O martírio do “Viva Cristo Rei!”

(Vandeia Ramos)

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Último domingo do ano litúrgico e a Igreja celebra Cristo Rei do Universo. Para quem gosta da história da vida dos santos, lembra logo de São José Luis Sánches del Rio, o menino que morreu mártir com o grito de “Viva Cristo Rei!”
Como o início, o fim está em Jesus e na Salvação. A dificuldade é compreendermos o que isso significa. Muitas vezes o anúncio da Boa Nova é mal compreendido por se remeter à cruz, levantando o questionamento de como poderíamos acreditar na grandiosidade de Cristo se o seu fim seria morrer crucificado. Esta questão dificultou muito o processo evangelizador na América. Esperamos luz e grandes feitos. Pensemos só no que seria se Jesus descesse da cruz e virasse um super herói da Marvel, soltando raios destruidores pelas mãos e refletindo os ataques. A imagem de um Messias guerreiro, que vem para destruir e fundar um Reino a partir de nossos próprios valores e projeções ainda prevalece hoje.
No entanto, quem chama Jesus de Rei é Pilatos, ao escrever a placa que iria no topo da cruz, como a causa de sua condenação. Olhemos de outra forma: enquanto os sacerdotes judeus estavam com medo de que Jesus pudesse competir com eles pela liderança de Israel, o prefeito romano anuncia para a história que Ele é Rei dos Judeus. Ironicamente, Roma reconhece Jesus como Rei e é um centurião que, ao fim, dirá: “Este homem realmente era o Filho de Deus” (Mc 15, 39).
João, por 7 vezes, coloca a expressão “Eu sou” nas palavras de Jesus (6, 35; 8, 12; 10, 9-10; 10, 11-16; 11, 25-26; 15, 1-2), lembrando-nos do “Eu sou” do êxodo (3, 14), quando Deus fala a Moisés no deserto. Em Jesus, o divino se apresenta de uma forma inesperada: na cruz. Sua coroa é de espinhos, sua túnica está ensanguentada e lhe é arrancada, seu perfume escorre pelo calor e pela dor, sua corte está dispersa e poucos permanecem próximos. E, também inesperadamente, um dos condenados reconhece a justiça e a realeza do que era insultado. Jesus não retribui as ofensas e nem mesmo se defende ou corrige. Ele silencia sobre. Mas não deixa no vazio o que lhe reconhece e promete o Paraíso no mesmo dia.
Não há céu sem cruz. O que nos lembra a devida força que precisamos para enfrentá-la: o silêncio e o anúncio de quem servimos. Como o ladrão ao lado na cruz, São José Luis Sanches del Rio, um jovem como nossos jovens, enfrentou a tudo, como a dor, os pés escalpelados, o pedido da mãe para renunciar e a caminhada até a própria cova, mas sem perder a certeza de que estava caminhando para Jesus. Não só não sabemos quando chegaremos ao nosso fim, como não há idade para anunciar com a própria vida quem de fato manda em tudo.
É o próprio Deus quem escolhe a cada um de nós e nos envia a Jesus, para sermos outros cristos por aqui, para que, através de nós, outras pessoas possam conhecer o Reino, participar da família do Pai, reconhecer Jesus como irmão, identificar-se como parte da Criação e ser responsável por ela, em usufruto.
Do mesmo modo que Jesus nos ensina e sustentou São José Luis, sabemos que o caminho é a doação completa de si pelas pessoas, do nosso tempo, da nossa disponibilidade, fazendo da vida uma oferta de amor e sacrifício. Como temos o Ressuscitado como referência, sabemos que a cruz é por onde devemos ir para chegar ao final. Tudo tem um sentido, que nos é revelado durante o Ano Litúrgico. Neste domingo, a mensagem se completa, trazendo à nossa memória o spoiler da história.
Jesus não é um herói de um filme americano. Ele é o Rei do Universo, pelo qual tudo foi feito e para Ele nos dirigimos. No encontro da alegria com a justiça, anunciemos sua vitória: “Viva Cristo Rei!”

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