Entre o julgar e a responsabilidade no pecado

(Vandeia Ramos)

Chama nossa atenção o constante movimento de Jesus: da noite na montanha ao ensinamento ao povo de dia. Entre o recolhimento constante e a saída para anunciar, ensina-nos a fazer o mesmo movimento: de nossas coisas, nossos afazeres, nossa vida pessoal, às idas para a Iniciação Cristã, para o trabalho, para as missões que Deus nos confia. É em missão que somos surpreendidos pelos questionamentos, em nossa coerência cristã. Nossos catecúmenos, suas famílias, nossos amigos, pessoas com que lidamos em nosso cotidiano frequentemente nos questionam sobre a fé, seja por dúvida, seja para nos colocar à prova. E Jesus nos apresenta uma perspectiva evangélica para responder, que só conseguimos identificar se a tivermos vivendo, no conjunto de toda a Boa Nova.
A mulher surpreendida em adultério é apresentada, com a memória da Lei sobre o apedrejamento. Quantas vezes não nos apresentam armadilhas semelhantes? Quantas vezes somos chamados a nos posicionarmos em julgamentos, como se fosse uma questão de isto ou aquilo, e o centro fosse a letra e não a pessoa humana? É sempre um julgamento, com o ápice no Gólgota. O modo como vivemos a quaresma nos ajuda a nos posicionarmos perante a cruz e, consequentemente, frente às diversas questões.
Aqui temos uma mulher, acusada historicamente de ser a sedutora dos homens. A compreensão é de que ela é associada à serpente e o homem, inocente e fraco frente às suas artimanhas, precisa se impor para não ser dominado. Com argumentos semelhantes e derivados se justifica uma estrutura de opressão, de reclusão, autoritarismo, entre violência doméstica, pública e diferentes graus de cidadania. E podemos fazer a mesma leitura para outros grupos, como menores e idosos.
Especificamente quanto à questão da mulher, é preciso lembrar de que a humanidade é dupla, criada em uma solidão original que tem a unidade de dois como expressão de amor, conforme nos ensina São João Paulo II. Só na perspectiva desta unidade que podemos falar de salvação e de plenitude humanas. Daí a gravidade de toda e qualquer ação contra a mulher. Daí também rompermos com permanências históricas e sociais sobre suas diferentes formas de atuação. Vale a pena ler a carta apostólica de São João Paulo II, Mulieris Dignitatem. O texto O Signo da Mulher, do então cardeal Ratzinger (nosso amado Papa Emérito Bento XVI) é uma reflexão sempre oportuna e atual sobre o escrito de seu antecessor.
Sobre este trecho específico do evangelho, temos a situação marginal a que a mulher é inserida, explorando sua pessoa de diversas maneiras, para acabar sendo acusada de sedução. Hoje temos a expressão de “acusar a vítima”. Mas Jesus também não acusa os homens. Ele sabe que a estrutura que violenta a mulher, em uma aparente fraqueza masculina, também o coloca como vítima de si, em uma constante repetição de Gn 3, 12, em que, omitindo-se de sua culpa, acusa a mulher e, por fim, o próprio Deus, de seu pecado.
Em uma atualização de Gn 3, 11, Jesus pede que, quem não tiver pecado, atire a primeira pedra. O coração humano sabe que é responsável pelos seus próprios atos e, um a um, cada homem presente vai se retirando. Uma verdade é estabelecida com a saída de cada um: a responsabilidade. A participação da mulher no adultério não é negada, e sim redimensionada, como foi o fruto em relação às demais árvores do jardim.
Somente sozinho com a mulher é que Jesus lhe dirige a palavra. Pelo costume de então, não se devia falar com uma em público. Além de Jesus não querer expor a intimidade do que tinha para lhe falar. Não seria assim o julgamento final, onde poderíamos perceber nossa participação pessoal na estrutura de pecado que temos? De reconhecermos nossa atuação? De não podermos acusar aos demais sem antes nos percebermos como responsáveis? Não é a semana de confissão em muitas de nossas paróquias, preparando para a Páscoa?
“Do modo como julgares, serás julgado” (Mt 7, 2), e tantas outras passagens. É deste modo que Deus prepara seu povo, seus escolhidos. É deste modo que conhecemos a misericórdia de Deus e seguimos ao seu encontro. Assim, estaremos preparados para cantar na manhã da Ressurreição: Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!

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