À espera do Senhor

(Vandeia Ramos)

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Os textos da liturgia de hoje são comumente questionados em suas traduções, muitas vezes afetando nossa compreensão. Considerar o contexto é importante para esclarecermos. Então comecemos com a relação entre Maria e José na Encarnação. Muitos traduzem por noivado, estar prometida. Outras traduções por estar desposada e, portanto, casada. Somente após o sonho do justo José, depois de arrumar suas coisas para deixar Nazaré, que ele aceita Maria como esposa, em sua casa. Vamos ponto por ponto.
As relações matrimoniais judaicas diferem das nossas, abrangendo sua legislação. Normalmente conduzidas pelos pais, com auxílio de autoridades religiosas, o casamento era celebrado como compromisso entre duas famílias, e não entre pessoas. São famílias que se comprometem. E tem o período de em torno de um ano para coabitarem. O que chamaríamos de noivado, os judeus chamam de casamento, de modo que o casal tenha tempo de aprender a se conhecer, muitas vezes com a nubente indo morar na casa da família do nubente, aprendendo com sua mãe a cuidar dele.
Ou seja, segundo as leis judaicas, Maria e José estavam casados. Precisamos tomar cuidado com outras interpretações, que sugerem uma gravidez dissociada do matrimônio, afetando a analogia do casamento com a relação entre Deus e seu Povo, sua Igreja.
Onde entraria então a justiça de José? Ele percebe que Maria está grávida e que não é dele. Caso isso viesse a público, ela seria acusada de adultério e apedrejada. Mas sua humildade não permitia assumir algo tão grandioso, o Filho de Deus. Indo embora, a comunidade de Nazaré consideraria que a Mãe teria sido abandonada e assumiria a ajuda à criança. A situação de Maria seria salvaguardada. Daí o sonho em que o anjo Gabriel autoriza a José a assumir a Mãe e a Criança, completando o ritual do casamento ao levá-la para casa e legalizar sua paternidade.
Podemos agora ir para o texto de Isaías, em que, escrito em hebreu, promete que uma moça daria a luz a um filho, presença de Deus entre nós, o Emanuel. Para Israel, moça significava mulher solteira, que não tinha tido relações sexuais, sustentando a grandiosidade da promessa. Quando o livro foi traduzido para o grego, precisava-se especificar na linguagem, sendo a palavra “moça” traduzida para “virgem” – o mundo helênico não tinha a mesma compreensão hebraica e precisava ter maior clareza da ação de Deus em nossa humanidade.
Assim, quando Israel está ameaçado em sua esperança, seu Profeta anuncia a vinda do Messias, preparando o povo para sua chegada. Quem seria a moça escolhida para tão grandiosa missão? Lembremos que a mãe tem um papel de importância específica, desde que Salomão levou Betsabeia ao trono, como sua rainha (1Rs 2, 19). Salomão é filho e sucessor do rei Davi.
Na apresentação de São Paulo aos romanos, temos Jesus Cristo como a realização da Promessa, não como um Messias que vem travar uma guerra de independência de Israel, e sim o próprio Filho, vindo ao mundo para restaurar a graça divina em nós, chamando-nos a participar de sua Vida, porque nos ama e não quer somente ficar entre nós, e sim torna-se um em nós, e nos guia para nos tornarmos, pela ação da graça, participantes na realidade eterna.
No anúncio a Israel através de Acaz, aguardamos a chegada da própria Esperança. A Mãe antecede, sendo preparada para tão grande missão, como nos prepara para seu Filho e chama José à paternidade. O anjo Gabriel nos acompanha, ajudando-nos a acolher, tornando-nos pessoas de boa vontade. São Paulo nos ajuda a compreender tão grande Presença.
Em Maria e José, a família de Nazaré a caminho de Belém, temos a porta de entrada para o Menino. Preparemo-nos para recebê-lo em nossas famílias e, nas palavras de Pe Zezinho, que “tudo seria melhor se o Natal não fosse um dia, e se as mães fossem Maria e os pais fossem José e os filhos parecessem com Jesus de Nazaré”. Que possamos acolher a Família que chega buscando abrigo em nossa casa, cuidando de tudo para que faça de nossa família morada do Emanuel!

Felizes somos nós, que esperamos!

(Vandeia Ramos)

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Ao longo do Antigo Testamento, temos o anúncio da vinda do Messias, de modo mais acentuado após o exílio da Babilônia (537 a.C.), em que Israel precisava compreender a grandeza de Deus na escolha de um povo que é submetido a outro. A situação de humilhação, o empobrecimento, a constante taxação de impostos para outros povos, como para Roma no tempo de Jesus, incitava a muitos à dor e ao anseio por independência. No entanto, aos poucos, a mentalidade dos anawin’s vai se desenvolvendo e ganhando força, em que a relação no Deus Único é a única fonte de graça.
Sabemos que João Batista é o filho prometido ao sacerdote Zacarias e à sua esposa Isabel. Com posição de destaque entre os judeus, como seu filho teria ido parar no deserto, vestindo-se com pelos de animais e comendo gafanhoto? Na Sagrada Escritura, deserto é referência à purificação e os personagens são referências para os demais, trazendo em si uma possibilidade de caminho. Assim, através do último dos profetas, foi realizado um batismo de arrependimento dos pecados, preparando espiritualmente para o reconhecimento pessoal dos erros e para a vinda do Prometido.
João Batista, em momento nenhum, referiu-se a si como o Messias. No batismo de Jesus no Jordão já o apontava como o Cordeiro de Deus, ainda que o significado não fosse claro para tantos. Como missão do que vem à frente, Batista denunciava o pecado das lideranças judaicas e relacionava com as consequências que caíam sobre o povo. E diretamente a elas.
O adultério é condenado como a quebra da Aliança entre o Povo e Deus, causa de graves problemas para todos. Enquanto Herodes Antipas se divertia com as acusações, pois propaganda contra é propaganda, acabando por exaltar ainda mais quem não se preocupa com uma postura moral, Herodíase, centro do adultério, não gostou. João acabou preso e depois decaptado.
Com o início da vida pública de Jesus, os discípulos de Batista ficaram confusos, pois outros já tinham se apresentado como o Messias, enganando a muitos. Como saber? Ainda mais se considerarmos que o futuro do seu mestre era incerto, no calabouço. A quem seguiriam?
Indo a Jesus e perguntando diretamente, Este lhe responde com o anúncio que a Palavra Sagrada tinha feito através de Isaías. A vinda do Senhor seria, não como um grande líder de um exército, que exaltaria Israel sobre todos os povos, e sim com uma majestade sutil, com poder sobre o pecado e sobre a natureza, compadecendo-se dos seus. O que podemos ler também como analogias para a compreensão e o acolhimento de Deus, Jesus realizou nas pessoas, como sinal de salvação e de presença na humanidade, restabelecimento da esperança. Abrir os olhos, referência a Gênesis e ao fruto do conhecimento, agora é também a saída das trevas e poder ver Deus, como a possibilidade de ouvir com os próprios ouvidos a Palavra, pular de alegria, anunciar as maravilhas.
O cristão não teme por si, pelos acontecimentos ou pelos demais. Não é “uma maçã podre que estraga as demais no cesto”. A lógica é invertida: a presença de Jesus traz a possibilidade de todas as frutas estragadas ganharem nova vida, a começar por nós, pelos nossos atos, pelas nossas intenções e silêncios.
Se Batista era grande por ser Profeta, maior ainda por reconhecer e anunciar a vinda do Rei, proclamando a passagem do Antigo para o Novo Testamento, do anúncio para a realização, da Promessa para o Cumprimento.
E a Igreja clareia o roxo da purificação no domingo Gaudete, na alegria da espera de Jesus que está chegando. Vem numa família e como Bebê. Quem poderia imaginar a Justiça e a Sabedoria numa criança indefesa, que estende os braços para ser acolhida? Será a mesma que será procurada para ser morta, entre tantos outros meninos, pelo medo que desperta às autoridades. Após dois milênios, uma mãe grávida ainda não desperta sentimentos contraditórios? Desde a chamada à maternidade, precisando dedicar a própria vida em seu corpo, à responsabilidade paterna? À estrutura social que idealizou a infância como consumista de serviços, criticando os que não podem pagar, e de produtos, aos beneficiados economicamente?
O discurso do controle de natalidade para a maioria da população, indicando o nascimento como uma das principais causas da miséria e dos problemas sociais, não traz a questão um estilo de sociedade em que as pessoas são descartáveis e valorizadas à medida em que tem poder aquisitivo?
É Advento, preparemo-nos para Jesus que vem salvar seu povo, estabelecer a Justiça através do acolhimento em nossa casa, em nossa família, trazendo a Paz. “Vinde, Senhor, para salvar o nosso povo!”

O Dia do Senhor

(Vandeia Ramos)

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Desde o Antigo Testamento, Israel espera pelo Dia do Senhor, em que o próprio Deus estabelecerá a justiça e atuará com misericórdia junto aos seus. O Povo de Deus acreditava que seria o momento em que brilharia entre as nações.
Começarmos o Advento com o anúncio desta vinda por Jesus dá um tema de reflexão importante. Afinal, Deus se faz carne e em nós no Natal. Então, por que o próprio Filho anuncia a vinda como uma Teofania? E de modo muito próximo ao proclamado no Antigo Testamento?
Vivemos no Tempo da Igreja. Entre o anúncio da vinda do Messias e seu retorno como Juiz, Deus vem ao nosso encontro para nos ensinar a ir até Ele em “espírito e verdade”. Ele irrompe o tempo e dá um novo sentido à vida, em uma nova perspectiva, espiritual.
Podemos fazer uma espiral entre o anúncio antigo, o novo, e a entrada de Jesus no tempo. Em Si, Ele antecipa a presença divina na humanidade, convidando-nos a compreender e a nos relacionarmos com Deus não mais limitados ao Templo de Jerusalém, em que somente os que estivessem próximos geograficamente poderiam ir adorá-lo. Ao se fazer um de nós, e em nós, supera o espaço e o tempo, tornando-se presente hoje também, bem como à pessoa humana de todos os tempos e lugares.
Somos felizes porque acreditamos sem ver. A fé nos alimenta e nos prepara para o Grande Encontro. Sim, a vinda de Jesus no Natal não cancela a vinda final como Juiz. Ao contrário. Sua vinda nos convida a um período de preparação, a reconhecê-lo nos que menos poderíamos esperar: no ventre de uma mulher, a Mulher, na família de Nazaré como referência de todas as famílias, no nascituro que precisa de cuidados e de amor para o desenvolvimento saudável, numa criança que depende de tudo dos adultos para crescer e se tornar uma pessoa madura.
Também podemos considerar o espaço geográfico. Numa cidade quase que perdida no mapa como Nazaré, uma entre tantas comunidades como a nossa, em lugares esquecidos, marginais, com vida voltada para Deus – a importância de prepararmos nossa família e os nossos.
O tempo também era bem difícil, com dominação do Império Romano sobre a Palestina, cobrando altos impostos, alimentando-se da corrupção, submetendo a fé de Israel às leis romanas. E mesmo assim Ele vem! E, cuidado pela Mãe, vai até Belém para nascer, com tudo que José poderia garantir. Silencioso, atravessa o seu povo, que continua a vida, sem perceber o que estava para acontecer.
Pela Igreja, somos chamados a nos prepararmos para esta vinda. O anúncio novamente se realiza. Jesus antecipa sua vinda para preparar a humanidade para a vida eterna, em que precisaremos compreender tudo ao nosso redor com os olhos do coração. Portanto, não fiquemos indiferentes à esta vinda, para que possamos ansiar pelo seu retorno e nos prepararmos devidamente.
O Advento é o momento enriquecido com graças especiais para nos unirmos em preparação para receber o Menino que nos será dado, o Filho de Deus de braços abertos e convidando ao abraço inocente e sem exigências, a Criança que somente deseja ser acolhida por todos.
Entre a noite da dominação imperial, das dificuldades do povo, do afastamento de tantos do que realmente era importante, Jesus vem! E um anjo precede e pergunta a uma menina, como tantas entre as nossas, em um lugar inesperado, como onde vivemos, e pede sua licença para que Deus paire sobre ela, como pairou sobre o Monte Sinai, onde paira sobre Israel na travessia do deserto, no Templo de Jerusalém. Deus se torna carne e faz de uma menina o seu Templo, no qual habitará por nove meses e dependerá para tudo por muitos anos.
O Amor é um Juiz muito exigente. Quer tudo de nós. Nosso tempo, nossa vida, nossa disponibilidade. Para tal, Ele se dá totalmente, estendendo os braços e pedindo para o recebermos. E é este mesmo Menino que se faz presente na Eucaristia e que retornará no fim. O mesmo que somos convidados a recebermos no nosso colo será o mesmo que voltará.
Portanto, vamos com alegria à casa do Senhor a cada domingo do Advento, preparando-nos para recebê-lo na Eucaristia, tornando-se presente em nós, entregando-se como Alimento para que possamos reconhecê-lo como Menino e não temer seu retorno.

“Eis que Eu venho”

(Vandeia Ramos)

Antevéspera de Natal e a expectativa já está no ar. A Igreja e as casas arrumadas, as famílias finalizando as preparações, o sentimento da ausência de alguns doendo mais forte… Depois de um ano tão intenso, começamos o ano litúrgico com a espera Daquele que vem para fazer tudo novo.
Na profecia de Miqueias podemos ter bem claro como Deus se utiliza das ações humanas que, mesmo com fim em si mesmas, são renovadas para que a Glória se manifeste. Mesmo com o censo obrigando José a ir até Belém fazer o recadastramento, o profeta já tinha anunciado que ali nasceria o Salvador. Aqui identificamos com facilidade Quem é que comanda a história e intervém na hora certa em nosso favor. Também é no nosso dia a dia.
A abertura dos corações de José e Maria nesta confiança faz com que não se prendam nas dificuldades, no atravessar Israel, Samaria e parte da Judeia, com uma gravidez chegando ao fim, para irem até Belém. Eles sabem que Deus cuida de nós. Não ficam presos no mimimi, na reclamação do calor, da areia do deserto, no autoritarismo de Herodes, nas condições insalubres de vida. Eles simplesmente seguem fazendo o que precisa ser feito. A preocupação está centrada no Filho que está chegando. Fazem o que lhes cabe e seguem o caminho.
É nesta confiança que nove meses antes Maria atravessou o mesmo caminho para ir até a casa de Isabel, logo no início de sua gravidez. Ela não chamou as amigas para celebrar a notícia, não marcou evento no Facebook, não começou a organizar o chá de bebê, não colocou anúncio no jornal nem mesmo foi a José. Ela foi ao encontro de quem precisava, como faz conosco hoje. E temos um dos trechos mais belos e ternos no Evangelho, da “Mãe do meu Senhor” que nos visita, sem merecermos.
No início da gravidez, Isabel, cheia do Espírito Santo, sem ultrassonografia, diz que sua prima está grávida, que é um Menino, e que este Menino é o seu Senhor. Aqui temos a centralidade da Encarnação na defesa da Vida, desde o início da gestação. Temos aqui a confiança de Maria, “que acreditou” e acredita quando somos fracos para não acreditarmos, sustentando nossa fé. Nesta confiança leva Jesus até Isabel e a presença da Mulher e sua descendência (Gn 3, 15) santifica João Batista no ventre de sua mãe. Pela “dobradinha” Mãe e Filho, o antigo se faz novo, a alegria inicia pelo cumprimento da Promessa do Senhor.
Hoje, nossa face já mostra os sinais de nossa salvação. Que possamos abrir as portas de nossas casas e de nossos corações para acolhermos a Família de Nazaré que está chegando. E que nossa família seja um pouco de Jesus, Maria e José. Um Feliz Natal para todos!

O Senhor cuida de nós

(Vandeia Ramos)

“… ficai satisfeitos com o vosso salário” (Lc 3, 14).

No mundo capitalista em que vivemos, cheios de conta para pagarmos, como ficar satisfeitos com o nosso salário? Quero fazer uma provocação para nesta caminhada do Advento podermos crescer na confiança de que o Senhor nos proporciona o que nos é necessário
Está chegando o Natal e as vitrines das lojas estão repletas de sugestões de consumo. Já estamos pensando na roupa que vamos usar para ficarmos sentados em frente à televisão. E os presentes? Paremos para pensar em que realmente precisamos. Quantas peças de roupa nos são necessárias? Compramos calçados por que queremos ou por que realmente está fazendo falta? A lixeira de nossa casa, o que estamos jogando no lixo? Quantos objetos temos que compramos por impulso de consumo e estão tomando espaço pelos cômodos, enchendo de poeira, dando trabalho na limpeza e na arrumação?
Maria e José já saíram de Nazaré rumo a Belém e estão levando somente o básico em um burrinho. Lembremos que é com este básico que irão para o Egito e viverão os primeiros anos de Jesus. Se precisássemos fazer a mesma experiência, o que levaríamos?
Precisamos mudar a pergunta de “temos tudo o que precisamos” para “precisamos de tudo o que temos?” É final de ano e sabemos que muitos não têm o mínimo para viver. Estas necessidades não estariam em nossa casa, entulhando e dificultando nossa vida? Será que muito das nossas contas não são por coisas que estão entre o lixo e os cantos, ou mesmo em armários?
Estamos no domingo gaudete, o domingo da alegria, em que já começamos a sentir a proximidade do Menino que chega. Sejamos valentes para aquela faxina de fim de ano. Arrastemos não somente os móveis para tirar a poeira de trás, mas também tudo aquilo que está sobrando e que tem os que esperam em suas necessidades. Aprendamos a sermos heroicos em nossas idas ao mercado, aos diferentes lugares, para que nos libertemos na escravidão do consumismo e comprarmos somente o que realmente nos é necessário.
Pensemos em nossas contas e sejamos sinceros conosco: o quanto gastamos sem real necessidade? O quanto já podemos mudar no próximo mês? Era realmente preciso aquilo, por aquele valor? Este testemunho de consciência de quem se é ajuda a lembrarmos que estamos aqui de passagem. A qualquer momento podemos ser chamados a ir à Belém e deixarmos tudo para trás. No fundo, nada é nosso. Só estamos aqui usufruindo do que Deus nos dá. Façamos com a consciência de que o mais importante nos é dado, e não comprado ou consumido. Deixemos espaço para a Grande Alegria tomar o espaço que lhe cabe em nossa casa e em nosso coração.

Somos todos da Imaculada

(Vandeia Ramos)

Logo no início do ano litúrgico temos a celebração da Imaculada Conceição de Maria, a concebida sem pecado original. Em frente a tantos desafios, podemos olhar para Nossa Senhora e vermos que Deus não desistiu de nós e de derramar suas graças. Que graça maior que a de recomeçar novamente a Criação?
Na Imaculada Conceição, podemos entender que o pecado, ainda que faça parte de nós, não é inerente. Só então pode o Cristo ser gerado, na pureza completa de uma mulher, da Mulher. Assim, a Imaculada nos chama também à pureza, ao recomeço, à santidade.
Assim temos as leituras da liturgia de hoje: a ação de Deus quer ser precedida da nossa aceitação, seja no “sim” de Maria, seja no “sim” de Zacarias. Também quer que preparemos o caminho, que sejamos preparados. Não podemos entrar numa turma, num cenáculo, num grupo de catequese e achar que o Espírito Santo vai agir em nós sem que consideremos sua ação anterior, em nossa preparação pessoal para a missão que nos é confiada. Entre o nascimento de João Batista e o de Jesus, tem a preparação de nove meses de seus pais.
Sabemos que a nossa preparação nunca estará completamente pronta, mas também sabemos que Deus só espera o nosso “sim” para começar a agir conosco e preparar o caminho para que nossos catecúmenos possam receber dignamente a Jesus.
Na gestação de João Batista podemos ver a esperança da Promessa que começa a ser cumprida. Um arauto é enviado para preparar o povo. Somos arautos que preparam Jesus Sacramento na Iniciação Cristã. Então, é o momento de tirarmos o cansaço do ano, o luto das perdas, as preocupações, e nos revestirmos da glória que o Advento nos traz. Já podemos anunciar que a Paz está chegando! A misericórdia vem vindo! A alegria de um Menino que nos é dado já começa a inundar os corações.
É o momento da comunhão. A exigência do Evangelho para sermos testemunhas é que seja anunciado a todos, e com nossas vidas. É a hora de perdoar, de olhar nos olhos, de suavizar a voz, de buscar o abraço. É a hora de rezar para que a graça de Deus aja em nossos corações. É o momento da Imaculada, que permite que a glória de Deus brilhe para todos através de si. Dirigindo nosso olhar para Maria, podemos ver a grandeza de Deus em sua pessoa, bem como a que nós somos chamados.
É o momento de cantar junto com Nossa Senhora que o Senhor faz maravilhas conosco, enchendo-nos da certeza de que Deus não nos abandonou e vem a nós em seu Filho. Que possamos, juntos com Maria, exultar de alegria no Senhor!