Prontos para ser massa!

(Vandeia Ramos)

Uma pergunta vem à mente com as leituras de hoje: Deus é bom porque é justo ou Deus é justo porque é bom?
Em todo lugar em que passamos, é comum vermos todos os tipos de pessoas e, quando estamos cansados e com dor, o mau se destaca com mais força. Em momentos de fraqueza, como não perguntar por que Deus permite que haja mal no mundo? Como não ver uma pessoa sofrendo e não se sensibilizar? Como não olhar o descaso das autoridades e não sentir o ímpeto de que, se pudéssemos, não interveríamos e faríamos algo? O impulso de fazer as coisas ao nosso modo é muito comum. E a de achar que nosso pensar que deveria ser prevalecer?… Se considerarmos a situação dentro da Igreja, então… Mas não é.
O mundo, as pessoas, as coisas, nem mesmo nós, somos do jeito que queremos. Tudo é do jeito que é. O máximo que podemos é escolher, a cada momento, o que fazer dentro dos nossos limites; aprender a olhar além do que estamos fazendo, tentando ver as consequências, o impacto nos demais, o significado de nossas intenções; até podemos tecer algumas considerações por algumas pessoas e comentar, conversar, discutir, brigar, mas são elas que tomam as decisões por seus atos.
Até nosso último respiro, Deus aguarda que cada um se volte para Ele. Uma mãe sempre espera que um filho rebelde volte aos seus braços. Um pai tenta acompanhar, ainda que à distância, um filho que deixou a casa para seguir por caminhos obscuros… Somente quem vive no amor que tudo abraça, tudo espera, tudo perdoa, que se mantém na verdade e na justiça que pode manter as portas abertas, que pode ser chamado de filho de Deus.
Não sabemos por onde nossa vida vai nos levar. Quantos grandes santos foram filhos afastados? Só Deus sabe quem é um trigo verde e quem realmente é joio. Nós, não. Nós não somos Deus e não podemos brincar com as pessoas como se soubéssemos e definíssemos cada uma a partir somente do hoje. Se fosse assim, como nós estaríamos em relação ao Reino? Enquanto houver um trigo verde, que pode ser confundido com joio, não há a colheita, o momento não chegou. E, ainda assim, não seremos nós os ceifadores.
Não nos assustemos com os escândalos e situações constrangedoras e afins. É pela Igreja que começa o Julgamento. É sempre o amigo mais próximo que entrega, que causa a dor maior, a pior traição. E isso não é novidade na história. Já devíamos estar acostumados e não nos surpreendermos. O que precisamos é de prudência e cuidado para nem estarmos entre o joio nem termos a pretensão de acreditar que cabe a nós o julgamento e a colheita.
É do grão maduro do trigo que, amassado, vai sair o pão que será alimento de tantos, oferecido em sacrifício. Da pureza do grão de mostarda que germina, que temos o abrigo que tantos precisam. De um simples pó sem graça como o fermento, que faz a levedura da massa. Não se limita à qualidade do grão, mas do cuidado de quem mói e faz a massa, e que quem cuida da árvore.
Se nos assumirmos verdadeiramente, somos como crianças, que não entendemos muito bem como Deus age a partir de nós e seu cuidado amoroso. Abrigados em suas mãos, vemos o que Ele faz, mas o como se desvela em mistério que permite percebermos à medida em que crescemos em sua graça. E crescer é mais entender o quanto somos pequenos do que nos tornarmos grandes.
Deus não é justo. Ele é a Justiça. E por isso Ele pode ser bom, pode ser misericordioso. Ele é o critério do que é bom ou não para nós, para a humanidade. E este critério Ele revela na Sagrada Escritura. Por isso que o “eu acho” soa muito fraco quando lemos o “Eu sou”.
E aqui temos o mistério do catequista: quando estamos com nossos cenáculos, não são nossas palavras, nosso modo de ser. Entre o Espírito que mora em nós e estarmos nas mãos de Deus, mais importante que as palavras em si, é o que passa através delas: o acolhimento amoroso e irrestrito do Pai que espera a História inteira pelo filho, aguardando que ele escolha se tornar um reluzente trigo!

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