Jesus se compadece de nós

(Vandeia Ramos)

Jesus nos olha e vê o quanto andamos confusos, sem saber no que e em quem acreditar. Notícias fakes, grupos libertadores, portadores da verdade, justiceiros… Não são os primeiros na história nem na nossa vida. Só que estamos cansados. Há três meses em que o medo é semeado e as pessoas estão se arriscando por pouco, por nada ou por tudo. Shopping, protestos, justiças históricas… ovelhas sem pastor… São poucas as vozes que anunciam a paz, que são referências de Deus. Operários… Servos…
Jesus não trabalha com culpa, mas com solução. Ele é o Senhor de tudo. Mas quer que participemos. Então nos lembra que nós somos responsáveis. O Estado não é o salvador, grupos minoritários não trazem soluções, ideias não apresentam bons frutos… São as pessoas a serviço da humanidade, do bem comum, que servem através do Estado, que se associam em serviços específicos, que elaboram ideias para um bem maior… A diferença é sutil e central na mensagem evangélica: somos responsáveis uns pelos outros. Aqui a formação das famílias, atividades profissionais, estados de vida, amizades, grupos em que fazemos parte…
Para ser sua autoridade visível, Jesus escolhe os Doze. Eles são representativos da Igreja de todos os tempos. Jesus sabia quem era cada um deles, suas limitações, sua capacidade de amar… e os escolheu, como escolheu a nós. E não para sustentar um orgulho vazio superior sobre os demais. Somos quem somos porque nascemos onde nascemos, no tempo em que nascemos, com as escolhas que fizemos – estas últimas como diferencial. Mas quem seríamos nós em outra época e em outro lugar? Seríamos católicos em uma tribo no interior da Amazônia no nosso século X?
A autoridade dos discípulos não é deles, mas de Jesus que lhes dá, do mesmo modo que o Pai lhes deu. Eles não falam nem agem por si. Quando o evangelho de Mateus tem sua versão final, a Igreja está constituída, com Pedro à frente. Este que vai do não querer que Jesus lhes lave os pés a pedir que lave todo o corpo, que corta a orelha do soldado no Jardim, que diz que não conhece o Mestre, que não está presente no Calvário, que tem dificuldades em acreditar na Ressurreição – e que Jesus Ressuscitado confirma como chefe dos apóstolos, colocando-o para apascentar suas ovelhas e cabritos, pois é fiel e não muda de ideia.
Conhecemos muitas das dificuldades dos demais, como o publicano Mateus, cobrador de impostos, que hoje chamaríamos facilmente de corrupto. Simão Zelotes, membro da facção que defendia tomar pela espada a liderança de Israel. Nem preciso comentar de Judas Iscariotes…
Foram estes que Jesus escolheu, conhecendo o coração de todos, para, através da própria missão, educá-los na confiança em Deus, de que vão ter tudo que precisarem entre os seus. Então, primeiro os de casa, nossa família, nossos doentes, a catequese das nossas crianças e jovens, a permanente conversão-formação de todos nós, a cura de nossas sombras… E nossos próprios problemas diminuem e tendem a se resolver, seja com o tempo, seja porque encontramos quem nos ajude.
Por que esperar que com os demais seja diferente? Por que esperamos que as pessoas da Igreja, independente do estado de vida, também não se encontrem na mesma condição? De Pedro ao padre, da madre à freira, do monge ao leigo que serve, não nos revezamos entre as figuras que os apóstolos nos colocam? As pessoas não são projeções do que queremos que elas sejam. Elas são pessoas independente de nós, do que achamos de que elas devam ser – ainda que muitas tenham responsabilidades para conosco, que devem responder. Elas trazem um pouquinho de nós – talvez por isso seja difícil aceitar este cuidado de Jesus em nos mostrar delicadamente o que precisamos melhorar.
Dia a dia, Jesus continua confirmando cada um na messe que escolheu para cada um de nós. E não é pelas nossas fraquezas, erros, pecados, erros… mas pela autoridade com que cada um é investido. Não significa um seguimento cego. Daqui a necessidade de sempre aprofundarmos a fé, um estudo cuidadoso da doutrina, para sabermos como nos posicionarmos em cada situação. Obediência, caridade, humildade, escândalo, flagelação, privado e público, moral… tantas questões aqui…
No entanto, todos nós escolhemos a cada dia ficar nesta família. Vivemos não pela nossa capacidade, mas na certeza de que podemos ouvir a voz de Deus mesmo no mais pecador de seus servos (e aqui também estamos nós, catequistas), como ouvimos na Igreja de todos os tempos. Na permanência em Pedro, guardamos a Aliança, a Nova e Eterna Aliança, fazendo sua memória como Corpo de Cristo que serve ao mundo. Não somos reis, somos servos do Rei, que oferecemos nossa vida de serviço na Eucaristia e, com ela, o mundo em que estamos. Somos o povo do Senhor e, unidos em Jesus Cristo como sua Igreja, podemos dar glória a Deus pela eternidade.

A alegria do Espírito: anúncio e intimidade

(Vandeia Ramos)

Domingo passado, quando Jesus retorna ao Pai para ficar em Home Office, Ele deixa os discípulos reunidos em oração. Desde a Ressurreição, eles estavam tendo um intensivão para uma grande missão, ainda que não soubessem direito o que seria. Jesus tinha vencido o pior dos adversários, a morte, e veio retomar a história da salvação para dar-lhe sentido a partir do Filho do Homem. Agora, podíamos entender a humanidade em um antes e um depois de Cristo, a preparação para sua vinda e a uma nova realidade que era vislumbrada, mas não compreendida.
Para toda grande missão, uma grande preparação. E em comunidade, em família. Os discípulos, reunidos com Nossa Senhora, permanecem no cenáculo em oração. Eles se preparam, organizam seu dia, seu coração, meditam sobre o que aprenderam, conversam entre si, buscam o algo mais que não sabem o que é. As palavras de Jesus ressoam no que lhe é mais íntimo. Confiam. E aguardam.
O Dia de Pentecostes é narrado no Atos dos Apóstolos. A palavra é grega, não hebraica, que passa a ser usada para shavuot, a festa das 7 semanas, a alegria das colheitas, em que todos participavam: judeus, estrangeiros, escravos, livres… O movimento de Israel para o mundo já tinha começado.
A narração de Lucas nos lembra Gênesis: o Espírito que paira sobre as águas, paira sobre a Criação; Ele vem do céu, do Pai e do Filho. Semana passada Jesus foi ao céu na Ascenção. Hoje, o Espírito, através de Jesus e do Pai, vem do céu até nós. Não de modo íntimo como o contato com Jesus nos 40 dias. Este momento passou. Agora o Espírito vem como uma forte ventania, chamando a atenção de Jerusalém. E o Espírito enche a casa onde estão, a casa de oração, em que discípulos e Nossa Senhora estão reunidos, a Igreja.
Tendo a atenção de Jerusalém pela ventania, preenchendo o lugar da Igreja reunida, o Espírito se apresenta como em línguas de fogo sobre cada um deles. Temos o Espírito do Pai e do Filho pairando sobre a Igreja, depositado em cada um de seus membros. E cada um começa a falar em línguas, conforme a inspiração do Espírito, a necessidade da Igreja, a missão recebida. O Dom que recebemos não é nosso. É através da Igreja que, em missão ao mundo, o santifica.
Muitos se aproximam para ver. Curiosidade? Medo? São pessoas de vários lugares. Podemos encontrar colônias judaicas em todo o Império Romano e cada judeu adulto pagava anualmente uma dracma ao Templo. Além do desejo pessoal de uma vez na vida ir a Jerusalém, sempre tinham representantes das diferentes sinagogas para levar o devido. Ir em um dia de festa era aproveitar uma oportunidade. Prosélitos eram os que gostavam do judaísmo e seguiam em parte seus preceitos, mas não faziam a circuncisão.
Pela Palavra, fez-se a Criação. Agora, através do Espírito que atua na Igreja, temos uma nova Criação, a manifestação dos filhos de Deus. A Palavra é uma das principais referências da Igreja, é seu primeiro ato a partir de Pentecostes – o anúncio da Salvação. Pela Palavra, a Igreja vai se inserir nas diferentes culturas e transpassá-las, convidando o ser humano a nascer de novo, a fazer-se novo em Cristo. Somos felizes porque não vemos, mas cremos no testemunho dos Apóstolos, na Palavra que se faz palavra nos seus, na Igreja.
É o início da Igreja visível, pública. Mas não só. Há um coração que permanece íntimo, em oração, junto à Nossa Senhora, que não se expõe, que sustenta, que só é percebido por quem vive nesta intimidade, que se encontra de portas sempre abertas para receber “a Mãe do meu Senhor”. Afinal, é ela quem gera os santos de Deus. E, onde Maria está, o Espírito Santo também está junto de sua amada esposa. Por isso, hoje e sempre,
“Vinde, Espírito Santo, vinde por meio da poderosa intercessão do Imaculado Coração de Maria, Vossa Amadíssima Esposa”.

Fazer da vida um canto de amor!

(Vandeia Ramos)

Hoje, Jesus nos chama a sermos discípulos e nos prepara. No centro está o amor – o centro da identidade cristã. “Se me amas…” é o critério de quem é e o quanto é seguidor de Cristo. O amor é gratuito. Não espera resposta, gratidão ou reconhecimento. Quanto mais difícil, mais livre é, pois não está preso a nada.
Amamos por sermos quem somos, não por quem o outro é ou pelo que pode oferecer. Amamos amigos, conhecidos, inimigos, esquecidos, os que nos ofendem… A centralidade do amor está no Outro. Amamos porque Jesus nos amou primeiro, porque reconhecemos que não somos a melhor pessoa do mundo, ao contrário. Somos capazes de ofender, maltratar, ofender, e ir além, mais do que os que nos ofendem.
Se ao bater o dedinho na quina da porta somos capazes de falar em várias línguas, o que não fazemos quando nos xingam, ferem alguém que gostamos, oferecem oportunidades em que podemos ganhar favores… até que ponto somos aquilo que queremos que o outro seja?
Se não fosse a graça de Deus, a vida de constante oração, o que não seria de nós? Se não pedirmos a Jesus para ficar conosco, como guardaríamos os seus mandamentos? Precisamos renovar sempre nossa vontade e nosso “sim”.
Jesus sabe e não nos deixa sozinhos. Ao chegar ao Pai, envia-nos seu Defensor, o Espírito da Verdade. Ele nos revela quem somos: os filhos de Deus. Conforta-nos, acalma, dá-nos o conhecimento do quanto somos amados e cuidados, preenche-nos com a paz para que confiemos que o nosso amanhã está guardado em Deus.
E Jesus retoma o tom de testamento: Ele vai e já vem, Ele está indo ao Pai, mas já anuncia a vinda do Espírito Santo. Ele prepara os discípulos, colocando os mandamentos no centro do amor. Por ser amada, e saber que Deus cuida e quer o melhor para mim, sei que Ele indica qual o caminho mais fácil, rápido, curto e seguro para Ele. E, quem ama, confia. Assim, os mandamentos se tornam convites para trilhar o caminho para o Pai através de Jesus.
São um caminho de encontro de Deus sobre todas as coisas, de Deus através da Igreja, de Deus através da família, de Deus através da humanidade, de Deus através da reta disposição dos bens materiais e espirituais.
Assim fizeram os habitantes da Samaria. Sabemos que Jesus já tinha passado por lá, que a mulher do poço tinha anunciado e agora Felipe. Que grande alegria quando nós ouvimos e passamos a viver o Evangelho. Pedro e João é enviado à Samaria. Não dá para viver a Palavra sem ser comunidade, sem ser Igreja. Sabemos o quanto é difícil. Precisamos uns dos outros. Pela oração da Igreja, recebemos o Espírito Santo.
Com Jesus em nossos corações, santificados no Espírito, podemos dar razão da nossa esperança. São Pedro nos apresenta a razão de ser do catequista. Nossa fé tem razão, ela pode ser explicada. Não com palavras ao vento, impondo a verdade como se fôssemos donos e quiséssemos dominar o mundo tendo a doutrina como instrumento. Somos servidores e não donos da Verdade. A quem nos pede, podemos explicar a nossa fé, com mansidão e respeito. Como cordeiros, mansos e humildes servos da Palavra, respeitando quem acredita diferente, considerando o limite de nosso conhecimento.
O testemunho do amor que é nossa identidade. Se as palavras não forem expressão deste testemunho, são em vão e serão utilizadas contra nós e contra os demais cristãos. É esta coerência que nos dá autoridade, que ilumina, que incomoda. Como continua São Pedro, o sofrimento é inerente ao homem, mas, se for por ter feito o bem, sendo associado à cruz de Cristo, ele ganha uma dimensão salvífica, que nem sempre poderemos alcançar.
Assim, somos convidados a fazer de nossa vida um canto de amor!

Senhor, ajudai-nos a ser misericordiosos

(Vandeia Ramos)


Das três leituras de hoje, o evangelho de João foi o último a ser escrito, em torno do ano 90. Jesus Ressuscitado aparece para os seus. Ele não é mais o homem das multidões. Agora sua divindade é revelada somente aos seus escolhidos, àqueles que se encontram reunidos no domingo, sua Igreja. Aqui, Ele é bem-vindo, não precisa que lhe abram a porta, somente que sintonizem o canal da televisão ou que iniciem a live no horário marcado. Sua família o espera!
Entre nós, Jesus se coloca e logo anuncia: “A paz esteja convosco”. Não temos Jesus sacramental pela situação em que vivemos. No entanto, sabemos que Ele é real em nossa casa, na Palavra proclamada, acolhida, meditada, vivida. Sua graça nos basta!
Ele nos mostra as mãos e os lados. Não é um fantasma, uma alucinação, uma fantasia ou mera imaginação. Jesus traz as marcas da Paixão, do que passou por nós. Sua divindade traz sua humanidade glorificada, revela o sentido do tempo que viveu, apresente o germe do que é esperado dos seus. E nós ficamos felizes por tê-lo! Ele verdadeiramente está entre nós, conosco, em nossa casa, em nossa família!
Jesus dá-nos a sua paz, não para que a guardemos. Dá-nos para fazer de nossa vida uma única vida com Ele. Do mesmo modo que Ele veio para cumprir a vontade do Pai, Jesus nos envia para uma missão: continuar o que Ele começou. Temos aqui claramente o envio da Igreja, na administração dos bens espirituais. Do lado transpassado do Ressuscitado, um rio de misericórdia centrado no primeiro domingo após a Páscoa por São João Paulo II.
Em missão, nossa catequese se torna criativa, em casa e pelas mídias sociais, muitos trabalhando e outros nas atividades do cuidado da casa. Cuidar com amor é nossa primeira necessidade hoje, é a mensagem que precisamos anunciar. Cuidar dos que chegam atrasados, como os Tomés, atualizando com paciência sobre o que perderam, das grandes diferenças de idade que podem ficar mais distantes com a maior convivência, cuidar dos doentes ainda que tragam risco para quem atende, cuidar da limpeza mesmo que precise repetir constantemente, cuidar da alimentação para que a saúde seja forte, cuidar da imunidade para sermos mais resistentes e cuidar de nossa fé para que possamos ser os “seus” de Jesus.
Somos felizes porque começamos nossa vida de fé acreditando sem termos visto. Hoje, podemos ver Jesus em cada aspecto de nossa vida, sabendo que Ele caminha conosco, que fazemos parte de seu Corpo, que o recebemos em nossa casa-igreja, em nossa perseverança em cuidar uns dos outros, rezando e agradecendo, cuidando e partilhando com os que mais precisam, não deixando que os que dependem da Igreja fiquem desprotegidos.
Passamos por um momento de grande provação, mas sabemos que é só isso: um momento. Em que precisamos rever nossa vida, como acreditamos, o modo como encontramos Jesus, em que centramos nossa fé. Como toda prova, teremos algumas perdas, que nem sempre serão fáceis. Mas também sabemos que não estaremos sozinhos. Somos Igreja peregrina que caminha sob a direção do Espírito Santo.
Muitos estão precisando da misericórdia hoje. Não é só dia de pedir a misericórdia de Jesus para nós, mas para todos os que precisam. É dia de sermos uma Igreja de misericórdia: pelos doentes que não então mais encontrando vaga nos hospitais, pelas famílias que não sabem o que fazer com os seus doentes, pelos médicos que têm decisões difíceis a tomar, pela equipe de apoio que precisam ser precisos e rápidos pela demanda do trabalho, pelos falecidos que a família não conseguiu cuidar e acompanhar até o final, pelos doentes em situação de rua que nem serão identificados, pelos que serão preteridos por políticas públicas e por tantos outros que trazemos em nossos corações e por outros tantos que só Jesus pode identificar.
Neste domingo de oitava pascal, domingo da misericórdia, em um mundo que perde a confiança em tudo que vinha se apoiando, podemos aclamar com alegria: Jesus, eu confio em vós!

Ouve, Catequista, o Meu Filho Amado

(Vandeia Ramos)

O Evangelho nos remete ao quarto mistério luminoso do terço, em uma caminhada de fé quaresmal que nos leva direto para a Páscoa. Como Jesus chama o trio André-Pedro-João entre os que seguem e mesmo entre os apóstolos, somos também nós chamados para estarmos mais próximos: para participamos e sermos membros do Corpo de Cristo, a qual anunciamos em nossa vida e na catequese.
De vez em quando, Jesus nos chama a alguns momentos particulares com Ele, para subir a Montanha e se revelar. É algo que não merecemos, independente de nós, ao qual somos chamados a participar.
Revelação envolve a Lei (Moisés) e os Profetas (Elas). Através deles a Palavra de Deus falou a nós, até que se fez carne e nos fala diretamente hoje. Nosso impulso e limitação humanas é de cuidar, de fazer uma tenda para abrigar, para que possamos servir de acordo com nosso alcance. Mas o que Deus deseja é muito maior do que poderíamos alcançar: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!”
Deus não precisa de tenda ou de nossa ajuda. Ele SÓ nos pede que acreditemos em Jesus através da sempre presente Palavra dada a Israel e aos cristãos: Escutai-o! Não é nossa missão delimitar um espaço de ação e de descanso para Jesus. Ainda temos dificuldades em compreender sua grandeza e majestade. A Palavra que criou o céu e a terra não precisa de pedaços de pano para se abrigar. Ele deseja nosso coração, mas na compreensão de Israel: Ele quer toda a nossa pessoa em comunhão com Ele.
Ouve, catequista: Jesus é o Filho amado do Pai, que quer ser presente no mundo através de nós, apresentando seu caminho, sua verdade e sua vida. Não para que nós o coloquemos em nossos achismos, em nossos sentimentos, e sim para que aprendamos a ouvi-lo, em uma audição silenciosa e humilde, repleta de confiança.
Jesus nos toca de modo especial, pedindo para que levantemos e não tenhamos medo. Não nos deixa sozinhos. Mas lembra que nem tudo que vivemos pode ser anunciado para os que ainda não entenderiam – somente após a Ressurreição, em que nossos catecúmenos tenham feito sua experiência com o Cristo, dizendo o “sim” no seu segmento. Há intimidades que só podemos falar com quem vive a mesma experiência.
Assim começamos mais um ano de catequese, seguindo a Palavra no seu envio, sua direção, mas sem clareza de onde vai dar, como Abrão. Só conhecemos o passo seguinte, mas não o caminho todo. Cada dia, sua graça. Conhecer toda a estrada, todas as dificuldades, cansaços… seria um peso muito grande e poderíamos não suportar. Então, seguimos na confiança deste ano, em um encontro de cada vez. A própria graça de Deus vai sustentar-nos, pela missão que nos foi confiada.
Como Nossa Senhora na Anunciação, sabemos que não é por mérito ou por nossa própria capacidade que assumimos a catequese. Nosso “sim” está na confiança de quem nos envia. É esta a resposta ao “Escutai-o”: o nosso “sim” ao que Jesus nos diz, seguindo os passos de sua Mãe e das grandes mulheres de Israel e do Cristianismo.
O “sim” de quem sabe que a força que tem vem do Senhor, para assumir todos os momentos da missão que nos é confiada, de silenciar em vários momentos para que possamos assistir Deus agindo, para que nossa voz e nossas atitudes sejam sustentadas pelo Espírito. Aquelas que geram a humanidade, que ouvem a Deus, tem em Nossa Senhora o modelo de escuta e de ação, não para agradar ao mundo, mas para alcançar a plenitude do ser mulher no coração de Deus.
A partir de nossa casa e em todas as catequeses, cantemos todas juntas: Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, venha a vossa Salvação!

Ir aonde Jesus deve ir

(Vandeia Ramos)

Dentre tantos, Jesus nos escolheu. Não para ficarmos na arquibancada ou no banco da Igreja, e sim para nos enviar à sua frente. Muitas vezes somos os primeiros a anunciar a Boa Nova a nossos catecúmenos. Sabemos que é uma missão grandiosa, o quão inútil e insuficientes somos, que é preciso muito mais para a centralidade do Evangelho: a vida em comunidade a partir de Jesus Cristo. Somos chamados a sermos discípulos que apontam para esta realidade, de inserir os que nos são colocados sob nossa responsabilidade no cotidiano da vida da Igreja, com tudo o que isso significa.
Formar novos discípulos não termina com nossa ação. É preciso que eles sejam acolhidos e orientados, dando continuidade à sua caminhada. Pastorais e movimentos precisam estar em diálogo com a catequese para abrirem-se aos novos, continuando a própria formação de acordo com seu servir na Igreja.
Também precisamos ter a sensibilidade de compreendermos que o anúncio é exigente, permeando a vida e formando uma nova pessoa em Jesus Cristo. Isso vai configurando a cada um de nós e aos nossos de um sentido de vida que frequentemente vai contrastar com uma cultura estruturada pelo pecado. E a luz vai incomodar as trevas… Isso é só um chamado à realidade, não ameaça ou para termos medo. É preciso saber que incômodos, perseguições e adversidades são comuns a quem segue o Evangelho. Justamente assim que temos o discernimento de percebermos quem somos e o que fazemos.
Somos portadores da paz. Não precisamos ir armados, esperando o pior, com resposta pronta para tudo. Lidamos com pessoas, muitas vezes de coração ferido, magoadas, com uma história em que o problema cresceu tanto que escravizou, viciando a vida. Nossa presença precisa iluminar, nosso olhar perpassar a superfície, nossa fala alcançar o íntimo, o silêncio ser amoroso. Muitas barreiras podem ser derrubadas com um sorriso e um abraço. Outras, levam tempo. Ainda outras, não nos cabem. Façamos o nosso melhor e sigamos em frente com a consciência de sermos guiados pelo Espírito, retornando a Deus todo o nosso viver.
Sem pressa, é importante vivermos o momento que nos é oferecido como presente. Estejamos com as pessoas sem nos preocuparmos com a quantidade e com a missão seguinte. Aprendamos a receber tudo que nos cabe em uma situação, sejam coisas boas ou mesmo humilhações, aprendendo a calar e a humildade, rezar e seguir nos passos de Jesus. Se Ele passou momentos difíceis por aqui, não esperemos que conosco seja diferente. Mas também teve encontros com pessoas que o amam e morrem por Ele. Sejamos um destes.
Fazer-nos outros cristos na terra é a missão de discípulo. Na catequese, como nas demais atividades de nossa vida, somos nós que recebemos primeiro o aprendizado: identificamos os pontos importantes do encontro, pensamos como melhor desenvolver, os instrumentos necessários e acompanhamos se os mesmos foram bem recebidos. Neste movimento, reservamos um tempo para repensar a vida à luz da Boa Nova, muitas vezes citando situações pessoais para ilustrar. Vamos percebendo o quanto vencemos grandes batalhas por não estarmos sozinhos. A realidade do céu é cada dia mais firme.
Ser Igreja no mundo é ser permanentemente alimentados por esta Mãe, que nos forma desde o batismo e nos acompanha até o último respiro. Nosso cansaço é depositado em cada Eucaristia, a partir da qual somos enviados como mensageiros da caridade ao mundo. Pela Igreja somos cuidados por Deus, em tudo que precisamos, desde o Pão ao Amigo, da família de Nazaré ao trabalho nosso de cada dia. Não estamos sozinhos! Jerusalém se torna nossa casa.
Somos todos irmãos, unidade que abrange a diversidade de povos, raças, culturas, idades, nem sempre fácil de conviver, mas com a certeza de que não estamos ali por nós mesmos. A paz e a misericórdia que recebemos com nossas próprias dificuldades são a cura de nossas feridas, que também são oferecidas através de nós. Como Cristo crucificado, chegamos flagelados, cansados, machucados. Carregamos as cicatrizes como parte de quem somos, bem como sinal do cuidado que recebemos. Aprendemos que nossa dor é instrumento de proximidade com muitos e que, cuidando dos demais, a nossa ferida é cuidada.
Assim, nosso canto não é solitário, mas em família. Juntos, podemos proclamar as maravilhas que nos faz o Senhor através uns dos outros, anunciando a grandiosidade de sua obra através de Jerusalém, a Mãe Igreja que reúne, cuida e prepara a cada um de nós para o Céu.