Catequistas, embaixadores de Cristo!

(Vandeia Ramos)

O Evangelho de hoje é conhecido tanto como Evangelho do Filho Pródigo como Evangelho dos Dois Irmãos, o que traz duas perspectivas diferentes. Quando nossa atenção recai sobre o Filho Pródigo, a figura do Pai se destaca. Tradicionalmente lemos nós mesmos, pecadores insistentes, e nossa permanente necessidade da misericórdia de Deus. A ordem é simples: vivemos na casa do Pai, mas frequentemente desviamos a atenção e acabamos sendo atraídos para coisas que o mundo nos oferece: vida fácil, prazer, falsas amizades, diversão desregrada… tudo centralizado no que suponhamos ser uma necessidade ou mesmo o que nos deixamos convencer como sendo o melhor. Claro que, quando o dinheiro, a saúde, a beleza, a juventude… acabam, ficamos abandonados à própria sorte, entre os miseráveis, os impuros, os porcos. Nem seu alimento, o resto dos demais, temos permissão de comer. Quantos de nossos irmãos não estão esquecidos nestas condições?…
Para uma família judaica tradicional, fica faltando uma personagem importante, que dificilmente aparece em público, mas está em momentos decisivos: a Mãe. Ela não só se ressente da ausência do Filho, como sua tristeza sensibiliza a família. Em toda visita, ela recebe a esperança de ter notícias. Há os que defendem que é esta tristeza-esperança que sustenta a sensibilidade do Pai. Fazemos rapidamente a relação com Nossa Senhora.
E temos o Irmão Mais Velho. Quantas vezes não nos colocamos como os certinhos, que não hesitam em colocar o dedo na cara de tantos, acusando-os de pecadores, pagãos… Caso nós estivéssemos no lugar do Pai, o que faríamos com nosso Irmão? O que já nos acostumamos fazer com aqueles que se afastam da família por diversos motivos? E os que não vivem a mesma fé que nós? Que não concordam com nossa opção política, profissional, moral?
Toda vez que leio este Evangelho, lembro de uma pregação do Frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. Ele identifica o Filho Mais Velho, não como um de nós, egoísta e moralmente centrados. Ele diz que Jesus é o Primogênito. Ele não fica limitado à casa do Pai, cuidando de seus negócios. Jesus vem até nós, vai ao encontro de seus irmãos, para tentar levar-nos de volta. Caso não consiga, não nos deixa sem o necessário para viver, à mercê de porcos.
Nós não somos iniciantes na fé, somos catequistas. Temos um caminho de vivência em contínua misericórdia de Deus para conosco. Ser Filho Pródigo, abandonado às misérias de porcos, não responde devidamente ao nosso perfil. Então o de Filho Mais Velho, de nossos catecúmenos, fica melhor. Somos os que se colocam como os “certinhos”, detentores de um código moral legalista, rápidos em julgar e lentos em acolher? Não estou falando de pieguismos, de que devemos fechar os olhos para o pecado. Sem este discurso em que nos colocamos como juiz que critica quem se coloca com juiz, e que não chega ao necessário.
Temos muitas demandas sociais que gritam de dor, que assumem atitudes e movimentos que muitas vezes se apresentam contra a fé que cremos. Estamos entre uma estrutura social que impõe fardos pesados aos demais. Acusamos a vítima de seu próprio sofrimento e dor, colocando-nos frequentemente ao lado dos que a fazem sofrer. Sem direito, assumimos o lugar do Pai, afastando-nos emocionalmente dos irmãos perdidos entre as misérias do mundo, em uma postura que vai do indiferente ao acusador. O discurso comum reforça o conflito, o confronto, a raiva.
Perante a dor do outro, que tem sua dignidade humana ameaçada, o que se espera de um cristão? O que Jesus e/ou Nossa Senhora fariam em nosso lugar? O Pai não se preocupou se entre os hebreus que saíram do Egito haviam os que tinham um caráter discutível, Ele enviou o Maná para todos. Também não era de modo permanente, mas com o tempo de que pudessem colher o fruto do próprio trabalho.
Somos “embaixadores de Cristo”, através de quem Jesus chega aos demais. Somos os que continuamente deixam suas casas para ir ao encontro dos que mais precisam, pois estes já não têm condições de se levantarem por si e caminhar. Somos enviados para aliviar o jugo de sua condenação, assumindo sobre nós sua dor, carregando sobre nós o julgamento dos que “dize com quem andas e eu te direi quem és”. Enquanto não conseguem caminhar sozinhos, nós cuidamos de suas feridas. Um “olho nos olhos”, uma presença que diz ao outro que ele não está sozinho, uma mão estendida, fazem mais do que discursos raivosos e condenativos, que mais reforçam a miséria do que restabelece a dignidade.
Só quem se percebe em sua limitação e continuamente vive a misericórdia, identifica a dor dos que gritam, ainda que usem palavras que escondem suas feridas profundas em raiva e ódio. Só assim podem anunciar em cada atitude quão suave é o Senhor!

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