Somos como a figueira, chamados a servir

(Vandeia Ramos)

O tempo passa e o coração humano continua o mesmo, talvez até mais duro se considerarmos o quanto temos recebido ao longo do tempo. Para os hebreus do tempo de Jesus, sofrimento era associado ao pecado pessoal, daí questionarem sobre a punição de Roma sobre os judeus, os mortos da queda da torre de Siloé. Mudamos o nosso coração? O ‘bem feito” perante algumas situações não nos vem à mente? Quando alguém está doente, perguntamos logo o que fez para estar? Não imprimimos diversos adjetivos ao povo quando vota em pessoas que nós não consideramos como sendo as melhores? Não temos grupos na Igreja que, muitas vezes nós participamos, e que se posicionam como os que sabem mais que e se posicionam sobre o modo como os demais devem viver?
Quantas vezes deixamos de ser servos para colocar-nos no lugar de Deus e julgamos, como se fôssemos melhores que os demais, os santos, os que não pecam? Nossa Senhora, Mãe da Igreja, acaba se tornando somente uma referência distante, não mais a que está à frente do povo. O Espírito Santo que perpassa os santos e que os queima como uma sarça, é frequentemente esquecido na condução da Igreja, principalmente quanto ao soprar onde quer.
Iniciar no Cristianismo não é sinônimo de iniciar na cristandade. São conceitos diferentes. Enquanto o segundo se refere a um tempo histórico em que a cultura é perpassada por uma política cristã, o Cristianismo é mais, é a comunidade, a família dos que são em Deus. Do mesmo modo que Deus se apresenta como sendo o “Eu sou o que sou”, aprendemos com Jesus a sermos com Ele, nele, por Ele e para Ele. Eu sou Igreja, eu sou cristã. E isso envolve reconhecer-se quem se é perante Deus e os irmãos, de ver a miséria do outro como espelho da própria, de entender que o sofrimento não é limitado a um pecado pessoal, mas que cresce com a estrutura de pecado em que todos vivemos e alimentamos. Pecar não afeta somente a pessoa que comete o ato, mas toda a família humana. A responsabilidade é muito maior.
E o lugar de superar o pecado é no deserto, onde encontramos com Deus. Lá não há distrações nem descanso. Deserto é aridez, secura, busca do essencial da vida, espaço de caminhada de longas distâncias atrás de um oásis. Ou, como faziam os eremitas, de combate com os próprios demônios para alcançar o equilíbrio. Os momentos difíceis são ocasiões especiais de sermos em Deus. Doenças, desemprego, contrariedades, mal-estar, dívidas, vexame, humilhações… Reconhecemos nossa pequenez e temos a oportunidade de nos refazermos, crescermos, em um novo modo de ser. Deus está conosco, sustentando e orientando.
É no deserto da tentação de Jesus, no de Moisés, das montanhas, das dificuldades na vida, que podemos nos abrir totalmente para Deus, sem público ou espetáculo, somente nós e Ele. Ser com Deus. Ter e poder não têm força no deserto. É na solidão original, no silêncio, quando chegamos ao próprio limite e mesmo assim seguimos confiando, que Deus nos apresenta nossas maiores missões. Ele nos envia para sermos sua voz no meio dos demais, para iniciar nossos irmãos na busca da solidão e do silêncio, no deserto, na esperança e na confiança, para conversar com Deus.
No nada, vemos como somos tão pouco. Humilhados no calor, na solidão, na fome, na sede, percebemos o quanto somos sustentados no dia a dia. Deus provê todas as nossas necessidades, o “pão nosso de cada dia”. São Paulo nos lembra que não cabem murmúrios, reclamações, de quem acha que Deus lhe deve algo ou que é mais do que realmente é: “quem julga estar de pé, tome cuidado para não cair”. Nesta existência tão humana e tão limitada, aprendemos que não sou, mas que somos. A miséria do outro é a nossa miséria. As histórias de nossos catecúmenos encontram eco na nossa vida. Reconhecemo-nos nelas. Ao estender a mão para levantar o irmão, na verdade nós que nos levantamos com ele. Ao preparar um tema da catequese, nós que aprendemos. Ao formar, nos formamos. Ao darmos as mãos para estar juntos, nossa sorte se encontra e é partilhada. A solidão de uma torre de marfim, onde ficamos isolados e vemos os demais como inferiores não é a imagem do céu. Até a de Siloé caiu. A nossa, é uma questão de momento.
Sim, Deus nos sustenta, leva ao deserto, revela-se, indica uma missão para serviço aos demais, imprime sua autoridade para que possamos participar de sua glória. Não há “meu canto”, mas o canto de “toda a Igreja reunida”, militante, padecente e glorificada, em que todos cantamos juntos o quanto “o Senhor é bondoso e compassivo”.

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