Reflexão sobre o Evangelho

(Carlos Francisco Bonard)

“Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai. Há alguém que vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu” (Jo 5, 45-46).

No livro do Deuteronômio, encontra-se uma promessa que tem um significado decisivo para a compreensão da figura de Jesus: não é prometido um rei de Israel e do mundo, mas um novo Moisés.
Em Dt 18, 15, lemos “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir”.
Uma leitura isolada pode fazer parecer crer que se está instituindo o profetismo em Israel, mas o fim do livro, na sequencia da morte de Moisés, nos diz “Não se levantou mais em Israel profeta comparável a Moisés, com quem o Senhor conversava face a face”.
O decisivo na figura de Moisés não são suas ações maravilhosa, não são as obras e os sofrimentos desde casa da escravidão no Egito, através do deserto até as bordas da Terra Prometida. Decisivo é que ele tenha falado com Deus como um amigo, pois era daqui que vinham as suas obras, a lei e o ensinamento dado a Israel.
Por isso, o profetismo de Israel é único. O profeta de Israel não é um adivinho. Não é alguém que prediz o futuro. O verdadeiro profeta não esta aqui para revelar o acontecimento de amanhã, ou de depois de amanhã, para servir à curiosidade humana ou a humana necessidade de segurança (como aconteceu com Saul, que diante do silêncio de Deus as portas da batalha contra os filisteus, recorreu a vidente de Endor). O profeta está aqui para revelar o rosto de Deus, e, assim, nos mostrar o caminho a seguir: o autêntico “êxodo”, que é aquilo que sempre observamos ao fim de toda a quaresma. A fuga da escravidão do Egito é um sinal fugaz daquilo que nos espera no fim dos tempos “quando amanhecer o dia eterno, a plena visão”.

Em todos os caminhos da história, em todos os caminhos da nossa história, devemos procurar o caminho para Deus como autêntica direção.

Um profeta que “via” a Deus face a face…. as aspas se dá por que não era possível a Moisés contemplar a face de Deus, não era possível a Moisés ver a glória de Deus, mas apenas ter um vislumbre dela (Ex 33, 18-23). Em que pese a intimidade de falar com Deus como um amigo, existe um limite até para um profeta, até para Moisés. É permitido a intimidade da nuvem, mas não a visão da face de Deus.
Isso deveria ser guardado para o Novo Moisés. Ele receberia o que foi negado ao primeiro. Ele teria mais que um olhar “detrás”.

Esse novo profeta é Jesus, e o prólogo de São João nos aponta essa realidade quando diz “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou”. Ele não vive diante de Deus como amigo, mas como Filho, e assim vive na mais íntima unidade com o Pai.

Moisés era testemunha de Jesus por conta da sua intimidade com Deus. Isso que o Evangelho de hoje nos aponta também.

Podemos nós sermos testemunhas de Cristo se também tivermos essa intimidade. Os judeus a quem Jesus interroga (contextualizando, esse Evangelho de hoje é a continuação da cura do paralítico na beira da piscina de Betesda, quando os judeus perguntavam ao paralítico quem o curou. Reparem que o curado não sabia quem era Jesus) não compreendem de onde vem as palavras e o poder de Jesus. Os doutores do tempo de Jesus não conseguiam admitir essa intimidade de Filho.

Contudo nós podemos e devemos, mas para isso é necessário observar que em sua vida, Jesus se retirava ao monte para ter sua intimidade. Não era só por que Jesus era Deus de Deus que ele se retirava para, sozinho, ter intimidade.

Nessa quaresma, nesses tempos difíceis, mas que vão passar, caminhemos com Jesus para também termos essa intimidade, e, com ela, alcançarmos a redenção.

Fonte: livro Jesus de Nazaré (Bento XVI)

Catequista, adorador em espírito e verdade

(Vandeia Ramos)


Chegou Jesus a uma cidade do Brasil, a sua, em que tinha uma Igreja no centro, a partir da qual as casas foram construídas. E sentou-se na praça. Era em torno da hora do almoço e todos estavam cuidando de sua própria vida. Chegou uma jovem que foi comprar água, pois tinha acabado em casa e todos precisavam beber. Jesus a encontra e pede um pouco de sua garrafa, pois seus discípulos tinham ido providenciar um lanche e ainda não tinham voltado.
A jovem, com pouca roupa por causa do calor e em uma moda que muitos discutiriam, com marcas no corpo, desconfiou Daquele que lhe pedia. Estava tão acostumada a ser vista com desprezo que se fechava em si mesma. E questiona como que Aquele Homem poderia dirigir a palavra à ela.
Jesus lhes responde: se conhecesses o dom de Deus, não se preocuparia com a fala dos demais, pois somente Deus basta! E o sorriso iluminaria toda a sua pessoa, mesmo que não viesse ao seu rosto. A jovem responde: Senhor, não me conheces, à minha família, meus vizinhos ou mesmo as pessoas deste bairro, como podes saber o que é bom para nós?
Jesus lhes responde: quem se alimenta do Pão do Céu não terá mais fome nem medo, pois nada mais poderá abalar. Não são problemas com água ou com vírus, pois todos eles vão passar. Precisamos cuidar da criação, das pessoas, com a sabedoria que é dom de Deus, para que possamos viver melhor e cuidar do Jardim. É no cuidar e no guardar o que lhes foi dado que poderá passar pelas situações difíceis e mesmo limites.
A mulher disse a Jesus: Senhor, dai-me deste Pão, para que nem eu nem minha família soframos com a contaminação da água nem com a proliferação de vírus e outras doenças, e assim não precise me expor na rua para buscar água e comida.
Jesus lhes disse: vá buscar seus amigos. Ela respondeu: não tenho amigos, todos se foram quando começaram as dificuldades e precisei ficar em casa para cuidar das pessoas mais idosas da minha família. Jesus disse: disseste bem, não tens mais amigos; tiveste muitos, quando deixastes as pessoas mais importantes por diversão e falsas companhias, enfraquecendo sua pessoa, seu corpo, e deixando a todos em situações de espera. A jovem: Senhor, sabes tudo, deves ser um religioso, mas conheci muitos que não foram fiéis a Deus e ao que anunciavam.
Jesus: meu discípulo Paulo já anunciou que estou voltando, e estou aqui agora, para que cada um faça sua escolha fundamental pelo que realmente é importante em sua vida, em um passo definitivo para a eternidade. É preciso que sejas luz do mundo para que Meu Espírito brilhe com a Verdade. Não em notícias fakes ou indiferença com os que mais precisam. É preciso que tenhais responsabilidade e cuidado com os que estão à sua volta – neles terás minha Presença.
Os discípulos chegaram e perguntaram por que Jesus falava com aquela jovem, que parecia mais preocupada consigo mesma. A jovem, no caminho de casa, saiu falando para todos de sua conversa, e muitos saíram para ir ao Encontro de Jesus, buscando o Pão do Céu.
Jesus disse aos seus discípulos: é em momentos de crise que se pode conhecer meus amigos, os que fazem a vontade do Pai, que servem junto com os demais nas inúmeras necessidades, como atendendo os doentes em hospitais e em casa, ajudando com o alimento, informando na verdade, sendo esperança quando o desespero está à porta de tantos… Muitos acreditam porque uma jovem testemunha seu encontro com Jesus, como fazemos na catequese.
No entanto, em muitas cidades a catequese e os serviços pastorais estão sendo suspensos. Há um drama acontecendo e é preciso que estejamos atentos às orientações de nossos bispos e autoridades da saúde. É o momento pelo qual nos preparamos em nosso alimento semanal, no Pão que recebemos. A messe aguarda os operários para que sirvam de acordo com o momento pontual que estamos enfrentando.
É importante que sejamos testemunhas no mundo de que o Senhor está presente entre nós. Então, não fechemos nosso coração e ouçamos hoje a voz de Deus! Que Nossa Senhora traga a cada um de nós em seu Imaculado Coração, para que possamos fazer o que seu Filho nos disser!

Administradores de Bens, somos catequistas

(Vandeia Ramos)

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Ao longo de nosso serviço pastoral, bem como em nossa vida, aprendemos a agradecer, a sermos sensíveis aos dons e graças que recebemos. Mas também sabemos que estes não são nos dados por mérito e nem limitados a nós. Recebemos para que possamos compartilhar. E é isso que fazemos na Iniciação Cristã.
O que vamos aprendendo não é para enriquecimento próprio, para ser guardado embaixo do travesseiro. Deus nos apresenta suas riquezas do Reino para que, através de nós, cheguem aos demais. Somos convocados a este serviço: de anunciar a Boa Nova, Deus entre nós, em nós.
Temos uma responsabilidade que faz com que a alegria diminua a dor do mundo, atenue seu sofrimento. Através de nós, a esperança se espalha e permanece – até o fim! Através de nossa disponibilidade, a Palavra se encarna no mundo. Se há os que agem contra, oportunistas e aproveitadores, se há os que conseguem espalhar as trevas, mais ainda é necessário que os filhos da Luz se manifestem, que o Sol brilhe no mundo, que alcance o que nós sozinhos somos incapazes.
É preciso fazer uma escolha diária, uma decisão entre servir e ser servido. Não somos os donos da riqueza do céu. A autoridade da Igreja está no serviço, da humilde ação junto aos que mais precisam, da manifestação da justiça e da paz, do aceitar muitas humilhações para que nos identifiquemos com o Crucificado e com Ele a Ressurreição se realize.
Isso envolve atenção especial com as autoridades, tanto eclesiásticas como civis, familiares e de trabalho. O conceito de autoridade perpassa as relações humanas, não em uma hierarquia de mérito, e sim de serviço. Sabemos pela frágil posição que ocupamos junto aos nossos catecúmenos o quanto, muitas vezes, é difícil liderar, considerar todas as necessidades e assumir atitudes sem um critério refletido com tempo suficiente.
Pensemos nos pais, nos líderes paroquiais, nos postos de governo. Quantas influências, grupos em posições opostas e muitas vezes conflitantes, diversidade de necessidades a atender, escolhas nem sempre fáceis de assumir.
Sabemos que Deus é o Senhor de todas as coisas e que nos envia seus anjos para nos acompanhar e guiar. Nossas lideranças também os têm, mesmo que não sejam conscientes. Não somente como pessoas, mas também como lideranças de um povo, seja ele restrito ao município e mesmo à nação. Quanto mais alto na hierarquia, mais pessoas em volta, mais precisa de discernimento espiritual para agir em prol do bem comum. A responsabilidade com todos envolve consequências em sua própria vida e no modo como se relaciona com Deus.
O valor de um governo não é se concordamos ou não com posições políticas e / ou ideológicas de suas lideranças, e sim no bem estar da população, em sua dignidade respeitada e suas necessidades atendidas. A justiça gera a paz. E precisamos ser testemunhas de que oferecemos nossa vida por Deus, através de nosso respeito aos que nos lideram, bem como no oferecimento de orações por eles. Rezar pelas lideranças é rezar pelos que estão sob sua responsabilidade. Daí o ensinamento de que a política é uma forma privilegiada de caridade.
O que não podemos alcançar, o que humanamente não se pode fazer, temos a certeza de que Deus pode. E isso é um de seus mistérios, de escolher pessoas diferentes, em posições diversas, para que o Reino se manifeste. E o espaço público e civil não está isento de sua ação. Muito pelo contrário.
Na sensibilidade de nosso discernimento, no olhar evangélico que precisamos aprofundar, na atenção ao cuidado com os que mais precisam, na oração constante pelas lideranças, manifesta-se nosso louvor a Deus, que faz chegar sua graça e bênçãos a todos, através de pessoas como nós. Assim, podemos louvar que sua justiça se manifesta junto aos de boa vontade, e sua paz permaneça entre nós. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ir aonde Jesus deve ir

(Vandeia Ramos)

Dentre tantos, Jesus nos escolheu. Não para ficarmos na arquibancada ou no banco da Igreja, e sim para nos enviar à sua frente. Muitas vezes somos os primeiros a anunciar a Boa Nova a nossos catecúmenos. Sabemos que é uma missão grandiosa, o quão inútil e insuficientes somos, que é preciso muito mais para a centralidade do Evangelho: a vida em comunidade a partir de Jesus Cristo. Somos chamados a sermos discípulos que apontam para esta realidade, de inserir os que nos são colocados sob nossa responsabilidade no cotidiano da vida da Igreja, com tudo o que isso significa.
Formar novos discípulos não termina com nossa ação. É preciso que eles sejam acolhidos e orientados, dando continuidade à sua caminhada. Pastorais e movimentos precisam estar em diálogo com a catequese para abrirem-se aos novos, continuando a própria formação de acordo com seu servir na Igreja.
Também precisamos ter a sensibilidade de compreendermos que o anúncio é exigente, permeando a vida e formando uma nova pessoa em Jesus Cristo. Isso vai configurando a cada um de nós e aos nossos de um sentido de vida que frequentemente vai contrastar com uma cultura estruturada pelo pecado. E a luz vai incomodar as trevas… Isso é só um chamado à realidade, não ameaça ou para termos medo. É preciso saber que incômodos, perseguições e adversidades são comuns a quem segue o Evangelho. Justamente assim que temos o discernimento de percebermos quem somos e o que fazemos.
Somos portadores da paz. Não precisamos ir armados, esperando o pior, com resposta pronta para tudo. Lidamos com pessoas, muitas vezes de coração ferido, magoadas, com uma história em que o problema cresceu tanto que escravizou, viciando a vida. Nossa presença precisa iluminar, nosso olhar perpassar a superfície, nossa fala alcançar o íntimo, o silêncio ser amoroso. Muitas barreiras podem ser derrubadas com um sorriso e um abraço. Outras, levam tempo. Ainda outras, não nos cabem. Façamos o nosso melhor e sigamos em frente com a consciência de sermos guiados pelo Espírito, retornando a Deus todo o nosso viver.
Sem pressa, é importante vivermos o momento que nos é oferecido como presente. Estejamos com as pessoas sem nos preocuparmos com a quantidade e com a missão seguinte. Aprendamos a receber tudo que nos cabe em uma situação, sejam coisas boas ou mesmo humilhações, aprendendo a calar e a humildade, rezar e seguir nos passos de Jesus. Se Ele passou momentos difíceis por aqui, não esperemos que conosco seja diferente. Mas também teve encontros com pessoas que o amam e morrem por Ele. Sejamos um destes.
Fazer-nos outros cristos na terra é a missão de discípulo. Na catequese, como nas demais atividades de nossa vida, somos nós que recebemos primeiro o aprendizado: identificamos os pontos importantes do encontro, pensamos como melhor desenvolver, os instrumentos necessários e acompanhamos se os mesmos foram bem recebidos. Neste movimento, reservamos um tempo para repensar a vida à luz da Boa Nova, muitas vezes citando situações pessoais para ilustrar. Vamos percebendo o quanto vencemos grandes batalhas por não estarmos sozinhos. A realidade do céu é cada dia mais firme.
Ser Igreja no mundo é ser permanentemente alimentados por esta Mãe, que nos forma desde o batismo e nos acompanha até o último respiro. Nosso cansaço é depositado em cada Eucaristia, a partir da qual somos enviados como mensageiros da caridade ao mundo. Pela Igreja somos cuidados por Deus, em tudo que precisamos, desde o Pão ao Amigo, da família de Nazaré ao trabalho nosso de cada dia. Não estamos sozinhos! Jerusalém se torna nossa casa.
Somos todos irmãos, unidade que abrange a diversidade de povos, raças, culturas, idades, nem sempre fácil de conviver, mas com a certeza de que não estamos ali por nós mesmos. A paz e a misericórdia que recebemos com nossas próprias dificuldades são a cura de nossas feridas, que também são oferecidas através de nós. Como Cristo crucificado, chegamos flagelados, cansados, machucados. Carregamos as cicatrizes como parte de quem somos, bem como sinal do cuidado que recebemos. Aprendemos que nossa dor é instrumento de proximidade com muitos e que, cuidando dos demais, a nossa ferida é cuidada.
Assim, nosso canto não é solitário, mas em família. Juntos, podemos proclamar as maravilhas que nos faz o Senhor através uns dos outros, anunciando a grandiosidade de sua obra através de Jerusalém, a Mãe Igreja que reúne, cuida e prepara a cada um de nós para o Céu.

Catequistas, embaixadores de Cristo!

(Vandeia Ramos)

O Evangelho de hoje é conhecido tanto como Evangelho do Filho Pródigo como Evangelho dos Dois Irmãos, o que traz duas perspectivas diferentes. Quando nossa atenção recai sobre o Filho Pródigo, a figura do Pai se destaca. Tradicionalmente lemos nós mesmos, pecadores insistentes, e nossa permanente necessidade da misericórdia de Deus. A ordem é simples: vivemos na casa do Pai, mas frequentemente desviamos a atenção e acabamos sendo atraídos para coisas que o mundo nos oferece: vida fácil, prazer, falsas amizades, diversão desregrada… tudo centralizado no que suponhamos ser uma necessidade ou mesmo o que nos deixamos convencer como sendo o melhor. Claro que, quando o dinheiro, a saúde, a beleza, a juventude… acabam, ficamos abandonados à própria sorte, entre os miseráveis, os impuros, os porcos. Nem seu alimento, o resto dos demais, temos permissão de comer. Quantos de nossos irmãos não estão esquecidos nestas condições?…
Para uma família judaica tradicional, fica faltando uma personagem importante, que dificilmente aparece em público, mas está em momentos decisivos: a Mãe. Ela não só se ressente da ausência do Filho, como sua tristeza sensibiliza a família. Em toda visita, ela recebe a esperança de ter notícias. Há os que defendem que é esta tristeza-esperança que sustenta a sensibilidade do Pai. Fazemos rapidamente a relação com Nossa Senhora.
E temos o Irmão Mais Velho. Quantas vezes não nos colocamos como os certinhos, que não hesitam em colocar o dedo na cara de tantos, acusando-os de pecadores, pagãos… Caso nós estivéssemos no lugar do Pai, o que faríamos com nosso Irmão? O que já nos acostumamos fazer com aqueles que se afastam da família por diversos motivos? E os que não vivem a mesma fé que nós? Que não concordam com nossa opção política, profissional, moral?
Toda vez que leio este Evangelho, lembro de uma pregação do Frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. Ele identifica o Filho Mais Velho, não como um de nós, egoísta e moralmente centrados. Ele diz que Jesus é o Primogênito. Ele não fica limitado à casa do Pai, cuidando de seus negócios. Jesus vem até nós, vai ao encontro de seus irmãos, para tentar levar-nos de volta. Caso não consiga, não nos deixa sem o necessário para viver, à mercê de porcos.
Nós não somos iniciantes na fé, somos catequistas. Temos um caminho de vivência em contínua misericórdia de Deus para conosco. Ser Filho Pródigo, abandonado às misérias de porcos, não responde devidamente ao nosso perfil. Então o de Filho Mais Velho, de nossos catecúmenos, fica melhor. Somos os que se colocam como os “certinhos”, detentores de um código moral legalista, rápidos em julgar e lentos em acolher? Não estou falando de pieguismos, de que devemos fechar os olhos para o pecado. Sem este discurso em que nos colocamos como juiz que critica quem se coloca com juiz, e que não chega ao necessário.
Temos muitas demandas sociais que gritam de dor, que assumem atitudes e movimentos que muitas vezes se apresentam contra a fé que cremos. Estamos entre uma estrutura social que impõe fardos pesados aos demais. Acusamos a vítima de seu próprio sofrimento e dor, colocando-nos frequentemente ao lado dos que a fazem sofrer. Sem direito, assumimos o lugar do Pai, afastando-nos emocionalmente dos irmãos perdidos entre as misérias do mundo, em uma postura que vai do indiferente ao acusador. O discurso comum reforça o conflito, o confronto, a raiva.
Perante a dor do outro, que tem sua dignidade humana ameaçada, o que se espera de um cristão? O que Jesus e/ou Nossa Senhora fariam em nosso lugar? O Pai não se preocupou se entre os hebreus que saíram do Egito haviam os que tinham um caráter discutível, Ele enviou o Maná para todos. Também não era de modo permanente, mas com o tempo de que pudessem colher o fruto do próprio trabalho.
Somos “embaixadores de Cristo”, através de quem Jesus chega aos demais. Somos os que continuamente deixam suas casas para ir ao encontro dos que mais precisam, pois estes já não têm condições de se levantarem por si e caminhar. Somos enviados para aliviar o jugo de sua condenação, assumindo sobre nós sua dor, carregando sobre nós o julgamento dos que “dize com quem andas e eu te direi quem és”. Enquanto não conseguem caminhar sozinhos, nós cuidamos de suas feridas. Um “olho nos olhos”, uma presença que diz ao outro que ele não está sozinho, uma mão estendida, fazem mais do que discursos raivosos e condenativos, que mais reforçam a miséria do que restabelece a dignidade.
Só quem se percebe em sua limitação e continuamente vive a misericórdia, identifica a dor dos que gritam, ainda que usem palavras que escondem suas feridas profundas em raiva e ódio. Só assim podem anunciar em cada atitude quão suave é o Senhor!

Guiados pelo Espírito no deserto

(Vandeia Ramos)

“Jesus, cheio do Espírito…no deserto, Ele era guiado pelo Espírito”. É comum nossa atenção ao Evangelho de hoje ser dirigida ao diabo. A força deste personagem é a de quem contrapõe a Jesus, tentando levá-lo ao pecado. É o recurso que São Lucas apresenta para que nos identifiquemos com Jesus e que a relação é pessoal. Quero chamar a atenção para a presença silenciosa do Espírito. Somos católicos, batizados, assíduos à Eucaristia e à Confissão. Então também somos cheios do Espírito. E nossa vida com frequência é um deserto. Esta passagem nos lembra quem nos leva e nos acompanha na aridez.
Em época de quaresma, Jesus não come nada. Ele sabe que tem uma missão difícil à frente e se prepara. Não espera chegar os problemas, não vive buscando a alegria efêmera, não senta e aguarda ser servido. Cheio do Espírito, deixa-se guiar. Junto, o diabo está presente. A Escritura não avisa sua chegada, só apresenta o diálogo. São três intervenções: o alimento do pão, o poder e a glória dos reinos, e a adoração ao pecado.
Jesus não dialoga, não bate papo, não “ouve”. Ele rompe com Gn 3, quando o primeiro casal, que cai na armadilha da serpente e à ela se associa, deixando Deus em um lado oposto. Quando Jesus fala, é com a própria Palavra de Deus. Aqui está o jogo entre o ser, o ter e o poder. Nós, como o primeiro casal, acabamos por abrir a guarda e somos imprudentes. Quanto nos oferecem e a gente para e ouve? “Se és…” confrontando-nos, questionando quem somos – nosso orgulho entra em cheque. Quanto já se tentou nos diminuir? Comprar? Não são os tipos de pecado que temos aqui? Frequentemente, ao tentarmos nos autovalorizar, acabamos por nos diminuirmos – nada pode ser maior que ser filho de Deus. Vendemo-nos por prazeres superficiais, falas vazias, objetos pelos quais somos escravizados.
Jesus sabe quem é, o que tem e seu poder. Não precisa provar nada a ninguém. E ainda nos ensina o que e como fazer: respondamos aos dramas de nossa vida na filiação divina, na comunidade de fé e na humildade de sabermos quem somos.
Tudo é do Pai, que leva a nós e aos nossos ao Egito, que cuida de todos. Entre o maltrato e a opressão, nos tornamos grandes, fortes e numerosos. E a voz do povo se volta para o clamor a Deus pelas nossas misérias. Quando realmente nós queremos e estamos dispostos a largar as cebolas do Egito e atravessar o deserto, recebemos a Terra Prometida. Não para nos fartarmos, e sim para que lembremos de quem somos, de onde viemos e quem nos conduz, entregando tudo que temos nas mãos de quem realmente pertence.
É esta entrega total de tudo o que somos e o que temos que anunciamos nossa fé, que nos faz superar diferenças na família de Jesus. No testemunho desta caminhada rumo ao céu, podemos anunciar e sempre pedir, do mais íntimo do nosso coração: Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!