E EM JESUS CRISTO SEU ÚNICO FILHO NOSSO SENHOR

(Carlos Francisco)

“E EM JESUS CRISTO SEU ÚNICO FILHO NOSSO SENHOR” … “CREIO EM UM SÓ SENHOR, JESUS CRISTO, FILHO UNIGÊNITO DE DEUS, NASCIDO DO PAI ANTES DE TODOS OS SÉCULOS; DEUS DE DEUS, LUZ DA LUZ, DEUS VERDADEIRO DE DEUS VERDADEIRO; GERADO, NÃO CRIADO, CONSUBSTANCIAL AO PAI”.

Continuando o estudo sobre o Credo, nós vimos, quando falamos da Trindade, que há um só Deus, e três pessoas divinas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Disso fala a parte final do Credo Niceno Constantinopolitano. Ele reafirma que Jesus Cristo é Deus, assim como o Pai é Deus, e que ambas as pessoas tem a mesma natureza ou substância divina.

Os credos de Nicéia e Constantinopla não inovam quanto a divindade de Jesus, em relação ao credo apostólico. É importantíssimo perceber que os credos que surgiram ao longo do tempo (e existiram vários, como, por exemplo, o Credo do Povo de Deus, do Papa Paulo VI), servem para esclarecer novos questionamentos, mas sempre reafirmando a verdade de sempre.

Algumas vezes o credo também visa explicar uma verdade, mas nunca para criar uma nova verdade.

De forma sucinta, o que levou a esse acréscimo posterior se a divindade de Cristo era certeza desde o início da Igreja? A heresia ariana.

Em que consistia o sistema de Ário, tal como iria estabelecer as bases da heresia ariana? Como todas as heresias, partia de uma ideia justa: a da grandeza sublime e inefável de Deus. Único, não gerado, Deus é “Aquele que é”, como já dizia o Antigo Testamento, o Ser absoluto, o Poder e a Eternidade absolutos. Até aqui tudo estava certo. Mas Ário acrescentava: “Deus é incomunicável, porque, se se pudesse comunicar, teríamos de considerá-lo um ser composto , suscetível de divisões e mudanças” , dedução que só a imprecisão dos termos tornava aceitável . Ora, continuava Ário, se Ele fosse composto, mutável e divisível, seria mais ou menos corporal; mas isso não pode ser, donde se conclui que é sem dúvida incomunicável e que, fora dEle, tudo é criatura, incluído Cristo, o Verbo de Deus . Aqui está o ponto exato em que se situa o erro: Jesus , o Cristo , o Filho , não é Deus como o Pai ; não é seu igual nem é da mesma natureza que Ele . Entre Deus e Cristo abre-se um abismo, o abismo que separa o finito do infinito[i].

Então, Ário questiona a divindade de Cristo por volta de 319, e por conta dessa dúvida levantada a Igreja reafirmou a divindade do Verbo eterno, possuidor da mesma natureza divina, combatendo assim a terrível heresia que esvaziava todo o Cristianismo.

Isso é uma história para abordar depois, quando falarmos sobre a história da Igreja antiga, agora vamos voltar ao início desse trecho.

Creio em Jesus… O nome Jesus (abreviação de Jehoshua, Josué) era bastante comum em Israel, e quer dizer, em hebraico, Deus (Javé) salva. No nome de Jesus somos salvos.

“Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”

Atos dos Apóstolos, 4, 12

Mas salvar de que? Por quê?

Isso será respondido posteriormente,

Jesus é a encarnação do significado do seu nome. Literalmente Jesus é a salvação de Deus dentro da história.

Então, esse Jesus é o Cristo, o Messias prometido.

Cristo é a tradução grega da palavra hebraica “Messias”, “Ungido”. Este era o título atribuído aos reis de Israel[ii], aos sacerdotes[iii], e, em casos raros, profetas[iv]. Neste sentido Jesus cumpre a esperança messiânica na sua tríplice função de sacerdote, profeta e rei[v].

Esse reconhecimento da messianidade de Jesus se dá não só pelas diversas curas ou exorcismos, mas também pelos seus ensinamentos feitos com autoridade.

“Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas”.

Evangelho segundo São Marcos 1, 22

Sendo assim, neste Jesus Cristo se manifesta as promessa da História da Salvação: O Filho de Deus é o messias esperado.

Neste aspecto, afirmar que Jesus é o Filho de Deus é afirmar que ele é o próprio Deus.

Será?

Se nós somos filhos de Deus, por que a auto afirmação de Jesus, de que era Filho de Deus, teria um sentido de divindade?

Olhemos para o capítulo dez do Evangelho segundo João. Para contextualizar, Jesus está no templo de Jerusalém para a festa da dedicação. Jesus fez a pouco o discurso do Bom Pastor, e, posteriormente no capítulo onze ele ressuscitará Lázaro.

Esse trecho é muito importante para o que acontecerá. Até aqui Jesus era perseguido por suas obras, mas após Jo 10, 31-42 ele começa a ser perseguido por suas declarações, e por se fazer igual a Deus.

Perguntam a Jesus:

Os judeus rodearam-no e perguntaram-lhe: “Até quando nos deixarás na incerteza? Se tu és o Cristo, dize-nos claramente[vi].

Jesus não responde se era o messias, até porque a compreensão de Messias era ambígua. O próprio Jesus, ainda que seja o messias, não era o messias idealizado pelos judeus.

Mas Jesus faz uma declaração muito mais solene e escandalosa:

Eu e o Pai somos um”[vii]

Isso foi um escândalo para os Judeus:

Não é por causa de alguma boa obra que te queremos apedrejar, mas por uma blasfêmia, porque, sendo homem, te fazes Deus”[viii]

Os Judeus entendem que Jesus é um homem comum, e o sentido de Filho de Deus é, para eles, ser Deus. Na boca de Jesus, o termo Filho de Deus, ou Filho do Homem é igual a ser Deus. É por isso que Jesus é condenado a morte[ix] no Sinédrio, por Caifás:

Este homem declarou: Posso destruir o Templo de Deus e edificá-lo depois de três dias.” Levantando-se então o Sumo Sacerdote, disse-lhe: “Nada respondes? O que testemunharam estes contra ti?” Jesus, porém, ficou calado: E o Sumo Sacerdote lhe disse: “Eu te conjuro pelo Deus Vivo que nos declares se tu és o Cristo, o Filho de Deus.” Jesus respondeu: “Tu o disseste. Aliás, eu vos digo que, de ora em diante, vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu”. O Sumo Sacerdote então rasgou suas vestes, dizendo: “Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Vede: vós ouvistes neste instante a blasfêmia. Que pensais?” Eles responderam: “É réu de morte”.[x]

Para os Judeus é claro que Jesus referia-se a sua divindade.

Não se deve diminuir essa afirmação. Jesus é Filho como nenhum outro, pois ele é Filho em um sentido ontológico. Não era no sentido do Antigo Testamento, e isso é percebido pelos mestres da lei.

Jesus não é filho como nós somos. Ele não é um irmão mais velho. Nós somos filhos no Filho Jesus, após o batismo. Somos filhos por graça. Jesus é Filho de Deus por natureza.

Essa divindade do Filho eleva a nossa humanidade.

Jesus ainda é o NOSSO SENHOR, pois os cristãos proclamam que são seu povo e colocam nele a sua fé. E colocando nele a sua fé, colocam-se a serviço uns dos outros, como o próprio Jesus pediu.

“Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns dos outros”.

Evangelho de São João, 13, 13-14

Para os primeiros cristãos, confessar o senhorio de Jesus poderia ser fatal. Os imperadores eram os “senhores do mundo”. Declarar o senhorio de Jesus era quebrar essa ideia.

“O nome Senhor designa a soberania divina. Confessar ou invocar Jesus como Senhor é crer em sua divindade. “Ninguém pode dizer ‘Jesus é Senhor’ a não ser no Espírito Santo” (1 Cor 12,3)”

Catecismo da Igreja Católica 455

Mas há uma recompensa em acolher essa filiação. Uma recompensa maior que a morte: a vida em Deus.

Esse é o sentido da liberdade que falamos em relação aos anjos, em relação a Jesus e em relação a nós.

O Livre arbítrio, bem direcionado, se dispõe a declarar Jesus como Deus e Senhor da nossa vida. Mas Deus respeita essa liberdade, ainda que as consequências para nós sejam terríveis, e ainda que Ele sofra com isso.

A liberdade mal utilizada nos destrói.

Não ser filho é o caminho do demônio. No inferno só tem órfãos, não por que Deus os rejeitou, mas por que eles negaram essa paternidade.

Essa é a característica dessa orfandade divina: o não ser filho de ninguém, o pensar com a própria cabeça, não querer ninguém a indicar o caminho, não querer ter um pai que disciplina e ensina. Quando o homem se sabe “filho”, ele se deixa modelar, e cada vez mais se conforma com Deus, adentrando ao corpo de Cristo e se tornando filho de Deus por graça.

Ao querer essa paternidade nós fazemos o caminho inverso do demônio, e, cada vez mais vamos sendo gerados no Pai, e vamos nos configurando ao Filho.

E o Filho, em toda a sua liberdade, faz o que o Pai quer

“Em verdade, em verdade vos digo: o Filho de si mesmo não pode fazer coisa alguma; ele só faz o que vê fazer o Pai; e tudo o que o Pai faz, o faz também semelhantemente o Filho”

Evangelho segundo São João, 5, 19

Por isso somos chamados a ser essa imitação de Cristo.

Pode parecer que estamos nos estendendo muito, afinal esse é o sexto texto sobre o catecismo, mas se prestarmos atenção, os conceitos se interligam. Através da sua liberdade, com a graça de Deus, o homem pode conhecer o Pai. Mas como conhecer o Pai? Que habita em luz inacessível? Olhando para a pessoa de Jesus.

Vamos em seguida ver do que somos remidos, e por que foi necessário essa remissão.

Fiquem com Deus.


[i] ROPS, Daniel. A Igreja dos apóstolos e dos mártires. Editora: Quadrante, 1988, p.448

[ii] 1Sm 9, 16; 10, 1; 16, 1.12-13; 1Rs 1, 39;

[iii] Ex 29, 7; Lv 8, 12;

[iv] 1 Rs 19, 16;

[v] Não a toa todos os batizados, no papel de “novo Cristo” obtêm o múnus sacerdotal, profético e régio;

[vi] Jo 10, 24;

[vii] Jo 10, 30;

[viii] Jo 10, 33;

[ix] Essa é a razão religiosa para a morte de Jesus;

[x] Mt 26, 59-66;

SE DEUS PAI TODO-PODEROSO, É BOM, POR QUE ENTÃO O MAL EXISTE?

(Carlos Francisco Bonard)

Deixamos uma pergunta que deve ser respondida antes de entrarmos propriamente na segunda parte do Credo: Se Deus criou todas as coisas, Ele criou o inferno? Mais do que simplesmente responder essa pergunta devemos passar pelo que se chama “mistério da iniquidade”.

Se Deus criou todas as coisas, por que não criou um mundo tão perfeito que nele não possa existir mal algum? Se Deus é suficientemente poderoso não poderia criar algo melhor do que criou?

O paradoxo de Epicuro trata de dizer que é impossível existir um deus[i] que seja bom[ii], onipotente e onisciente ao mesmo tempo, pois:

  • Se deus é bom e o mal existe no mundo, e ele não faz nada para impedi-lo, ele não ô impede por que não pode (logo ele não é onipotente) ou ele não ô impede porque não sabe desse mal (logo ele não é onisciente).
  • Se deus é onipotente e o mal existe no mundo e ele não faz nada para impedi-lo, ele não é bom, e não ô impede porque não quer, ou ele não ô impede porque não sabe desse mal (logo ele não é onisciente).
  • Se deus é onisciente e o mal existe no mundo, e ele não faz nada para impedi-lo, ele não é bom ou não é tem poder para impedir esse mal (logo ele não é onipotente).

Mas alguém poderia responder: Deus é bom, e o mal existe por causa do livre arbítrio.

  • Se deus não poderia criar o mundo com livre arbítrio e sem o mal, então ele não é onipotente.
  • Mas se deus poderia criar o mundo com livre arbítrio e sem o mal, e ele não o fez, ele não é bom.

Mas alguém pode argumentar que o livre arbítrio é para nos testar.

  • Se deus precisa nos testar, será ele onisciente?
  • Mas se o mal é culpa do demônio e deus não acaba com o demônio, será ele realmente onipotente ou realmente bom?

Bem, após criar essa confusão, vamos desconstruir algumas questões.

Vimos, quando falamos sobre Trindade, que a própria existência da Trindade está intimamente ligada com o fato de que Deus é amor em sentido pleno, e que todos os seus atos são feitos por amor.

Bem, dissemos que só Deus cria, e que nós fazemos inventos, pois adaptamos algo existente para um determinado fim.

Deus cria a matéria, e também o espírito. Mas quem peca não é a matéria, apenas o espírito pode pecar.

De forma bem simplória, o ser humano, os animais e os vegetais tem alma[iii], ou a substância que lhes dá a vida. A morte literalmente é a separação da alma do corpo.

Isso quer dizer que todo ser vivente tem alma. Mas só o homem tem uma alma espiritual, isso é, só o homem tem uma alma eterna e dotada de vontade.

Não tendo, animais e plantas, alma espiritual, estes não pecam.

O pecado é uma invenção do espírito. O pecado é uma invenção angélica.

Como dissemos antes, os anjos são seres espirituais, dotados de INTELIGÊNCIA e VONTADE[iv]. Os anjos foram criados bons, porém também foram criados livres.

O espírito, por ser livre é capaz de pecar.

Deus criou o pecado? Não. Deus criou a liberdade, e um espírito livre é capaz de AMAR ou PECAR.

A revelação nos diz que antes de criar o mundo material, Deus criou o mundo espiritual com seus anjos. E criando os anjos bons, Deus lhes dá liberdade e lhes pede amor.

Antes de existir a matéria, já existia o pecado dos anjos.

A Escritura fala de um pecado desses anjos. Esta “queda” consiste na opção livre desses espíritos criados, que rejeitaram radical e irrevogavelmente a Deus e seu Reino. Temos um reflexo desta rebelião nas palavras do Tentador ditas a nossos primeiros pais: “E vós sereis como deuses” (Gn 3,5). O Diabo é “pecador desde o princípio” (1Jo 3,8), “pai da mentira” (Jo 8,44).

Catecismo da Igreja Católica 392

Somos acostumados a fazer a analogia que o pecado está ligado a matéria, pois somos presos aos sentidos. Mas o pecado é um ato de inimizade com Deus.  

Logo o MAL MORAL, esse ato de desobediência, não foi criado por Deus.

Ao criar o bem físico, e é importante ter esse conceito, Deus permite o que se chama de MAL FÍSICO, que é, não o mal em si, mas a deterioração da matéria.

Deus quis livremente criar um mundo “em estado de caminhada” para sua perfeição última. Este devir permite, no desígnio de Deus, juntamente com o aparecimento de determinados seres, também o desaparecimento de outros, juntamente com o mais perfeito, também o menos imperfeito, juntamente com as construções da natureza, também as destruições. Juntamente com o bem físico existe, portanto, o mal físico, enquanto a criação não houver atingido sua perfeição.

Catecismo da Igreja Católica 310

Esse conceito de mal físico é como nós vemos o mundo que se esvai ante nossos olhos. Não se confunda aqui com o Mal Moral.

A natureza humana, mesmo em Adão e Eva, era uma natureza mortal. Então morrer não tem a ver com o pecado, mas com uma consequência natural da criação humana.

Mas e quanto a afirmativa de que o salário do pecado é a morte? Essa morte causada pelo pecado é a morte eterna, a separação da comunhão com Deus[v]. Deus, havia destinado o homem a não morrer, ainda que sua vida terrena tivesse um termo, esse termo seria transformado, de alguma forma, por Deus.

Deus criou o ser humano bom, assim como os anjos. Porém, os anjos maus, colocaram no homem, por livre aceitação deste, essa semente da inimizade com Deus. Deus era um amigo dos nossos primeiros pais, mas o homem transformou Deus em um inimigo. E a isso é chamado o PECADO ORIGINAL.

O homem, tentado pelo Diabo, deixou morrer em seu coração a confiança em seu Criador e, abusando de sua liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus. Foi nisto que consistiu o primeiro pecado do homem. Todo pecado, daí em diante, ser uma desobediência a Deus e uma falta de confiança em sua bondade.

Neste pecado, o homem preferiu a si mesmo a Deus, e com isso menosprezou a Deus: optou por si mesmo contra Deus, contrariando as exigências de seu estado de criatura e consequentemente de seu próprio bem. Constituído em um estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente “divinizado” por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis “ser como Deus”, mas “sem Deus, e antepondo-se a Deus, e não segundo Deus”.

Catecismo da Igreja Católica 392

Deus não criou o Mal, mas sim, Ele permite o mal e permitiu que o homem pecasse não por ser Deus ruim, mas por que se ele impedisse o homem de pecar, este não seria livre, logo não seria sua imagem e semelhança. Deus age com liberdade, e dá essa liberdade ao homem.

Antes do pecado original, somos originalmente imagem e semelhança de Deus. Deus, originalmente, influenciava a alma do homem que, sendo alma espiritual e corpo humano, fazia com que seu corpo servisse ao que a alma desejava.

Satanás fez com que a alma humana pecasse contra Deus, criando uma desordem. Já não é mais a alma que ordena o corpo, mas o corpo que quer ordenar a alma.

A harmonia na qual estavam, estabelecida graças à justiça original, está destruída; o domínio das faculdades espirituais da alma sobre o corpo é rompido; a união entre o homem e a mulher é submetida a tensões; suas relações serão marcadas pela cupidez e pela dominação (cf. Gn 3, 16). A harmonia com a criação está rompida: a criação visível tornou-se para o homem estranha e hostil. Por causa do homem, a criação está submetida “à servidão da corrupção”.

Catecismo da Igreja Católica 400

A existência do pecado é a coisa mais clara que se pode verificar. Nós mesmos muitas vezes nos impelimos a pecar pois queremos dar algum tipo de prazer a nossa carne. Essa é a desordem do pecado. Não é que a carne seja má, pois se fosse, Deus teria criado algo mal.

Movidos pelos estímulos, queremos que a nossa vontade humana seja satisfeita.

Mas repare que a alma sempre almeja algo que não pode ser satisfeita simplesmente alimentando o corpo. por mais que você queira algo, ao consegui-lo, você já quer outra coisa. Somos como a samaritana que está sempre com sede, sede de algo que não se pode encontrar aqui.

O homem feito para Deus, torna-se escravo do Pecado e de Satanás.

Voltando ao paradoxo de Epicuro, Deus poderia criar um mundo perfeito? Sim, ele poderia, mas em sua sabedoria e bondade infinitas, Deus quis livremente criar um mundo “em estado de caminhada” para sua perfeição última. Isso não nega a onipotência divina.

Os anjos e os homens, criaturas inteligentes e livres, devem caminhar para seu destino último por opção livre e amor preferencial.

Catecismo da Igreja Católica 311

Já dissemos que Deus não criou o mal moral, nem direta e nem indiretamente, mas então, se poderia fazer um mundo melhor e não fez, Deus não é Bom?

Deus é tão bom que, apesar de não entendermos por que ele permite o mal moral, vemos que ele retira desse mal um bem muito, infinitamente, maior. Isso não nega a onibenevolência divina.

Pois o Deus Todo-Poderoso…, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio mal[vi].

Santo Agostinho

Então a resposta ao mal físico é o aperfeiçoamento da criação, e a resposta ao mal moral é por que desse mal Deus pode tirar um mal maior.

Por ser Deus, amor, e por dar gratuitamente o seu amor, o amor sempre vai ser livre. Se você não é livre você não pode amar, e se você é livre, pode não amar.

“Não fostes vós, diz José a seus irmãos, que me enviastes para cá, foi Deus;  “Vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem; era para fazer, como acontece hoje, com que se conservasse a vida a um grande povo”

Gênesis 45,8; 50,20

Esse mal no mundo é, e sempre será, um desígnio de salvação Deus para nós, ainda que não entendamos, pois para os que amam a Deus, tudo concorre para o bem, e se Deus permite uma cruz, alguma ressurreição está escondida atrás dela.

Isso não é uma visão humana, mas uma visão sobrenatural que enxerga além daquilo que podemos ver.

Aqui entra a resposta da pergunta do outro texto: Deus criou o inferno?

Não, pois o inferno é fruto dessa liberdade mal direcionada. O inferno é uma invenção angélica junto com o pecado, que significa essa ruptura voluntária e irrevogável do amor e da comunhão com Deus. Este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra “inferno”.

Deus criou os anjos e o homem bons, e com o propósito de estarem em comunhão com Ele, porém o pecado, o Mal Moral quebra essa possibilidade.

Para os anjos isso significou uma divisão, uns “caem” e outros permanecem na comunhão.

Mas para o homem, com o pecado original dos nossos pais, todo o gênero humano herda essa condição decaída.

Logo o homem está, pelo Mal Moral, fadado a morte eterna.

E Deus tem ciência disso. Isso não nega a onisciência divina.

Mas, Deus pode tirar do mal um sumo bem, muito maior do que a glória que era reservada a Adão e Eva se estes não tivessem pecado. A natureza humana decaiu, e é necessário remir o homem.

“Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos. Sobreveio a Lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabun­dou a graça.”

Carta aos Romanos 5,19-20

Apesar de permitir o mal no mundo, Deus não destrói sua criação, mas, por ser sumamente bom, a ama de tal modo que, junto com a queda, já prepara um plano de salvação.

Para isso Deus então vem até nós para nos resgatar.

Até a próxima.


[i] deus com “d” minúsculo propositalmente;

[ii] Bom aqui no sentido de onibenevolente (absolutamente e ilimitadamente bondoso);

[iii] Há duas formas de ver a alma, e uma delas é a que a alma é o que faz a pessoa ser humana, isto é, a alma é o eu pessoal. Mas a alma que é o Eu pessoal é a alma espiritual. Uso aqui como alma o conceito de princípio vital, aquilo que dá a vida;

[iv] Catecismo da Igreja Católica nº 330;

[v] CIC 1008;

[vi] Enchiridion, 3, 11;

CREIO EM DEUS (…) TODO PODEROSO, CRIADOR DO CÉU E DA TERRA …(…) DE TODAS AS COISAS VISÍVEIS E INVISÍVEIS…

(Carlos Francisco Bonard)

Continuando o pensamento sobre o Credo, a luz do que ensina a Igreja Católica, temos a afirmativa de que Deus é Criador.

Este atributo está diretamente ligado ao primeiro trecho do Credo que diz Deus é TODO PODEROSO.

Como nós falamos no primeiro trecho apenas sobre a unidade de Deus, aqui falaremos sobre a sua onipotência também, tratando assim do fragmento todo.

Além de Pai, Deus também é todo poderoso. E o é devido a sua onipotência.

“Nós cremos que ela [a onipotência de Deus] é universal, pois Deus que criou tudo (Genesis 1, 1; João 1, 3), governa tudo e pode tudo, é também de amor, pois Deus é nosso Pai; e é misteriosa, pois somente a fé pode discerni-la, quando (a onipotência divina) “se manifesta na fraqueza” (2Cor 12,9)”.

Catecismo da Igreja Católica nº 268

Sendo Deus Todo-poderoso “no céu e na terra” (Salmo 134[135], 6), Ele ordena todas as coisas segundo a sua vontade.  Em Deus a palavra CRIAÇÃO tem seu significado pleno, vez que só Ele cria do nada. Nós até podemos fazer um invento, mas não estaremos criando, pois nós temos que usar alguma matéria prima para obtermos êxito. Na verdade nós adaptamos os materiais para a finalidade que almejamos.

Sendo assim, a criação é uma das “provas da existência de Deus”, e da sua onipotência.

“(…) o homem que procura a Deus descobre certas “vias” para aceder ao conhecimento de Deus. Chamamo-las também de “provas da existência de Deus”, não no sentido das provas que as ciências naturais buscam, mas no sentido de “argumentos convergentes e convincentes” que permitem chegar a verdadeiras certezas”.

Catecismo da Igreja Católica 31

Dissemos anteriormente que o homem é capaz de Deus, e que pelo uso da razão ele pode chegar a descobrir Deus.

Isso ocorre porque a criação, de certa forma, consegue de forma muito limitada, apontar para o esplendor de Deus.

Deus cria todas as coisas no seu Verbo ou na sua Sabedoria, que é o Filho. E cada coisa criada reflete alguma qualidade existente em Deus, por isso a criação fala de Deus:

“Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.”

Carta de São Paulo aos Romanos 1, 20

Leia também o que diz o livro da Sabedoria, no capítulo 13, dos versículos 1 ao 9:

“São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer aquele que é, nem reconhecer o artista, considerando suas obras (…) pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor”

Sabedoria, 13, 1.5

Cada coisa criada era antes uma ideia de Deus. E Ele coloca na criação essa ideia, que é um reflexo, um vestígio da sua divindade (a criação em geral), e a sua imagem e semelhança (o homem).

Então, criando um leão, por exemplo, Deus o faz para representar uma qualidade sua, e daí vem a sua imponência.

Como Deus é um artista perfeito, cada criatura corresponde perfeitamente à ideia que Deus teve dela.

Deus não está na natureza, como sua substância. Deus não é a natureza e não é o mundo, que são, ainda que belos, limitados. Deus é absoluto, e não carece de evoluir.

É bom frisar essa realidade

Estas “vias” para chegar a Deus têm como ponto de partida a criação: o mundo material e a pessoa humana.

O mundo não pode ter origem nem fim em si mesmo. Isso é, sua razão de ser não pode ser ele próprio. A ordem da criação, a beleza e o desenvolvimento do mundo apontam para Deus.

Quando falamos de provas da existência de Deus, não nos referimos a uma certeza absoluta, pois Deus não pode ser provado cientificamente ou matematicamente. Falamos de uma certeza moral.

Através do raciocínio humano você, escutando a voz da consciência que nos impele para o bem e nos afasta ou adverte do mal, percebe a existência de Deus.

Voltando, vemos um movimento no mundo, ao qual o nosso intelecto nos aponta para algo fora dele que o cria.

Por exemplo, toda causa é anterior ao seu efeito, isso é, alguma coisa ocasiona outra coisa. Podemos pensar em algo, mas esse algo terá que ter uma causa anterior. A ORDEM NÃO BROTA DO CAOS, é necessário uma inteligência por trás da ordem.

A isso Santo Tomás de Aquino chama de CAUSA DAS CAUSAS NÃO CAUSADASou CAUSA INCAUSADA.

O nome pode assustar, mas a ideia é simples. Dou como exemplo um resfriado causado pela chuva que é causada pela evaporação que é causada pelo Sol. Se pararmos no Sol duas possibilidades ocorrem:

  1. O Sol sempre existiu (logo ele é causa de si mesmo);
  2. O Sol nem sempre existiu (teríamos que descobrir a causa da sua existência);

Se a ciência diz que tudo tem uma causa, ela irá se contradizer a si mesma se não afirmar que haja uma causa primeira.

Junto a esta teoria temos a teoria do SER NECESSÁRIO[i]. O que não existe não começa a existir se não mediante outrem [que já exista]. Seguindo esta linha de raciocínio filosófico vislumbramos novamente duas possibilidades:

  1. Há um processo ad infinitum de seres criadores;
  2. Há UM SER que tenha em SI MESMO a necessidade de existir, SEM RECEBÊ-LA DE OUTRO;

Quando olhamos a natureza, de uma forma geral, percebemos que há seres que começam a existir e seres que deixam de existir. Bebês são gerados, pessoas morrem; sementes brotam, árvores fenecem; plástico é produzido, e outro, ainda que demore séculos, é deteriorado. Logo TUDO O QUE VEMOS NA NATUREZA TEM A POSSIBILIDADE DE NÃO SER, pois em algum momento aquilo não existia.

Se tudo o que vemos na natureza têm a possibilidade de não ser, houve tempo em que nenhuma dessas coisas existia. Se nada existia, nada existiria hoje, porque aquilo que não existe não pode passar a existir por si mesmo.

Olhando para essa realidade, aquilo que não existia, não passa a existir por si só. A sua existência depende de um motivo anterior.

Logo é impossível que nada existia (um nada absoluto) por que tem que existir algo primeiro, que sempre esteve lá. Um ser que era necessário e absoluto e que existia antes de tudo.

“Isto [a inaudita precisão dos fenômenos do Big Bang] terá acontecido por acaso?! Mas que ideia absurda!”

Walter Thirring[ii].

Este ser necessário, absoluto, é Deus que não pode deixar de existir ou mesmo deixar de ser Deus, sob a consequência de passar a ser contingente, dependente. Ele é o ser necessário em virtude do qual os seres contingentes tem existência (quanto as 5 vias, deixo para aprofundar o tema em um momento posterior).

Não estou afirmando que a onipotência de Deus venha destes dois conceitos, apenas estou dando explicações racionais para a razão de se dizer que Deus é onipotente, e que ele existe.

No credo o parágrafo é lido junto. Temos um PAI TODO PODEROSO:

“tendes compaixão de todos, porque vós podeis tudo”

Sabedoria 11, 23

Logo sua onipotência e paternidade iluminam-se mutuamente. E isto nos fará crer no restante do Credo que será ainda abordado.

O símbolo dos apóstolos afirma que Deus é o criador do céu e da terra, enquanto o símbolo niceno-constantinopolitano esmiúça: “(…) de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Quanto a isso o Compêndio nos diz:

“No princípio Deus criou o céu e a terra” (Gênesis 1, 1). A Igreja, na sua profissão de fé, proclama que Deus é o criador de todas as coisas visíveis e invisíveis: de todos os seres espirituais e materiais, isto é, dos anjos e do mundo visível, e em particular do homem”.

Compêndio da Igreja Católica nº 59

O termo “Céu e a terra” tem o significado de tudo.  Toda a criação foi feita por Deus, do nada. Sendo que:

  1. Terra – aqui ela é o mundo dos homens (Salmo 115[113B] 16[24]). O lugar das coisas “visíveis”;
  2. Céu ou céus, indica:
    1. Lugar das coisas invisíveis;
    1. Lugar dos seres imateriais – anjos;
  • A TERRA, o lugar das coisas visíveis.

Deus criou o mundo por força da sua palavra. A Bíblia mostra a obra de criação de forma simbólica no relato das origens. O mundo é feito por Ele em seis dias de trabalho, tendo descansado no sétimo (Genesis 1, 1-2, 4)[iii].

“No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Genesis 1, 1). Dizer no princípio Deus criou é afirmar que antes dele nada havia. Apesar de parecer repetitivo, reforço isto pois extraímos daqui duas verdades:

  1. O mundo não surgiu de si mesmo;
  2. Antes do princípio não havia nada, tendo Deus criado tudo do nada;

Apesar de a criação ser atribuída ao Pai, Este não tem exclusividade, vez que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são “o único e indivisível princípio da criação”[iv].

Deus ama todas as suas criaturas (Salmo 145[149], 9) e aqui se reflete a dependência que temos do resto da criação. Poderíamos viver sem o sol? Sem as plantas ou os outros animais? A harmonia de todo este universo criado resulta em um equilíbrio na forma das leis da natureza, a qual descobrimos progressivamente.

“A beleza do universo. A ordem e a harmonia do mundo criado resultam da diversidade dos seres e das relações que existem entre eles. O homem as descobre progressivamente como leis da natureza. Elas despertam a admiração dos sábios. A beleza da criação reflete a infinita beleza do Criador. Ela deve inspirar o respeito e a submissão da inteligência do homem e de sua vontade”.

Catecismo da Igreja Católica 341

A catequese católica aponta para a realidade de que cada criatura possui sua bondade e sua perfeição próprias vez que o Deus que cria diz que “tudo isto era bom”.

Pode passar imperceptível a maioria das pessoas, mas a Igreja, baseado nisto chama o homem a estar em harmonia com a natureza evitando o uso desordenado da criação que acarrete a degradação do meio ambiente.

São Francisco de Assis no Cântico das Criaturas louva a beleza infinita de Deus que se manifesta de forma reflexa na Sua criação.

“Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia e com sua LUZ nos alumia. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é muito útil e humilde e preciosa e casta… Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas. Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.”

São Francisco de Assis

Essa manifestação reflexa não se dá pelo que a criatura é, mas por aquilo que ela faz, assim ele diz:

Especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia e com sua LUZ nos alumia.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é muito útil e humilde e preciosa e casta…

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas.

Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.”

  • O CÉU, o lugar das coisas invisíveis.

Esta realidade se dá nos anjos e sua condição espiritual, incorpórea, invisível e imortal.

“Eles jamais poderão morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, porque são ressuscitados”

São Lucas, 20, 36

Por se tratarem de seres espirituais, os anjos são dotados de INTELIGENCIA e VONTADE[v], e, ao contrário dos homens, não necessitam dos sentidos. Diz Santo Tomás de Aquino “Os anjos sendo substâncias puramente simples, são como que formas que não são limitadas e determinadas por qualquer matéria, mas possuem, pela sua única natureza específica, todas as suas determinações substanciais”[vi].

Apesar de podermos dizer que o céu é o lugar da Igreja celeste, esta realidade da Igreja se dará de forma espiritual assim como os anjos[vii].  Quando a Igreja afirma em qual realidade se dará estas verdades ela implicitamente rechaça a TEOLOGIA A LIBERTAÇÃO.

Ocupando um lugar único da criação se encontra o homem que “Deus criou (…) à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Genesis 1, 27).

O Homem une, na sua natureza, o mundo material e o mundo espiritual, vez que, fazendo parte da criação visível, tem a capacidade de CONHECER e AMAR seu criador[viii]. Ele as une por que o Homem é “CORPORE ET ANIMA UNUS[ix] – UNO DE ALMA E CORPO – e esta alma é espiritual.

É claro que nem todas as realidades humanas serão divinas.

Mas cabe uma pergunta: Se Deus criou tudo, ele criou o Inferno?

Pensem sobre isso que responderemos a seguir.

Um abraço a todos

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem.

(Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz.)


[i] A CAUSA INCAUSADA e O SER NECESSÁRIO são duas das 5 vias da prova da existência de Deus de Santo Tomás de Aquino;

[ii] 1927, físico austríaco;

[iii] Inicialmente continuei o texto abordando as teorias sobre a literalidade, ou não do relato da criação. Após muito escrever percebi que fugiria da temática inicial do Credo. Mas a quem interessar saber, no futuro poderemos falar sobre o Genesis, em especial as contradições do capítulo 1 e 2, e suas explicações teológicas;

[iv] Catecismo da Igreja Católica nº 316;

[v] Catecismo da Igreja Católica nº 330;

[vi] De Unitate Intelectus;

[vii] Compêndio da Igreja Católica nº 60 c/c 209;

[viii] Aspectos de sua ALMA ESPIRITUAL que desenvolveremos em momento;

[ix] Gaudium et Spes (SOBRE A IGREJA NO MUNDO ATUAL) 14;

Creio em Deus Pai

(Carlos Francisco Bonard)

“Creio em Deus Pai, todo poderoso”…

“Creio em um só Deus, Pai todo poderoso”…

Durante a história da salvação a definição de Deus carrega uma dualidade extremamente contraditória: Deus é amor (Isaías 66, 13), mas vingativo (Êxodo 20, 5; Deuteronômio 5, 9) e até cruel (Isaías 14, 30). Talvez uma boa definição no Antigo testamento seja a do salmista que diz “Como um pai tem piedade de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem” (Salmo 102[103] 13).

Essas definições de Deus parecem ir de encontro a este trecho do Credo. Como pode Deus ser Pai e, às vezes, parecer tão distante?

Bem, antes de qualquer coisa, Deus é um.

Aquilo que o Credo cristão professa a mais de dois mil anos é a continuidade do Credo de Israel: “Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhori.

O Senhor nosso Deus é o único Senhor” é uma renúncia aos deuses vizinhos. A fé no Deus único é uma novidade histórica em relação a fé dos povos que viviam ao seu redor, sem contudo ser uma descontinuidade total. Se observarmos bem, em meio a povos politeístas, os hebreus inicialmente são monolatristasii, para depois desenvolver sua fé monoteísta.

Nesse desenvolvimento percebemos que o homem é capaz de Deus. O homem tem um desejo por encontrar algo que está além de si, algo que explique seus anseios e necessidades. É difícil apontar uma civilização que não cultue alguma divindade.

O coração do homem é feito para o infinito. Por isso as experiências, por mais belas que sejam, não lhe satisfazem totalmente, e logo vem o desejo por mais. As suas conquistas lhes fazem ensejar pelas próximas. E as perguntas não param: por que existimos? Qual o sentido da vida? A morte é o fim?

A busca pelo transcendente, por aquilo que não está em si e no mundo que o cerca, move a humanidade.

Por isso o homem é um ser religioso. Deus mesmo colocou no homem esse desejo de procurá-lo e encontrá-lo, até mesmo pelo uso da razão e pela observação da natureza.

“Tu [Deus] o incitas [ao homem] para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”.

Santo Agostinho, confissões 1, 1

Mas não deixou o homem a sorte de talvez perceber a sua existência. Deus se revela, faz-se conhecer, e faz conhecer a sua vontade (Dei Verbum, 2). A história da salvação nos mostra como progressiva e pedagogicamente Deus vai se revelando (como um catequista faz com o catequizando, revelando Deus aos poucos). O amado só pode aderir ao Amor se Ô conhecer.

Esse é o desenvolvimento até a ciência de que Deus é um. Deus se revela, e nós respondemos a essa revelação crendo nele.

Curioso que a própria lógica refuta a existência de mais de um deus. Ora, se temos dois deuses, um deles limitará o poder do outro, e alguém que é limitado não pode ser Deus. Mas ainda assim foi necessário Deus revelar a sua unicidade.

A prova de que Deus se revela, que quer ser acessível, é que Deus revela seu santo nome: YHWH/IaHWeH/Javéiii.

Moisés disse a Deus: “Quando eu for aos israelitas e disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’; e me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que direi?” Disse Deus a Moisés: “Eu sou aquele que é”. Disse mais: “Assim dirás aos israelitas: ‘EU SOU me enviou até vós.’ ”.Disse Deus ainda a Moisés: “Assim dirás aos israelitas: ‘Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó me enviou até vós. É o meu nome para sempre, e é assim que me invocarão de geração em geração.’ ”.

Êxodo 3, 13-15iv

Iahwehnão é propriamente um nome. Apesar de ser o nome dado por Deus, o tetragrama sagrado significa que Deus não precisa ser invocado, como os povos antigos faziam com os deuses pagãos, pois Deus é aquele que É, que está presente.

Para Israel, e para os povos do antigo Oriente Próximo, os nomes indicavam uma presença real. Uma coisa era realidade apenas se o seu nome era conhecido, e o nome subentendia intimidadev. Saber o nome era estar com alguém, de forma pessoal.

Em termos práticos, a resposta de Deus a pergunta de Moisés foi um “meu nome não importa para que me invoque. Sou o Deus dos patriarcas e estou contigo sempre”vi.

Obviamente apenas isso não dá a dimensão do significado do nome de Deus. Em linhas gerais, o nome misterioso de Deus indica que apenas ele É. Apenas ele se basta, sem necessitar de nada para ser, pois Ele é.

Deus é a plenitude do Ser e de toda a perfeição, sem princípio nem fim. Enquanto todas as criaturas d’Ele receberam todo o ser e o ter, só Ele é o seu próprio Ser, e Ele é por Si mesmo tudo o que Ele é”.

Catecismo da Igreja Católica 213

Vale nos debruçarmos sobre o significado do nome de Deus em um momento futuro. Porém é importante, muito importante outra revelação feita a Moisés na sarça ardente: “Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob” (Ex 3, 6). Ele é o Deus dos pais, é um Deus presente e pessoal, e que escutava o seu povo (Ex 3, 7).

Continuando, Deus é aquele que é, conforme já dissemos, mas também é Verdade e é Amor.

Deus é Verdade pois Ele é luz, e n’Ele não há trevas. Sua Palavra é Verdade (Pr 8, 7; Sl 119[118], 89-90), sua Lei é Verdade (Sl 119[118], 142), e Jesus se encarna para dar testemunho dessa Verdade (Jo 18, 37).

Se Deus é Verdade, ele é imutável, logo Ele é o que é.

E também as coisas só tem sentido quando configuradas a Deus, pois se Ele tudo cria, sua criação tem um fundamento, uma verdade, uma vocação que só tem lógica conforme a vontade do seu criador.

A verdade não pode ser relativa, e tem de existir uma verdade fundamental, pois se tudo é relativo, nada é real. Por isso quanto mais verdadeiras as coisas, mais elas são (na acepção da palavra SER).

Esse tema da verdade deve ser refletido por nós e desenvolvido nas catequeses, pois ela, a Verdade, permeia a relação do homem com Deus, e permeia a nossa reconciliação (esses dois conceitos se confundem).

Em outro momento falaremos sobre o Sacramento da Penitência, mas, apenas para não ficar no campo teórico, é preciso entender que se configurar a Verdade é se configurar a Cristo. Quando vou me confessar e não confesso um determinado pecado por que não quis (seja de propósito pelo motivo racional que for, seja por que não o considero pecado ao contrário do que sei que diz a Igreja), não estarei me aderindo a Verdadevii, preferindo aquilo que eu acho ser verdade (descobrir os seus pecados e a sua própria condição de criatura sujeita ao pecado é descobrir/revelar a sua verdade própria). E isso me leva a não ter esse meu pecado perdoado, que me leva, em última análise a uma separação de Deus.

Isso, e aqui chegamos ao ponto desse exemplo, significa que a minha salvação ou condenação depende do tanto que eu quis ou não ter uma amizade com Deus (CIC 1468), pois a minha condenação é um ato de LIBERDADE, e eu decido qual “verdade” quero seguir. Esse processo de se despojar do que eu penso e aderir a Verdade deveria ser simples, mas é extremamente doloroso, pois, como diz G. K. Chesterton, “O homem foi concebido para duvidar de si mesmo, mas não duvidar da verdade, e isso foi exatamente invertido”.

Jesus diz que a verdade nos libertará se nós a conhecermos (Jo 8, 6), pois somos escravos do pecado (v.34) e que ele pode nos tornar verdadeiramente livres (v.36). Jesus também diz que ele é a verdade (Jo 14, 6).

Se Jesus é a Verdade, e Deus é a Verdade, Jesus é Deus.

Deus também é Amor (I Jo 4, 8.16), e por isso não há criatura alguma que não seja sustentada e envolvida por esse amor, pois é impossível para Deus não amar, vez que isso iria contra a sua natureza.

Esse tema do Amor Divino (ágape) também deve ser refletido por nós e desenvolvido nas catequeses, principalmente em contraposição ao que nós chamamos de amor.

Um bom caminho é a utilização do termo caridade, pois leva essa ideia de gratuidade, de não retribuição. O verdadeiro Amor ao qual devemos nos configurar é aquele que se doa sem esperar algo em troca.

Aqui adianto o próximo tópico de forma rápida. Como pode um Deus ser Pai, ser Amor, e parecer tão distante, e, por vezes vingativo e cruel conforme o Antigo Testamento?

Falamos que Deus foi se revelando aos poucos. A revelação de Deus, como ele é, quem nos fez foi Jesus, morrendo na Cruz por cada um de nós. Por isso Jesus também é Amor em atos, já que não nos salva com discursos, mas com a concretude de dar a vida pelos irmãos.

Mas, se Jesus é Deus, por que o credo diz que cremos em “UM SÓ DEUS”?

Veremos isso quando falarmos da Trindade.

Até a próxima.

Carlos Francisco


i Sh’ma ou Shema Israel. Dt 6, 4-9; 11, 13-21 e Nm 15, 38-4, integram o Shema (“ouve”), que os judeus observantes rezam desde o fim do século I d.C. (Garcia López, Felix. Pentateuco, introdução à leitura dos 5 primeiros livros da Bíblia. Editora: Ave Maria, 2006, p. 251);

ii Crença na existência de muitos deuses, mas com adoração consistente em apenas uma divindade;

iii Jeová (Jehovah) é uma mistura das consoantes de YHWH com as vogais de Adonai (Senhor) que só surgiu a partir de 1518, não sendo recomendável sua utilização, conforme o dicionário da Bíblia de Almeida, 2ª edição (2008);

iv Conforme versão da Bíblia de Jerusalém, 4ª impressão (2006);

v BERGANT, Dianne e col. Comentário Bíblico. Editora: Loyola, 2010, p.95;

vi CIC, §206;

vii “Mas é bom recordar e acentuar que contrição e conversão são, sobretudo, uma aproximação da santidade de Deus, um reencontro da própria verdade interior, obscurecida e transtornada pelo pecado, um libertar-se no mais profundo de si próprio e, por isso, um reconquistar a alegria perdida, a alegria de ser salvado, que a maioria dos homens do nosso tempo já não sabe saborear” (RECONCILIATIO ET PAENITENTIA 31);.

O Credo

(Carlos Francisco Bonard)

credo

“Este Símbolo [o Credo] é o selo espiritual, a meditação do nosso coração e o
guardião sempre presente; ele é, seguramente, o tesouro da nossa alma” 1 .

O catecismo, no parágrafo 1247, nos reforça a ideia da conversão dos batizados. Em primeiro lugar, aos que ainda não conhecem a Cristo e o seu Evangelho, mas também aos convertidos, pois a conversão é diária.
Esse é um movimento de sair e voltar. O pecado faz com que saiamos da comunhão da Igreja, enquanto a reconciliação nos permite voltar a essa comunhão (CIC n. 1444-1445 2).
Essa conversão se fundamenta em uma profissão de fé. O batismo e a profissão de fé andam lado a lado, tanto que a forma básica do Credo, o Credo apostólico, surge no contexto da prática batismal 3 .
Na Igreja primitiva os candidatos ao cristianismo – assim como hoje – aprendiam aquilo que deviam crer. Lhes eram explicado o Pater 4 e uma espécie de formulário com o resumo essencial da fé: o Símbolo.
Esse Símbolo – o Credo – remonta, em sua fórmula básica, às palavras de Jesus transmitidas em Mt 28, 19: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Por isso já nos primeiros séculos da Igreja, conforme o Traditio Apostolica de Hipólito de Roma, três perguntas eram feitas aos batizandos: “Crês em Deus Pai todo poderoso? Crês em Jesus Cristo, o filho de Deus…? Crês no Espírito Santo…? 5
Quando a Liturgia nos apresenta a festa do batismo do Nosso Senhor, ela nos leva a refletir sobre o nosso batismo através das renuncias e da fórmula batismal em sistema de perguntas e respostas. Assim, o compromisso batismal é baseado em renúncias (as três primeiras partes) e no Credo (também fracionado em três partes).
A profissão de fé de todos os cristãos é feita na primeira pessoa do singular: “Creio”. Porque, no seio da comunidade, cada pessoa tem sua própria história com Deus.
Ninguém pode dizer por outro: Creio 6 .
Mas, inicialmente, o que é o Credo?
Credo é a síntese da fé cristã. Esta síntese chama-se “profissão de fé”, pois nela se condensa tudo o que os cristãos professam. Tanto que o catecismo da Igreja católica no seu parágrafo 185 assevera que “Quem diz “Creio” afirma: “dou a minha adesão àquilo em que nós cremos””.
O nome Credo, que é uma palavra em Latim, vem da primeira palavra com a qual, normalmente começam, qual seja “creio”. Ele tem também como denominação “símbolo da fé”
Símbolo aqui não no sentido de uma figura ou imagem que representa algo abstrato.
Mas do grego “symbolon” que significa a metade de um objeto quebrado, a ser
apresentado como sinal de reconhecimento 7.

No livro PORTÕES DE FOGO 8 os espartanos usavam algo bem parecido quando iam para a guerra. Traçavam seus nomes ou sinais em um bracelete improvisado, feito de galhos, que chamavam de “etiquetas”. Isso identificaria os corpos, caso muito mutilados. Cada símbolo partido significava um guerreiro. Assim saberiam quem voltou e quem morreu. Uma metade não era nada, e significava na melhor das hipóteses um desaparecido, mas geralmente era sinal de morte.

O Credo também é partido, quebrado:

Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra.

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que nasceu da Virgem
Maria, padeceu e foi sepultado, ressuscitou dos mortos e subiu ao céu.

Creio no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai e do Filho, e
com o Pai e o Filho é adorado e glorificado.

Dividido em três partes, o símbolo só tem lugar quando devolvido ao seu estado original. Não basta crer só no Pai, nem só no Filho ou no Espírito Santo. Também não adianta crer mais em um que os outros.
Também estamos partidos se nossa crença não está pautada aqui na profissão de fé cristã, o Símbolo dos Apóstolos.
Interessante contradição. Disse [e é verdade] que a profissão de fé é feita na primeira pessoa do singular. Mas também deixei claro que eu não creio em qualquer coisa, mas naquilo que a Igreja crê. Note que também estou partido e só sou católico quando unido a comunidade.

Daniel Rops, no volume 1 da sua coleção de história da Igreja, diz:

O Símbolo dos Apóstolos foi sem dúvida posto por escrito
simultaneamente na maior parte das comunidades cristãs; houve assim,
uma versão de Jerusalém, uma de Cesaréia, uma de Antioquia, uma de
Alexandria e uma de Roma, que diferem entre si em alguns detalhes. É da
versão romana (…) que proveio o atual texto do Símbolo dos Apóstolos” 9 .

Diferiam em algumas palavras, mas não na fé que se professava. É muito importante perceber que o Credo não cria as verdades que proclama, mas estas verdades são anteriores a ele ter sido formulado 10 .
Eu creio naquilo que a comunidade crê, naquilo que os apóstolos passaram, naquilo que Cristo ensinou.

Daqui se absorve a última parte do Credo na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição dos mortos, na vida eterna.

Essas quatro partes compõe um todo. Compõem um único símbolo. É como um grande quebra cabeças que só faz sentido após montado.

Vamos refletir sobre o Credo nas próximas semanas, a fim de dar razão a nossa fé.

E você? Está em consonância com a crença da Igreja ou você se acha católico? Em que você crê?
Não se esqueça que o símbolo partido pode significar a morte.
Amém?


1 Santo Ambrósio (†397), bispo de Milão e doutor da Igreja;

2 Essa ideia está contida no sacramento da confissão. Ela exprime o sentido de reconciliação;

3 RATZINGER, Joseph. Introdução ao cristianismo. Editora: Loyola, 2011, p.61

4 O Pai Nosso;

5 MARSILI, Salvatore. Sinais do mistério de Cristo. Editora: Paulinas, 2009, p.217;

6 Sobre a fé dos bebês, podemos falar futuramente. Mas, por hora, é importante dizer que a fé batismal não precisa ser perfeita e madura, mas se desenvolver após o batismo (CIC n. 1253);

7 Catecismo da Igreja Católica n. 188;

8 Pressfield, Steven. (2000);

9 ROPS, Daniel. A Igreja dos apóstolos e dos mártires. Editora: Quadrante, 1988, p.208;

10 Santo Irineu de Lião (200~202) disse “(…)a Igreja espalhada pelo mundo inteiro até os confins da terra recebeu dos apóstolos e seus discípulos a fé em um só Deus, Pai onipotente (…); em um só Jesus Cristo, Filho de Deus (…); e no Espírito Santo (…). Tendo, portanto, recebido esta pregação e esta fé, como dissemos acima, a Igreja, mesmo espalhada por todo o mundo, as guarda com cuidado, como se morasse numa só casa, e crê do mesmo modo, como se possuísse uma só alma e um só coração; unanimemente as prega, ensina e entrega, como se possuísse uma só boca. Assim, embora pelo mundo sejam diferentes as línguas, o conteúdo da tradição é um só e idêntico”;