podemos proclamar as maravilhas que nos faz o Senhor através uns dos outros, anunciando a grandiosidade de sua obra através de Jerusalém, a Mãe Igreja que reúne, cuida e prepara a cada um de nós para o Céu.

Catequistas, embaixadores de Cristo!

(Vandeia Ramos)

O Evangelho de hoje é conhecido tanto como Evangelho do Filho Pródigo como Evangelho dos Dois Irmãos, o que traz duas perspectivas diferentes. Quando nossa atenção recai sobre o Filho Pródigo, a figura do Pai se destaca. Tradicionalmente lemos nós mesmos, pecadores insistentes, e nossa permanente necessidade da misericórdia de Deus. A ordem é simples: vivemos na casa do Pai, mas frequentemente desviamos a atenção e acabamos sendo atraídos para coisas que o mundo nos oferece: vida fácil, prazer, falsas amizades, diversão desregrada… tudo centralizado no que suponhamos ser uma necessidade ou mesmo o que nos deixamos convencer como sendo o melhor. Claro que, quando o dinheiro, a saúde, a beleza, a juventude… acabam, ficamos abandonados à própria sorte, entre os miseráveis, os impuros, os porcos. Nem seu alimento, o resto dos demais, temos permissão de comer. Quantos de nossos irmãos não estão esquecidos nestas condições?…
Para uma família judaica tradicional, fica faltando uma personagem importante, que dificilmente aparece em público, mas está em momentos decisivos: a Mãe. Ela não só se ressente da ausência do Filho, como sua tristeza sensibiliza a família. Em toda visita, ela recebe a esperança de ter notícias. Há os que defendem que é esta tristeza-esperança que sustenta a sensibilidade do Pai. Fazemos rapidamente a relação com Nossa Senhora.
E temos o Irmão Mais Velho. Quantas vezes não nos colocamos como os certinhos, que não hesitam em colocar o dedo na cara de tantos, acusando-os de pecadores, pagãos… Caso nós estivéssemos no lugar do Pai, o que faríamos com nosso Irmão? O que já nos acostumamos fazer com aqueles que se afastam da família por diversos motivos? E os que não vivem a mesma fé que nós? Que não concordam com nossa opção política, profissional, moral?
Toda vez que leio este Evangelho, lembro de uma pregação do Frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. Ele identifica o Filho Mais Velho, não como um de nós, egoísta e moralmente centrados. Ele diz que Jesus é o Primogênito. Ele não fica limitado à casa do Pai, cuidando de seus negócios. Jesus vem até nós, vai ao encontro de seus irmãos, para tentar levar-nos de volta. Caso não consiga, não nos deixa sem o necessário para viver, à mercê de porcos.
Nós não somos iniciantes na fé, somos catequistas. Temos um caminho de vivência em contínua misericórdia de Deus para conosco. Ser Filho Pródigo, abandonado às misérias de porcos, não responde devidamente ao nosso perfil. Então o de Filho Mais Velho, de nossos catecúmenos, fica melhor. Somos os que se colocam como os “certinhos”, detentores de um código moral legalista, rápidos em julgar e lentos em acolher? Não estou falando de pieguismos, de que devemos fechar os olhos para o pecado. Sem este discurso em que nos colocamos como juiz que critica quem se coloca com juiz, e que não chega ao necessário.
Temos muitas demandas sociais que gritam de dor, que assumem atitudes e movimentos que muitas vezes se apresentam contra a fé que cremos. Estamos entre uma estrutura social que impõe fardos pesados aos demais. Acusamos a vítima de seu próprio sofrimento e dor, colocando-nos frequentemente ao lado dos que a fazem sofrer. Sem direito, assumimos o lugar do Pai, afastando-nos emocionalmente dos irmãos perdidos entre as misérias do mundo, em uma postura que vai do indiferente ao acusador. O discurso comum reforça o conflito, o confronto, a raiva.
Perante a dor do outro, que tem sua dignidade humana ameaçada, o que se espera de um cristão? O que Jesus e/ou Nossa Senhora fariam em nosso lugar? O Pai não se preocupou se entre os hebreus que saíram do Egito haviam os que tinham um caráter discutível, Ele enviou o Maná para todos. Também não era de modo permanente, mas com o tempo de que pudessem colher o fruto do próprio trabalho.
Somos “embaixadores de Cristo”, através de quem Jesus chega aos demais. Somos os que continuamente deixam suas casas para ir ao encontro dos que mais precisam, pois estes já não têm condições de se levantarem por si e caminhar. Somos enviados para aliviar o jugo de sua condenação, assumindo sobre nós sua dor, carregando sobre nós o julgamento dos que “dize com quem andas e eu te direi quem és”. Enquanto não conseguem caminhar sozinhos, nós cuidamos de suas feridas. Um “olho nos olhos”, uma presença que diz ao outro que ele não está sozinho, uma mão estendida, fazem mais do que discursos raivosos e condenativos, que mais reforçam a miséria do que restabelece a dignidade.
Só quem se percebe em sua limitação e continuamente vive a misericórdia, identifica a dor dos que gritam, ainda que usem palavras que escondem suas feridas profundas em raiva e ódio. Só assim podem anunciar em cada atitude quão suave é o Senhor!

Guiados pelo Espírito no deserto

(Vandeia Ramos)

“Jesus, cheio do Espírito…no deserto, Ele era guiado pelo Espírito”. É comum nossa atenção ao Evangelho de hoje ser dirigida ao diabo. A força deste personagem é a de quem contrapõe a Jesus, tentando levá-lo ao pecado. É o recurso que São Lucas apresenta para que nos identifiquemos com Jesus e que a relação é pessoal. Quero chamar a atenção para a presença silenciosa do Espírito. Somos católicos, batizados, assíduos à Eucaristia e à Confissão. Então também somos cheios do Espírito. E nossa vida com frequência é um deserto. Esta passagem nos lembra quem nos leva e nos acompanha na aridez.
Em época de quaresma, Jesus não come nada. Ele sabe que tem uma missão difícil à frente e se prepara. Não espera chegar os problemas, não vive buscando a alegria efêmera, não senta e aguarda ser servido. Cheio do Espírito, deixa-se guiar. Junto, o diabo está presente. A Escritura não avisa sua chegada, só apresenta o diálogo. São três intervenções: o alimento do pão, o poder e a glória dos reinos, e a adoração ao pecado.
Jesus não dialoga, não bate papo, não “ouve”. Ele rompe com Gn 3, quando o primeiro casal, que cai na armadilha da serpente e à ela se associa, deixando Deus em um lado oposto. Quando Jesus fala, é com a própria Palavra de Deus. Aqui está o jogo entre o ser, o ter e o poder. Nós, como o primeiro casal, acabamos por abrir a guarda e somos imprudentes. Quanto nos oferecem e a gente para e ouve? “Se és…” confrontando-nos, questionando quem somos – nosso orgulho entra em cheque. Quanto já se tentou nos diminuir? Comprar? Não são os tipos de pecado que temos aqui? Frequentemente, ao tentarmos nos autovalorizar, acabamos por nos diminuirmos – nada pode ser maior que ser filho de Deus. Vendemo-nos por prazeres superficiais, falas vazias, objetos pelos quais somos escravizados.
Jesus sabe quem é, o que tem e seu poder. Não precisa provar nada a ninguém. E ainda nos ensina o que e como fazer: respondamos aos dramas de nossa vida na filiação divina, na comunidade de fé e na humildade de sabermos quem somos.
Tudo é do Pai, que leva a nós e aos nossos ao Egito, que cuida de todos. Entre o maltrato e a opressão, nos tornamos grandes, fortes e numerosos. E a voz do povo se volta para o clamor a Deus pelas nossas misérias. Quando realmente nós queremos e estamos dispostos a largar as cebolas do Egito e atravessar o deserto, recebemos a Terra Prometida. Não para nos fartarmos, e sim para que lembremos de quem somos, de onde viemos e quem nos conduz, entregando tudo que temos nas mãos de quem realmente pertence.
É esta entrega total de tudo o que somos e o que temos que anunciamos nossa fé, que nos faz superar diferenças na família de Jesus. No testemunho desta caminhada rumo ao céu, podemos anunciar e sempre pedir, do mais íntimo do nosso coração: Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!

Sobre o ser cristão

(Vandeia Ramos)

Entre tantas ideias modernas, a consciência cristã tem ficado abafada devido às ondas que varrem a sociedade. Muitas vezes tenho a impressão que não prestamos a devida atenção ao básico, ao que é mais importante, ao, como diz nosso amado Papa Emérito Bento XVI, à hierarquia de verdades. Meditemos o evangelho de Lucas: Jesus desce da montanha e fala à multidão. Não faz acepção de pessoas, não discrimina, e ensina aos discípulos que o anúncio não tem limites. É para todos! Ele não ensina a gente a ficar de mimimi, fofoquinha, postando os pecados dos demais nas mídias sociais, só porque muitas vezes somos atingidos. Jesus nos apresenta uma dignidade muito maior, heroica, que cala fundo em quem somos: pobres, famintos e chorosos. Ele não fixa nossa condição como meramente humana, mas a utiliza como a que precisa de Deus. Sem este testemunho pessoal, como apresentar o mesmo aos nossos catecúmenos?
E não para aqui. A recompensa por injúrias, perseguições, maldições, mas que sejam “falsas” (Mt 5, 11) E por causa do Filho, é a alegria e a exultação. Como lembra o Papa Francisco na exortação Gaudete et Exultate, a humilhação é o caminho da humildade. Jesus não diz para irmos para o Facebook ficar reclamando, para as mídias contar nossos “causos”, para o mundo anunciar nosso drama. Ele diz simplesmente para nos alegrarmos. É aqui que pisamos no orgulho, na posição de acharmos que somos mais que os demais, que somos os “certinhos” da parada. O silêncio, tão custoso no pisar na vaidade, é que forja o cristão, o que se configura ao Cristo na cruz, à Nossa Senhora em toda a sua vida. “Manso e humilde…” Os verdadeiros profetas, anunciadores do Reino…
É no silêncio, muitas vezes fruto da dor da humilhação, do sufocar a rebelião do encontro entre a injustiça com o orgulho e a vaidade ferida, que nos encontramos no deserto da existência. Quando parece que tudo nos é tirado é que se afirma a única certeza: Deus é a nossa força e Nele esperamos! Temos Advogada junto ao Trono, temos intercessores, temos a Justiça e a Misericórdia. No silêncio ao mundo e ao que é humano, nos refugiamos e nos colocamos perante o Senhor.
Não somos catequistas para vivermos entre farturas e gargalhadas, elogios e luxo. Como cristãos, sabemos e anunciamos que o caminho é o da Cruz e da Ressurreição. Ensinamos o que e a Quem procurar e pedir por uma relação pessoal com Deus. É nesta realidade radical que esperamos no relacionamento com as pessoas. Sim, seremos humilhados, ofendidos, injustiçados, como Jesus o foi. E a certeza de que ressuscitamos com Ele nos dá a paz que precisamos, a esperança de que não estamos sozinhos, de que há Alguém com o qual todo o resto perde seu brilho e importância. Vejamos o rosto de alegre paz dos santos… com tudo o que eles nos têm a ensinar sobre o cristianismo.
Juntemo-nos aos que cantam a glória de Deus e cantemos com toda a certeza de quem somos e o que fazemos aqui: É feliz quem a Deus se confia!

Experiência humana, compromisso com a justiça

A catequese deve partir da vida, onde ocorrem muitos fatos, ainda que nem todos tenham igual importância. Há experiências profundas no íntimo de cada pessoa. O Evangelho ilumina as experiências de vida, lugar de encontro com Deus.
Deus nos oferece a sua Palavra para dar à pessoa resposta as suas interrogações, como também aos acontecimentos sociais. Daí, que a catequese não só ilumina o íntimo da pessoa, como procura esclarecer o que acontece em volta dela: na família, bairro, cidade, etc.
O Evangelho dá sentido a nossa vida. Jesus vive conosco uma situação histórica, política, religiosa, chamando-nos à fraternidade e à justiça.
É inevitável o nosso compromisso com a justiça de forma concreta junto aos nossos irmãos.
A justiça é a virtude que exige uma sociedade igualitária, respeito às pessoas, expulsando as desigualdades desumanas. Diante da competição desenfreada de nosso século, a justiça estabelece normas para melhor acolher os mais fracos, os excluídos, buscando igualdade para todos.
A justiça é fruto do amor, da fraternidade. Uma sociedade justa e igualitária é o feliz caminho para se obter a paz. A paz está inscrita no coração de todo homem como uma exigência da vida cristã.
A justiça e a fraternidade estão presentes em toda a história bíblica. Os profetas clamavam contra as injustiças cometidas pelos reis e pelos juízes que oprimiam os pobres.
Em muitos textos do Novo Testamento, a injustiça dos fariseus hipócritas é rejeitada. Eles julgavam ter alcançado a justiça pela realização externa das obras da Lei. Jesus condena esta atitude e ensina que: “se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus” (Mt 5,20).
São Paulo ressalta que “o Espírito é vida por causa da justiça” (Rm 8,10) e São João acrescenta em sua carta que “todo o que não pratica a justiça não é de Deus, como também aquele que não ama o seu irmão” (1Jo 3,10).
Em nosso continente, o documento de Medellin (II Conferência Geral do Episcopado Latino Americano, Medellin, Colômbia, 1968) destacou o tema da justiça social. O destaque maior e a necessidade mais urgente, conforme o documento, e a mudança social para que se transformem não apenas os indivíduos, mas também as próprias estruturas em que se baseia a nossa sociedade. Uma mudança que abranja os campos econômico, político e cultural.
A partir deste documento foram elaborados outros em nível nacional e Latino-americano. As Igrejas do nosso continente assumiram a tarefa de denunciar as injustiças sociais tão gritantes da sociedade. As comunidades se dedicaram ao estudo dos profetas, procurando ter maior senso crítico, viver o Evangelho, prolongando a missão de Jesus Cristo.
Neste sentido, o ideal e a prática da justiça fazem com que os cristãos participem da paz, que é um fruto do Espírito Santo; e porque criam um mundo onde o amor e a justiça se tornam presença de Deus entre nós.
Ao apresentar sua mensagem, a catequese deve orientar e promover o processo de transformação social, exigido pela atual situação de injustiça em que se encontram marginalizados um grande número de pessoas de nossa sociedade.

• Quais as experiências humanas que são importantes na transmissão do Evangelho? Por quê?
• Como podemos anunciar a justiça e denunciar a injustiça em nossos encontros catequéticos?

Fonte: Folheto Ecoando 7 – formação interativa com catequistas – Editora Paulus